Notas sobre a violência – De antropólogos e outras tribos ferozes (Folha de S.Paulo)

DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2013

MARCELO LEITE

RESUMO Antropólogo Napoleon Chagnon retoma em novo livro teoria sobre agressividade ianomâmi e ataca adversários da sociobiologia. Jared Diamond escreve obra de bases semelhantes, mas mais generosa com ‘primitivos’, aproximando-se de adversários de Chagnon, como Manuela Carneiro da Cunha, que lança coletânea.

É preciso ter estômago forte para digerir a narrativa de um antropólogo que escolhe iniciar o relato de seu primeiro dia de campo entre os ianomâmis -meio século depois- com a frase: “Nunca antes tinha visto tanto ranho verde”. Não é a antropologia, porém, a disciplina que ensina a combinar o máximo de disciplina com o mínimo de conforto em benefício do entendimento do homem?

Leia-se então com dose generosa de bonomia antropológica a obra mais recente do americano Napoleon Chagnon, “Noble Savages – My Life among two Dangerous Tribes – The Yanomamö and the Anthropologists” [Simon & Schuster, 531 págs., R$ 87,50]. Em desagravo, que seja, porque Chagnon pagou um preço alto demais por sua crença nas explicações ultradarwinistas do comportamento, cuja matriz -a natureza humana- acredita ter desvendado nas selvas do Orinoco.

O estudioso americano dedicou pelo menos duas décadas de sua vida a longas permanências em terras ianomâmis, quase sempre na Venezuela (com desastradas incursões também do lado brasileiro). As três seguintes ele ocupou em defesa da carreira e da reputação quase arruinadas por dois outros livros: “O Povo Feroz” (1968), trabalho acadêmico de sua própria lavra, e “Trevas no Eldorado”, um panfleto do jornalista Patrick Tierney (2000).

Os que desconhecem a crônica dessa guerra entre os clãs cultural e biológico da antropologia encontrarão um resumo devastador das acusações mútuas no documentário “Os Segredos da Tribo”, de José Padilha. Não se recomenda o consumo de pipoca na sessão de barbaridades que a fita apresenta.

O povo feroz do título de Chagnon são os ianomâmis. Sua caracterização pelo antropólogo como uma etnia violenta, de homens “maliciosos, agressivos e intimidadores”, que acumulam homicídios para obter mais mulheres e maior sucesso reprodutivo, despertou a ira dos antropólogos culturalistas.

Primeiro, Chagnon foi acusado de distorcer a imagem do grupo e, assim, facilitar sua dizimação por brancos dos dois lados da fronteira. Depois, foi denunciado por Tierney como genocida, pois teria -intencional ou negligentemente, sob a tutela do médico americano James V. Neel- contribuído para uma epidemia de sarampo que matou centenas de índios.

BOM SELVAGEM “Noble Savages” (“bons selvagens”) é um acerto de contas com as duas tribos que infernizaram sua vida. A partir da descrição para o público não especializado de seu convívio de cinco anos com os ianomâmis, Chagnon retoma sua conclusão de que o “bom selvagem” concebido por Rousseau é um mito politicamente correto e que só há uma resposta biológica (evolucionista) -e simploriamente hobbesiana- para a questão de por que seres humanos são sociais: a luta de todos contra todos para aumentar a própria prole (ou pôr mais cópias dos próprios genes no mundo, na vulgata sociobiológica).

Não faltam páginas desairosas para os ianomâmis no livro. “Olhei para cima e arfei, em choque, quando vi uma dúzia de homens corpulentos, nus, suados e pavorosos nos encarando por trás dos caniços de suas setas apontadas!” -conta sobre a primeira visita a uma casa coletiva dos índios.

“Imensos rolos de tabaco verde estavam enfiados entre os dentes e os lábios inferiores, tornando sua aparência ainda mais pavorosa. Veios de ranho verde escuro pingavam ou pendiam de suas narinas -tão longos que se desprendiam de seus queixos, caíam sobre os músculos peitorais e escorriam preguiçosamente sobre seus ventres, mesclando-se com a pintura vermelha e o suor.”

