Na avaliação de especialistas, pré-sal deve trazer benefícios econômicos e científicos para o Brasil (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4665, de 15 de Fevereiro de 2013.

Viviane Monteiro

O país não pode perder a oportunidade de utilizar os royalties do petróleo para investir em educação e em pesquisas científicas

Apesar dos riscos ambientais, a exploração do petróleo da camada pré-sal deve assegurar ao país, em longo prazo, novos patamares de desenvolvimento, tanto econômico quanto cientifico e tecnológico. Essa é a opinião que prevalece entre especialistas e pesquisadores da área de petróleo do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

Para eles, o Brasil não pode perder a oportunidade de explorar o pré-sal e nem de utilizar os royalties do petróleo extraído dessa camada profunda para investir em educação e em pesquisas científicas e tecnológicas. Um dos objetivos desses investimentos deve ser produzir energias limpas e renováveis, que devem substituir o combustível fóssil no período “pós-petróleo”, o que deve ocorrer nas próximas cinco décadas, aproximadamente.

Diante da exploração do pré-sal, o diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ, Segen Estefen, diz que o Brasil deve se tornar um dos líderes mundiais na produção de tecnologias de ponta tanto para a exploração de petróleo quanto para o desenvolvimento de energias limpas e renováveis. A exploração do pré-sal, segundo ele acredita, representa uma janela de oportunidades para o Brasil figurar entre os maiores produtores de petróleo do mundo, tornando-se um dos “pelotões” de frente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Nos últimos dois anos, o país passou da 18ª para a 13ª posição no ranking dos produtores de petróleo, conforme o relatório “Statistical Review of World Energy 2011”, da empresa britânica British Petroleum (BP). Com as descobertas das jazidas do pré-sal, as estimativas para as reservas nacionais de petróleo cresceram de 8 bilhões de barris, por volta de 2006, para algo entre 60 bilhões e 70 bilhões, atualmente. Ao colocar esses números na ponta do lápis, Segen calcula que tais cifras representariam uma receita de US$ 4 trilhões para o país, levando-se em conta o preço atual (US$ 100) do barril de petróleo. Ou seja, é um montante similar ao valor corrente do Produto Interno Bruto (PIB) nacional de R$ 4,143 trilhões, em 2011.

Em termos de reservas de petróleo, o pesquisador e professor Eustáquio Vinícius de Castro, do Laboratório de Petróleo da UFES, concorda que o pré-sal colocará o Brasil entre os cinco maiores produtores do petróleo do mundo, como Arábia Saudita, Estados Unidos e Venezuela. “A tecnologia a ser desenvolvida para atender à exploração do pré-sal deve ser estendida, também, para outras áreas, sobretudo as indústrias metal-mecânica e a de química ambiental”, diz.

Como exemplo, Castro cita equipamentos de perfuração de áreas ultraprofundas capazes de suportar fortes pressões, que podem ser utilizados pela construção civil; e agentes químicos (aditivos) que devem estar presente nos aparelhos para remoção de impurezas e purificação do óleo do pré-sal. “Esses aditivos, inclusive, podem ser utilizados na purificação de água residual, gerada por empresas fabricantes de tinta, na despoluição de rios ou de esgotos urbanos”, acrescenta.

Modelo norueguês – Também defensor da exploração do pré-sal, o professor Ricardo Cabral de Azevedo, do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Poli/USP, aconselha o Brasil a adotar o modelo da Noruega na extração do petróleo da camada pré-sal e evitar a chamada “doença holandesa”. “Outros países que tiveram grandes reservas a explorar e produzir são exemplos do que devemos ou não fazer no Brasil”, explica. “A Holanda, por exemplo, sofreu o que ficou sendo conhecido como ‘doença holandesa’, porque sua economia se tornou excessivamente dependente do petróleo. Já a Noruega se transformou radicalmente e hoje é um dos países com maior IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] do mundo”, lembra.

Até então, a Noruega era um dos países mais pobres da Europa, cujas finanças dependiam principalmente de exportações de commodities, como minérios e peixes enlatados. A virada da economia norueguesa ocorreu a partir de 1969, quando foram descobertas grandes reservas de petróleo no Mar do Norte e a receita foi dirigida principalmente para saúde e educação. Hoje, esse país europeu detém a terceira maior renda per capita do mundo (US$ 59,3 mil) e o IDH mais alto do planeta.

Royalties para educação e CT&I – Assim, para fazer frente aos desafios que se apresentam na extração do petróleo na camada pré-sal no Brasil, os especialistas reforçam a necessidade de destinar parte significativa da receita dessa atividade para educação, ciência, tecnologia e inovação, seguindo o modelo norueguês. Aliás, essa é uma bandeira levantada pela comunidade científica, representada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Os especialistas são unânimes em afirmar que o país precisa aproveitar as riquezas do pré-sal a fim de conquistar novos patamares de desenvolvimento, dar um salto na qualidade na educação e melhorar o capital humano – lembrando que um dia as reservas do petróleo acabarão. “Lembramos que são reservas muito grandes, mas finitas”, alerta Azevedo. “Cabe a nós transformá-las em um legado permanente, investindo na educação e no desenvolvimento do nosso país”, defende.

Já o diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ, Estefen, acrescenta que o país precisa preparar o terreno, na área de pesquisas científicas e tecnológicas, para o período pós-petróleo. Nesse caso, ele considera fundamental assegurar investimentos para ampliar consideravelmente as pesquisas e estudos científicos para o desenvolvimento de tecnologias para produção de energias limpas e renováveis, lembrando que há um esforço de vários países em prol da redução de emissões em médio prazo. Vale destacar que o petróleo é um combustível fóssil que contribui significativamente para o aumento do efeito estufa.

