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Ciência e cultura, o que elas têm em comum? (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4549, de 27 de Julho de 2012.

A pergunta foi tema da mesa-redonda “Divulgação da Ciência e da Cultura”, realizada na 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que termina hoje (27), em São Luís.

Para Ildeu de Castro Moreira, diretor de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e conselheiro da SBPC, o debate sobre a relação da ciência com a arte é muito importante porque são duas facetas fundamentais da cultura humana. “Ciência, arte e cultura têm em comum a criatividade inerente ao ser humano”, definiu. Ele explica que arte e ciência são atividades humanas e sociais baseadas na criatividade e curiosidade.

Físico e divulgador científico, Ildeu falou sobre o “imaginário científico presente na mente de artistas”, e explicou que a ciência também tem preocupação estética e guarda semelhanças com a arte. Para ele, há beleza nas teorias científicas. “Equações matemáticas e fórmulas físicas são lindas. Podem parecer chatas em sala de aula, mas contando com a ajuda do olhar de um artista é possível mostrar essa beleza. É preciso aprender a olhar a beleza da ciência, assim como temos que aprender a olhar muita coisa na arte contemporânea”, exemplifica.

Para Ildeu, as conexões entre ciência e arte são importantes para fazer a divulgação científica chegar mais facilmente ao público. Em sua exposição, ele mostrou manifestações artísticas que falam de ciência, dando exemplos de poesias, músicas, enredos de escolas de samba, ditos populares e cordel.

Público infantil – Em sua apresentação na mesa-redonda, Luisa Medeiros Massarani, jornalista e chefe do Museu da Vida da Fiocruz, no Rio de Janeiro, falou sobre iniciativas de divulgação científicas voltadas para o público infantil. “A experiência tem demonstrado uma grande receptividade das crianças, maior do que a de adultos e adolescentes. Principalmente devido à curiosidade da criança, que são consideradas como ‘cientistas naturais'”, explica.

Luisa falou sobre o crescimento de museus de ciências no País, que atualmente são cerca de 200, embora ainda estejam concentrados em algumas regiões. “Os museus têm apelo incrível para as crianças e são importantes também para o divulgador que vê na hora a reação da criança”, revela. Apesar de os museus terem grande parte do público formado por crianças, Luisa afirma que é preciso pensar em espaços específicos para elas, desde a redução do tamanho dos móveis até atividades interativas adequadas.

Ela defende que a criança deve ser encarada como ator social importante no processo de divulgação científica. “Falar de divulgação científica para criança não é falar de ciência unilateralmente, é preciso que a criança seja ator importante e protagonista do processo”, explica ao dizer que a experiência de uma feira de ciência, ou a visita a um museu fica na memória da criança e pode influenciar sua formação, além de provocar e despertar o interesse pela ciência.

A chefe do Museu da Vida citou exposições, livros e publicações voltadas para o público infantil. E destacou a importância de fazer avaliações junto às crianças depois dessas experiências, para saber qual caminho seguir.

Ildeu aproveitou para sugerir que artistas participem mais ativamente das reuniões da SBPC, não somente como um evento paralelo, como a SBPC Cultural, mas como integrantes de mesas e debates com os cientistas. A ideia é aproveitar o público da Reunião, que alcança 15, 20 mil pessoas para falar dessa relação.

(Jornal da Ciência)

Local Weather Patterns Affect Beliefs About Global Warming (Science Daily)

People living in places experiencing warmer-than-normal temperatures at the time they were surveyed were significantly more likely than others to say there is evidence for global warming. (Credit: © Rafael Ben-Ari / Fotolia)

ScienceDaily (July 25, 2012) — Local weather patterns temporarily influence people’s beliefs about evidence for global warming, according to research by political scientists at New York University and Temple University. Their study, which appears in theJournal of Politics, found that those living in places experiencing warmer-than-normal temperatures at the time they were surveyed were significantly more likely than others to say there is evidence for global warming.

“Global climate change is one of the most important public policy challenges of our time, but it is a complex issue with which Americans have little direct experience,” wrote the study’s co-authors, Patrick Egan of New York University and Megan Mullin of Temple University. “As they try to make sense of this difficult issue, many people use fluctuations in local temperature to reassess their beliefs about the existence of global warming.”

Their study examined five national surveys of American adults sponsored by the Pew Research Center: June, July, and August 2006, January 2007, and April 2008. In each survey, respondents were asked the following question: “From what you’ve read and heard, is there solid evidence that the average temperature on earth has been getting warmer over the past few decades, or not?” On average over the five surveys, 73 percent of respondents agreed that Earth is getting warmer.

Egan and Mullin wondered about variation in attitudes among the survey’s respondents, and hypothesized that local temperatures could influence perceptions. To measure the potential impact of temperature on individuals’ opinions, they looked at zip codes from respondents in the Pew surveys and matched weather data to each person surveyed at the time of each poll. They used local weather data to determine if the temperature in the location of each respondent was significantly higher or lower than normal for that area at that time of year.

Their results showed that an abnormal shift in local temperature is associated with a significant shift in beliefs about evidence for global warming. Specifically, for every three degrees Fahrenheit that local temperatures in the past week have risen above normal, Americans become one percentage point more likely to agree that there is ”solid evidence” that Earth is getting warmer. The researchers found cooler-than-normal temperatures have similar effects on attitudes — but in the opposite direction.

The study took into account other variables that may explain the results — such as existing political attitudes and geography — and found the results still held.

The researchers also wondered if heat waves — or prolonged higher-than-normal temperatures — intensified this effect. To do so, they looked at respondents living in areas that experienced at least seven days of temperatures of 10° or more above normal in the three weeks prior to interview and compared their views with those who experienced the same number of hot days, but did not experience a heat wave.

Their estimates showed that the effect of a heat wave on opinion is even greater, increasing the share of Americans believing in global warming by 5.0 to 5.9 percentage points.

However, Egan and Mullin found the effects of temperature changes to be short-lived — even in the wake of heat waves. Americans who had been interviewed after 12 or more days had elapsed since a heat wave were estimated to have attitudes that were no different than those who had not been exposed to a heat wave.

“Under typical circumstances, the effects of temperature fluctuations on opinion are swiftly wiped out by new weather patterns,” they wrote. “More sustained periods of unusual weather cause attitudes to change both to a greater extent and for a longer period of time. However, even these effects eventually decay, leaving no long-term impact of weather on public opinion.”

The findings make an important contribution to the political science research on the relationship between personal experience and opinion on a larger issue, which has long been studied with varying results.

“On issues such as crime, the economy, education, health care, public infrastructure, and taxation, large shares of the public are exposed to experiences that could logically be linked to attitude formation,” the researchers wrote. “But findings from research examining how these experiences affect opinion have been mixed. Although direct experience — whether it be as a victim of crime, a worker who has lost a job or health insurance, or a parent with children in public schools — can influence attitudes, the impact of these experiences tends to be weak or nonexistent after accounting for typical predictors such as party identification and liberal-conservative ideology.”

“Our research suggests that personal experience has substantial effects on political attitudes,” Egan and Mullin concluded. “Rich discoveries await those who can explore these questions in ways that permit clean identification of these effects.”

Egan is an assistant professor in the Wilf Family Department of Politics at NYU and Mullin is an associate professor in the Department of Political Science at Temple University

The climate of the climate change debate is changing (The Guardian)

Quantifying how greenhouse gases contribute to extreme weather is a crucial step in calculating the cost of human influence

Myles Allen

guardian.co.uk, Wednesday 11 July 2012 12.08 BST

Climate change could trap hundreds of millions in disaster areas, report claims

This week, climate change researchers were able to attribute recent examples of extreme weather to the effects of human activity on the planet’s climate systems for the first time. Photograph: Rizwan Tabassum/AFP/Getty Images

The climate may have changed this week. Not the physical climate, but the climate of the climate change debate. Tuesday marked thepublication of a series of papers examining the factors behind extreme weather events in 2011. Nothing remarkable about that, you might think, except, if all goes well, this will be the first of a regular, annual assessment quantifying how external drivers of climate contribute to damaging weather.

Some of these drivers, like volcanoes, are things we can do nothing about. But others, like rising levels of greenhouse gases, we can. And quantifying how greenhouse gases contribute to extreme weather is a crucial step in pinning down the real cost of human influence on climate. While most people think of climate change in terms of shrinking ice-sheets and slowly rising sea levels, it is weather events that actually do harm.

This week also saw a workshop in Oxford for climate change negotiators from developing countries. Again, nothing remarkable about that except, for the first time, the issue of “loss and damage” was top of the agenda. For years negotiations have been over emission reductions and sharing the costs of adaptation. Now the debate is turning to: who is going to pay for damage done?

It is a good time to ask, since the costs that can unambiguously be attributed to human-induced climate change are still relatively small. Although Munich Re estimates that weather events in 2011 cost more than $100bn and claimed many thousands of lives, only a few of these events were clearly made more likely by human influence. Others may have been made less likely, but occurred anyway – chance remains the single dominant factor in when and where a weather event occurs. For the vast majority of events, we simply don’t yet know either way.

Connecting climate change and specific weather events is only one link in the causal chain between greenhouse gas emissions and actual harm. But it is a crucial link. If, as planned, the assessment of 2011 becomes routine, we should be able to compare actual weather-related damage, in both good years and bad, with the damage that might have been in a world without human influence on climate. This puts us well on our way to a global inventory of climate change impacts. And as soon as that is available, the question of compensation will not be far behind.

The presumption in climate change negotiations is that “countries with historically high emissions” would be first in line to foot the bill for loss and damage. There may be some logic to this, but if you are an African (or Texan) farmer hit by greenhouse-exacerbated drought, is the European or American taxpayer necessarily the right place to look for compensation? As any good lawyer knows, there is no point in suing a man with empty pockets.

The only institution in the world that could deal with the cost of climate change without missing a beat is the fossil fuel industry: BP took a $30bn charge for Deepwater Horizon, very possibly more than the total cost of climate change damages last year, and was back in profit within months. Of the $5 trillion per year we currently spend on fossil energy, a small fraction would take care of all the loss and damage attributable to climate change for the foreseeable future several times over.

Such a pay-as-you-go liability regime would not address the impacts of today’s emissions on the 22nd century. Governments cannot wash their hands of this issue entirely. But we have been so preoccupied with the climate of the 22nd century that we have curiously neglected to look after the interests of those being affected by climate change today.

So rather than haggling over emission caps and carbon taxes, why not start with a simple statement of principle: standard product liability applies to anyone who sells or uses fossil fuels, including liability for any third-party side-effects. There is no need at present to say what these side-effects might be – indeed, the scientific community does not yet know. But we are getting there.

Political Scientists Are Lousy Forecasters (N.Y.Times)

OPINION

Katia Fouquet

By JACQUELINE STEVENS
Published: June 23, 2012

DESPERATE “Action Alerts” land in my in-box. They’re from the American Political Science Association and colleagues, many of whom fear grave “threats” to our discipline. As a defense, they’ve supplied “talking points” we can use to tell Congressional representatives that political science is a “critical part of our national science agenda.”

Political scientists are defensive these days because in May the House passed an amendment to a bill eliminating National Science Foundation grants for political scientists. Soon the Senate may vote on similar legislation. Colleagues, especially those who have received N.S.F. grants, will loathe me for saying this, but just this once I’m sympathetic with the anti-intellectual Republicans behind this amendment. Why? The bill incited a national conversation about a subject that has troubled me for decades: the government — disproportionately — supports research that is amenable to statistical analyses and models even though everyone knows the clean equations mask messy realities that contrived data sets and assumptions don’t, and can’t, capture.

It’s an open secret in my discipline: in terms of accurate political predictions (the field’s benchmark for what counts as science), my colleagues have failed spectacularly and wasted colossal amounts of time and money. The most obvious example may be political scientists’ insistence, during the cold war, that the Soviet Union would persist as a nuclear threat to the United States. In 1993, in the journal International Security, for example, the cold war historian John Lewis Gaddis wrote that the demise of the Soviet Union was “of such importance that no approach to the study of international relations claiming both foresight and competence should have failed to see it coming.” And yet, he noted, “None actually did so.” Careers were made, prizes awarded and millions of research dollars distributed to international relations experts, even though Nancy Reagan’s astrologer may have had superior forecasting skills.

Political prognosticators fare just as poorly on domestic politics. In a peer-reviewed journal, the political scientist Morris P. Fiorina wrote that “we seem to have settled into a persistent pattern of divided government” — of Republican presidents and Democratic Congresses. Professor Fiorina’s ideas, which synced nicely with the conventional wisdom at the time, appeared in an article in 1992 — just before the Democrat Bill Clinton’s presidential victory and the Republican 1994 takeover of the House.

Alas, little has changed. Did any prominent N.S.F.-financed researchers predict that an organization like Al Qaeda would change global and domestic politics for at least a generation? Nope. Or that the Arab Spring would overthrow leaders in Egypt, Libya and Tunisia? No, again. What about proposals for research into questions that might favor Democratic politics and that political scientists seeking N.S.F. financing do not ask — perhaps, one colleague suggests, because N.S.F. program officers discourage them? Why are my colleagues kowtowing to Congress for research money that comes with ideological strings attached?

The political scientist Ted Hopf wrote in a 1993 article that experts failed to anticipate the Soviet Union’s collapse largely because the military establishment played such a big role in setting the government’s financing priorities. “Directed by this logic of the cold war, research dollars flowed from private foundations, government agencies and military individual bureaucracies.” Now, nearly 20 years later, the A.P.S.A. Web site trumpets my colleagues’ collaboration with the government, “most notably in the area of defense,” as a reason to retain political science N.S.F. financing.

Many of today’s peer-reviewed studies offer trivial confirmations of the obvious and policy documents filled with egregious, dangerous errors. My colleagues now point to research by the political scientists and N.S.F. grant recipients James D. Fearon and David D. Laitin that claims that civil wars result from weak states, and are not caused by ethnic grievances. Numerous scholars have, however, convincingly criticized Professors Fearon and Laitin’s work. In 2011 Lars-Erik Cederman, Nils B. Weidmann and Kristian Skrede Gleditsch wrote in the American Political Science Review that “rejecting ‘messy’ factors, like grievances and inequalities,” which are hard to quantify, “may lead to more elegant models that can be more easily tested, but the fact remains that some of the most intractable and damaging conflict processes in the contemporary world, including Sudan and the former Yugoslavia, are largely about political and economic injustice,” an observation that policy makers could glean from a subscription to this newspaper and that nonetheless is more astute than the insights offered by Professors Fearon and Laitin.

How do we know that these examples aren’t atypical cherries picked by a political theorist munching sour grapes? Because in the 1980s, the political psychologist Philip E. Tetlock began systematically quizzing 284 political experts — most of whom were political science Ph.D.’s — on dozens of basic questions, like whether a country would go to war, leave NATO or change its boundaries or a political leader would remain in office. His book “Expert Political Judgment: How Good Is It? How Can We Know?” won the A.P.S.A.’s prize for the best book published on government, politics or international affairs.

Professor Tetlock’s main finding? Chimps randomly throwing darts at the possible outcomes would have done almost as well as the experts.

These results wouldn’t surprise the guru of the scientific method, Karl Popper, whose 1934 book “The Logic of Scientific Discovery” remains the cornerstone of the scientific method. Yet Mr. Popper himself scoffed at the pretensions of the social sciences: “Long-term prophecies can be derived from scientific conditional predictions only if they apply to systems which can be described as well-isolated, stationary, and recurrent. These systems are very rare in nature; and modern society is not one of them.”

Government can — and should — assist political scientists, especially those who use history and theory to explain shifting political contexts, challenge our intuitions and help us see beyond daily newspaper headlines. Research aimed at political prediction is doomed to fail. At least if the idea is to predict more accurately than a dart-throwing chimp.

To shield research from disciplinary biases of the moment, the government should finance scholars through a lottery: anyone with a political science Ph.D. and a defensible budget could apply for grants at different financing levels. And of course government needs to finance graduate student studies and thorough demographic, political and economic data collection. I look forward to seeing what happens to my discipline and politics more generally once we stop mistaking probability studies and statistical significance for knowledge.

Jacqueline Stevens is a professor of political science at Northwestern University and the author, most recently, of “States Without Nations: Citizenship for Mortals.”

A version of this op-ed appeared in print on June 24, 2012, on page SR6 of the New York edition with the headline: Political Scientists Are Lousy Forecasters.

Rio+20 chega ao fim com resultado tímido e promessas adiadas (BBC)

Atualizado em  22 de junho, 2012 – 16:20 (Brasília) 19:20 GMT

Índio | Foto: Agência BrasilDuas décadas após a Eco-92, Rio+20 não produziu respostas às principais questões modernas.

No último dia da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a todos os governos que eliminem a fome do mundo. Ele disse que, em um mundo populoso, ninguém deveria passar fome.

A fase final da conferência também registrou promessas de diferentes países e empresas em temas como energias limpas.

Mesmo assim, um grupo de políticos veteranos se juntaram a organizações ambientalistas em sua avaliação de que a declaração final do encontro foi o resultado de um “fracasso de liderança”.

Na visão do vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Nick Clegg, o resultado das discussões pode ser classificado como “insípido”.

O encontro, que marcou os 20 anos após a emblemática Cúpula da Terra também realizada no Rio de Janeiro, em 1992, e 40 anos depois da primeira reunião mundial sobre o tema, em Estocolmo, tinha como objetivo estimular novas medidas rumo a uma “economia verde”.

Mas a declaração que foi concluída por negociadores de diferentes governos na terça-feira, e que ministros e chefes de Estado e governo não quiseram rediscutir, coloca a economia verde apenas como um de muitos caminhos rumo a um desenvolvimento sustentável.

Mary Robinson, ex-presidente irlandesa que também já ocupou o posto de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, disse que os termos do documento não são suficientes.

“Este é um daqueles momentos únicos em uma geração, quando o mundo precisa de visão, compromisso e, acima de tudo, liderança”, disse. “Tristemente, o documento atual é um fracasso de liderança”, afirmou, ecoando as declarações do vice-premiê britânico.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a declaração não produz benefícios para a proteção ambiental nem para o desenvolvimento humano.

“Esta divisão antiga entre o meio ambiente e o desenvolvimento não é o caminho para resolver os problemas que estamos criando para nossos netos e bisnetos”, disse. “Temos que aceitar que as soluções para a pobreza e a desigualdade se encontram no desenvolvimento sustentável, e não no crescimento a qualquer custo.”

O secretário-geral da ONU esperava que o encontro adotasse medidas mais firmes para garantir que os mais pobres tivessem acesso a água, energia e alimentos. No entanto, sua emblemática iniciativa Energia Sustentável para Todos foi apenas citada no texto, ao invés de receber apoio enfático dos líderes.

