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Como ayahuasca renovou tradições de indígenas do Xingu (Folha de S.Paulo)

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Chá psicodélico levou yudjás a retomarem conversas com antepassados e a reviverem figura do pajé

Marcelo Leite

30.ago.2023


[RESUMO] Povo yudjá do Parque Indígena do Xingu encontrou a ayahuasca em 2011 por meio da religião União do Vegetal. A partir daí, voltaram a ter pajés e reciclaram rituais com uso do chá, ou wapá, remédio sagrado que permite rever ancestrais e que, segundo seu relato, a primeira humanidade havia esquecido nas montanhas ao sair em busca do rio após dilúvio.

A medicina (ayahuasca) é do nosso criador, que deixou essa planta para a gente poder ter conexão com ele. Ouvia isso de nossos avós, contou Areaki em língua yudjá. A tradução para o português era feita pelo marido, Karin, professor da aldeia Tubatuba, no Parque Indígena do Xingu (MT), onde vivem três centenas de pessoas da etnia yudjá, também conhecida como jurunas.

Ela é muito grande, prosseguiu a mulher. Faz contato com o mundo dos espíritos, leva para lugar que a gente não conhece. Enxerga tudo, até onde o mundo vai. O Xingu é o coração do mundo, estamos preservando para o mundo respirar, não só para nós. A força da floresta protege muita gente, também em outros países.

Defenda esse lado bom para o mundo continuar, para a gente continuar vivendo, recomendou Areaki aos jovens indígenas e não indígenas reunidos na oca central da aldeia. Povo indígena não vai acabar, porque nossa raiz é Deus. E a gente não tem raiva, porque estamos aqui para ensinar.

A reunião em 5 de agosto foi iniciativa do núcleo florestal do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, a UDV, em Alta Floresta (MT). Moças e moços ligados à religião ayahuasqueira encheram um micro-ônibus para chegar à maior aldeia do povo yudjá e travar contato com rapazes e garotas que, como eles, tomam o chá que udevistas chamam de hoasca ou vegetal (daime é o outro nome da ayahuasca, usado por fiéis do Santo Daime e da Barquinha).

Areaki chamou atenção não só pelo conteúdo do discurso, mas por se tratar de uma mulher. No restante do diálogo entre jovens falaram só as moças não indígenas. Do lado dos anfitriões, com exceção dela, discursavam somente os homens.

O parque tem 28 mil km2, área maior que a de Alagoas. Nele vivem mais de 8.000 indígenas de 16 etnias, algumas levadas para lá no processo de ocupação do Brasil Central: aweti, ikpeng, kaiabi, kalapalo, kamaiurá, kisêdjê, kuikuro, matipu, mehinako, nahukwá, naruvotu, wauja, tapayuna, trumai, yudjá e yawalapiti.

Os yudjás são conhecidos como exímios canoeiros, os “donos do rio”. O Xingu esteve no eixo de sua migração em direção às cabeceiras, mas parte do povo se fixou perto de Altamira (PA), cerca de 400 km ao norte. Esse contingente de “jurunas da Volta Grande” sofre hoje com a vazão fluvial diminuída pela usina de Belo Monte.

Kumadiwá, rapaz eloquente cujo corte de cabelo lembra jogadores de futebol, narrou em yudjá aos jovens não indígenas que, ao beber o “wapá” (remédio), entendeu como as formigas conversam entre si. Viu que eram verdadeiras as histórias dos anciãos sobre pajés.

Estou aprendendo sobre o mundo e o que aconteceu no passado, disse Kumadiwá. O passado se comunicando com o presente.

Faz apenas 12 anos que a ayahuasca encontrou os yudjás e, segundo seu próprio relato, lhes deu coragem para voltar a ser e ter pajés. Iniciou-se ali um tipo de renascença cultural, de reavivamento entremeado de inovação que atrai a curiosidade de outras aldeias xinguanas, que enviam representantes a Tubatuba para conhecer a bebida e descobrir por que as coisas estão dando certo por ali.

Na etnografia dos jurunas não existe registro de que tenham conhecido o chá. Não há na região do Xingu ocorrência natural dos vegetais chacrona e mariri, ingredientes da ayahuasca. A bebida, usada como sacramento nas religiões Santo Daime, Barquinha e UDV, provoca visões conhecidas como “mirações” e problemas gastrointestinais (vômito e diarreia).

