>UnB forma primeira aluna indígena

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UNB Agência de Notícias, 24/03/2010

Maria Amazonir, da etnia Fulni-ô, é a primeira aluna indígena a graduar-se na UnB. Ela recebeu o diploma de bacharel em Comunicação Social na última quarta feira, dia 17 de março. Amazonir está entre os 60 estudantes indígenas que entraram na UnB desde que o convênio com a Funai foi firmado, em 2004. Como jornalista, Amazonir pretende mudar a forma como os indígenas são tratados pela mídia.

Maria Amazonir entrou na UnB no primeiro semestre de 2004, por meio de transferência facultativa. Segundo ela, já trabalhava com Comunicação em sua aldeia, de forma amadora, organizando eventos e palestras para as crianças sobre conscientização dos seus direitos, mas não pensava em ser jornalista. “Era o que eu gostava de fazer e queria me profissionalizar nesta área. Mas a palavra ’jornalista’ parecia grande demais para a minha realidade. Quando mencionava, era ridicularizada pelos outros”, conta Amazonir.

Mas Amazonir não desistiu do que queria. Conseguiu ajuda de uma colega, que pagou cursinho para ela. Passou em uma faculdade particular, conseguiu fazer a matrícula com dinheiro emprestado, mas logo saiu o convênio da Funai com a UnB e a estudante conseguiu a transferência facultativa.

A estudante escolheu Jornalismo porque percebeu que havia pouco espaço para os povos indígenas na mídia e acreditava que isso se devia à falta de profissionais na área. Agora que se formou, quer dar continuidade ao trabalho que começou com seu projeto de conclusão de curso, um programa para debater questões indígenas sob o ponto de vista do índio. “Não é justa a forma de como os meios de comunicação e principalmente a televisão tratam a imagem do índio. Não somos mais dependentes, somos capazes de desenvolver qualquer função social e/ou cultural que o não-índio desenvolve”, defende.

O coordenador acadêmico dos Alunos Indígenas, Paulo Câmara, comemora a formatura de Amazonir. “É chato quando ouvimos que os índios não devem estar aqui, que universidade é só para a elite intelectual. Por isso é muito bom ver a Amazonir se formar com bom rendimento”, enfatiza.

A decana de Ensino de Graduação, Márcia Abrahão, que estava na colação de grau da aluna, acredita que a formatura de Amazonir representa a vitória da diversidade. Segundo ela, a ambientação dos alunos indígenas e o choque de cultura são desafios que ainda precisam ser contornados. “Mesmo assim, sentimos que estamos contribuindo para o desenvolvimento do país e, por outro lado, estamos ganhando, aprendendo com a cultura desses estudantes”, explica.

A UnB tem hoje 60 alunos indígenas, que entram por meio de convênio firmado entre a Funai e a UnB. A universidade disponibiliza as vagas, e a Funai oferece bolsas de permanência, que variam entre R$ 150 e R$ 900. Em 2004, quando a parceria começou, os estudantes ingressavam por transferência facultativa. Desde 2005, a seleção é feita anualmente por vestibular específico, que ano passado teve 162 inscritos para preencher dez vagas nos cursos de Agronomia, Enfermagem e Obstetrícia, Engenharia Florestal, Medicina e Nutrição.

Dificuldade de entrosamento

Camila de Magalhães
Correio Braziliense, 24/06/2009

“Caí de paraquedas na universidade”, relata Amazonir. “Quando fui jogada aqui, era que nem cego em tiroteio, acho injusto fazerem isso”, reclama. A indígena diz que sofreu muito para acompanhar os textos dados em aula. E afirma que tinha vergonha de perguntar o que era resenha ou fichamento, para não parecer ignorante.

O que mais valeu a pena, na avaliação da jornalista, foi a base acadêmica adquirida no período. No entanto, a adaptação com os colegas foi o mais difícil. “A gente tem um sentimento de inferioridade, me sinto diferente”, comenta.

Quando andava sozinha, as pessoas não percebiam sua origem pela aparência, mas ao passear pelas ruas com o ex-marido e as filhas, ela diz que as pessoas tinham um olhar desconfiado, por conta dos fortes traços indígenas. Junto com a necessidade de dedicação ao curso, o preconceito foi um dos motivos para que o companheiro quisesse deixar Brasília e voltar para a aldeia.

Para Amazonir, seu sotaque também foi um empecilho na universidade. “Fazia de tudo para não falar porque eu abria a boca e as pessoas perguntavam de onde eu era”, observa. Durante os cinco anos de experiência acadêmica, a indigena conta que não fez amizades porque a diferença de idade atrapalhava (os alunos eram mais novos) e ela não se enquadrava no tipo de grupo que faz trabalho e vai para o barzinho. “Prefiro ficar de for a, é uma auto-defesa”.

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