Esperança

Na fase final do encontro, Ban Ki-moon desafiou os governos mundiais a fazerem mais.

“Em um mundo de muitos, ninguém, nem mesmo uma única pessoa, deveria passar fome”, disse. “Convido todos vocês a se juntarem a mim para trabalhar em um futuro sem fome”, acrecentou a uma plateia estimada em 130 chefes de Estado e governo.

“Embora o mundo produza comida suficiente para alimentar todos os habitantes do planeta, há mais pessoas passando fome hoje do que no último encontro organizado no Rio em 1992. “

Barbara Stocking, diretora-executiva da Oxfam Internacional

Atualmente acredita-se que quase 1 bilhão de pessoas – um sétimo da população mundial – vivem em fome crônica, enquanto outro bilhão não recebe nutrição adequada.

As medidas que poderiam ajudar a eliminar essa situação incluem a redução do desperdício de alimentos – quase um terço de todos os alimentos produzidos são jogados no lixo nos países ricos, e uma proporção ainda maior nos países mais pobres, por razões diferentes – além de dobrar a produtividade de pequenas propriedades.

O desafio é parcialmente baseado no programa Fome Zero, criado no Brasil pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“O anúncio de Ban Ki-moon é um raio de esperança bem-vindo em uma conferência que foi vergonhosamente marcada pela ausência de progresso”, disse Barbara Stockling, chefe da ONG internacional Oxfam.

“Apesar do fato de que o mundo produz alimentos suficientes para todos, há mais pessoas com fome hoje do que em 1992, quando o mundo se reuniu pela última vez no Rio”, acrecentou.

No entanto, até o momento, tudo o que há de concreto é um desafio. Não há dinheiro nem mudanças na maneira como a própria ONU se posiciona sobre o assunto da fome.

Em paralelo às principais negociações no Rio, empresas e governos firmaram mais de 200 compromissos de ações voluntárias em diferentes áreas.

Energia, água e alimentos estão neste pacote, embora a maioria das promessas sejam de inclusão do tema desenvolvimento sustentável em programas educacionais.

A diretriz do Rio é decepcionante, dizem grupos da sociedade civil (IPS)

Envolverde Rio + 20
21/6/2012 – 10h48

por Stephen Leahy, da IPS

Rio Civil Society final1 A diretriz do Rio é decepcionante, dizem grupos da sociedade civil

Um cartaz em uma parede no Riocentro. Grupos da sociedade civil dizem que estão “muito decepcionados” com as negociações formais na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Foto: Stephen Leahy/IPS

Rio de Janeiro, Brasil (TerraViva) “Muito decepcionante” é a forma como empresas e organizações não governamentais descreveram, hoje, as negociações intergovernamentais formais na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Depois de dois anos, negociadores de mais de 190 nações concordaram com um documento de 49 páginas destinado a ser o roteiro para essa transformação. Ele será apresentado aos chefes de Estado no Rio de Janeiro, na abertura da reunião de alto nível da cúpula, no dia 20. Funcionários da ONU disseram que era altamente improvável que qualquer mudança seja feita. O documento deixa de fora o fundo de US$ 30 bilhões para financiar a transição para uma economia verde proposto pelo Grupo dos 77 (G-77), bloco de nações em desenvolvimento mais a China, e não define Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs) tangíveis para substituir as Metas do Milênio, que expiram em 2015.

“Isso é extremamente decepcionante…. Não há visão, não há dinheiro e realmente não há compromissos aqui”, disse Lasse Gustavsson, chefe internacional da delegação para a Rio+20 do World Wildlife Fund (WWF). “A Rio +20 deveria ter sido sobre a vida, sobre o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos. Deveria ter sido sobre florestas, rios, lagos, oceanos dos quais todos nós estamos dependendo para a nossa segurança de alimentos, água e energia”, declarou ao TerraViva.

A conferência foi um contraste gritante com a emocionante atmosfera de “vamos mudar o mundo” da primeira Cúpula da Terra em 1992, disse Robert Engleman do Worldwatch Institute, um “think tank” ambiental internacional. Enquanto o documento de forma geral re-confirma compromissos passados de uma forma muito passiva, há uma nova confirmação a respeito da importância da preservação de sementes tradicionais, e a consideração sobre fortalecer o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), afirmou ao TerraViva.

“Este documento é uma grande decepção, não há ambição e pouca referência aos desafios planetários que enfrentamos”, disse Kiara Worth, representando o grupo Crianças e Jovens na Rio +20. “As vozes da sociedade civil e as futuras gerações não serão ouvidas. Devemos chamar este evento de ‘Rio menos 20′ porque estamos indo para trás”, declarou ao TerraViva.

Steven Wilson do International Council for Science, uma organização não governamental que representa organismos científicos nacionais e uniões científicas internacionais, observou que “a evidência científica é clara. Nós vamos precisar de um esforço global em ciência e tecnologia para atender o maior desafio que a humanidade já enfrentou, e eu não entendo porque não há uma seção no documento sobre a ciência. Isto passa uma mensagem muito infeliz”.

Jeffery Huffines da Civicus World Alliance for Citizen Participation, organização com sede em Joahnnesburgo, na África do Sul, opinou que “nós temos um sistema econômico fundamentalmente falho e nós da sociedade civil esperávamos que os governos do mundo reconhecessem essa realidade, mas eles não fizeram isso.” Em vez disso, há 49 páginas de conceitos, sem quaisquer compromissos ou meios para avançar com estes conceitos. O papel da participação da sociedade civil tem sido limitado. “Precisamos de uma tomada de decisões mais democrática, e não menos”, enfatizou. Envolverde/IPS

* Publicado originalmente no site TerraViva.

Steiner e Cúpula dos Povos se chocam quanto à economia verde (IPS)

Economia Verde
19/6/2012 – 09h28

por Fabiana Frayssinet, da IPS

c17 300x198 Steiner e Cúpula dos Povos se chocam quanto à economia verde

Achim Steiner debatendo na Cúpula dos Povos. Crédito: João Roberto Ripper

Rio de Janeiro, Brasil, 18/6/2012 (TerraViva) O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, acredita que ele a Cúpula dos Povos coincidem quanto ao atual modelo econômico ter causado o colapso ambiental. Porém, o diálogo sobre como substituí-lo se transformou em áspero debate.

O encontro com Steiner foi o mais esperado da Cúpula dos Povos: um alto representante da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, se deslocou para o outro lado da cidade, até a sede da reunião da sociedade civil no Aterro do Flamengo, para discutir com ecologistas e ativistas sociais sobre economia verde.

A economia verde é proposta como uma grande transformação dos modelos de produção e consumo para deter a contaminação e o esgotamento dos recursos naturais. Entretanto, para os movimentos sociais, não é mais do que outra cor para disfarçar o capitalismo.

“A Cúpula dos Povos é crítica da economia verde, porque os povos é que sofrem a crise do capitalismo e desse modelo de produção que quanto mais se agrava mais avança sobre nossos direitos”, afirmou de início a brasileira Fátima Mello, uma das organizadoras do encontro.

“Entendemos que a economia verde, que se baseia na mercantilização de bens naturais, está estreitamente ligada a uma economia marrom”, de contaminação e depredação, disse a também brasileira Larissa Packer, da organização Terra de Direitos.

A verdadeira “economia verde não é o dólar verde, como a veem os governantes. É nossa Amazônia verde”, defendeu o indígena boliviano Edwin Vásquez, que acusou as corporações transnacionais de invadirem e saquearem os recursos naturais.

Por sua vez, o argentino Juan Herrera, da rede internacional Via Camponesa, propôs um modelo de “economia popular, solidária e camponesa” que substitua o atual grande agronegócio, pois este “gerou verdadeiros desertos de soja e milho onde os camponeses já não têm um lugar”.

Diante desses pronunciamentos e críticas, Steiner, um especialista em políticas ambientais, se confessou “surpreso”. “No Pnuma estabelecemos que o modelo econômico atual não é o modelo do futuro. Estamos de acordo com vocês nisso”, afirmou, orientando os participantes a “lerem o documento oficial desta agência das Nações Unidas que aborda as diferentes interpretações sobre economia verde.

Sem seus habituais terno e gravata, Steiner explicou que o “fracasso” de não se ter evitado a degradação natural “tem a ver com o modelo econômico do mundo que trata o planeta como mineração: extrair, extrair e extrair”.

E quase adotou a mesma linguagem que a plateia adversária, ao se declarar crítico da “capacidade do mercado de alcançar o desenvolvimento sustentável”, e especificou: um mercado baseado, como se fosse uma “lei da física”, na livre oferta e demanda.

“O atum de barbatana azul vale hoje no mercado US$ 4 mil. Por isto, as empresas poderiam capturar até o último exemplar”, deu como exemplo para justificar que o “mercado não ajuda a administrar o planeta de forma sustentável”.

As diferenças surgiram ao se buscar opções a esse modelo. Entre outras propostas, Steiner propôs atribuir um valor econômico ao ecossistema, para promover “leis que protejam a natureza ou negócios que não sejam destrutivos”.

Também se referiu a novas tecnologias “boas e possíveis”, como as energias limpas e renováveis, que não gerariam desemprego, porque, pelo contrário, “dão mais empregos do que a indústria automobilística”.

Seus argumentos não convenceram o especialista em biodiversidade Pat Mooney. Este canadense citou tecnologias danosas propostas pela economia verde, como a biologia sintética, que modifica micro-organismos, ou o desenvolvimento de variedades transgênicas, que concentrou o controle das sementes em um punhado de multinacionais.

Mooney se disse espantado por uma economia verde que agora busca controlar a biomassa do planeta.

Tampouco o embaixador da Bolívia perante a Organização das Nações Unidas (ONU), Pablo Solón, ficou convencido, acusando Steiner de “não ter sido honesto”.

“Por trás desse conceito está o assumir que a natureza é um quintal”, enfatizou Solón elevando a voz, e afirmou que “não estamos inventando isso”, que está no rascunho em discussão pelos governos na Rio+20.

Steiner “disse que buscam desacoplar o crescimento com a deterioração ambiental. Não se pode crescer eternamente, o limite é a biodiversidade! O que necessitamos é redistribuir a riqueza!”, polemizou.

“Não por ter elevado o tom de voz e o da plateia, tudo o que você disse é correto”, respondeu Steiner. Nessa polarização entre capitalismo e anticapitalismo “o mundo não avançará”, ressaltou ao argumentar o difícil que é conseguir consenso entre todos os Estados-membros da ONU.

Propor uma economia verde sem regulamentar o mercado financeiro causará o contrário da conservação: “uma bolha financeira imprevisível”, apontou Packer ao TerraViva. “Quando há escassez de uma mercadoria, seu valor sobe. Portanto, quanto mais se destruir a natureza, maior será o valor dos ativos naturais”, alertou. (IPS/TerraViva)

* Publicado originalmente no site TerraViva.

Rio+20 sem ciência (Mundo Sustentável, G1)

sáb, 16/06/12

por André Trigueiro

Depois de cinco dias reunidos na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), 500 cientistas de 75 países – seis deles Prêmios Nobel – produziram um relatório contundente em que resumem a situação do planeta. Entre outras informações, eles dizem que “há evidências científicas convincentes de que o atual modelo de desenvolvimento está minando a capacidade de o planeta responder às agressões do homem”. Manifestam preocupação com o fato de que “os níveis de produção e de consumo poderão causar mudanças irreversíveis e catastróficas para a humanidade”. Mas asseveram que “temos conhecimento e criatividade para construir um novo caminho. Entretanto, é preciso correr contra o tempo”.

O Prêmio Nobel de Química,Yuan Tse Lee, de Taiwan, foi escolhido pelos colegas para uma missão quase impossível: resumir em apenas dois minutos para os chefes de estado no Riocentro o que de mais importante aparece no relatório. Apenas 120 segundos serão suficientes para inspirar nas principais lideranças do mundo o devido senso de urgência? Bom, foi este o tempo definido pelo protocolo da ONU. Perguntei ao dr.Yuan qual seria a mensagem mais importante do relatório.

“Não temos muito mais tempo para transformar a sociedade, torná-la sustentável. Se continuarmos nesse ritmo, vai ficar cada vez pior. Entraremos numa grande enrascada”, disse ele, para em seguida arrematar com um lampejo de confiança no futuro:”Não temos o direito de ficar pessimistas. Estou feliz a de ver tantos jovens no Rio”.

Quem também estava no encontro foi o climatologista Carlos Nobre, que nesta semana teve a honra de escrever o editorial da prestigiada revista científica Science com o sugestivo título de “UNsustainable? (com as iniciais da ONU em maiúsculas no início da palavra “insustentável” em inglês) onde afirmou que o mundo “saiu da zona de segurança”. Perguntei a ele se a classe política está ouvindo os alertas dos cientistas.

“Nós estamos tendo dificuldade de comunicar a todos os tomadores de decisão o senso de urgência. Tempo talvez seja o recurso mais escasso na questão do desenvolvimento sustentável”. Ao ser indagado sobre o que estava em jogo, caso as recomendações dos cientistas não fossem consideradas pelos tomadores de decisão, o atual secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação respondeu com indisfarçável preocupação. “O risco de excedermos alguns limites planetários existe. Os recursos não são infinitos e a capacidade da Terra absorver os choques também não. No caso do clima, por exemplo, provavelmente também já estamos operando fora da margem de segurança”.

Para Carlos Nobre, “a urgência da situação planetária requer decisões também urgentes e ações imediatas. Essa distância entre o que os cientistas percebem como urgente e a as respostas dadas pelo sistema político configura o descompasso”.

Deixei a PUC intrigado não apenas pela contundência de mais um alerta da comunidade científica, mas também pela ausência de jornalistas interessados em cobrir o maior evento paralelo da Rio+20 na área da ciência. Será que nós, profissionais de imprensa, também estamos em descompasso com as informações relevantes descortinadas pela comunidade científica? Será este um assunto restrito às mídias especializadas ou todos os jornalistas e comunicadores deveriam abrir mais espaços, especialmente em tempos de crise, para o que os cientistas estão dizendo? Vale a reflexão. E, sobretudo, a ação.

Cúpula dos Povos começa como contraponto à Rio+20 (BBC)

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Atualizado em  15 de junho, 2012 – 22:23 (Brasília) 01:23 GMT

Tenda da Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro (Foto: BBC)Ativistas brasileiros e estrangeiros se encontram na Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20

A Cúpula dos Povos foi aberta nesta sexta-feira no Rio como um contraponto às discussões oficiais da Rio+20.

Organizado pela sociedade civil, o evento busca mobilizar a sociedade e pressionar os líderes globais que se reunirão do outro lado da cidade na semana que vem.

Enquanto a conferência oficial no Riocentro, na Barra, é restrita a participantes credenciados, que só entram depois de passar por um forte controle de segurança, a Cúpula dos Povos é aberta ao público, em tendas ao ar livre no Aterro do Flamengo.

Ela é aberta também às tribos e discussões mais diversas, em mesas de debate e painéis geridos pelos próprios participantes, buscando promover a mobilização social.

Problemas ambientais, econômicos, sociais, religiosos, raciais, políticos e de minorias serão discutidos no evento pelos “99%”, afirma a ativista norte-americana Cindy Wiesner, em alusão ao movimento que ocupou Wall Street, em Nova York, no ano passado.

“Aqui estão os verdadeiros defensores dos direitos da população. No Riocentro estão o outro 1%, como dizemos em nosso movimento. Não confiamos nas decisões que vão tomar”, diz ela, integrante do Grassroots Global Justice Alliance, uma das 35 redes internacionais que ajudaram a organizar o evento.

Representante de outra rede coordenadora, a Via Campesina, Luiz Zarref destaca a presença de “quase todas as organizações sociais brasileiras” no evento, entre representantes de indígenas, quilombolas, mulheres, religiosos, estudantes, pequenos agricultores e outros grupos.

Zarref afirma que o objetivo do evento é estabelecer um contraponto ao que está sendo desenhado no Riocentro.

“Nossa expectativa na conferência é que não vai haver benefícios para os povos, para o planeta ou para o meio ambiente, e sim uma nova engenharia do sistema capitalista que está em crise, e que está tentando descobrir novas ferramentas para se apropriar dos territórios dos países do sul.”

20 anos depois

A Cúpula dos Povos é inspirada no Fórum Global da Rio 92, o primeiro grande encontro internacional da sociedade civil, realizado também no Aterro do Flamengo.

Mais de 1.200 atividades estão programadas até o dia 23, e a expectativa é que entre 25 mil e 30 mil pessoas passem pelo evento diariamente.

No primeiro dia da cúpula, o público ainda não era tão expressivo. Mas grande parte dos ativistas ainda estão a caminho, em ônibus que estão trazendo cerca de 15 mil pessoas para a cidade. Eles ficarão acampados no Sambódromo, em escolas públicas e na Univercidade Federal do Rio de Janeiro.

O evento terá plenárias e três grandes assembleias para buscar um posicionamento consensual sobre as raízes dos problemas e soluções possíveis para o futuro. E para combater o conceito de “economia verde” que vem sendo defendido no âmbito oficial.

Para Luiz Zarref, o modelo é uma “falsa solução”, que busca estabelecer soluções de mercado para perdas na natureza, como nos créditos de carbono adquiridos por países emissores.

Conversa com Ban Ki-moon

Os organizadores dizem não acreditar nas discussões em andamento no Riocentro. Assim, a meta não é sentar à mesa de negociações com os líderes políticos.

Mas os resultados alcançados serão apresentados ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que solicitou uma reunião com os movimentos sociais, diz Cindy.

Uma delegação de 35 pessoas vai apresentar os principais resultados das discussões ao secretário no dia 20.

“Não vamos participar das negociações, mas isso é uma maneira de mandar o recado sobre o que está acontecendo aqui”, diz.

Definição de economia verde, uma pedra no sapato da Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
15/6/2012 – 09h58

por Thalif Deen, da IPS

Slide18 Definição de economia verde, uma pedra no sapato da Rio+20Nova York, Estados Unidos, 15/6/2012 (IPS/TerraViva) – A discussão central da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá na próxima semana no Rio de Janeiro, será em torno do conceito de “economia verde” e sobre a melhor forma de defini-la.

“Se a economia for definida claramente apontando para um desenvolvimento sustentável, sem recorrer a experimentos baseados no mercado ou em soluções técnicas, será um êxito”, disse Alex Scrivener, oficial de políticas do World Delepoment Movement (WDM – Movimento Mundial de Desenvolvimento), com sede em Londres. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, afirmou que a comunidade internacional deve chegar a um consenso sobre a economia verde inclusiva, “que tire as pessoas da pobreza e proteja o meio ambiente”. Isto, acrescentou, exige colaboração internacional. Contudo, também investimento, financiamento, experiências compartilhadas e transferência de tecnologia.

