Suicidas pensam o impensável (FSP)

26/07/2012 – 03h00

Clóvis Rossi

Até na Espanha, campeã

Que a Espanha está se suicidando lentamente não há muitas dúvidas. Desde 2010 pelo menos, os governos adotam pacotes de austeridade, compostos pela receita óbvia: aumento de impostos mais corte de gastos.

O objetivo é saciar o apetite dos mercados, que querem ter certeza de que a Espanha vai pagar a sua dívida, para o que necessita reduzi-la e reduzir igualmente o déficit público, sem o que é obrigada a tomar empréstimos para continuar operando.

Funcionou? Nada. Não funcionou do ponto de vista social (o desemprego, por exemplo, está beirando os 25%, taxa que só alcançam países devastados por guerras ou fenômenos naturais).
Por mim, é o ponto principal, mas admito que sou muito solitário ao pensar desse jeito.

Mas tampouco funcionou no seu propósito de sossegar os mercados: a Espanha está pagando mais de 7% para colocar seus títulos, nível considerado crítico e que, ao ser atingido em Portugal e na Grécia, levou ao naufrágio desses dois países.

Aí, as autoridades descobrem o óbvio, como o fizeram anteontem não só o ministro espanhol de Finanças, Luis de Guindos, como o alemão, Wolfgang Schäuble. Constataram que “as taxas [impostas à Espanha pelos mercados] não representam nem seus fundamentos econômicos nem seu potencial de crescimento nem sua capacidade de pagar suas dívidas públicas”.

O “Financial Times” em seu noticiário sobre a crise reforça essa sensação, ao culpar pelo pânico “falhas dos mercados de títulos, não a economia espanhola ou a política econômica”.

É bom lembar que nem De Guindos nem Schäuble nem o FT são anti-mercado.

Falta, no entanto, que alguém ponha de pé algo que possa superar as “falhas” dos mercados para fazer cessar o pânico.

Enquanto isso não acontece, pensa-se o impensável, como é próprio de situações próximas do suicídio. Pela primeira vez que eu tenha lido, um espanhol ousou mencionar a hipótese de a Espanha deixar o euro e voltar à peseta.

Foi Antonio Estella, catedrático de Direito Administrativo da Universidade Carlos 3.o de Madri, em artigo para “El País”.

Digo impensável porque a integração com a Europa tem sido, há mais de meio século, o pote de ouro da Espanha, responsável em grande medida pela volta da democracia e, com ela, por um surto formidável de desenvolvimento, que mudou radicalmente a face daquele país atrasado, exportador de mão-de-obra, fechado, cinzento.

Talvez o impensável esteja sendo pensado porque a política de suicídio lento trouxe de volta a exportação em massa de espanhóis: só no primeiro semestre, 40.025 pessoas deixaram um país que até a crise importava estrangeiros em massa. Há um ano, havia 5,144 milhões de estrangeiros em uma Espanha de 46,24 milhões de habitantes.

O pior é que o impensável não é uma boa alternativa, como explica Martin Feldstein, professor de Harvard e crítico de toda a vida do euro: “Embora a criação da eurozona tenha sido um erro econômico, permitir que se dissolva agora seria muito custoso para governos, investidores e cidadãos”, escreveu para o FT.

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