Chagnon também não economiza relatos sobre tentativas mal sucedidas de engodo dos ianomâmis contra ele. Sempre eficazes, por outro lado, eram seus próprios ardis para levá-los a ceder amostras de sangue (para Neel) e a revelar nomes de ancestrais mortos -um tabu- para rechear suas genealogias e estatísticas. As mesmas informações, pagas com machados, facas e panelas de metal, que lhe permitiriam afirmar, depois, serem os homens com mais homicídios nas costas também os de prole mais numerosa.

Muito antes das acusações de Tierney, as conclusões sociobiológicas e os métodos traficantes de Chagnon já vinham sendo questionados por seus pares na comunidade antropológica. Até a correlação estatística entre ferocidade e fertilidade masculina, formulada num famigerado artigo de 1988 para a revista acadêmica “Science”, teve seus dados postos em dúvida (o autor foi acusado de excluir da amostra aqueles pais que já haviam sido mortos por vingança, portanto sem meios de multiplicar descendência).

Os antropólogos culturais, refratários à moldura biológica em que Chagnon queria enquadrar o painel exuberante das culturas, já estavam no seu encalço. Nada se compara, porém, com a virulência do ataque de Tierney. Assim que um capítulo do livro foi publicado na revista “New Yorker”, em outubro de 2000, a Associação Antropológica Americana entrou na briga -do lado dos culturalistas. Foi montado um comitê de investigação, que acabou por inocentar o médico Neel e descartar a epidemia intencional, mas recriminou Chagnon por desvios éticos.

O caso teve enorme repercussão na imprensa mundial, brasileira inclusive. Contudo, quando a obra do “jornalista investigativo” Tierney e os próprios investigadores da AAA passaram a ser investigados, a começar pela historiadora da ciência Susan Lindee, o vento virou.

Forçada por um referendo entre seus membros, a associação renegaria o relatório. As acusações de Tierney não paravam de pé, como reconstitui com farta documentação um ensaio demolidor da também historiadora Alice Dreger publicado em 2011 no periódico acadêmico “Human Nature”, sob o título “Darkness’s descent on the American Anthropological Association. A cautionary tale” (trevas sobre a Associação Antropológica Americana – uma fábula moral; leia em bit.ly/adreger).

Dreger puxa vários fios da teia de perseguição a Chagnon. Levanta a suspeita, intrigante, de que a cruzada de Tierney pode ter ocorrido sob o patrocínio da Igreja Católica, mais especificamente da ordem de padres salesianos, que já mantinha missões junto aos ianomâmis da Venezuela quando o antropólogo por lá baixou.

Após alguns meses de convívio e cooperação, cientista e religiosos se estranharam. Na versão fantástica narrada em “Noble Savages”, isso ocorreu depois de um hierarca pedir a Chagnon ajuda para matar um padre amasiado com índia. Na passagem do livro que mais se avizinha do estilo de Tierney, o antropólogo também acusa os salesianos de distribuir espingardas cartucheiras entre os índios para conquistar seu favor.

A inconsistência mais relevante da obra, porém, não decorre do ânimo retaliatório, e sim da pretensão de ter localizado entre os ianomâmis as nascentes da agressividade que supõe inerente à natureza humana. A antropóloga Elizabeth Povinelli assinalou, numa resenha escaldante de “Noble Savages” para o “New York Times”, que a tese se assenta sobre a premissa falaciosa de que os ianomâmis sejam relíquias de uma infância neolítica da humanidade.

FÓSSEIS Desde esse ponto de vista, compreende-se melhor o esforço retórico de Chagnon em degradar os ianomâmis, acentuando nas suas descrições uma animalidade que serve para relocar sua cultura na vizinhança da biologia. Ora, não há básica empírica nenhuma para afirmar que sociedades “primitivas” como a dos ianomâmis se mantiveram à margem da história, fósseis de um passado inaugural da espécie humana.

Como lembra Manuela Carneiro da Cunha -que presidia a Associação Brasileira de Antropologia quando esta cerrou fileiras contra Chagnon- na coletânea de ensaios “Índios no Brasil – História, Direitos e Cidadania” [Claro Enigma, 160 págs., R$ 29,50], essa é uma visão originária do século 19, que atribui “à natureza e à fatalidade de suas leis o que é produto de política e práticas humanas, […] consoladoras para todos à exceção de suas vítimas”.