As folhas do arbusto chacrona (Psychotria viridis) contêm a substância psicoativa dimetiltriptamina. A DMT, como é mais conhecida, figura entre os psicodélicos clássicos, ao lado da mescalina (do cacto peiote), psilocibina (de cogumelos) e LSD. DMT e psilocibina têm comprovado efeito antidepressivo e estão entre os carros-chefes do chamado renascimento psicodélico para a medicina.

O cipó mariri, ou jagube (Banisteriosis caapi), fornece à ayahuasca o componente crucial das betacarbolinas. São compostos, como a harmina e a harmalina, capazes de inibir a ação de uma enzima, a monoaminaoxidase (MAO), que degrada a DMT no trato digestivo. Ou seja, sem mariri a ayahuasca não teria efeito psicodélico.

A beberagem chegou aos yudjás por mãos não indígenas (mas eles contam essa história de outra maneira, como se verá mais adiante). O pioneiro foi o “avô” branco Abeatamá (sem camisa, em yudjá), apelido dos jurunas para Eduardo Biral, 71, dentista que deixou o consultório em São Paulo em 1979 para se dedicar ao Xingu.

Nos anos 1980, contratado pela Funai, Biral ainda não era membro da UDV, que viria a conhecer em 1998. Pouco depois de entrar para a religião, foi procurado pelo mestre Jair, filho do fundador mestre Gabriel, interessado em seu trabalho no Xingu.

Mestre Jair perguntou se os indígenas de lá conheciam a hoasca e, ao saber que não, disse ao dentista para levar —mas só quando recebesse a estrela, ou seja, se tornasse mestre, grau da hierarquia religiosa que autoriza o membro a dar ayahuasca para outras pessoas. A estrela só veio em 2006.

Nos anos seguintes, Biral começou a dar o chá para um e outro indígena no Xingu, inclusive na aldeia de Raoni, a Piaraçu. Ouviu do líder Kayapó que, apesar de branco, era também um pajé, pois sua bebida e seus cantos (chamadas, como se diz em rituais da UDV) ajudavam a ver espírito do alto, onde não havia escuro, mostravam onde a sucuri dorme (lugar importante de conhecer, para se evitar).

Ao lado de Piaraçu fica a aldeia Pakayá, dos yudjás. Ali morava Marrurimá Juruna, mais conhecido como Marru, que em 2000 havia tomado ayahuasca com os ashaninkas, uma das dezenas de etnias da Amazônia que usam o chá. Foi durante visita ao Acre para uma oficina de agroflorestas organizada pelo Instituto Socioambiental (ISA).

Marru bebeu e se lembrou das histórias que um tio contava sobre a medicina sagrada, “wapá”, de um antigo pajé. Sob efeito do chá, viu um espírito descer do céu, que lhe falou: “Eu sou superior, sou espírito, mas moro aqui. Você é bem-vindo e pode levar para seu povo a minha força”.

Ao voltar para o Xingu, contou tudo para o cacique dos yudjás. O líder acreditou que era, de fato, o remédio que os pajés bebiam antigamente. Marru esteve no Acre de novo, em 2001, tomou ayahuasca e viajou nas costas de uma jiboia pela floresta, que lhe mostrava cada remédio existente na mata.

De regresso ao Xingu, procurou Biral, cuja fama de pajé branco se espalhara pela região. Queria saber como obter ayahuasca para seu povo. O dentista então lhe disse que a fonte mais próxima ficava em Alta Floresta, onde havia um núcleo da UDV.

Um dos fundadores do Núcleo Florestal e seu dirigente na época era o psiquiatra curitibano Duarte Antônio de Paula Xavier Fernandes Guerra, 53, udevista desde os 26 anos que se mudara para Alta Floresta em 2003. Ele também é professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus de Sinop, que tem programa de atendimento de saúde no Xingu.

Em 2011, em campanha de prevenção contra alcoolismo na aldeia Piaraçu, Guerra foi procurado por Taradju Juruna, da vizinha aldeia Pakayá. Queria saber se o médico trazia consigo o “remédio do Biral”. Dias depois, seis yudjás foram os primeiros da etnia a beber ayahuasca no Xingu. Na segunda sessão apareceram 20; na terceira, 30.

No ano seguinte, em maio, após levar quantidade maior do chá, Guerra chegou a distribuir ayahuasca para uma centena de indígenas. O mestre se limitava a fazer chamadas do ritual da UDV, como a do Caiano e a da União, obrigatórias na abertura, dispensando as leituras estatutárias com que se iniciam as sessões usuais da religião e a fase de perguntas dirigidas ao mestre oficiante.