Um tema fundamental da Rio+20 será como integrar uma “economia verde” ao conceito mais amplo de desenvolvimento sustentável. Segundo o WDM, “uma verdadeira economia verde adotará a justiça econômica e o direito das comunidades pobres de definirem seu próprio caminho para sair da pobreza e acabar com as políticas perniciosas que priorizam o lucro em relação às pessoas e ao meio ambiente”. O WDM também diz que esta economia porá fim “à nossa obsessão pelo crescimento econômico e um consumo não sustentável, os quais reorientará insistindo em como cobrir as necessidades de todo o mundo de maneira verdadeiramente sustentável”.

O rascunho do plano de ação, documento a ser discutido na Rio+20, divulgado em janeiro, era vago e deixava de fora muitos dos compromissos concretos, diz a organização, mas as negociações seguintes parecem tê-lo diluído ainda mais. Sem declarações específicas, como a disponibilidade de fundos para facilitar para os países em desenvolvimento a implantação de políticas verdes ou um cronograma concreto para o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, o documento final da conferência corre o risco de ser uma declaração insossa de generalidades, destaca o WDM.

Esta organização observa que as nações industrializadas, como a Grã-Bretanha, além dos bancos e das companhias multinacionais, utilizam o termo “economia verde” como cortina de fumaça para esconder seus planos de privatizar bens globais e criar novos mercados para os serviços que a natureza fornece gratuitamente. “Deste cavalo de Troia surgirão novos mecanismos de mercado que permitirão ao setor financeiro obter maior controle sobre a gestão dos bens globais”, alerta a organização.

Em lugar de contribuir para o desenvolvimento sustentável e a justiça econômica, esta “economia verde corporativa” levará à privatização da terra e da natureza, as quais passarão a ser controladas por multinacionais que as afastarão das comunidades que delas dependem, prevê o WDM. Scrivener não acredita que o Fundo Verde para o Clima alcance o objetivo de reunir US$ 100 bilhões até 2020. “A falta de fundos públicos se tornou a desculpa dos países industrializados para justificar sua falta de colaboração econômica para o clima ou sua tentativa de utilizar fundos privados para cobrir o vazio”, afirmou.

“A realidade é que, apesar da crise de dívida soberana na Europa ter aumentando a pressão sobre a disponibilidade de fundos públicos, perdeu-se totalmente a oportunidade de explorar novas fontes”, apontou Scrivener. Como exemplo mencionou que a ideia de introduzir novos impostos em setores muito contaminantes, como são a aviação e os transportes, citada na cúpula de Copenhague no final de 2009, caiu no esquecimento, apesar de esse tipo de medida ser suficiente para cobrir a falta de fundos públicos.

“Quando se fala de escassez de fundos não devemos esquecer a dívida climática que o mundo industrializado tem com as nações em desenvolvimento”, ressaltou Scrivener. Esse dinheiro, que representaria uma ínfima proporção dos orçamentos das nações ricas, “não deveria ser considerado um compromisso discricionário e sua concessão deveria ser vista como prioritária”, considerou.

“Infelizmente, é pouco provável que no Rio de Janeiro seja anunciado um pacote com fundos públicos, e o rascunho preliminar do documento final não estabelece nada significativo além da tradicional assistência oficial ao desenvolvimento, de 0,7% do produto interno bruto”, lamentou Scrivener. “É ruim, mas creio que a principal batalha na cúpula girará em torno dos princípios para definir uma nova economia verde”, acrescentou.

A atual crise econômica deveria servir de lição para os governos sobre a inerente instabilidade, a falta de sustentabilidade de nosso sistema econômico e as razões pelas quais deve ser substituído. No entanto, os governos se concentram em regressar a um crescimento econômico que não é sustentável, e inclusive estudam destinar um valor monetário à natureza, o que poderia estender a influência dos instáveis mercados financeiros sobre o meio ambiente.

A crise também faz os governos não darem importância aos grandes desafios que representam a mudança climática, a redução da pobreza e a degradação ambiental. “Vemos que isso acontece em diferentes âmbitos como a falta de ambição do rascunho do documento final da Rio+20”, acrescentou Scrivener. Quanto à mudança climática, essa mentalidade ficou demonstrada com a retirada de Canadá, Japão e Rússia do Protocolo de Kyoto, bem como pela tentativa de considerar o gás natural como uma fonte de energia barata que emite pouco dióxido de carbono.

Envolverde/IPS

O parto da memória (Fapesp)

HUMANIDADES

Criação tardia de uma Comissão da Verdade mostra como o Brasil enfrenta de modo peculiar o legado de violações dos direitos humanos

FABRÍCIO MARQUES | Edição 196 – Junho de 2012

© ANTONIO LÚCIO / AE. Manifestação pela anistia em São Paulo, em 1979…

O Brasil tem uma trajetória singular no enfrentamento do legado de violações de direitos humanos nos governos militares entre 1964 e 1985. Apenas agora, 27 anos após o retorno do poder aos civis, está sendo criada a Comissão Nacional da Verdade, que nos próximos dois anos colherá depoimentos de vítimas da repressão política e de agentes do Estado acusados de crimes e, ao cabo do trabalho, publicará um relatório narrando oficialmente as circunstâncias das violações e propondo ações para que não voltem a acontecer. A experiência brasileira é singular sob duas perspectivas. De um lado, trata-se da mais tardia das comissões criadas por cerca de 40 países nas últimas décadas para apurar crimes praticados durante ditaduras. De outro, o Brasil é um exemplo incomum de país que tomou diversas iniciativas para reparar crimes, como as indenizações a famílias de mortos pela ditadura e a perseguidos políticos, mas deixou a apuração dos fatos para mais tarde.

Por que o Brasil optou primeiro pelo caminho de reparações financeiras? Esta pergunta norteou a pesquisa de doutorado da cientista política Glenda Mezarobba, defendida na USP em 2008 com bolsa da FAPESP. Uma das conclusões principais de sua pesquisa, fertilizada por uma temporada de seis meses num centro de estudos em Nova York, foi que a Lei da Anistia de 1979 exerceu uma influência muito forte sobre o comportamento tanto dos agentes quanto das vítimas da repressão. Na Argentina, por exemplo, os militares se autoanistiaram pouco antes de entregarem o poder aos civis, em 1983, mas o perdão foi instantaneamente revogado pelo presidente civil, Raúl Alfonsín, pressionado por amplos setores da população que queriam justiça. A trajetória da apuração e das punições na Argentina teria altos e baixos. Houve quarteladas militares e leis, mais tarde revogadas, que determinaram o encerramento dos processos, mas a Justiça seguiu seu curso – hoje, os ex-ditadores Jorge Videla e Reynaldo Bignone cumprem prisão perpétua. Mesmo no Chile, onde a transição foi mediada pelo ex-ditador Augusto Pinochet, aboletado numa cadeira de senador vitalício, acordou-se a convocação de uma Comissão da Verdade e, mais tarde, os crimes acabaram sendo investigados sob pressão internacional. O próprio Pinochet foi mantido em prisão domiciliar em Londres, em 1998, acusado pela Justiça da Espanha de crimes cometidos contra cidadãos do país.

© DANIEL GARCIA / AFP …e passeata das mães da praça de Maio em Buenos Aires, em 1985: os militares do Brasil articularam o esquecimento, mas os da Argentina não resistiram aos pedidos de justiça

Já no Brasil, observa Glenda, a Lei da Anistia serviu de antídoto para neutralizar ânimos mais exigentes. “A anistia era reivindicada desde mea-dos dos anos 1960, se tornou palavra de ordem durante a ditadura e a mobilização que desencadeou no final da década de 1970, com a criação de comitês pela anistia no Brasil e na Europa, é apontada como precursora dos atuais movimentos de defesa dos direitos humanos no Brasil”, diz Glenda, que atualmente é pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu), e diretora da área de Humanas da FAPESP. “A Lei da Anistia foi discutida num Congresso cerceado pelos militares e sancionada pelo governo, mas o movimento pela anistia sentiu-se vitorioso. Foi uma lógica muito diferente da observada na Argentina ou no Chile. Lá não havia Congresso ou Parlamento aberto para legitimar a anistia. E ninguém queria perdão, mas justiça”, afirma. Salvo raras exceções, os beneficiados pela Lei da Anistia no Brasil não buscaram a Justiça para identificar e punir seus torturadores. “Num país em que há ‘leis que pegam’ e ‘leis que não pegam’, causa espanto a forma como a Lei da Anistia tem sido interpretada desde a ditadura. É certo que existe margem para a Justiça reinterpretar a Lei da Anistia, que, aliás, não faz menção ao crime de tortura, por exemplo, mas foram pouquíssimas as tentativas de testá-la nos tribunais. Os próprios anistiados têm dificuldade em se enxergar como vítimas e em perceber o Judiciário como a esfera de realização da Justiça”, diz a pesquisadora.

O campo de pesquisa a que Glenda Mezarobba se dedica é o da justiça de transição, que trata de iniciativas e mecanismos judiciais e extrajudiciais adotados por países para enfrentar legados de violações em massa de direitos humanos e referendados por instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Diante da impossibilidade material ou política de levar à Justiça um conjunto muito extenso de crimes, construíram-se estratégias para evitar a impunidade. As punições se concentram em crimes contra a humanidade ou genocídios, a exemplo dos julgamentos de criminosos nazistas após a Segunda Guerra Mundial. No cerne da  justiça de transição está a noção de que os Estados têm ao menos quatro deveres perante a sociedade – o da justiça, o da verdade, o da reparação e o das reformas – e que tais deveres podem ser cumpridos por intermédio de anistias para crimes menores, indenizações, pedidos públicos de desculpas, abertura de arquivos, construção de museus e memoriais, entre outros.

© USHMM. Julgamento de criminosos nazistas em Nuremberg, em 1946: o desafio de julgar e de punir crimes que mataram milhões

E, naturalmente, há o recurso das comissões da verdade, que buscam dar voz às vítimas, resgatar a memória do período de exceção e ajudar a construir o ambiente democrático – sem ter, contudo, poder de punir. “Em determinadas situações, a justiça de transição enfatiza a necessidade de se concentrar a atenção mais explicitamente na restauração do relacionamento entre as vítimas, os perpetradores e a sociedade, em vez da punição”, diz Lucia Elena Arantes Ferreira Bastos, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que no ano passado concluiu um pós-doutorado com bolsa da FAPESP. Essas comissões buscam administrar conflitos que não se encerraram com a passagem de um período de violações em massa de direitos humanos para um governo democrático. A Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul foi criada em 1993, num período em que confrontos raciais ainda eram frequentes, e buscava transformar a violência em diálogo. Foi fruto de uma longa negociação e procurava reconstruir a memória do período de violência, abrindo-se para depoimentos de vítimas, familiares e agentes repressores. Como o que se procurava era a reconciliação, havia um inédito mecanismo pelo qual os algozes que confessassem seus crimes seriam anistiados. “A maior inovação dos sul-africanos é aquela ligada a um princípio, o da anistia individual e condicional, em oposição às anistias gerais concedidas na América Latina sob pressão dos militares”, diz Luci Buff, autora de uma tese de doutorado em filosofia, defendida em 2007 na PUC de São Paulo, sobre os horizontes do perdão, na qual aborda o exemplo sul-africano. “O objetivo não era o de apagar, encobrir crimes, mas revelar. Os antigos criminosos tiveram a oportunidade de participar da reescritura da história nacional para serem perdoados”, afirmou. O artifício teve eficiência parcial. Houve confissões e anistia para apenas 17% dos crimes apurados pela comissão.

Há, é certo, poucas semelhanças entre a experiência sul-africana e a brasileira, como observa Edson Teles, professor de filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Guarulhos, e autor de uma tese de doutorado, com bolsa da FAPESP, sobre a trajetória das políticas de justiça e reparação no Brasil pós-ciclo militar e na África do Sul pós-apartheid. “O Brasil se encontra em momento muito diferente. A ditadura acabou há muito tempo, mas há heranças que precisam ser revistas. A comissão aqui busca a apuração histórica e a reconstrução da memória para obter a transformação política do presente”, afirma Teles, que pertence a uma família de presos políticos no Araguaia. “A nossa Comissão da Verdade igualmente não busca a punição de culpados, mas tem diferenças fundamentais. 
Enquanto a sul-africana é autônoma, a nossa é vinculada à Casa Civil da Presidência da República. É uma diferença relevante porque o que vai ser discutido são crimes de Estado e ainda há dentro do Estado herdeiros do legado de governos anteriores, como se vê nas manifestações das Forças Armadas. Há uma forte pressão, por isso a questão da autonomia é importante.”

© AFP PHOTO. Apoiadores da Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, em 1995: anistia para quem confessava

Mas a Comissão da Verdade brasileira pode desempenhar um papel histórico, observa Teles, como na construção de uma memória coletiva sobre o período. “A publicidade dos traumas e dos ressentimentos por meio das narrativas pode contribuir para a consumação do luto e para o aprimoramento dos elos sociais”, afirma. “A oposição entre a razão política pacificadora do Estado e as memórias doloridas sobre a ditadura militar brasileira obstrui a expressão pública da dor e reduz a memória às emoções privadas.” Outra contribuição importante pode ser colhida no campo do aprimoramento das instituições democráticas. Teles lembra que o Brasil ainda mantém leis e legados na estrutura do Estado dos tempos da ditadura e afirma que, na experiência de outros países, comissões da verdade sugeriram reformas nessas estruturas e ajudaram a montar o Estado democrático. “A tortura segue como uma prática corriqueira no aparelho policial brasileiro. Um dos benefícios que a Comissão da Verdade pode trazer é propor reformas das instituições. Isso, se ela tiver êxito em identificar tanto os responsáveis pelos atos criminosos quanto a estrutura que permitiu que esses atos acontecessem.”

Os estudos no campo da justiça de transição são recentes no Brasil. Para fazer sua tese de doutorado, a cientista política Glenda Mezarobba teve de passar seis meses em Nova York, fazendo pesquisa numa entidade que é referência nessa área, o International Center for Transitional Justice. “Havia pouca pesquisa no Brasil naquela época sobre esse tema e sentia falta de interlocutores, que encontrei nos Estados Unidos”, afirma. Na época em que esteve lá, o presidente do centro era o argentino Juan Méndez, que foi advogado de presos políticos na década de 1970, razão pela qual foi ele também preso e torturado, sendo expulso para os Estados Unidos em 1977, quando a organização Anistia Internacional adotou-o como prisioneiro de consciência. Atualmente é o relator especial das Nações Unidas para crimes de tortura. “Eu perguntava a ele sobre a anistia decretada ao final do governo militar na Argentina e ele não via sentido na minha pergunta. Foi aí que eu constatei que no Brasil, ao contrário da Argentina e do Chile, por exemplo, a água tem movimentado mais os moinhos do esquecimento”, afirma. Em Nova York, encontrou vasta bibliografia sobre o assunto, inclusive escrita no Brasil, mas não mais disponível aqui. “Sem ir a Nova York não teria feito a tese”, afirma a pesquisadora. Glenda é autora dos quatro verbetes sobre o Brasil que fazem parte da 1ª enciclopédia de justiça de transição, que a Cambridge University Press lança em dezembro.

© WIKIMEDIA. Refugiados do genocídio em Ruanda, que matou 800 mil em 1994: crimes contra humanidade testam os limites da justiça de transição

Quando, ainda no governo Lula, foi criado um grupo de trabalho para discutir o anteprojeto de lei que criaria a Comissão da Verdade, Glenda foi convidada a assessorar um dos membros do grupo, o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, professor da USP e fundador do Núcleo de Estudos sobre a Violência. “O empenho do então ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, foi fundamental para a criação desse grupo e fizemos, na época, um esforço para aproximar a academia do debate sobre a Comissão da Verdade”, diz Glenda. Antes disso, mas com o mesmo objetivo, ela coordenou, junto com Paulo Sérgio Pinheiro, em outubro de 2009, a Conferência Internacional sobre o Direito à Verdade, em São Paulo. O evento de dois dias reuniu pesquisadores de campos como o direito, a ciência política e as relações internacionais, além de autoridades e ativistas dos direitos humanos, vindos do Brasil e do exterior, com apoio da FAPESP. Para Paulo Sérgio Pinheiro, nomeado membro da Comissão da Verdade, a experiência das comissões de outros países e o engajamento da academia podem ajudar no trabalho da comissão brasileira. “O Brasil vai beneficiar-se da experiência de diferentes ‘comissões da verdade’ criadas no mundo desde os anos 80. Podemos aprender com comissões recentes, como a do Paraguai; ou do Uruguai, que teve uma grande participação das universidades; ou do Peru”, afirmou à agência BBC.

Uma das observações mais agudas da pesquisa de Glenda Mezarobba sugere que a ditadura brasileira foi mais habilidosa em ‘capturar corações e mentes’ de seus cidadãos do que as congêneres da América Latina. “Isso talvez ajude a entender por que a ditadura do Brasil foi ‘menos sangrenta’ do que a da Argentina e a do Chile. Ela não precisou ser mais sangrenta do que foi”, afirma. A apropriação da bandeira da anistia, transformando-a num dínamo do esquecimento, seria um exemplo dessa habilidade. Glenda também cita a eficiência da ditadura em impedir a entrada no país de observadores da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. “Na Argentina e no Chile o relato dos observadores teve papel fundamental na denúncia de violações de direitos humanos. No Brasil, nossa diplomacia foi ‘eficiente’ ao barrar essas iniciativas”, diz. Da mesma forma, o Brasil foi pouco acionado por tribunais de outros países por crimes cometidos contra seus cidadãos, ao contrário do que aconteceu com Argentina e Chile. “Só houve uma ação, movida na Itália”, afirma Glenda.