Os ianomâmis, por exemplo, só permaneceram mais ou menos isolados (na realidade, longas redes de contatos já lhes garantiam acesso a artefatos de metal) porque suas terras montanhosas não interessavam a colonizador algum.

A perspectiva adotada por Chagnon -um engenheiro convertido para a antropologia- faz tábula rasa de tudo que há de peculiar no modo de vida ianomâmi. Por que cargas d’água esses índios cremam seus mortos, moem os ossos calcinados e ingerem as cinzas com um mingau de banana? É esse tipo de manifestação simbólica que a antropologia cultural se esforça por sistematizar e elucidar, mas que a obra de Chagnon relega à penumbra dos detalhes irrelevantes para a “natureza humana”.

Ótica semelhante anima o último best-seller de outro adepto declarado da sociobiologia (rebatizada psicologia evolucionista), Jared Diamond, mas com resultados muito diversos, se não opostos. Em “The World until Yesterday – What Can We Learn from Traditional Societies?” [Viking, 512 págs., R$ 96,90], Diamond acredita piamente ter aberto uma janela para o passado nas suas décadas de visitas à Nova Guiné para estudar pássaros.

A ilha, fervilhante com centenas de tribos e línguas em contato e conflito, constitui um continente cultural descoberto como tal por ocidentais só nas primeiras décadas do século 20. Fornece a Diamond, portanto, o equivalente dos ianomâmis para Chagnon, em matéria de isolamento e primitivismo.

As diferenças entre esses dois generalizadores prodigiosos, contudo, salta já do título de Diamond. Ao contrário de Chagnon, ele está aberto -mais que isso, interessado- a aprender algo com os nativos, e não só sobre eles. São muitas as lições úteis que o observador de pássaros e homens extrai para o aperfeiçoamento marginal do indubitavelmente superior modo de vida ocidental: ingerir menos sal, aleitar bebês à vontade até os três anos, dar educação bilíngue às crianças, fazer refeições lentamente com amigos…

Até das ameaças constantes da natureza e do estado de guerra crônica entre os primitivos Diamond retira um ensinamento, centro de gravidade do livro, que chama de “paranoia construtiva”: o estado de vigilância permanente para os muitos perigos que a vida oferece aos homens. Depois de embasbacar multidões com as generalizações audazes de “Armas, Germes e Aço” (livro pelo qual ganhou o Pulitzer em 1998), Diamond corteja com leveza o gênero da autoajuda e compila um volume de leitura bem mais amena que

“Noble Savages”. Os ilhéus são feios e sujos como os ianomâmis, mas simpáticos e sábios.

Já a paranoia de Chagnon, se cabe falar assim, é corrosiva. Nos termos da controvérsia que animou o Brasil escravizador de índios nos séculos 18 e 19, relatada por Manuela Carneiro da Cunha, eles podem ser encarados como cães, canibais e ferozes, ou como homens, diferentes e por isso exemplares de capacidade adaptativa e perfectibilidade. É uma questão de escolha, ou de ponto de vista.

Como diz a antropóloga, repetindo o que ouviu em conferência de Claude Lévi-Strauss, a sociodiversidade pode ser tão preciosa quanto a biodiversidade: “Creio, com efeito, que ela constitui essa reserva de achados na qual as futuras gerações poderão encontrar exemplos -e quem sabe novos pontos de partida- de processos e sínteses sociais já postos à prova”.

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Em 2012, Napoleon Chagnon foi eleito para a prestigiada Academia Nacional de Ciências (NAS) dos Estados Unidos. Ato contínuo, em protesto, o antropólogo Marshall Sahlins -que em 2000 se engajara na campanha contra ele- renunciou à sua cadeira na NAS.

Manifesto de 17 antropólogos que trabalham com ianomâmis deblaterou mais uma vez contra a noção de “povo feroz” reiterada no novo livro, que poderia ser usada por governos para prejudicar a etnia. Uma nota do líder ianomâmi David Kopenawa sobre a obra aponta as guerras dos brancos como muito mais ferozes que as de seu povo -uma observação antropologicamente perspicaz, ao menos no que respeita às tribos dos culturalistas e dos sociobiólogos.

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