Afora as chamadas, as primeiras sessões transcorriam geralmente em silêncio, e após três horas os indígenas iam para suas casas. “Respeitamos a cultura deles”, diz o mestre psiquiatra.

“Sentimos confiança neles: são ordeiros, pessoas de paz, que mostram respeito pelo vegetal”, havia relatado Guerra para dirigentes da UDV numa reunião em Barra do Garças (MT). Ali recebeu a incumbência de seguir o trabalho iniciado por Biral, cumprindo a orientação de mestre Jair.

O Núcleo Florestal não se limita a fornecer a bebida para os yudjás. Udevistas incentivaram os indígenas a plantar chacrona e cipó. Hoje Tubatuba tem mariri por todo lado. Há chacrona, também, mas o arbusto não se dá muito bem no clima mais seco do Xingu, em comparação com a floresta chuvosa do noroeste amazônico.

Os jurunas ergueram uma casa cerimonial só para rituais com ayahuasca, a Kubepá. Ali o pessoal da UDV os ajudou a construir uma fornalha rústica, para que possam ferver as plantas por várias horas em panelões doados pela igreja, sem gastar muita lenha.

Ainda não têm autossuficiência com o chá, mas já realizam cerimônias sem a presença de mestres da cidade e passaram a criar suas próprias chamadas, em português e na língua da aldeia. Cantam ao som de maracás e de folhas de uma planta que consideram sagrada e chamam de “onaha”.

“Com o wapá eles se reencontraram, e o wapá com eles”, diz Guerra. O psiquiatra ressalta que a recepção da ayahuasca pelos yudjás foi diferente da dos kayapós, ikpengs ou kaiabis, que tiveram contato com a ayahuasca da UDV no Xingu sem se tornarem usuários frequentes. “Fez muito mais sentido para eles do que para outros povos.”

Um dos fenômenos concomitantes com a introdução da ayahuasca entre os yudjás foi a volta dos pajés. Um deles é Yabaiwá Juruna, 41. “Hoje a gente está fazendo práticas que não fazia antes. Parou, ficou adormecido”, diz o vice-cacique e professor que sofreu 22 anos com dor de cabeça crônica, aliviada depois do chá.

Na terceira vez que tomou ayahuasca, Yabá, como também é chamado, teve visões com antigos yudjás, que lhe deram orientações. Conheceu o lugar em que viviam, nas montanhas, e faziam oferendas no centro da aldeia, chamando espíritos. Numa das mirações, foi encorajado a tratar dores no joelho e na barriga de uma prima, o que nunca tinha feito antes.

Sob efeito do wapá, começou a soprar o corpo da mulher nos locais doloridos, conta, e lhe pareceu que havia fumaça saindo da articulação e do ventre. Por trás, o espírito lhe dizia o que fazer. Proferiu um rezo (oração) pedindo que a dor saísse. Quanto mais soprava, mais crescia a força (ou burracheira, como se diz na UDV).

“Foi um peso muito forte entrar nesse processo de formação como pajé, não tinha pajé para me conduzir”, conta Yabá. “Essa informação eu recebia na força do chá. Espírito que faz mal começa a atacar a gente, tem de lutar para não ficar doente. Estou ocupando o espaço que estava vazio —eu, Marru, Karin.”

O vice-cacique integra hoje um grupo de sete indígenas dedicado a estudar e trocar conhecimento sobre curas e pajelanças. “Graças ao wapá, está voltando tudo isso. É uma felicidade encontrar com o passado, onde tudo começou”, ensinou o pajé em sua apresentação para os jovens reunidos no centro da aldeia.

“Quando a gente fala do passado, é muito tempo, milhares de anos. Mas, quando pensa e fala, vive no presente. O passado está no presente, a gente está criando.”

No modo yudjá de narrar essa transformação, em que predomina uma concepção circular e não linear do tempo, o que aconteceu foi um reencontro com a ayahuasca, não uma introdução. Inovações contribuem para reafirmar a identidade cultural, criando práticas e rituais que recompõem aquilo que ficou para trás.

O advento do wapá, na perspectiva indígena, nasceu de busca recíproca, o vegetal procurando os indígenas e os indígenas atrás do vegetal, como registrou em 2018 a etnóloga Tânia Stolze Lima no artigo “A Planta Redescoberta: Um Relato do Encontro da Ayahuasca com o Povo Yudjá” (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 69).