© AFP PHOTO. O ex-ditador chileno Augusto Pinochet, detido numa clínica em Londres em 1998: pressão da justiça internacional forçou tribunais chilenos a investigarem crimes

Durante a ditadura no Brasil a luta por anistia foi acompanhada pela defesa e promoção aos direitos humanos, pela volta da democracia e pela punição dos torturadores. Tal bandeira foi levantada por grupos de defesa dos direitos humanos e familiares de mortos e desaparecidos, mas não conseguiu reverberar na sociedade. E a resistência dos militares contra a apuração dos fatos, escorados na Lei da Anistia, prevaleceu. Isso não significa que o Estado brasileiro nada tenha feito no sentido de cumprir, ainda que parcialmente, suas obrigações desde então. Todos os presidentes civis que precederam Dilma Rousseff contribuíram de alguma forma para enfrentar o legado de violações em massa dos direitos humanos. José Sarney assinou os Pactos Internacionais das Nações Unidas sobre Direitos Civis e Políticos e a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes. Também durante o governo Sarney – mas sem participação oficial – foi divulgado o projeto Brasil: Nunca Mais (ver box, no final da matéria). Trata-se da mais importante iniciativa já feita até agora para revelar os fatos ligados à violação dos direitos humanos pela repressão política entre 1961 e 1979, por meio da sistematização de informações de processos do Superior Tribunal Militar. No governo Fernando Collor iniciou-se a abertura de alguns arquivos de órgãos estaduais de repressão que estavam sob a guarda da Polícia Federal. Sob a Presidência de Fernando Henrique Cardoso, foi sancionada a Lei dos Mortos e Desaparecidos, que reconhece a responsabilidade do Estado sobre 136 desaparecidos, e criou-se a Comissão de Anistia, que abriu caminho para a reparação financeira de perseguidos políticos que sofreram perdas econômicas em decorrência de atos de repressão política. O governo Lula seguiu pagando reparações e contribuiu com a divulgação de documentos públicos, por meio do portal Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional, e com a criação do grupo de trabalho que propôs o anteprojeto da lei que criou a Comissão da Verdade.

A Comissão da Anistia criada no governo Fernando Henrique para garantir reparações financeiras a vítimas da ditadura não foi constituída com propósitos investigativos. “Em nenhum momento a lei que criou a comissão fala em vítimas, mas em ‘anistiados’ ou ‘beneficiados pela anistia’”, diz Glenda. Para garantir a reparação financeira, basta provar a responsabilidade do Estado pela morte de um militante ou pelo prejuízo causado ao perseguido político – assim que isso acontecia, a investigação cessava, sem preocupação de apontar circunstâncias e personagens. “Caso típico de anistia em branco, o modelo de transição brasileiro negligenciou a demanda por esclarecimento dos crimes passados e, duas décadas depois, acolheu um princípio de responsabilidade difusa, legada indistintamente ao Estado, sem identificação de operadores individuais”, escreveram as pesquisadoras Cristina Buarque de Holanda, Vanessa Oliveira Batista e Luciana Boiteux, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado em 2010.

© ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL. Cerimônia de instalação da Comissão da Verdade, em Brasília: 27 anos depois, a decisão de investigar as violações do ciclo militar

Os mecanismos para garantir reparação financeira geraram distorções. “A reparação é necessariamente simbólica, uma vez que não é possível dimensionar materialmente a perda de uma vida ou o sofrimento numa sala de torturas”, observa Glenda Mezarobba. Seguindo exemplos internacionais, a indenização a familiares de mortos e desaparecidos foi arbitrada em cerca de US$ 150 mil. Mas nos processos dos perseguidos políticos, em que se avaliava o prejuízo financeiro causado por demissões ou por exílio, o montante pode chegar à casa dos milhões. “A lei 10.559 foi construída de forma equivocada”, diz a pesquisadora, que entrevistou o ex-presidente Fernando Henrique sobre o assunto para sua tese. “Perguntei por que o Brasil seguiu o caminho das reparações. Ele atribuiu à nossa herança patrimonialista”, diz, referindo-se àquela característica de um Estado que não esboça distinção entre os limites do público e do privado.

O advento da Comissão da Verdade brasileira também pode ser visto como uma resposta à recente pressão internacional contra a resistência do Brasil em apurar os crimes do período militar – em 2010, por exemplo, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos por não ter punido os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos ocorridos na Guerrilha do Araguaia. O tribunal concluiu que o Estado brasileiro é responsável pelo desaparecimento de 62 pessoas, ocorrido entre 1972 e 1974, e determinou que sejam feitos todos os esforços para localizar os corpos. “A postura negacionista do Brasil chocou-se com a guinada do direito internacional acerca das violências cometidas por Estados”, diz Lucia Bastos, que é autora de uma tese de doutorado sobre as leis de anistia em face do direito internacional. Em 2005, a ONU aprovou um conjunto de princípios sobre o direito das vítimas de violações dos direitos humanos, que estabeleceu diretrizes para reparações. “Sentenças e documentos de instâncias como a Corte Interamericana dos Direitos Humanos passaram a apontar enfaticamente no sentido de considerar ilegais as anistias em branco e de chancelar mecanismos extrajudiciais capazes de combater a impunidade e reconciliar a sociedade. Eles formam os pilares da justiça de transição e foram erguidos não apenas a partir da teoria, mas também das experiências concretas”, afirma a pesquisadora.

Lucia observa que a adoção de mecanismos de justiça de transição vem se consolidando desde o fim da Guerra Fria. “Em duas décadas, comissões da verdade se multiplicaram, houve um desenvolvimento sem precedentes no que diz respeito à justiça internacional penal e nunca existiram antes tantos pedidos de desculpa e concessão de reparações a vítimas de violações de direitos humanos”, diz Lucia. “Mas a justiça de transição deparou-se com fatos contraditórios, divididos entre momentos de esperança e tragédia, que aqueceram o debate a respeito de qual seria a melhor forma de se alcançar a reconciliação, se uma política de perdão ou de punição”, afirma. Do lado da esperança, houve o colapso das ditaduras comunistas, o fim do apartheid na África do Sul e a consolidação das democracias na América Latina. Do lado trágico, houve o genocídio em Ruanda e a limpeza étnica na ex-Iugoslávia. “Atualmente, a justiça internacional trabalha com ambas as proposições, tanto os mecanismos extrajudiciais para a reconstrução da sociedade como as punições.”

Brasil: Nunca Mais on-line

© FOLHAPRESS. Dom Paulo Evaristo Arns…

Estão sendo digitalizados os documentos do projeto Brasil: Nunca Mais, iniciativa liderada pelo cardeal católico dom Paulo Evaristo Arns e o pastor presbiteriano Jaime Wright que gerou a mais importante documentação sobre a repressão política no Brasil entre 1961 e 1979. No horizonte de um ano, os documentos estarão disponíveis para consulta na internet. A digitalização está sendo feita pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, a partir de microfilmes guardados nos Estados Unidos. O Arquivo Edgard Leuenrouth (AEL), da Unicamp, que abriga a coleção de documentos, está conferindo a versão digitalizada e sanando eventuais falhas, fornecendo processos que não foram microfilmados. Nessa fase do processo, o AEL utiliza equipamentos adquiridos por meio do Programa de Infraestrutura da FAPESP, que viabilizou investimentos de cerca de R$ 590 mil no Arquivo. “Estamos em fase de conferência e de tratamento de imagens”, diz Alvaro Bianchi, diretor do AEL e professor de ciência política da Unicamp. Desde 1987, a Unicamp abriga a coleção de documentos, que reúne mais de 1 milhão de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM) e seus 10 mil anexos.

Os documentos foram obtidos de forma quase clandestina por um grupo de 30 ativistas dos direitos humanos. Alguns deles optaram pelo anonimato. Entre 1979 e 1985, essa equipe consultou e gerou cópias de processos no STM que continham, por exemplo, as denúncias de torturas apresentadas pelos presos políticos nos tribunais. “Sua publicação precedeu a divulgação de uma lista com o nome de 444 torturadores, mas nem o livro nem a identificação dos agentes despertaram reação em grande escala pelo fim da impunidade aos acusados de violar direitos humanos”, diz a cientista política Glenda Mezarobba. Tornou-se uma espécie de versão oficial dos fatos, embora tenha sido feito à revelia do governo. Segundo Alvaro Bianchi, o Brasil: Nunca Mais é uma das coleções mais consultadas do AEL. Serviu de base para muitos estudos e teses sobre a história da esquerda, a resistência ao governo militar e o movimento estudantil, mas foi pouco aproveitado para estudos sobre direitos humanos. “O interesse principal dos pesquisadores tem sido os documentos apreendidos que foram anexados aos processos. Eles constituem uma fonte de informações de difícil obtenção”, afirma.

© FOLHAPRESS …e Jaime Wright: à revelia do governo, operação para reunir a mais importante documentação sobre repressão política

Desenvolvimento sustentável requer transformação também na ciência (Fapesp)

Em novo paradigma da ciência para a sustentabilidade global, cientista tende a ser mais multidisciplinar e mais participativo na sociedade, segundo Lidia Brito, diretora da Divisão de Políticas Científicas da Unesco (foto:Unesco)

13/06/2012

Por Fábio de Castro, do Rio de Janeiro

Agência FAPESP – Depois de concluir que é preciso reinaugurar a relação entre a ciência e a sociedade para viabilizar as ações necessárias para a sustentabilidade global, a comunidade científica internacional se deu conta de que já foi dado o primeiro passo nessa direção.

A ciência para a sustentabilidade, um novo paradigma do conhecimento, já está sendo construída, segundo Lidia Brito, diretora da divisão de Políticas Científicas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Ex-ministra da Ciência de Moçambique, Brito participa no Rio de Janeiro do “Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development”, que ocorre até sexta-feira (15/06).

O evento de cinco dias tem o objetivo de debater uma nova agenda científica internacional para o período que se seguirá à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20) – que será realizada também na capital fluminense entre 13 e 22 de junho.

O fórum é organizado pelo Conselho Internacional para a Ciência (ICSU, na sigla em inglês), em parceria com Unesco, a Federação Mundial das Organizações de Engenharia (WFEO), o Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

As discussões no fórum estão alinhadas com a Declaração sobre o Estado do Planeta, documento que sintetizou o resultado dos debates da reunião Planet Under Pressure, copresidida por Brito, em Londres (Inglaterra), onde mais de 3 mil cientistas envolvidos com diversos temas socioambientais discutiram qual seria a posição da comunidade científica internacional na RIO+20.

Uma das principais conclusões da declaração é que o sistema terrestre tem limites para sua exploração e os atuais níveis de pressão nesse sistema poderão levar a uma emergência humanitária de escala global, com a intensificação das crises sociais, econômicas e ambientais.

A superação desses problemas exigirá um novo pacto entre a ciência e a sociedade, com maior conectividade entre as lideranças de todos os setores, e, de acordo com Brito, essa mudança já está em andamento.

Em entrevista à Agência FAPESP, Brito falou sobre o novo paradigma para a sustentabilidade global, que requer um cientista cada vez mais multidisciplinar e mais participativo na sociedade. Explicou ainda por que rejeita a expressão “economia verde” e defendeu que o PIB é insuficiente para medir o sucesso do desenvolvimento de um país.

Agência FAPESP – A comunidade científica chega à RIO+20 com uma mensagem clara para a sociedade?
Lidia Brito – Há uma posição clara e algumas mensagens. Uma das grandes conclusões da comunidade científica do planeta é que entramos em uma nova era, o Antropoceno. Uma era em que o homem é a maior força a conduzir os destinos do planeta. Portanto, há uma nova responsabilidade do ponto de vista da humanidade em relação ao planeta. Outra conclusão é que o Antropoceno é uma era de interconexões, na qual tudo está interligado. Essa interconexão também ocorre em um ponto crítico, que são as fronteiras planetárias. Nas mudanças que introduzimos no sistema planetário, estamos a atingir essas fronteiras interligadas. Não é só o aumento da temperatura isoladamente, nem a acidificação dos oceanos, nem a perda da biodiversidade de forma individual, mas é como tudo isso está ligado.

Agência FAPESP – É correto dizer que essa mesma profusão de interconexões que gera os problemas globais também proporciona oportunidades para lidar com eles?
Lidia Brito – Sim. Essa interconexão profunda é um risco, porque o que quer que seja que façamos para empurrar uma dessas fronteiras, a fim de manter seu nível de estabilidade, irá criar instabilidade e incertezas em todas as outras fronteiras. Mas temos também que ver essa sociedade e esse sistema planetário interconectados como uma oportunidade inédita que nos é oferecida. Porque a mudança é mais rápida. Ideias e soluções que podem nos levar para uma zona de maior estabilidade são mais viáveis, porque tudo está ligado. Isso, por outro lado, faz com que a ciência tenha que mudar. Esse é um grande desafio que temos pela frente.

Agência FAPESP – O que o cientista precisa mudar em sua atitude e seu modo de trabalhar, tanto individualmente como coletivamente?
Lidia Brito – Individualmente, o cientista tem que entender que já não é suficiente trabalhar apenas na zona de conforto de sua disciplina, mas que é necessário se ligar com outras áreas de ciência, a outros sistemas de conhecimento, para que juntos novas soluções possam aparecer. São soluções às vezes até enraizadas em conhecimento já existente, mas só o fato de trazer outras disciplinas, outras formas de estar nas ciências, outras metodologias, outras perspectivas, dá um campo diferente para encontrar soluções.

Agência FAPESP – É preciso refletir a interconectividade no interior da própria atividade científica?
Lidia Brito – Sim, exatamente, com multidisciplinaridade e até mesmo transdisciplinaridade. Usar inclusivamente metodologias de outras áreas de ciência para nosso próprio campo científico. Isso é um desafio importante para o cientista da atualidade: abrir-se a outras comunidades, a outros colegas e outras áreas de ciência. Em nível global coletivo, da ciência como uma comunidade planetária, não só devemos trabalhar juntos nas diferentes perspectivas do conhecimento, mas principalmente engajarmo-nos em uma interação muito mais aberta com a sociedade e os tomadores de decisão – em nível do governo, do setor privado e da sociedade civil – para codesenhar e coproduzir essas soluções que são necessárias para uma sustentabilidade global.

Agência FAPESP – O cientista precisa aumentar seu poder de influência para ser capaz de trazer subsídios científicos para os processos decisórios?
Lidia Brito – Claro. Para isso é preciso interagir de uma forma que essas outras comunidades não se sintam fora da decisão ou do desenho daquilo que é a questão científica. O cientista não deve ditar soluções unilateralmente com base em seu conhecimento, ou não atingirá a sociedade. Seu verdadeiro papel na atualidade é dizer quais são as questões que enfrentamos como humanidade e como nós todos – comunidade científica, gestores políticos, setor privado, sociedade civil – vamos encontrar juntos soluções com base científica para essas questões que afligem a todos nós.

Agência FAPESP – Isso será um processo longo?
Lidia Brito – Acho que é uma questão que demanda urgência. Não podemos esperar muito tempo para fazer essa mudança. O que foi bom em todo esse processo é que já temos uma iniciativa, oFuture of Earth, que procura, da parte da comunidade científica em nível global, trazer todas as ciências e os stakeholders – os intervenientes do processo de desenvolvimento sustentável – para a mesa, a fim de definir quais são as questões que temos que investigar e juntos vamos conseguir fazer isso. É um momento interessante, porque está a haver como que um rearranjo da governança científica e da forma como nós olhamos fazer ciência, que está claramente na mesa e está claramente a influir. E penso que é emblemático que isto esteja a acontecer de novo no Rio de Janeiro. Porque em 1992 houve uma mudança drástica, que, acredito, ocorre mais uma vez em 2012. A comunidade científica está a trazer para a RIO+20 sua convicção em dizer: já percebemos o que é preciso mudar, vamos todos mudar juntos. É isso que trazemos para a mesa na Conferência.

Agência FAPESP – Fala-se também de tecnologia nesse fórum. Muitas vezes há uma impressão distorcida do papel da tecnologia, como se ela tivesse a função de fornecer soluções para que se possa manter o chamado cenário business as usual, isto é, seguir no mesmo padrão de consumo, produção e pressão ambiental atual. Como contornar essa distorção?
Lidia Brito – Simplesmente não podemos manter esses padrões. Está fora de questão. A tecnologia tem um papel enorme nesse processo e desenvolvimento sustentável. Mas, por si própria, a tecnologia não dá conta. Ela tem que ser acompanhada por uma transformação social e uma consciência e um compromisso social de que temos que trazer a sustentabilidade global como algo que tem que fazer parte do nosso próprio tecido. Em cada dia, em cada ação que tomamos, a sustentabilidade global precisa estar presente. O que faz diferença, talvez, é esse termo “global”. Nem norte nem sul, nem rico nem pobre. Todos nós. Tem que estar no tecido de nossas nações e do nosso comportamento individual e coletivo. Só assim poderemos aspirar a um mundo mais estável.

Agência FAPESP – A consciência dessa centralidade do desenvolvimento sustentável está arraigada até que ponto na comunidade científica?
Lidia Brito – A Unesco, quando publicou o Relatório da Ciência em 2010, já tinha mostrado que havia uma mudança efetiva no cenário da comunidade cientifica. O que vemos, objetivamente, é muito mais colaboração internacional, muito mais ciência interdisciplinar. Acreditamos que já inclusivamente estamos em uma mudança de paradigmas. A ciência para a sustentabilidade global é o novo paradigma da ciência.

Agência FAPESP – Então a ciência para a sustentabilidade global não é apenas uma aspiração dos pesquisadores, mas uma nova realidade que começa a tomar forma?
Lidia Brito – É algo que está a permear as várias escolas e vários níveis da produção de conhecimento e de ciência. Um exemplo disso é a iniciativa Future of Earth, que é um comprometimento da comunidade científica de que vamos trabalhar juntos nas varias áreas de saber. É também um compromisso daqueles que apoiam a pesquisa global: os financiadores da pesquisa estão conosco nesse comprometimento. Estamos prontos para fazer outro tipo de ciência que responde melhor aos desafios globais. Agora, há muita coisa a fazer. E um dos grandes desafios é garantir que não haja exclusões nesses processos. Parte desse movimento consiste em criar capacidade científica em países que não a têm. E o Brasil é um país que claramente tem um papel enorme nisso.

Agência FAPESP – Por quê?
Lidia Brito – Porque vocês conseguiram criar a vossa capacidade científica nas várias áreas do saber. O Brasil tem experiências nessa coprodução, nessa multidisciplinaridade na abordagem da ciência para o desenvolvimento sustentável. O Brasil pode ser um modelo para o estabelecimento de metas nesse contexto. É um país que mostrou muita capacidade de trazer juntas as redes do conhecimento. Em muitos aspectos vocês estão na dianteira, é simbólico que estejamos discutindo isso no Rio de Janeiro.

Agência FAPESP – Vários pesquisadores brasileiros que temos entrevistado têm demonstrado certo ceticismo em relação à chamada “economia verde”. Qual resposta se pode dar a eles?
Lidia Brito – Para ser honesta, nós na Unesco não falamos em economia verde. Falamos de sociedade verde. Penso que o ceticismo dos investigadores vem daí: a discussão não é sobre economia. O que temos certeza é que, no Antropoceno, não é possível falar apenas de um dos blocos do desenvolvimento sustentável. A economia não pode ser discutida sem as questões sociais, culturais e ambientais. Elas estão interligadas e não podem ser tratadas de forma independente. Fico satisfeita com os cientistas brasileiros, que não querem falar apenas em economia. Temos que falar em sociedade verde, para destacar essa força de mudança.