Para o pesquisador da UFES, Castro, que considera positiva a proposta de criação do fundo do pré-sal (fundo soberano) – para o qual deve ser destinada metade da receita do óleo a ser extraído de águas ultraprofundas para educação – a exploração do pré-sal precisa ser inteligente, com responsabilidade ambiental e investimento em educação. “O petróleo traz muita riqueza, mas pode trazer, também, muita pobreza e muito dano ambiental”, lembra. “Por isso, a exploração tem de ser de forma inteligente, com responsabilidade ambiental e investimento em educação.” Hoje as riquezas do petróleo são distribuídas a estados, municípios e União por intermédio de royalties. Pela lei em vigor, os recursos devem ser investidos na parte social do país, “mas as prefeituras fazem mau uso dos recursos”, avalia.

Explorar o pré-sal requer esforços científicos e tecnológicos, considerando que os reservatórios estão a quase sete mil metros de profundidade a partir do nível do mar, com destaque para as Bacias de Santos (SP) e de Campos (RJ). Para fazer frente a esses desafios, Estefen diz que o país precisa mobilizar a comunidade científica nacional, seu conhecimento disponível, criar novos laboratórios, formar capital humano e gerar empregos de qualidade. “Extrair o petróleo do pré-sal vai demandar grande esforço tecnológico, esforços que vão ajudar o Brasil a conquistar novos patamares de desenvolvimento, futuramente”, diz. “Isto é, se usarmos bem os recursos do pré-sal, vamos educar as crianças, desenvolver a indústria, a ciência e a tecnologia. Se seguir tal receituário, o Brasil deverá se destacar no cenário internacional como um dos líderes tecnológicos, dentre os quais figuram Estados Unidos, Japão e países europeus”, conclui.

Pesquisadores analisam os custos ambientais da exploração profunda
Ao colocar na balança os benefícios que as riquezas do pré-sal podem proporcionar ao país e os eventuais custos ambientais, pesquisadores avaliam que o Brasil não pode renunciar à exploração do petróleo em águas profundas, unilateralmente, mesmo reconhecendo que a queima do petróleo contribui para o aquecimento global. Isso não significa que o processo de exploração do pré-sal desconsidere os danos ambientais.

O diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ, Segen Estefen, insiste em dizer que todas as pesquisas em andamento vislumbram a proteção do meio ambiente, em uma tentativa de dar mais segurança às operações. “Não faz sentido o Brasil se beneficiar do petróleo por três ou quatro décadas, mas deixar o país em uma situação ruim para o meio ambiente”, explica.

Hoje os pesquisadores da Coppe, por exemplo, trabalham, simultaneamente, com assuntos ligados tanto à produção de petróleo, nos dias atuais, quanto a outras tecnologias que podem ser usadas na era “pós-petróleo”. Estudam, entre outros aspectos, a produção de eletricidade pelas ondas do mar – uma energia limpa e renovável – aproveitando a mesma estrutura montada e financiada pela indústria do petróleo para desenvolver conhecimento para o período pós-petróleo.

Para o especialista da Coppe/UFRJ, o Brasil não pode renunciar ao óleo do pré-sal porque essa “é uma riqueza importante para o Brasil” por ser uma fonte de energia competitiva. Dessa forma, ele acrescenta, a extração do pré-sal deverá render frutos positivos ao país. “No Brasil, ainda com tanta desigualdade, não podemos abdicar dessas riquezas”, diz. “Se não forem exploradas, talvez, daqui a 50 anos o preço do petróleo não valha metade dos valores atuais.” Por enquanto, Estefen acrescenta, não existe nenhum combustível capaz de substituir o petróleo e nem previsões para os próximos 20 anos, aproximadamente. Além disso, a demanda por essa energia tende a aumentar muito em função do aumento da população e da demanda de países, principalmente nos países asiáticos.

Demonstrando a mesma opinião, o professor Ricardo Cabral de Azevedo, do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), considera ideal o país investir no conhecimento para substituir o uso do combustível fóssil, paulatinamente, em uma tentativa de minimizar os impactos ambientais. “O fato é que sempre haverá riscos, nessa ou em qualquer outra atividade, mas o ser humano ainda precisa do petróleo”, lembra. “Desse modo, o fundamental é procurarmos reduzi-los ao máximo. Aí também as experiências do passado são fundamentais, para aprendermos com os erros já cometidos.”

O eventual retorno socioeconômico proporcionado pela exploração de petróleo na camada pré-sal compensam os riscos ambientais, na observação do pesquisador e professor Eustáquio Vinícius de Castro, do Laboratório de Petróleo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). “Compensam desde que as coisas aconteçam de forma inteligente e sustentável e com racionalidade no processo de produção”, diz. ” Hoje, as empresas petrolíferas, que no passado foram mais poluentes, adotam mais segurança no processo de extração do petróleo, mesmo que alguns problemas aconteçam de vez em quando”.

Dimensão – O petróleo na camada pré-sal ocupa, aproximadamente, uma área de 800 km de comprimento por 200 km de largura, acompanhando a linha do litoral sudeste brasileiro. Segundo dados da Petrobras, desde 2006, foram perfurados mais de 80 poços, tanto na Bacia de Santos quanto na de Campos, com índice “de sucesso exploratório” acima de 80%. A estimativa é de que outras 19 novas plataformas entrem em operação até 2016; e outras 19 entrem em atividade até 2020. Segundo dados de suas assessoria de imprensa, a companhia petrolífera, líder na exploração do pré-sal, encomendou ainda 21 plataformas de produção e 28 sondas de exploração marítima a serem construídas até 2020 no País, além de 49 navios-tanque e centenas de barcos de apoio e serviços offshore.

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