Segundo o relato coletado pela pesquisadora, o criador da humanidade se comunicou com Tarinu, pai de Yabaiwá, em resposta a um apelo. Contou-lhe a respeito do mariri, um remédio que a humanidade abandonara no alto da montanha, para onde tinha sido levada pelo criador por ocasião do dilúvio que precedeu a diversificação dos povos.

Quando as águas diluvianas baixaram, e os yudjás seguiram com o criador em busca do canal do rio Xingu, prossegue o artigo, o remédio, por esquecimento, acabou largado no alto da montanha. Foi encontrado depois pelos yudjás que se deixaram ficar para trás e não realizaram o percurso até o Xingu, terminando por se transformar em outros povos indígenas.

Em sua busca dos yudjás atuais, o mariri repetiu, assim, o caminho da humanidade antiga até o Xingu.

No sábado à noite, uma centena de pessoas se reuniu na Kubepá, em torno de uma fogueira, para tomar o wapá. Mulheres e homens de várias idades, inclusive meninos de uns 12 anos, beberam o chá, após aguardar cerca de 15 minutos até que todos os copos descartáveis estivessem servidos, respeitando a liturgia da UDV em que todos ingerem o líquido ao mesmo tempo.

Ouviram-se apenas as chamadas de abertura da UDV, entoadas pelo mestre Duarte Guerra. Nenhum indígena cantou. Não se viam pinturas nem cocares e outros adereços que os yudjás envergam em suas cerimônias. Não houve farfalhar de folhas de onaha nem chiado dos maracás.

Mesmo sem as leituras estatutárias, foi um ritual da linha UDV. Por cerca de uma hora e 30 minutos predominou o silêncio, rompido só por pessoas vomitando, até que Guerra abriu o tradicional espaço udevista para perguntas da audiência.

O que se seguiu foi uma série de discursos em yudjá, acompanhados de versão para o português. Pelo menos um deles durou mais de meia hora. Vários dos que falaram se desculpavam pela festa sem brilho, explicando que não podiam exibir alegria num período de luto pela morte de um irmão do cacique Tinini.

Depois de discursar e traduzir-se a si próprio, Yabaiwá disse que abriria uma exceção e daria de presente para os visitantes uma música composta (“recebida”) por ele na força do wapá. E cantou: “A vida do bem-te-vi é só alegria, ia, ia, ia, ia / A casa do beija-flor é só harmonia, ia, ia, ia, ia…”.

Em português, foi uma pequena concessão na firmeza do renascimento yudjá: o imperativo de observar luto costumeiro sobrepujou a tentação de satisfazer expectativas dos visitantes com cocares de penas, pinturas corporais e cânticos em língua nativa.

Passado que revive no presente. Menos por influência dos parceiros da UDV, ao que parece, e mais pela força da ayahuasca que os mensageiros da cidade receberam de outros povos da Amazônia e fizeram chegar aos donos do rio Xingu.


Os jornalistas Lalo de Almeida e Marcelo Leite viajaram de Alta Floresta ao Parque Indígena do Xingu a convite do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV)

Coronavírus chega à reserva indígena do Xingu, e Kuarup é cancelado pela 1ª vez (Folha de S.Paulo)

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Lígia Mesquita, 12 de junho de 2020

Todos os anos, os povos do chamado Alto do Xingu, no Parque Nacional do Xingu, passam seis meses se preparando para a festa mais importante do ano, o Kuarup. A celebração que normalmente se estende de julho a setembro é o ritual sagrado no qual todos os mortos do último ano são homenageados. É a maneira que os índios das 11 etnias do Alto Xingu têm de celebrá-los. Com o Kuarup, as famílias que passaram os últimos 12 meses em luto, podem voltar à rotina normal.

Numa decisão histórica ocorrida no início desta semana, em conversas via rádio amador, os caciques das etnias participantes do Kuarup decidiram cancelar o ritual pela primeira vez. Aquilo que já era temido se confirmou: o coronavírus chegou ao Parque do Xingu, reserva indígena no norte do Mato Grosso, com mais de 7.000 habitantes de 16 etnias.

No último fim de semana, o cacique Vanité Kalapalo e seu Yarurú, da aldeia Sapezal, foram internados no Hospital Regional de Água Boa (MT), a 736 Km de Cuiabá, com sintomas agudos da Covid-19.

Outras pessoas da aldeia Sapezal, uma das mais próximas da cidade de Querência (MT), também fizeram testes com suspeita da doença.