Agência FAPESP – A senhora é a favor de abandonar o conceito de PIB e criar outras medidas de prosperidade?
Lidia Brito – Claramente não podemos ter só o PIB como medida de sucesso de uma sociedade. O PIB é muito restrito, não mede inclusão social, nem a harmonia entre homem e natureza, não mede o bem-estar das pessoas, nem a equidade. Temos que ter outras medidas. Por isso, nas conclusões do Planet under Pressure, dissemos: usem a comunidade cientifica para definir outras metas. Para desenvolver modelos de medida integrada da economia, sociedade e ambiente. Sim, sou uma das defensoras de que precisa haver outras medidas de sucesso de um país que considerem o desenvolvimento sustentável em todos seus pilares.

Desenvolvimento Sustentável: Estado Sólido, Líquido ou Gasoso? (Plurale)

Envolverde Rio + 20
14/6/2012 – 10h48

por Patricia Almeida Ashley*

c27 300x260 Desenvolvimento Sustentável: Estado Sólido, Líquido ou Gasoso?Faço aqui uma reflexão sobre as discussões em andamento sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Goals) para uma possível ação a ser acordada entre os países representados na Rio+20.

Percebo uma ansiedade por um “estado sólido”, paupável, mensurável, segurável, assegurável, verificável, comprovável, comparável, planejável, previsível, reproduzível, sempre que se fala em Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como resultados e impactos a serem desdobrados em Indicadores e Metas para serem usados por todos os países e regiões no mundo. Haja números e estatísticas e equações!!!. Para mim, reflete uma racionalidade mecanicista, positivista, típica da abordagem científica hipotético-dedutiva e cartesiana, que pressupõe equações lineares, métodos estatísticos e métricas parametrizáveis para comparações, rankings, previsões. Típica de formação de engenharias e outras ciências que requerem, para a sua contribuição na formação do conhecimento humano, estruturas mensuráveis.

Quando passamos a conceber os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como algo mais pertinente a processos e capacidades para que as sociedades renovem seus sistemas jurídicos, normativos, suas lógicas anacrônicas para a educação, reprodução, produção e consumo, estamos passando para um “estado líquido” de concepção de desenvolvimento sustentável, algo como a água que não se perde ao cruzar com as pedras, mas as contorna, sofre com contaminações, mas se evapora, se desmancha para um novo ciclo de vida. Ou seja, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável não passam mais a ser comparáveis em métricas entre países, pois somos águas e terrenos distintos, mas somos passíveis de trocas, intercâmbios, aprendizagens, intenções e ações para que nossas águas sempre se renovem e gerem vida.

E se caminharmos para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como algo mais pertinente a princípios, valores, sensações, sentimentos, afetos, daí caminharemos para a qualidade espiritual da humanidade em harmonia com a Terra e com o Cosmos, passando a enxergar o quão grande é a família a que pertencemos e o que viemos fazer aqui e agora e com todos que percebemos estar e viver e morrer. Digo que é desenvolvimento sustentável como “estado gasoso” que trabalha pela inteligência espiritual, pela evolução de consciências, pelo desapego à limitação da expressão sólida apenas perceptível pelos cinco sentidos. Como medir em indicadores e metas o que atingimos e atuamos quando podemos nos abraçar profundamente e sem medo? Já experimentou algo assim? Percebe o que muda em sua hierarquia de valores? Entende por que podemos ser plenamente realizados sem ter que ter que ter que ter, mas sendo o ser para ser o ser entre seres?

O artigo Why we need sustainable development goals?, que replico mais abaixo e originalmente publicado em Why we need Sustainable Development Goals – SciDev.Net, foi o que me provocou as reflexões que escrevi acima. Coloco, como contraposição, o excelente artigo elaborado por Benedito Silva Neto e David Basso, publicado na Revista Ambiente e Sociedade, em 2010, sob título A ciência e o desenvolvimento sustentável: para além do positivismo e da pós-modernidade, que nos ajuda a sair do estado sólido, transitar pelo necessário estado líquido para atingir e recuperarmos o estado gasoso do desenvolvimento sustentável.

Patricia Almeida Ashley é colunista de Plurale, professora e coordenadora da Rede EConsCiência e Ecocidades da Univesidade Federal Fluminense.

* Publicado originalmente no site Plurale.

Ética para uma civilização ecológica (IPS)

Envolverde Rio + 20
13/6/2012 – 10h11

por Suvendrini Kakuchi, da IPS

Slide31 Ética para uma civilização ecológicaTóquio, Japão, 13/6/2012 – Ecologistas japoneses promovem o conceito de ética como forma de exercer pressão na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá na próxima semana no Rio de Janeiro. O enfoque tem o objetivo de promover a responsabilidade ambiental. “A ética ambiental se baseia no conceito de que as pessoas assumam sua responsabilidade na preservação dos recursos naturais e da biodiversidade. Ao destacar este aspecto, procuramos combater o lugar prioritário do crescimento econômico, que conspirou contra cúpulas anteriores”, afirmou Ryoichi Yamamoto, especialista em desenvolvimento e professor da Universidade de Tóquio.

Na Rio+20 será negociada a transição para uma economia verde como forma de preservar o ar, a terra e a biodiversidade do planeta. Os ativistas temem que o debate sobre o futuro do planeta volte a ter uma forte ênfase no uso de tecnologias para combater a contaminação e a exploração dos recursos naturais, e assim favorecer o crescimento econômico, como ocorreu desde que o desenvolvimento sustentável passou a ser um tema global, em 1992.

Esse enfoque não garantiu uma adequada proteção dos recursos naturais nem dos ecossistemas delicados, segundo ativistas. Por exemplo, mais de cem países entraram em acordo sobre o objetivo ambicioso de manter o aquecimento global abaixo de dois graus, colocando limites às emissões contaminantes de cem bilhões de toneladas de dióxido de carbono até 2050. Contudo, ao que parece, é impossível cumprir a meta.

Numerosos estudos indicam que já foi emitido um terço da cota permitida nos últimos nove anos no planeta, especialmente desde que grandes economias, como China e Índia, passaram a ser grandes contaminadoras. Além disso, apesar do crescimento econômico superior a 8% em países como estes dois, a brecha entre ricos e pobres aumenta. O Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), diz que a expectativa de vida, o analfabetismo e a mortalidade infantil são quase sete vezes maiores nos pequenos povoados da China do que nas grandes cidades.

Para fazer frente a essa tendência alarmante, Yamamoto lidera uma campanha para criar o Grupo de Ética para uma Civilização Ecológica, como agência especial da Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa busca fortalecer o contexto institucional do desenvolvimento sustentável mediante a colaboração entre ciência, cultura e religião. Excelentes pesquisas científicas, que avaliam desde a vulnerabilidade dos ecossistemas até o crescimento econômico, oferecem amplo conhecimento para incidir nas decisões políticas, destacou Yamamoto à IPS.

“Entretanto, o que falta é um desenvolvimento sustentável baseado na perspectiva de uma civilização ecológica, que possa existir em harmonia com os sistemas naturais”, acrescentou Yamamoto. A proposta de um enfoque ético para encontrar soluções na Rio+20 ganhou força no Japão depois da catástrofe nuclear de 2011. “O desastre levou à revisão do êxito econômico desse país. Apesar do grande crescimento do pós-guerra, o ocorrido foi uma dura lição sobre a vulnerabilidade dos materiais enriquecidos e convenceu a população de que a proteção do meio ambiente não pode ficar em segundo lugar”, ressaltou.

O apoio público à energia nuclear diminuiu drasticamente, e quase 70% da população se opõem a recuperar os reatores, apesar de até o desastre do ano passado ser considerada o eixo do desenvolvimento neste país de poucos recursos. As pesquisas de opinião indicam que nem mesmo a ameaça de escassez de energia durante o verão fez com que a população deixasse de ser contra a energia nuclear.

Há cinco anos, Teruyuki Matsushita inaugurou o Clube Donguri, uma pequena organização dedicada a conscientizar sobre o papel da floresta no município de Mihama, onde também há três reatores nucleares. “Meu trabalho contra a energia atômica traz um grande desafio, e para conseguir apoio público tive que demonstrar que a selva pode oferecer emprego que fomenta um desenvolvimento sustentável. Por isto, comecei o Clube Donguri, educamos as pessoas e ganhamos a vida com o corte e a venda de produtos como flores”, explicou Matsushita à IPS.

Como mais da metade da população mundial trabalha na agricultura, Takumo Yamada, da Oxfam Tóquio, destacou que a Rio+20 é uma plataforma crucial para discutir alternativas para um sistema no qual as corporações multinacionais fixam a agenda que afeta milhões de agricultores nos países em desenvolvimento. “O discurso no Rio de Janeiro não deverá estar dominado por empresas ricas que mostram produtos de alta tecnologia como solução para os governos que querem erradicar a pobreza e lidar com os problemas de energia”, afirmou à IPS. “Deve haver uma mudança de modelo na forma de pensar na Rio+20. Devemos trabalhar no âmbito global para conseguir justiça ambiental e objetivos de igualdade e sustentabilidade”, concluiu.

Envolverde/IPS

Coastal N.C. counties fighting sea-level rise prediction (News Observer)

MON, MAY 28, 2012 10:50 PM

BY BRUCE HENDERSON
The News & Observer Publishing Company

State lawmakers are considering a measure that would limit how North Carolina prepares for sea-level rise, which many scientists consider one of the surest results of climate change.

Federal authorities say the North Carolina coast is vulnerable because of its low, flat land and thin fringe of barrier islands. A state-appointed science panel has reported that a 1-meter rise in sea level is likely by 2100.

The calculation, prepared for the N.C. Coastal Resources Commission, was intended to help the state plan for rising water that could threaten 2,000 square miles. Critics say it could thwart economic development on just as large a scale.

A coastal economic development group called NC-20 attacked the report, insisting the scientific research it cited is flawed. The science panel last month confirmed its findings, recommending that they be reassessed every five years.

But NC-20, named for the 20 coastal counties, appears to be winning its campaign to undermine them.

The Coastal Resources Commission agreed to delete references to planning benchmarks – such as the 1-meter prediction – and new development standards for areas likely to be inundated.

The N.C. Division of Emergency Management, which is using a $5 million federal grant to analyze the impact of rising water, lowered its worst-case scenario prediction from 1 meter (about 39 inches) to 15 inches by 2100.

Politics and economics in play

Several local governments on the coast have passed resolutions against sea-level rise policies.

When the General Assembly convened this month, Republican legislators went further.

They circulated a bill that authorizes only the coastal commission to calculate how fast the sea is rising. It said the calculations must be based only on historic trends – leaving out the accelerated rise that climate scientists widely expect this century if warming increases and glaciers melt.

The bill, a substitute for an unrelated measure the N.C. House passed last year, has not been introduced. State legislative officials say they can’t predict how it might be changed, or when or whether it will emerge.

Longtime East Carolina University geologist Stan Riggs, a science panel member who studies the evolution of the coast, said the 1-meter estimate is squarely within the mainstream of research.

“We’re throwing this science out completely, and what’s proposed is just crazy for a state that used to be a leader in marine science,” he said of the proposed legislation. “You can’t legislate the ocean, and you can’t legislate storms.”

NC-20 Chairman Tom Thompson, economic development director in Beaufort County, said his members – many of them county managers and other economic development officials – are convinced that climate changes and sea-level rises are part of natural cycles. Climate scientists who say otherwise, he believes, are wrong.

The group’s critiques quote scientists who believe the rate of sea-level rise is actually slowing. NC-20 says the state should rely on historical trends until acceleration is detected. The computer models that predict a quickening rate could be inaccurate, it says.

“If you’re wrong and you start planning today at 39 inches, you could lose millions of dollars in development and 2,000 square miles would be condemned as a flood zone,” Thompson said. “Is it really a risk to wait five years and see?”

State planners concerned

State officials say the land below the 1-meter elevation would not be zoned as a flood zone and off-limits to development. Planners say it’s crucial to allow for rising water when designing bridges, roads, and sewer lines that will be in use for decades.

“We’re concerned about it,” said Philip Prete, an environmental planner in Wilmington, which will soon analyze the potential effects of rising water on infrastructure. “For the state to tie our hands and not let us use the information that the state science panel has come up with makes it overly restrictive.”

Other states, he said, are “certainly embracing planning.”

Maine is preparing for a rise of up to 2 meters by 2100, Delaware 1.5 meters, Louisiana 1 meter and California 1.4 meters. Southeastern Florida projects up to a 2-foot rise by 2060.

Dueling studies

NC-20 says the state should plan for 8 inches of rise by 2100, based on the historical trend in Wilmington.

The science panel based its projections on records at the northern coast town of Duck, where the rate is twice as fast, and factored in the accelerated rise expected to come later. Duck was chosen, the panel said, because of the quality of its record and site on the open ocean.

The panel cites seven studies that project global sea level will rise as much as 1 meter, or more, by 2100. The Intergovernmental Panel on Climate Change estimated in 2007 a rise of no more than 23 inches, but did not factor in the melting land ice that many scientists now expect.

NC-20’s science adviser, Morehead City physicist John Droz, says he consulted with 30 sea-level experts, most of them not named in his latest critique of the panel’s work. He says the 13-member panel failed to do a balanced review of scientific literature, didn’t use the best available science and made unsupported assumptions.

“I’m not saying these people are liars,” Thompson said. “I’m saying they have a passion for sea-level rise and they can’t give it up.”

John Dorman of the N.C. Division of Emergency Management, which is preparing a study of sea-level impact, said an “intense push” by the group and state legislators led to key alterations.

Instead of assuming a 1-meter, worst-case rise, he said, the study will report the impact of seas that rise only 3.9, 7.8, 11.7 and 15.6 inches by 2100. The 1-meter analysis will be available to local governments that request it.

“It’s not the product we had put the grant out for,” Dorman said, referring to the $5 million from the Federal Emergency Management Agency that’s paying for the study. Coastal communities will still find the work useful, he predicts.

The backlash on the coast centers on the question of whether sea-level rise will accelerate, said Bob Emory, chairman of the Coastal Resources Commission.

Emory, who lives in New Bern, said the commission deleted wording from its proposed sea-level rise policy that hinted at new regulations in order to find common ground. “Any remaining unnecessarily inflammatory language that’s still in there, we want to get out,” he said.

New information will be incorporated as it comes out, he said.

“There are people who disagree on the science. There are people who worry about what impact even talking about sea-level rise will have on development,” Emory said. “It’s my objective to have a policy that makes so much sense that people would have trouble picking at it.”

In written comments, the N.C. Department of Environment and Natural Resources said the legislation that circulated earlier this month appeared consistent with the coastal commission’s policy changes.

But the department warned of the “unintended impacts” of not allowing agencies other than the coastal commission to develop sea-level rise policies. The restriction could undermine the Division of Emergency Management’s study, it said, and the ability of transportation and emergency-management planners to address rising waters.

The N.C. Coastal Federation, the region’s largest environmental group, said the bill could hurt local governments in winning federal planning grants. Insurance rates could go up, it says.

Relying solely on historical trends, the group said, is like “being told to make investment decisions strictly on past performance and not being able to consider market trends and research.”

A poucos dias de seu início, Xingu+23 recebe apoio de artistas, cantores e ambientalistas (Adital)

Belo Monte
11/6/2012 – 06h46

por Natasha Pitts, da Adital

A cada dia o Xingu+23, que acontecerá de 13 a 17, em Vitória do Xingu, Estado do Pará (Norte do país), para debater a resistência à hidrelétrica Belo Monte, recebe mais adesões. Além de artistas que já haviam confirmado presença no evento, há poucos dias o cantor Gilberto Gil, a ambientalista e ex-ministra Marina Silva, o cantor Arnaldo Antunes, e o teólogo, filósofo e escritor Leonardo Boff também divulgaram apoio à iniciativa.

Para chamar ainda mais atenção para a luta contra o megaempreendimento do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), Gilberto Gil cedeu sua canção Um sonho para ser transformada em clipe. Em poucos dias a música, que apesar de ser de 1977 ainda é atual, se tornou o hino do evento, por falar claramente sobre a luta contra o desenvolvimentismo, principal discurso em torno de Belo Monte.

c83 A poucos dias de seu início, Xingu+23 recebe apoio de artistas, cantores e ambientalistas

Por meio de ações como estas, sobretudo nas mídias sociais, o evento ganhou mais repercussão e deverá receber além de artistas, cantores e ambientalistas de Belém, São Paulo e São Luís, ativistas dos Estados Unidos e da Turquia.

Apesar da intensa participação de outros atores sociais, o Xingu+23 é voltado especialmente para pescadores, ribeirinhos, indígenas, agricultores e demais afetados por Belo Monte com o intuito de discutir as ações de resistência, conversar sobre o futuro do(as) atingidos(as) e suas famílias e fortalecer as ações da população local.

O Xingu+23 faz uma referência ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, ocorrido em 1989 em Altamira e organizado pelos kaiapó com a intenção de protestar contra as decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios e repudiar a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu. No encontro, os indígenas e ativistas conseguiram a primeira vitória na luta contra Belo Monte, pois impediram o primeiro projeto de barramento do rio.

Durante o Xingu+23, os participantes também querem marcar um importante momento de luta e resistência no Brasil. Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) e da Cúpula dos Povos, que acontecerão no Rio de Janeiro, o Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS) e seus parceiros decidiram chamar atenção da comunidade nacional e internacional para os impactos sociais e ambientais de Belo Monte e para as ilegalidades que cercam o seu processo de implantação.

Os interessados em participar podem encontrar informações no site oficial do evento. A estrutura oferecida é um acampamento com espaço para barracas e redes. No local não há sinal de telefonia, nem internet.

Programação

O Xingu+23 terá início na quarta-feira, dia 13, em Vila Santo Antônio, a 50 quilômetros de Altamira. A comunidade não foi escolhida por acaso. A Vila foi desapropriada quase em sua totalidade pela concessionária Norte Energia devido à proximidade do maior canteiro de obras de Belo Monte. Após a recepção e o credenciamento, acontecerá um debate sobre violações do Licenciamento e Instalação de Belo Monte. O dia será encerrado com a celebração da tradicional missa de Santo Antônio.

No dia 14, ainda na Vila, os atingidos pela obra vão se reunir em grupos para um debate. A programação do dia acabará com uma audiência pública em Altamira. A sexta-feira (15) será reservada para uma marcha e um ato público. Neste dia, a partir das 8h os(as) participantes vão iniciar a concentração em frente à empresa de energia Rede Celpa (Avenida 7 de setembro, 2190).

