Desafios do clima (O Globo)

JC e-mail 4869, de 05 de dezembro de 2013

Artigo de Carlos Rittl* publicado no Globo. Em nosso caso, precisamos deixar de lado discurso de que já fizemos muito e mais que os outros

A 19ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, realizada em Varsóvia, acabou com resultados fracos. Em vez de respostas à emergência climática, países como Japão e Austrália reduziram seus compromissos de corte de emissões de gases de efeito estufa. Venceu o lobby dos que não querem ação, como o setor dos combustíveis fósseis. Perdemos, todos, o recurso mais precioso que temos para resolver o problema, o tempo.

Talvez a única boa nova da COP19 tenha sido a mobilização para a COP20, em Lima, em 2014. O governo do Peru prometeu restabelecer a confiança no processo. A sociedade civil global se mobiliza para cobrar todos os governos em 2014. A COP20 será fundamental: é preciso definir quem vai “pagar a conta” das mudanças climáticas, como pagará (cortes de emissões, financiamento, tecnologia etc.) e quando pagará. E também garantir apoio a países em desenvolvimento, em especial os mais pobres e mais vulneráveis, aos efeitos das mudanças climáticas, de que forma será este apoio e a que tempo.

Em 2014, todos os países precisam apresentar sua proposta de compromisso de redução de emissões para o pós-2020. Em nosso caso, precisamos deixar de lado o discurso de que já fizemos muito e mais do que os outros, que nossa matriz energética é limpa, que reduzimos o desmatamento. Nenhum dos nossos maiores planos de desenvolvimento ou nossa política fiscal e tributária é vinculado a uma lógica econômica baseada em reduções progressivas de emissões de gases de efeito estufa.

O Plano de Expansão da Geração de Energia 2022 prevê mais de R$ 800 bilhões de investimentos em combustíveis fósseis – 72% do investimento total em energia do país. Apenas de 1% a 2% dos recursos do Plano Agrícola e Pecuário anual são investidos em agricultura de baixo carbono. Uso da terra, energia e agropecuária são responsáveis por mais de 90% das nossas emissões, como aponta o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima. Com o salto da taxa do desmatamento na Amazônia em 2013, de 28% em relação a 2012 – terceiro maior aumento relativo da taxa já registrado – teremos muito provavelmente todos os setores de nossa economia contribuindo para o aumento das emissões em 2013.

O documento de atualização do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, objeto recente de consulta pública, relaciona ações em execução, mas não é nada estratégico, com metas, prazos, orçamento, sistema de monitoramento e avaliação bem definidos.

Para colocar nossa economia no caminho inevitável e estratégico de baixas emissões de carbono no longo prazo, o país tem cumprir o que rege a Política Nacional sobre Mudança do Clima, promover a compatibilização dos princípios, objetivos e diretrizes de todas as políticas e programas governamentais com os desta Política. Ao fim de 2013, estamos longe disso.

*Carlos Rittl é secretário executivo do Observatório do Clima.

(O Globo)
http://oglobo.globo.com/opiniao/desafios-do-clima-10971024#ixzz2mc121Ii6

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JC e-mail 4869, de 05 de dezembro de 2013

Painel afirma que mudanças climáticas trazem risco a curto e longo prazo

Relatório do Conselho Nacional de Pesquisa americano cita possível colapso do gelo no mar polar, uma potencial extinção em massa da vida vegetal e animal, e a ameaça de zonas mortas no oceano

O aquecimento global contínuo representa um risco de mudanças rápidas e drásticas em alguns sistemas humanos e naturais, advertiu nesta terça-feira um painel científico, que cita ainda o possível colapso do gelo no mar polar, uma potencial extinção em massa da vida vegetal e animal, e a ameaça de zonas mortas no oceano.

Ao mesmo tempo, alguns dos piores temores em relação a mudanças climáticas já incorporados ao imaginário popular podem ser descartadas como improváveis, pelo menos durante o próximo século, o painel concluiu. Estes incluem um repentino aumento de liberação de metano dos oceanos ou do Ártico capaz de fritar o planeta, bem como o desligamento da circulação de calor no Oceano Atlântico, que iria resfriar áreas de terras próximas – temor que inspirou o apocalíptico filme “O dia depois de amanhã”, de 2004.

O painel foi nomeado pelo Conselho Nacional de Pesquisa (National Research Council, em inglês), um grupo sem fins lucrativos de Washington que supervisiona estudos sobre as principais questões científicas. Em um relatório divulgado terça-feira, o painel pediu a criação de um sistema que alerte com antecedência a sociedade sobre mudanças capazes de produzir caos. Surpresas climáticas desagradáveis ? já ocorreram, e novas surpresas parecem inevitáveis, talvez dentro de algumas décadas, avisaram os membros do painel. Mas, segundo eles, pouco tem sido feito para se preparar para elas.

– A realidade é que o clima está mudando – disse James WC White, paleoclimatologista da Universidade de Colorado Boulder, que chefiou a comissão sobre os impactos das mudanças climáticas bruscas. – E ele vai continuar mudando, e fazer parte do cotidiano dos séculos vindouros. Talvez até mais do que isso.

A maioria dos cientistas do clima acredita que a liberação de gases do efeito estufa causada pelo homem tem tornado as enormes mudanças na terra inevitáveis, mas também espera que muitas delas evoluam num ritmo lento o suficiente para que a sociedade possa se adaptar.

O documento do painel divulgado terça-feira é o último de uma série de relatórios a considerar a possibilidade de algumas mudanças ocorrem de forma súbita, provocando estresse social ou ambiental, e até mesmo colapso. Como os relatórios anteriores, o novo considera muitas possibilidades potenciais e descarta a maioria delas como improvável – pelo menos a curto prazo. Mas alguns dos riscos são reais, aponta o painel, e em vários casos já aconteceu.

Ele citou o surto de besouros no oeste americano e no Canadá. Sem as noites muito frias no inverno que antes os matavam, os besouros destruíram dezenas de milhões de hectares de florestas. O dano foi tão grave que pode ser visto do espaço.

Da mesma forma, um declínio drástico do gelo marinho de verão ocorreu muito mais rápido no Ártico do que os cientistas esperavam. O painel advertiu que o gelo do mar Ártico pode desaparecer no verão dentro de várias décadas, com impactos severos sobre a vida selvagem e as comunidades humanas na região, além de efeitos desconhecidos para os padrões climáticos do mundo.

Entre os maiores riscos para os próximos anos, o painel prevê um aumento da taxa de extinção de plantas e animais, com as mudanças climáticas provocando a sexta extinção em massa na história da Terra. Muitos dos recifes de coral no mundo, fontes vitais de peixes que servem de alimento para milhões de pessoas, já parecem fadados a desaparecer dentro de algumas décadas.

Outro risco, visto como moderadamente provável no próximo século, é o aumento de calor na parte superior do oceano provocar a redução de oxigênio nas profundezas. No pior dos casos, haveria criação de grandes zonas com muito pouco oxigênio para a sobrevivência das criaturas do mar, com consequências desconhecidas para a ecologia global do oceano, disse o painel.

O relatório considerou a que a possibilidade de um colapso do manto de gelo da Antártica Ocidental, considerada especialmente vulnerável ao aquecimento do oceano, iria acelerar bastante a taxa de aumento do nível do mar. A curto prazo, este risco “desconhecido, mas provavelmente baixo”.

(Justin Gillis, do New York Times/O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/revista-amanha/painel-afirma-que-mudancas-climaticas-trazem-risco-curto-longo-prazo-10965038#ixzz2mbqJmetX

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