O povo Kalapalo foi isolado, mas segundo especialistas e lideranças de outros povos, a previsão é que o coronavírus se espalhe pela primeira grande terra indígena demarcada pelo governo federal, em 1961, e considerada patrimônio nacional.

Em abril, reportagem do caderno especial Sebastião Salgado na Amazônia – Xingu, da Folha, já alertava para a chegada da Covid-19 àquela terra indígena.

“O cenário é de possível genocídio”, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que há 40 anos trabalha no Xingu. “Se a taxa de transmissão do vírus seguir em alta como aconteceu nas aldeias da Amazônia, num pior cenário teremos 2.000 infectados e poderemos chegar a cem óbitos.”

Segundo o sanitarista, o potencial de propagação do coronavírus no Xingu dependerá da organização dos próprios índios, da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), e da Funai (Fundação Nacional do Índio).

“Mesmo com orientação e avisos sobre a pandemia, pedindo para que a circulação fosse evitada, não foi possível fazer com que alguns índios, principalmente os mais jovens, não deixassem suas aldeias. Parte das pessoas não acreditou no potencial da pandemia, há também desinformação e fake news circulando”, diz Rodrigues. “Também nesta época do ano são comuns surtos de gripe e de infecções respiratórias no parque. Há quase dois meses, quando muitos começaram a ficar doentes em uma das aldeias Kalapalo, pedimos à Sesai testes para Covid-19, mas isso não foi feito. Então não sabemos se a doença chegou ali há mais tempo.”

O professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Antonio Guerreiro, que pesquisa os Kalapalo desde 2006, também vê com muita preocupação a chegada do coronavírus ao Xingu e o risco de um possível genocídio.

“Os riscos do coronavírus se espalhar são enormes se compararmos a situação atual com a última grande epidemia que atingiu o Xingu, a de sarampo, em 1954, que dizimou ao menos 20% da população. Com a criação do Parque do Xingu em 1961, as aldeias ficaram mais próximas e hoje há uma intensa circulação entre seus habitantes e com a cidade, onde comprar alimentos, combustível, material para pesca. E o coronavírus tem uma propagação rápida”, diz Guerreiro, atualmente pesquisador na Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os dois Kalapalo com Covid-19 receberam alta no fim da tarde desta terça (9) e foram encaminhados para a Casai (Casa de Saúde e Apoio ao Índio) em Canarana (MT). A recomendação era que ficassem por lá para cumprir a quarentena, já que os primeiros sintomas surgiram no dia 3 de junho. O isolamento recomendado pelas principais organizações de saúde, no entanto, esbarra em resistência cultural.

Os índios não aceitaram fazer a quarentena por lá e voltaram para a aldeia com a promessa de ficarem numa casa isolada e usando máscaras. “Índio é muito complicado. Eles disseram que estavam bem e precisavam voltar para casa”, diz o também indígena e técnico de enfermagem Tafuraki Nahukuá, que trabalha na Casai.

Para Guerreiro, não dá para fazer uma simplificação dessa escolha em voltar para a aldeia apenas como sendo uma vontade ou capricho. Há questões culturais complexas que podem explicar o fato dos dois índios terem optado por voltar para casa.

“Estou especulando, porque não consegui contato com eles ainda. Mas, pelo que já pesquisei e ouvi dos Kalapalo, eles não gostam de ficar na Casai, porque além de ter uma infraestrutura péssima, eles ficam afastados da família e dos cuidados e supervisão que os parentes têm de perto com os doentes. E também porque temem feitiçaria por parte de algum índio de outra etnia que pode estar eventualmente internado ali”, diz.

Rodrigues explica como é complicado o cenário de isolamento social dentro do Xingu. Os indígenas da região moram em ocas coletivas, com 30, 40 pessoas dentro e compartilham objetos e comida. Muitos não têm acesso à água e sabão para lavar as mãos.

“Faltam EPI [equipamento de proteção individual], treinamento, comunicação, faltam testes e cilindros maiores de oxigênio para os atendimentos que precisarem de mais cuidados e para possíveis remoções até a cidade mais próxima, entre outras coisas.”

A Unifesp, o ISA (Instituto SocioAmbiental), a SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), o DSEI Xingu, a Coordenação Nacional do Xingu, da Funai, e Atix (Associação da Terra Indígena Xingu) montaram um comitê de crise e com realocação de recursos próprios estão enviando testes para Covid-19, concentradores de oxigênio, oxímetros, EPIs, equipamentos de pesca, máscaras e alimentos.