Já no sábado, dia 16, acontece a assembleia final do evento seguida por torneio de futebol e a festa do padroeiro da Vila. No domingo, acontece o encerramento.

* Publicado originalmente no site Adital.

Liderança “verde” do Brasil cética com a Rio+20 (Envolverde/IPS)

Envolverde Rio + 20
11/6/2012 – 07h41

por Fabíola Ortiz, da IPS

e11 300x225 Liderança “verde” do Brasil cética com a Rio+20

Marina Silva. Foto: Divulgação.

Rio de Janeiro, Brasil, 11/6/2012 – A agenda para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece este mês no Brasil, ainda carece de prioridades e seus resultados podem ficar sepultados diante das urgências da crise econômica global, afirmou a ex-ministra brasileira de Meio Ambiente (2003-2009), Marina Silva. O documento final da Rio+20 continua sendo “fraco e geral” e não contém contribuições que superem o que foi feito nos últimos 20 anos, desde a Cúpula da Terra de 1992, opinou Marina em entrevista a jornalistas de meios internacionais.

“A discussão sobre economia verde, desenvolvimento social e governança perdeu força, por isso qualquer acordo geral, que não tenha uma atitude crítica e não incorpore instrumentos para enfrentar a deterioração do planeta, atentará contra a memória da cúpula de 1992”, criticou a ex-ministra, que também foi candidata a presidente pelo Partido Verde. Após obter 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, Marina criou o não governamental Instituto Democracia e Sustentabilidade, o qual representará na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, que acontecerá entre 15 e 23 deste mês, paralela à reunião oficial organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Para Marina, a linha de trabalho para a Rio+20, que em nível de chefes de Estado e de governo acontecerá entre os dias 20 e 22, continua com um grave problema de origem, que é aparecerem separadas ecologia e economia, quando deveriam estar integradas. “A União Europeia atende prioritariamente a crise econômica que a afeta, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fracassou em sua tentativa de avançar em uma agenda de clima e biodiversidade, e a China não se mobiliza e não assume compromissos”, declarou.

Apesar de cientistas de todo o mundo alertarem para os graves problemas que a humanidade enfrentará se não for detida a deterioração ambiental, os governos não incorporam em suas agendas propostas de solução ou mudança de rumo, alertou Marina. “O mundo enfrenta uma crise dramática, que se constitui de múltiplas crises: econômica, política, ambiental e de valores”, ressaltou.

A última fase de negociação prévia à Rio+20 será completada no dia 13 no Rio de Janeiro. Perante esta instância, a atual ministra de Meio Ambiente, Izabella Teixeira, contrapôs o pessimismo de Marina Silva ao afirmar que as notícias “são bastante promissoras” para o documento base do encontro. Admitiu que se está diante de um desafio importante, que é obter um consenso que exige compromissos e convergências dos governos. “Temos que facilitar e permitir que todos façam sua parte e que se sintam comprometidos com as diretrizes e os resultados da Rio+20”, afirmou à IPS.

A ministra entende que as negociações iniciadas em Nova York tiveram “avanços importantes”, por isso acredita que o legado da Rio+20 será mais amplo do que o da cúpula de duas décadas atrás, a Eco 92, e refletirá plenamente o conceito de sustentabilidade. Contudo, também reconheceu que devem ser discutidos “novos modelos econômicos ou não conseguiremos fazer a mudança para um desenvolvimento sustentável”.

Por sua vez, Marina Silva afirmou que o Brasil, como anfitrião da Rio+20, reúne as condições para fazer esse rompimento do modelo do Século 20 e atuar como ponte negociadora na busca de compromissos. “É muito importante que o Brasil assuma um papel de liderança para mediar saídas com propostas efetivas para este encontro, sob pena de acabar com a memória da Eco 92”, alertou. Em tom de crítica sobre a gestão da presidente Dilma Rousseff, Marina destacou que espera que sejam corrigidos os rumos de seu governo, para encabeçar uma “nova agenda de economia e desenvolvimento sustentável”.

O Brasil ainda não pode se considerar uma potência socioambiental, apesar de possuir 11% das reservas de água doce do mundo, 20% das espécies vivas, 60% de seu território coberto por florestas, 280 povos autóctones que falam cerca de 120 línguas diferentes além do português, enfatizou Marina. “Isto não nos transforma em uma potência ambiental por natureza, é preciso consegui-lo com atitudes políticas eficazes. Nossa agricultura tem condições para ter uma base sustentável, e não podemos repetir os mesmos equívocos cometidos pelos países industrializados”, indicou.

A aprovação do polêmico Código Florestal mostrou um retrocesso na política ambiental brasileira e coloca em discussão a liderança do governo quanto a levar adiante uma economia sustentável, advertiu Marina. “Vivemos um momento de dúvidas. Parece que podemos retroceder para uma economia semelhante à do século passado. No entanto, é possível ainda reduzir a pobreza, ter crescimento econômico e diminuir as emissões com menos devastação”, apontou.

Às vésperas da Rio+20, o Brasil passa por um desmonte de sua legislação ambiental, especialmente do Código Florestal, que segue adiante apesar de 80% dos entrevistados em diferentes pesquisas afirmarem não concordar com as mudanças realizadas. “O Brasil não precisa desmatar para se manter como um grande produtor de grãos, pois podemos duplicar a produção agrícola sem derrubar uma só árvore”, esclareceu Marina. “Temos tecnologia e conhecimento sem que seja necessário expandir a fronteira agrícola. Podemos produzir alimentos preservando a base natural de nosso desenvolvimento”, concluiu.

O termômetro para medir a Rio+20 (IPS)

Envolverde Rio + 20
12/6/2012 – 09h33

por Thalif Deen, da IPS

Slide15 O termômetro para medir a Rio+20

As inundações, como a que afetou Dominica em 2011, são um dos efeitos devastadores da mudança climática. Foto: Desmond Brown/IPS

Nações Unidas, 12/6/2012 – Quando terminar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá entre os dias 20 e 22 deste mês, no Rio de Janeiro, qual será o critério para medir seus êxitos e fracassos? O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, tem seus próprios parâmetros.

Segundo Ban, a Rio+20 deverá concluir com pelo menos um renovado compromisso político com a economia verde, uma série de metas de desenvolvimento sustentável, um contexto constitucional para implantar o novo plano de ação e associações com a sociedade civil. “Precisamos inventar um novo modelo, um modelo que ofereça crescimento e inclusão social, um modelo que respeite os recursos finitos do planeta”, afirmou Ban a jornalistas na primeira semana deste mês.

Entretanto, para Patricia Lerner, conselheira política do Greenpeace International, definir metas para 2030 não é suficiente. “A atenção deve estar concentrada nesta década, pois as ações que forem tomadas neste momento são fundamentais para prevenir a catastrófica mudança climática, salvar nossos oceanos e proteger os recursos florestais remanescentes, todos fundamentais para o desenvolvimento e o bem-estar humano”, declarou Lerner à IPS.

Por seu lado, o intergovernamental Centro do Sul, com sede em Genebra, tem expectativas maiores. Seu diretor-executivo, Martin Khor, afirmou à IPS que é imperativo reafirmar os compromissos adotados na Cúpula da Terra, realizada há 20 anos também no Rio de Janeiro. “Pelo menos isso demonstrará que os líderes, especialmente dos países industrializados, não estão retrocedendo no que acordaram”, acrescentou.

O princípio mais importante que deve ser reafirmado na Rio+20 é o de responsabilidades comuns diferenciadas, destacou Khor. Isto significa que os países do Norte devem aceitar que têm um dever maior na redução da contaminação das emissões de gases-estufa, causadores do aquecimento global. E, portanto, devem prover financiamento e tecnologia para os países do Sul, para que todos possam avançar no caminho da economia verde, acrescentou Khor, ex-diretor do escritório na Malásia da Rede do Terceiro Mundo.

Ban Ki-moon acrescentou que há 26 áreas prioritárias, que os próprios Estados-membros da ONU identificaram durante as negociações com vistas à Rio+20. Entre estas se destacam segurança alimentar, pobreza, educação, saúde, energia renovável, oceanos, água e saneamento, agricultura, igualdade de gênero e empoderamento das mulheres. “Pode demorar para se chegar a um acordo nas 26 áreas”, admitiu, mas acrescentou que ao menos se deveria pactuar no que ele considera “temas obrigatórios”.

Ban Ki-moon também exortou os Estados-membros das Nações Unidas a acordarem novas metas de desenvolvimento sustentável baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os quais a comunidade mundial se comprometeu a alcançar até 2015. “Temos apenas dois anos e meio”, ressaltou.

Khor disse à IPS que os líderes do mundo deveriam reconhecer que a crise no meio ambiente e na economia é muito mais grave hoje do que há 20 anos, e que devem ser adotados novos compromissos sistemáticos. Também cobrou um acordo que fortaleça significativamente as instituições encarregadas do desenvolvimento sustentável, de forma séria e adequada.

A Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável era toda uma promessa em seu início, mas demonstrou ser muito frágil: reúne-se apenas duas ou três vezes ao ano. “Tem de ser reformada radicalmente ou transformada em um novo conselho ou fórum que possa encarar os desafios impostos pela crise global em suas três dimensões: ambiental, econômica e social”, sugeriu Khor.

A comissão, prosseguiu Khor, deveria manter reuniões regulares, e sua secretaria deveria ser forte, com mais pessoal e dinamismo. A Rio+20 deveria fortalecer esse órgão para que realize um acompanhamento das decisões adotadas pelos líderes políticos, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) deveria, por seu lado, fortalecer suas operações, enfatizou. “É preciso haver claros compromissos para apoiar os países em desenvolvimento com o objetivo de que estes assumam maiores responsabilidades nos problemas ambientais, sociais e econômicos”, observou.

A cúpula não pode ficar atrasada em matéria de implantação, apontou Khor. “Deve haver um novo compromisso e recursos financeiros adicionais para o desenvolvimento sustentável e a transferência de tecnologia em termos favoráveis e preferenciais, como foi acordado há duas décadas no Rio e muitas vezes depois”, ressaltou. “Me preocupa o fato de nos últimos meses muitos países industrializados terem emitido sinais de que não desejam manter esses compromissos. Isto seria desastroso”, alertou.

Envolverde/IPS

Free application for smartphones with real time information on the Rio+20 conference (IISD)

Free application for smartphones with real time information on the Rio+20 conference, by IISD:

http://itunes.apple.com/us/app/enb-mobile/id529597393?ls=1&mt=8

On the web:

http://enb.iisd.mobi/uncsd-rioplus20/

 

The top five things voters need to know about conservatives and climate change (Grist.org)

By David Roberts4 Jun 2012 3:46 PM

Five! (Photo by woodleywonderworks)I’ve seen a recent surge of stories about conservatives and climate change. None of them, oddly, tell voters what they most need to know on the subject. In fact, one of them does the opposite. (Grrrr …)I respond in accordance with internet tradition: a listicle!
5. Conservatives have a long history of advancing environmental progress. In a column directed to Mitt Romney, Thomas Friedman reels off(one suspects from memory) “the G.O.P.’s long tradition of environmental stewardship that some Republicans are still proud of: Teddy Roosevelt bequeathed us national parks, Richard Nixon the Clean Air Act and the Environmental Protection Agency, Ronald Reagan the Montreal Protocol to protect the ozone layer and George H. W. Bush cap-and-trade that reduced acid rain.” This familiar litany is slightly misleading, attributing to presidents what is mostly the work of Congresses, but the basic point is valid enough: In the 20th century, Republicans have frequently played a constructive role on the environment.
4. There is a conservative approach to addressing climate change. Law professor Jonathan Adler has laid it out in the past and does so again in a much-discussed post over at The Atlantic. He suggests prizes for innovation, reduced regulatory barriers to alternative energy, a revenue-neutral carbon tax, and some measure of adaptation.It’ll be no surprise to Adler or anyone else that I believe the problem is more severe than he does; solving it — as opposed to just “doing something” — will involve a far more vigorous government role than he envisions. But he makes an eloquent, principled case for the simple notion that “embrace of limited government principles need not entail the denial of environmental claims.” Conservatives could, if they wanted, spend their time arguing for their preferred solutions rather than denying scientific results.
3. There are conservatives who believe in taking action on climate change. Even thosedismal polls we’re always talking about find 30 or 40 percent of Republicans acknowledging the threat of climate change. And support for clean air and clean energy policies remains high across the board. Heck, some — OK, a tiny handful of — conservatives are even brave enough to say so in public! It’s really only the hard nut of the GOP, anywhere from 15 to 30 percent, depending on how you measure, that is intensely and ideologically opposed to climate science and solutions alike. Oh, and almost all Republicans in Congress.
2. Mitt Romney used to say and do moderate things on green issues when he was governor of Massachusetts. He spoke in favor of the Regional Greenhouse Gas Initiative, a cap-and-trade system for Northeastern states, and introduced the Massachusetts Climate Protection Plan. He wasn’t afraid to crack down on coal plants — I never get tired of thisremarkable video:Romney also directed considerable state funding to renewable energy companies and waged open war on sprawl. It’s almost like he was running a state where that kind of stuff was popular.
1. The Republican establishment has gone nuts on climate change and the environment.This, more than anything, is what American voters need to know about the Republican Party — not what Republicans used to do, or what one or two outliers say, but what the party as an extant political force is devoted to today. The actually existing GOP wants todismantle the EPA, open more public land to coal mining and oil drilling, remove what regulatory constraints remain on fossil-fuel companies, slash the budget for clean-energy research and deployment, scrap CAFE and efficiency standards, protect inefficient light bulbs, withdraw from all international negotiations or efforts on climate, and stop the military from using less oil.
Which brings me to the piece that drives me crazy, from National Journal‘s customarily excellent Amy Harder: “Campaign Energy Messages Differ; Policies Not So Much.”Seriously?No … seriously?I know journalists don’t headline their own pieces. But the piece itself isn’t much better. Take this bit:

Whether the data is inflated or not, the message that may be coming across most to voters is that there really isn’t much difference between Obama’s policies and those likely to be pursued in a Romney administration.

Ah, so the problem is not that Obama and Romney would have similar energy policies. That’s just the message “coming across to most voters.
”Now, if you’re a journalist, and you determine that voters are receiving a wildly incorrect message, what do you do? Do you write a story about their receipt of the incorrect message? Or do you correct the message?
The fact is, Romney would not pursue the same energy policies that Obama is pursuing. At all. Not even a little bit. It’s interesting, I suppose, that Romney used to run a state (and a state party) where moderate energy policy was demanded by voters. But what matters now is that Mitt Romney serves the present-day Republican Party, which has gone crazy.
The notion that Mitt Romney will rediscover some hidden internal moderate and buck the party on this stuff is just a VSP fantasy. Ever since he started running for president (this time around, anyway), he’s been frantically trying to please the right-wing base. Friedman says Romney’s “biggest challenge in attracting independent swing voters will be overcoming a well-earned reputation for saying whatever the Republican base wants to hear.” But self-styled centrists like Friedman have been saying this kind of thing forever and there remains very little indication that any Republican politician faces a tangible cost for pandering to the right.
Romney will not be elected to follow his heart. He’ll be elected to ratify the GOP agenda. Grover Norquist, a man with as much claim to leadership of the GOP as anyone, made his feelings on the matter extremely clear at CPAC:

All we have to do is replace Obama. … We are not auditioning for fearless leader. We don’t need a president to tell us in what direction to go. We know what direction to go. … We just need a president to sign this stuff. We don’t need someone to think it up or design it. The leadership now for the modern conservative movement for the next 20 years will be coming out of the House and the Senate.…Pick a Republican with enough working digits to handle a pen to become president of the United States. This is a change for Republicans: the House and Senate doing the work with the president signing bills. His job is to be captain of the team, to sign the legislation that has already been prepared. [my emphasis]

Mitt Romney is well-aware — and if he wasn’t before, the primary taught him — that his job is to “sign the legislation that has already been prepared.” The leadership of the party is in Congress. It has declared skepticism of climate science the de facto party position. It has declared open war on clean energy, efficiency, and environmental protections. It has made clear that it will support fossil-fuel companies at every juncture.
That’s conservatives and climate for you. It’s interesting, intellectually, that there’s a history of green moderation in the party; that there’s a conceptual space where titular conservative principles overlap with climate protection; that many self-identified Republicans aren’t as crazy as their leaders; and that Romney used to pander in a different direction. But what’s relevant to voters who value climate and environmental protection is that they won’t get any under a GOP administration or a GOP Congress.

Tomgram: Bill McKibben, Climate-Change Deniers Have Done Their Job Well (TomDispatch.com)

Posted by Bill McKibben at 4:40pm, June 3, 2012.

Here’s the thing about climate-change deniers: these days before they sit down to write their blog posts, they have to turn on the AC.  After all, it might as well be July in New York (where I’m writing this), August in Chicago (where a century-old heat record was broken in late May), and hellat the Indy 500.  Infernos have been raging from New Mexico and Colorado, where the fire season started early, to the shores of Lake Superior, where dry conditions and high temperatures led to Michigan’s third largest wildfire in its history.  After a March heat wave for the record books, we now have summer in late spring, the second-named tropical storm of the season earlier than ever recorded, and significant drought conditions, especially in the South and Southwest.  In the meantime, carbon dioxide (and other greenhouse gases) continue to head for the atmosphere inrecord quantities.  And in case anyone living in a big city doesn’t know it, heat can kill.

It’s true that no single event can be pinned on climate change with absolute certainty.  But anyone who doesn’t think we’re in a fierce new world of weather extremes — and as TomDispatch regularBill McKibben has suggested, on an increasingly less hospitable planet that he calls Eaarth — is likely to learn the realities firsthand soon enough.  Not so long ago, if you really wanted to notice the effects of climate change around you, you had to be an Inuit, an Aleut, or some other native of the far north where rising temperatures and melting ice were visibly changing the landscape and wrecking ways of life — or maybe an inhabitant of Kiribati.  Now, it seems, we are all Inuit or Pacific islanders.  And the latest polling numbers indicate that Americans are finally beginning to notice in their own lives, and in numbers that may matter.

With that in mind, we really do need a new term for the people who insist that climate change is a figment of some left-wing conspiracy or a cabal of miscreant scientists.  “Denial” (or the more active “deniers”) seems an increasingly pallid designation in our new world.  Consider, for instance, that in low-lying North Carolina, a leading candidate for disaster from globally rising sea levels, coastal governments and Republicans in the state legislature are taking action: they are passing resolutions against policies meant to mitigate the damage from rising waters and insisting that official state sea-level calculations be made only on the basis of “historic trends,” with no global warming input.  That should really stop the waters!

In the meantime, this spring greenhouse-gas monitoring sites in the Arctic have recorded a startling first: 400 parts per million of carbon dioxide in the atmosphere.  It’s an ominous line to cross (and so quickly).  As in the name of McKibben’s remarkable organization, 350.org, it’s well above the safety line for what this planet and many of the species on it, including us, can take in the long term, and heat-trapping gases in the atmosphere are still on the rise.  All of this is going to get ever harder to “deny,” no matter what resolutions are passed or how measurements are restricted.  In the meantime, the climate-change deniers, McKibben reports, are finally starting to have troubles of their own. Tom

The Planet Wreckers
Climate-Change Deniers Are On the Ropes — But So Is the Planet

By Bill McKibben

It’s been a tough few weeks for the forces of climate-change denial.

First came the giant billboard with Unabomber Ted Kacynzki’s face plastered across it: “I Still Believe in Global Warming. Do You?” Sponsored by the Heartland Institute, the nerve-center of climate-change denial, it was supposed to draw attention to the fact that “the most prominent advocates of global warming aren’t scientists. They are murderers, tyrants, and madmen.” Instead it drew attention to the fact that these guys had over-reached, and with predictable consequences.

A hard-hitting campaign from a new group called Forecast the Facts persuaded many of the corporations backing Heartland to withdraw $825,000 in funding; an entire wing of the Institute, devoted to helping the insurance industry, calved off to form its own nonprofit. Normally friendly politicians like Wisconsin Republican Congressman Jim Sensenbrenner announced that they would boycott the group’s annual conference unless the billboard campaign was ended.

Which it was, before the billboards with Charles Manson and Osama bin Laden could be unveiled, but not before the damage was done: Sensenbrenner spoke at last month’s conclave, but attendance was way down at the annual gathering, and Heartland leaders announced that there were no plans for another of the yearly fests. Heartland’s head, Joe Bast, complained that his side had been subjected to the most “uncivil name-calling and disparagement you can possibly imagine from climate alarmists,” which was both a little rich — after all, he was the guy with the mass-murderer billboards — but also a little pathetic.  A whimper had replaced the characteristically confident snarl of the American right.

That pugnaciousness may return: Mr. Bast said last week that he was finding new corporate sponsors, that he was building a new small-donor base that was “Greenpeace-proof,” and that in any event the billboard had been a fine idea anyway because it had “generated more than $5 million in earned media so far.” (That’s a bit like saying that for a successful White House bid John Edwards should have had more mistresses and babies because look at all the publicity!) Whatever the final outcome, it’s worth noting that, in a larger sense, Bast is correct: this tiny collection of deniers has actually been incredibly effective over the past years.

The best of them — and that would be Marc Morano, proprietor of the website Climate Depot, and Anthony Watts, of the website Watts Up With That — have fought with remarkable tenacity to stall and delay the inevitable recognition that we’re in serious trouble. They’ve never had much to work with.  Only one even remotely serious scientist remains in the denialist camp.  That’s MIT’s Richard Lindzen, who has been arguing for years that while global warming is real it won’t be as severe as almost all his colleagues believe. But as a long article in the New York Times detailed last month, the credibility of that sole dissenter is basically shot.  Even the peer reviewers he approved for his last paper told the National Academy of Sciences that it didn’t merit publication. (It ended up in a “little-known Korean journal.”)

Deprived of actual publishing scientists to work with, they’ve relied on a small troupe of vaudeville performers, featuring them endlessly on their websites. Lord Christopher Monckton, for instance, an English peer (who has been officially warned by the House of Lords to stop saying he’s a member) began his speech at Heartland’s annual conference by boasting that he had “no scientific qualification” to challenge the science of climate change.

He’s proved the truth of that claim many times, beginning in his pre-climate-change career when he explained to readers of the American Spectator that “there is only one way to stop AIDS. That is to screen the entire population regularly and to quarantine all carriers of the disease for life.” His personal contribution to the genre of climate-change mass-murderer analogies has been to explain that a group of young climate-change activists who tried to take over a stage where he was speaking were “Hitler Youth.”

Or consider Lubos Motl, a Czech theoretical physicist who has never published on climate change but nonetheless keeps up a steady stream of web assaults on scientists he calls “fringe kibitzers who want to become universal dictators” who should “be thinking how to undo your inexcusable behavior so that you will spend as little time in prison as possible.” On the crazed killer front, Motl said that, while he supported many of Norwegian gunman Anders Breivik’s ideas, it was hard to justify gunning down all those children — still, it did demonstrate that “right-wing people… may even be more efficient while killing — and the probable reason is that Breivik may have a higher IQ than your garden variety left-wing or Islamic terrorist.”

If your urge is to laugh at this kind of clown show, the joke’s on you — because it’s worked. I mean, James Inhofe, the Oklahoma Republican who has emerged victorious in every Senate fight on climate change, cites Motl regularly; Monckton has testified four times before the U.S. Congress.

Morano, one of the most skilled political operatives of the age — he “broke the story” that became the Swiftboat attack on John Kerry — plays rough: he regularly publishes the email addresses of those he pillories, for instance, so his readers can pile on the abuse. But he plays smart, too. He’s a favorite of Fox News and of Rush Limbaugh, and he and his colleagues have used those platforms to make it anathema for any Republican politician to publicly express a belief in the reality of climate change.

Take Newt Gingrich, for instance.  Only four years ago he was willing to sit on a love seat with Nancy Pelosi and film a commercial for a campaign headed by Al Gore.  In it he explained that he agreed with the California Congresswoman and then-Speaker of the House that the time had come for action on climate. This fall, hounded by Morano, he was forced to recant again and again.  His dalliance with the truth about carbon dioxide hurt him more among the Republican faithful than any other single “failing.”  Even Mitt Romney, who as governor of Massachusetts actually took some action on global warming, has now been reduced to claiming that scientists may tell us “in fifty years” if we have anything to fear.

In other words, a small cadre of fervent climate-change deniers took control of the Republican party on the issue.  This, in turn, has meant control of Congress, and since the president can’t sign a treaty by himself, it’s effectively meant stifling any significant international progress on global warming.  Put another way, the variousright wing billionaires and energy companies who have bankrolled this stuff have gotten their money’s worth many times over.

One reason the denialists’ campaign has been so successful, of course, is that they’ve also managed to intimidate the other side. There aren’t many senators who rise with the passion or frequency of James Inhofe but to warn of the dangers of ignoring what’s really happening on our embattled planet.

It’s a striking barometer of intimidation that Barack Obama, who has a clear enough understanding of climate change and its dangers, has barely mentioned the subject for four years.  He did show a little leg to his liberal base in Rolling Stoneearlier this spring by hinting that climate change could become a campaign issue.  Last week, however, he passed on his best chance to make good on that promise when he gave a long speech on energy at an Iowa wind turbine factory without even mentioning global warming. Because the GOP has been so unreasonable, the President clearly feels he can take the environmental vote by staying silent, which means the odds that he’ll do anything dramatic in the next four years grow steadily smaller.

On the brighter side, not everyone has been intimidated.  In fact, a spirited counter-movement has arisen in recent years.  The very same weekend that Heartland tried to put the Unabomber’s face on global warming, 350.org conducted thousands of rallies around the globe to show who climate change really affects. In a year of mobilization, we also managed to block — at least temporarily — the Keystone pipeline that would have brought the dirtiest of dirty energy, tar-sands oil, from the Canadian province of Alberta to the Gulf Coast.  In the meantime, our Canadian allies are fighting hard to block a similar pipeline that would bring those tar sands to the Pacific for export.

Similarly, in just the last few weeks, hundreds of thousands have signed on to demand an end to fossil-fuel subsidies. And new polling data already show more Americans worried about our changing climate, because they’ve noticed the freakish weather of the last few years and drawn the obvious conclusion.

But damn, it’s a hard fight, up against a ton of money and a ton of inertia. Eventually, climate denial will “lose,” because physics and chemistry are not intimidated even by Lord Monckton. But timing is everything — if he and his ilk, a crew of certified planet wreckers, delay action past the point where it can do much good, they’ll be able to claim one of the epic victories in political history — one that will last for geological epochs.

Bill McKibben is Schumann Distinguished Scholar at Middlebury College, founder of the global climate campaign 350.org, a TomDispatch regular, and the author, most recently, of Eaarth: Making a Life on a Tough New Planet.

Copyright 2012 Bill McKibben

Os Negadores das Mudanças Climáticas encontram uma Radical à Altura: a Natureza!

by Alexandre Araújo Costa on Thursday, June 7, 2012 at 9:50pm (publicado no Facebook).

O título alternativo deste artigo bem poderia conter “o IPCC é fichinha” ou, de forma mais inclusiva, “Cientistas do Clima somos fichinha”. Isto porque, de fato, o embate entre nós e os negadores está longe de ser justo.

O debate científico se dá em Conferências e Congressos e, principalmente, por meio da literatura com revisão. São necessários vários meses para um artigo científico (que às vezes sintetiza resultados de anos de trabalho), após, às vezes, múltiplas idas e vindas de revisões, finalmente ser publicado (suas conclusões sendo geralmente restritas a um pequeno aspecto da ciência e, por ter de necessariamente ser apresentada de forma técnica, acessível a um público muito restrito de especialistas da própria área).  Apesar de suas imperfeições (erros em artigos científicos podem, sim, ocorrer), do olhar não raro fragmentado, e de sua aparência geralmente obscura para o grande público, são – particularmente hoje em dia – as contribuições parciais, os pequenos avanços e retrocessos, que pavimentam o caminho para sólidas conclusões científicas.

A clareza de entendimento em torno da mudança climática atual, do papel antrópico determinante e do risco envolvido foi fruto dessa acumulação de evidências. Apoiando-se em conhecimentos mais fundamentais da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia, da Geologia e das interfaces entre elas, e sobre uma colossal quantidade de dados, análises, modelos de diversos níveis de complexidade é que a Ciência do Clima erigiu seu edifício. Nesse contexto, quando as peças se encaixam, a quantidade (as múltiplas informações parciais, mas convergentes) se transforma em qualidade (a “Big Picture”), no quebra-cabeça montado, demonstrado várias e várias vezes nos relatórios de avaliação do IPCC.

Por outro lado, os negadores não seguem as regras do debate e do método científicos. Pelo contrário, atacam-nos, sem cerimônia. É possível fazer qualquer afirmação tresloucada em um blog, em uma palestra, em um “debate” (desses que mais parecem debate eleitoral) ou em uma aparição na mídia. A liberdade para mentir, fantasiar, tergiversar nesses casos é quase infinita e para quem tem compromisso com a verdade científica, é difícil dar conta até de uma pequena parcela dessas mentiras, falsificações e tergiversações. Explicar porque determinada afirmação é falsa dá muito mais trabalho do que fazê-la. Desnudar inveracidades, desmistificar o “cherry-picking” (o ato de escolher um dado entre mil que aparentemente serve de base para uma dada afirmação), localizar sofismas não é trivial no pouco tempo ou espaço que se tem nesse terreno. É desse terreno que os negadores gostam. É por meio dele, e não de um debate verdadeiramente científico e honesto, que eles tentam envenenar a opinião pública e os tomadores de decisão. Deveriam se envergonhar. Mas não! Nesse terreno, um negador que seja um orador (ou escritor) talentoso, cujo semblante não trema, mesmo quando faz afirmações obviamente mentirosas como “o efeito estufa não existe” ou “os modelos de clima não consideram as correntes oceânicas”, deita e rola.

Poucos cientistas, portanto, terminam por entrar nessa arena de gládio, para encararem o vale-tudo dos negadores. Individualmente, nada se ganha ao fazê-lo, pelo contrário. Perde-se tempo e energia que poderia estar sendo dedicada à pesquisa e à produção científica (que infelizmente é avaliada segundo métricas quantitativas que nem sempre refletem a real contribuição à ciência). Há também os cientistas que acham que não é seu papel popularizar a ciência ou sequer combater a pseudo-ciência e a anti-ciência junto ao público. Por fim, há um fator que não se deve desprezar. Pela virulência dos ataques e pelo grau acentuado de desonestidade dos negadores, muitos dos meus pares simplesmente preferem não lutar no terreno deles. É preciso, realmente, muito estômago!

Mas felizmente, os negadores têm um adversário à altura, que não precisa, como nós, caminhar sobre ovos! Um adversário duro, bruto, que vai direto ao assunto, que não se intimida, que não faz juízo de valor, que não tem ideologia. É esse adversário, e não o IPCC e o restante da comunidade da Ciência do Clima, quem tem feito o contraponto mais cristalino aos negadores. Chama-se Natureza! Esta não tem de se preocupar em testar múltiplas vezes suas próprias hipóteses, nem em revisar, em um processo lento, uma análise sobre suas próprias leis. Ela simplesmente é. Simplesmente se comporta de acordo com suas próprias regras. Simplesmente faz! E bate duro na negação!

Chequemos, portanto, o que a Natureza nos tem afirmado. No que diz respeito às projeções do IPCC de temperatura, feitas quando da preparação do seu 4o relatório, estas têm-se confirmado de forma bastante clara, como mostra a Figura a seguir, obtida em http://www.realclimate.org/index.php/archives/2012/02/2011-updates-to-model-data-comparisons/.

Comparação das projeções de temperatura dos modelos do IPCC com observações

A região cinza nessa Figura representa a faixa de projeções do conjunto do IPCC (de tal modo que 95% das previsões se encontra dentro dela). A linha preta é a média delas. As linhas coloridas representam observações da temperatura média global, de acordo com 3 centros de pesquisa. Baixa atividade solar e ocorrência mais frequente de La Niñas (situação em que o Pacífico Equatorial esfria) nos últimos anos podem ter diminuído a velocidade do aquecimento verificada nos anos 90, mas o que assusta é que, em condições como as dos últimos anos, nós deveríamos ter observado um resfriamento do sistema terrestre! Ou seja, ficamos com o nó na garganta, esperando o que pode vir no próximo período em que uma maior atividade solar coincidir com uma maior frequência de El Niños (quando o Pacífico Equatorial se aquece)… Tudo indica que, neste caso, ao invés de aumentarem num ritmo um pouco abaixo, mas próximo ao da média do conjunto dos modelos do IPCC, as temperaturas voltem a mostrar um aumento pronunciado.

Na verdade, mesmo que tivéssemos observado uma constância nas temperaturas ou mesmo um ligeiro resfriamento nos últimos anos, isso não poderia servir de argumento para os negadores! La Niñas e sol pouco ativo deveriam ter servido para resfriar o planeta, o que obviamente não aconteceu em função da contribuição antrópica. As figuras que mostro a seguir são para explicar, de forma didática, a sobreposição dessas duas contribuições (natural e humana). Os processos naturais, a princípio, poderiam ser considerados cíclicos, ou quase cíclicos. Há muitos ciclos, de diferentes frequências e uma boa dose de “caos” (que dá um cara de aleatoriedade a alguns processos climáticos), mas por simplicidade, assumiremos uma oscilação simples, com a temperatura subindo durante alguns anos, descendo nos anos seguintes, depois voltando a subir, e assim por diante, como na figura abaixo.

Representação idealizada da variação “puramente natural” de temperatura

Mas existe a contribuição do homem, que é obviamente de aquecimento (como já discuti, acumular CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera não tem como produzir outra coisa!). Isso seria representado por uma curva ascendente, isto é, com a temperatura sempre subindo. Como a contribuição antrópica tem-se acelerado, um gráfico da contribuição “puramente humana” poderia ter a aparência desta curva aqui:

Representação simplificada da contribuição antrópica para a mudança de temperatura

Somando as duas contribuições, isto é, a “natural”, representada pela primeira curva e a “antrópica”, pela segunda, o que se verifica é algo bastante interessante, ilustrando em parte o que já se viu e em parte o que se deve esperar no futuro. No começo (faixa azul), o sinal humano é muito pequeno e as oscilações naturais dominam por inteiro. No período imediatamente posterior, as oscilações naturais ainda se destacam, mas o sinal humano cresce, tornando-se discernível, mesmo sendo ainda relativamente pequeno. Em seguida (faixa laranja), temos algo como aumentos acelerados de temperatura, alternados com períodos de poucas variações. No meu ponto de vista, estamos ainda nessa fase, mas duas coisas devem ser ditas. No próximo ciclo em que o sinal humano e o sinal natural estiverem ambos contribuindo para o aquecimento (como no local indicado pela seta, em nossa caricatura abaixo), deveremos experimentar um aquecimento mais acelerado do sistema climático do que aquele verificado nos anos 90. Mais ainda! No período posterior (faixa vermelha), o sinal antrópico tende a ser dominante! Isso é representado pelo final do gráfico, em que mesmo quando tivermos condições naturais (sol menos ativo, ocorrência maior de La Niñas), o aquecimento praticamente não desacelera!

Representação do resultado da sobreposição dos efeitos natural e antrópico, indo de um estado dominado pelo fator natural até um estado dominado pelo fator antrópico

Mas são outros componentes do sistema climático terrestre que, por sofrerem menos influência de oscilações naturais de alta frequência do que a atmosfera, têm-se mostrado ainda mais veementes ao “negarem a negação”.

Comparemos primeiro as projeções de elevação do nível do mar com o que tem acontecido na realidade. É fácil verificar que apenas o modelo mais “pessimista” ou “catastrofista” (não gosto desses juízos de valor) tem acompanhado a realidade (vide http://www.global-warming-forecasts.com/resources/sea-level-increase.png , reproduzida abaixo e http://www.skepticalscience.com/images/SLR_models_obs.gif). Nessa figura, as observações (representadas pelas linhas vermelha – marégrafos – e azul – satélite) estão sistematicamente acima da faixa cinza, que contém a maioria das projeções de modelos. Outro processo que tem mostrado uma realidade pior do que a das projeções do último relatório do IPCC é a do degelo do Ártico, como mostrado em http://www.realclimate.org/images/seaice11.jpg e aqui reproduzido. O degelo real (linha vermelha) tem sido mais acelerado do que qualquer projeção dos modelos (várias outras linhas). Ainda que, nesses dois casos, outros processos que não o aquecimento global antrópico possam ter contribuído para acelerar as mudanças (elevação do nível do mar e degelo) para além das piores projeções feitas pelo IPCC, a Natureza tem falado alto. A humanidade, ridiculamente, faz ouvidos moucos.