A universidade, por meio de seu Projeto Xingu, da Escola Paulista de Medicina, está dando treinamento a distância para agentes de saúde e também enviará 500 testes para Covid-19. O ISA mandará outros 380 testes.

“Faltariam no mínimo mais mil”, diz Paulo Junqueira, coordenador do projeto Xingu no ISA, que há 20 anos trabalha na região.

Para Junqueira, a questão agora é ganhar tempo até que as aldeias consigam se organizar melhor e receber equipamentos necessários para conter a doença. Existem dez casas de apoio para isolamento sendo construídas no parque.

O povo Kuikuro está construindo numa aldeia uma oca específica para colocar possíveis infectados em isolamento. Também preparou uma cartilha com informações sobre o coronavírus, em português e na língua Kuikuro.

A AIKAX (Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu) recebeu 28 mil libras (cerca de R$ 176 mil) de ajuda por meio de uma iniciativa comandada pela People’s Palace Project (PPP), organização vinculada à Universidade Queen Mary, de Londres, que trabalha há seis anos com os Kuikuro. “Estamos organizando o envio de suprimentos para evitar ao máximo a exposição das pessoas dali ao vírus”, diz Thiago Jesus, da PPP.

O cacique Yanama Kuikuro, da aldeia Ipatse, diz que a preocupação é grande e que estão correndo contra o tempo para conseguir equipamentos e construir a casa de quarentena rapidamente. Ele conta que com a ajuda do doutor Rodrigues, da Unifesp, está fazendo a compra dos suprimentos necessários e orientando o seu povo. “É uma tristeza enorme termos que cancelar o Kuarup, isso nunca aconteceu. Mas todas lideranças conversaram e vimos que é muito perigoso fazer aglomeração”, fala Yanama.

O povo Yawalapiti também está devastado com o cancelamento do Kuarup. “É o ritual mais sagrado do povo do Alto Xingu. Mas não teve outro jeito”, diz Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana e uma das lideranças locais.

Ele conta que há dois meses vinham pedindo para as pessoas da aldeia evitarem ir à cidade por causa do vírus, mas que os mais jovens não acreditavam que a doença era grave e poderia atingir os índios. “Eles pegavam as motos e iam escondido. Agora está proibido, precisa de autorização.”

Tapi também conta que na segunda eles fecharam de vez a estrada próxima à aldeia que vai até a cidade. “Ontem já não deixamos nem o carro da Funai passar.”

Segundo ele, nas aldeias Yawalapiti não há máscaras, álcool em gel, remédios ou equipamentos básicos.

O técnico indígena de enfermagem Leonardo Kamaiurá também relata falta de suprimentos e equipamentos de prevenção nas Unidades Básicas de Saúde. “Temos poucas máscaras, o álcool em gel temos que dividir metade do pote para mandar para outros postos. Falta o básico.”

O profissional conta que ouve de muitos índios que o coronavírus seria uma doença apenas de não-indígenas, que seriam mais fracos. “Há uma resistência grande por aqui também para acreditar na pandemia, como acontece no resto do Brasil.”

Todas lideranças indígenas e profissionais de saúde ouvidos pelas Folha dizem que o governo não tem ajudado e que falta informação correta.

A disseminação de notícias falsas ou incorretas, segundo alguns indígenas, está levando medo à população. Em um áudio ao qual a Folha teve acesso, o presidente da Atix, Ianukulá Kaiabi Suiá, diz que há pessoas falando em não reportar sintomas aos agentes de saúde, porque, se isso acontecer, “eles serão levados aos hospitais, serão entubados e vão morrer”.

A médica Daphne Andrade, do DSEI Xingu, diz que não ouviu isso nas aldeias do Alto Xingu nas quais ela trabalha. “Rodei muitas aldeias levando informação sobre corona, fazendo alguns testes e não ouvi isso. Eles falam sim que têm medo de intubar, porque isso todos nós temos, né? Mas não ouvi isso de não reportar sintomas.”

A reportagem tentou contato com alguma liderança dos Kalapalo, mas por problemas de comunicação no local, não conseguiu.

Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), diz trabalhar em articulação com o estado, tanto que está prevista a instalação de ala indígena em hospital do Mato Grosso. E que o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu já recebeu 720 testes para Covid-19 e que estão sendo enviados mais mil. E que enviará mais 36 cilindros de 50 litros de oxigênio.