Comparação das projeções de elevação do nível do mar dos modelos do IPCC com observações

Comparação das projeções de degelo do Ártico dos modelos do IPCC com observações

Um dos paleoclimatologistas mais respeitados do mundo e um cientista de atuação inspiradora e contangiante, o Prof. Richard Alley, da Pennsylvania State University, costuma colocar a questão de forma muito simples. A realidade pode, sim, não ser tão ruim quanto a apresentada pelo IPCC que é baseada, como mostrei em meu texto anterior (http://www.facebook.com/notes/alexandre-ara%C3%BAjo-costa/a-nega%C3%A7%C3%A3o-das-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-e-seu-desprop%C3%B3sito-versus-a-objetividade-e-ati/399810206727544), em estimativas médias de várias quantidades, processos e fenômenos. Mas é fundamental dizer que existe a mesma chance de ser ainda pior e se o que mostrei podem não ser indícios totalmente claros nesse sentido, deveriam ao menos servir de alerta! Não agir para reduzir globalmente as emissões de gases de efeito estufa é, em tais condições, uma postura de total irracionalidade, irresponsabilidade e desprezo para com os direitos e aspirações das gerações futuras!

Cientistas da USP continuam fiéis ao IPCC (Jornal do Campus-USP) + carta de Ricardo Felício

por   e 

Especialistas defendem a credibilidade do painel climático mundial e opinam sobre o aquecimento global

Desde novembro do ano passado, o IPCC passa por uma crise de credibilidade. Na ocasião foram encontrados erros no relatório que deu ao painel o Prêmio Nobel da Paz em 2007. O mais grave deles era uma previsão sobre o degelo do Himalaia até 2035. Na mesma época vieram a público trocas de e-mails entre seus cientistas insinuando que pesquisas que negam o aquecimento global não seriam avaliadas pelo IPCC. O caso ficou conhecido como Climategate.

Os acontecimentos serviram de argumento para os céticos, aqueles que defendem que o aquecimento global é um fenômeno natural com precedentes ao longo da história e não tem relação com as ações do homem no planeta.

A polêmica ganhou novamente os holofotes da mídia em fevereiro, quando o secretário executivo do painel pediu demissão do cargo. Imediatamente o presidente da instituição, Rajendra Pachauri, anunciou que não mediria esforços para propor um conjunto de medidas que assegurem mais rigor científico nos relatórios e maior controle sobre os especialistas que os produzem.

Sem crise

Tércio Ambrizzi acredita que mais cuidado pode evitar dados incorretos. No entanto, “quando olhado no geral, o relatório do IPCC é muito sólido”, acredita. Segundo ele, mais de mil páginas são analisadas e esse volume dá margem para que algum erro escape. Quanto aos emails publicados, Ambrizzi diz que a invasão da privacidade é algo extremamente perigoso. “Em ciência não é assim que você prova que um resultado científico está errado. Você prova com a ciência”.

Paulo Artaxo compartilha dessa visão, também enfatizando o esforço que os cientistas têm com o relatório: “Ter duas citações que merecem ser corrigidas não invalida o trabalho intenso de milhares de cientistas ao longo de muitos anos”.

A professora Ilana Wainer, presidente da Comissão de Pesquisa do Instituto de Oceanografia (IO), vai além na defesa da credibilidade do IPCC. A professora diz que não vê crise “no que diz respeito à ciência, que é irrefutável e determinística”.

A cientista do IO é enfática ao afirmar que o Climategate foi baseado num verdadeiro roubo de emails de pesquisadores do centro de pesquisa do clima em East Anglia (Reino Unido). “Foram mais de 1000 emails e os ‘céticos’ tentaram desacreditar a ciência das mudanças climáticas baseados nisso e só conseguiram achar um ou outro email pessoal. Existe uma base científica sólida que sustenta a afirmação de que o aquecimento global das últimas quatro, cinco décadas vem da ação do homem”.

(ilustração: Hugo Neto)

Aquecimento global

Para Artaxo, o homem está alterando de modo significativo vários aspectos do planeta. Ele cita como exemplo a queima de combustíveis fósseis nos últimos 150 anos e as alterações no uso do solo, como a troca intensiva de florestas por plantações: “A acumulação adicional de gases de efeito estufa na atmosfera aumentou a temperatura média de nosso planeta em 0.7 graus centígrados nos últimos 150 anos”.

Ambrizzi e Ilana também são categóricos na defesa do aquecimento global e da interferência do homem. “O aquecimento global está ocorrendo e é inequívoca a participação do homem nisso”, afirma a professora do IO.

Já Aretha Sanchez, advogada e autora de pesquisa sobre mudanças climático-ambientais desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), afirma que mudanças climáticas são comprovadas por registros através do tempo.  “Essas alterações ocorrem por fatores externos ou internos à Terra – dentre os internos, temos a presença humana”, diz Aretha.

Iceberg gigante

Perguntada se o desprendimento do iceberg gigante na Antártida tem relação com o aquecimento global, Ilana explica que “do lado continental há acúmulo de neve/gelo; do lado oceânico ocorre um processo conhecido como calving, que é a liberação repentina e o rompimento de uma massa de gelo de uma geleira. O gelo que rompe pode ser classificado como um iceberg. O desprendimento desse grande iceberg pode ocorrer normalmente como parte do balanço de massa da geleira. O aquecimento global favorece, sim, a intensificação do calving e maior frequência de icebergs, mas não necessariamente está associado ao tamanho deles”.

*   *   *

Carta aberta de Ricardo Augusto Felicio, professor de climatologia do Departamento de Geografia da FFLCH, endereçada ao Jornal do Campus (JC) da USP

Lamentável e repugnante a matéria deste jornal da primeira quinzena de março de 2010, informando que os cientistas da USP permanecem fiéis ao
IPCC <http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2010/03/cientistas-da-usp-continuam-fieis-ao-ipcc/>.

Vocês deveriam se retratar em público por tamanho absurdo. Somos muitos os pesquisadores desta instituição que negam as imbecilidades pregadas, em
forma de dogma, da patifaria imposta por ONGs, ONU e interesses de governos internacionais.

Cientista não pode ser fiel, muito menos a um órgão político da ONU que nada tem de científico. O jornal ainda peca ao falar dos 2000 cientistas. Eles não devem passar atualmente de 100 ou 200. Só em 2008, mais de 600 caíram fora, alegando que não mais participariam deste conluio. O número real expressa um avolumando contingente de membros de ONGs, políticos e burocratas que nada tem a ver com ciência. Esta é a realidade que custa a ser demonstrada aqui no Brasil.

Enquanto a briga lá fora está acirrada devido aos diversos escândalos, quase semanais, encontrados nos afazeres do IPCC e seus asseclas, a nossa
imprensa se cala, não trazendo as grandes discussões diárias sobre o assunto que vemos em outros países.

Só mesmo pseudocientistas, engajados em interesses econômicos, é que se curvam ao IPCC. E pelo que vemos, temos muitos aqui dentro.

Então lançamos o desafio, exatamente como é feito no exterior: *mostrem a evidência! *Já adiantamos que não aceitamos: “eu acho” ou “eu creio”; saída
de modelos de computador e nem dogmas.

A grande prova de que eles não tem nada é sua fuga das discussões e seus ridículos planos, atrelados ao uso do “princípio da precaução, porque na falta de plena certeza científica, devem-se tomar medidas de mitigação imediatas”.

Qual a finalidade da pesquisa científica séria e dedicada, se no final das contas a resposta já está dada de antemão – se o aquecimento global fosse verdadeiro, deveríamos tomar medidas mitigatórias, mas se ele não for comprovado (como não o é) devemos tomar *exatamente as mesmas medidas*, apenas por precaução?

Que futuro resta para a ciência climática, se ela não é mais ouvida, pois todas as decisões em nome dela já foram tomadas? Sem falar da idéia de consenso, pois todos já admitiram que o homem causa “aquecimento global”, também confundido com “mudanças climáticas”. Oras, só nestas afirmações nós
percebemos como eles são totalmente contraditórios.

Sem falar que ainda dizem que os debates já se encerraram. Como as discussões estão encerradas se elas nunca aconteceram?

Querem trocar todo o cotidiano das atividades humanas baseados em mentiras?! Isto é completamente absurdo! A patifaria tomou vida própria. Está mais do que na hora de ser devidamente neutralizada.

Gastar verbas com o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas – PBMC será uma fabulosa forma de sumir com dinheiro público que poderia ser muito bem empregado para fazer melhorias contra um real problema: saneamento básico no Brasil!

Quanto à imparcialidade do jornal, esta ficou muito a desejar.

Ricardo Augusto Felicio é graduado em Ciências Atmosféricas – Meteorologia pela USP, tem mestrado em Meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais e doutorado em Geografia (Geografia Física) pela USP

A Negação das Mudanças Climáticas e seu Despropósito versus a Objetividade e Atitude Ponderada da Comunidade Científica

by Alexandre Araújo Costa on Wednesday, June 6, 2012 at 12:56pm (postado no Facebook)

Tenho recebido respostas interessantes a meus posts anteriores em que discuto a negação das mudanças climáticas. Alguns, que concordam ou simpatizam com a visão dos negadores, compartilharam links que, democraticamente, permanecem na minha página, expondo ainda mais os erros crassos e primários da negação. Como mostro, nenhum dos pseudo-argumentos apresentados se sustenta de pé, tendo eu mesmo os refutado ou indicado links que desmistificam tudo. Em alguns casos, indicar outros materiais de sites confiáveis como http://www.realclimate.org ou http://www.skepticalscience.com torna-se mais fácil e prático, pois uma característica da incansável hidra negadora é a da reciclagem de material (pelo menos nisso, ela é ecologicamente correta…). Algo desmentido uma vez pode aparecer noutro momento e/ou noutro país como uma “nova descoberta” para mostrar que “o aquecimento global é uma farsa” e toda a ladainha negadora repetida à exaustão, no esforço de repetir tanto uma mentira até que ela pareça verdade. Infelizmente, como mostrei em http://www.facebook.com/notes/alexandre-ara%C3%BAjo-costa/a-nega%C3%A7%C3%A3o-das-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-o-bode-e-os-gamb%C3%A1s-o-que-%C3%A9-uma-opini%C3%A3o-pondera/393911987317366, algumas dessas mentiras parecem mesmo ter forte tendência a serem perpetuadas, como as acusações grotescas contra Michael Mann e outros cientistas.

Obviamente há também os comentários de amigos que compartilham dos meus pontos de vista (ou pelo menos de boa parte deles) sobre o que está em jogo no que diz respeito à negação das mudanças climáticas. E muitos desses comentários têm servido de mote para dar prosseguimento à discussão. Assim como foi com o bode, inspirado por um desses amigos, assim é com a discussão sobre as noções de “posição ponderada” ou “posição radical” trazida por outro, que levanta a questão de que se “a posição ponderada sobre o aquecimento global é a do IPCC”, (…) “ela estaria entre as hipóteses radicais minimizadoras/negacionistas e supostas hipóteses radicais alarmistas/apocalípticas”.

O “texto do bode” dá dicas no sentido de que uma coisa não leva necessariamente à outra, dando exemplos em que, na realidade, pontos de vista intermediários seriam impossíveis ou, no mínimo, bizarrices frankensteinianas de pensamento. Há nessa suposição uma simplificação, como se pudéssemos marcar os pontos de vista como pontos geométricos em um segmento de reta e que a posição que representa uma melhor aproximação da realidade seria uma espécie de média (aritmética ou “ponderada”) dos extremos. Evidentemente, num debate que prime pela honestidade intelectual e em que os atores sejam movidos por um interesse comum, talvez o esqueminha da figura abaixo tenha alguma validade. Caso contrário, é preciso abandoná-lo como representação pictórica adequada.

É fato que não vi nenhum cientista falando de “efeito estufa desenfreado” (que aconteceu provavelmente em Vênus) como algo que possa ocorrer na Terra em um futuro tangível, ou outra teoria “radical” nesse sentido, mas quando digo que o IPCC tenta exprimir o consenso da comunidade científica, isso quer dizer que ele tenta encontrar estimativas quantitativas de um determinado fenômeno, efeito ou processo (bem como da incerteza em torno dessa estimativa), com base no que há disponível na literatura científica e/ou em bases de dados reconhecidamente validadas.

Para processos, fenômenos e componentes do sistema climático com efeito bem conhecido, geralmente a “barra de erro” (incerteza) é pequena, indicando que os valores estimados por diferentes metodologias e por diferentes grupos de pesquisa relatados em diferentes artigos na literatura são todos muito próximos. Processos sobre os quais não se tem um conhecimento quantitativo tão preciso geralmente exibem uma barra de erro maior, exprimindo exatamente esse menor grau de entendimento na forma de um maior espalhamento entre as estimativas individuais disponíveis na literatura.

Uma das estimativas mais importantes nesse sentido é a da grandeza que conhecemos como “Forçante Radiativa”, isto é, a contribuição de um determinado componente do sistema climático (seja um gás de efeito estufa ou um tipo de aerossol, ou a variabilidade solar, etc.) para alterar o balanço de energia desse sistema ao longo de um dado período. A Forçante Radiativa é a energia ganha ou perdida (respectivamente positiva ou negativa) pelo sistema climático em função das mudanças nesse componente por unidade de área por unidade de tempo (sendo medida em Watts por metro quadrado ou W/m2). Por exemplo, como vários gases de efeito estufa têm tido sua concentração aumentada desde o período pré-industrial, eles exercem uma forçante radiativa positiva desde lá até o presente pois mais energia é retida no sistema climático agora do que antes, ao invés de deixar o planeta na forma de radiação infravermelho. Por outro lado, uma atmosfera com mais aerossóis (partículas líquidas ou sólidas em suspensão) reflete mais luz, portanto, como a concentração destes também aumentou com a industrialização, os aerossóis contribuem com uma forçante radiativa negativa, pois menos energia entra no sistema na forma de luz solar. Um componente cujo comportamento não tenha mudado de maneira significativa nos últimos séculos exerce, portanto, uma forçante radiativa próxima de zero.

Dentre as componentes bem estudadas e com estimativas bem consolidadas, estão o CO2 e demais gases de efeito estufa de vida longa (metano, óxido nitroso e halocarbonetos). Em 2005, a estimativa era de que o aumento antrópico do CO2 na atmosfera (cuja concentração então era de 379 partes por milhão e hoje em dia ultrapassou 390) contribuía com uma forçante de +1,66 W/m2 (com pequena incerteza para mais ou para menos) um valor bastante significativo para o aquecimento do sistema climático terrestre. Os demais gases de efeito estufa entram com algo muito próximo de 1 W/m2 a mais.

Mesmo com incertezas relativamente maiores, o caso do Sol é um excelente exemplo de como o IPCC chega a uma estimativa “de consenso”. Em http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch2s2-7-1-2.html, é mostrado um levantamento das estimativas disponíveis na literatura científica de quanto a atividade solar teria variado desde o período conhecido como “mínimo de Maunder”, no século XVII, até os dias de hoje, algo que tanto os negadores gostam de falar. Devo dizer que as estimativas não são de artigos de pesquisadores em clima, mas de estudos por especialistas… em Sol. As estimativas são de que as mudanças na atividade solar desde então têm contribuído com quase zero (isso mesmo!) a, na estimativa maior, +0,68 W/m2, como mostrado neste link. Percebam que, baseando-se nos especialistas que estudam o Sol, o IPCC não poderia fazer outra coisa a não ser atribuir às variações de atividade solar uma forçante radiativa de aquecimento bastante modesta, de poucos décimos de W/m2. Não haveria motivo para concluir que o Sol não variou em nada se apenas dois estudos em dez vão nesse sentido, mas também não teria sentido adotar uma estimativa próxima do outro extremo. Mas é preciso deixar claro! Mesmo se escolhêssemos a dedo esse maior valor, ainda assim chegaríamos à conclusão inevitável de que a contribuição da variabilidade solar para o clima desde o século XVII é várias vezes menor do que a dos gases de efeito estufa! Considerando estimativas a partir do século XVIII (e não XVII), fica mais claro que o papel do Sol é ainda menos significativo (forçante radiativa estimada de apenas +0,12 W/m2).

Algo parecido é feito com os aerossóis de sulfato como em http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch2s2-4-4-1.html, mostrando que, como sua concentração na atmosfera também aumentou em função da industrialização, esses aerossóis exercem um efeito de resfriamento, contrabalançando parte do efeito de aquecimento dos gases de efeito estufa, com estimativas de forçante radiativa variando entre -0,12 e -0,96 W/m2.

Há valores discrepantes entre estimativas? Há! Mas, ei… não é um leilão onde um negador pode chegar e chutar qualquer valor numérico, nem muito menos, sem nenhum embasamento, chegar e dizer “o aquecimento é natural”, “o sol é que está causando o aquecimento da Terra”, etc. Mede-se, calcula-se, submete-se à apreciação da revisão por pares. Aí sim, ganha-se voz no debate científico. Os que abandonam a seriedade do método realmente não têm compromisso em se aproximar da verdade científica.

Portanto, a opinião ponderada não está “no meio” entre opiniões cientificamente fundamentadas e desvarios motivados por agenda econômica, político-ideológica ou vaidade! Não pode estar! Está “no meio” daquilo que tem valor científico! As indicações do IPCC são médias entre medidas e estimativas de verdade, documentadas e publicadas às quais se agrega uma barra de incerteza. Representa o bom senso de não considerar como verdade absoluta nenhum valor individualmente medido ou estimado por diferentes pesquisadores usando diferentes métodos (satélite, observação de superfície, modelagem, etc.). Tampouco se agarra em um valor extremo, nem de um lado, nem de outro. Essas estimativas são o ponto de partida para obter tanto a melhor avaliação (a grosso modo, a média) quanto a incerteza, que depende do espalhamento das várias estimativas, chegando a algo como http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/fig/figure2-20-l.png, reproduzida a seguir.

Essa figura não deixa margens para dúvidas e é por isso que o IPCC se pronunciou. Ao se somar os efeitos, o resultado é de uma forçante radiativa positiva, que não pode resultar em outra coisa senão aquecimento. De onde vem a maior parte desse sinal? Do CO2 e dos gases de efeito estufa. O silêncio seria uma postura de irresponsabilidade e covardia extremas, numa situação em que, mesmo tomando a menor estimativa de aquecimento por esses gases e a maior estimativa de resfriamento pelos aerossóis (o principal fator que atua no sentido contrário), ainda assim se obtém um número que indica que o planeta está, sim, aquecendo, e de maneira intrinsecamente ligada às atividades humanas. Esse posicionamento (que para muito além do IPCC enquanto instituição é a de mais de 97% daqueles que são pesquisadores atuantes na área, vide http://www.skepticalscience.com/global-warming-scientific-consensus-intermediate.htm), portanto, é ponderada, séria, realista. Nada tem de radical. Se a ciência alerta para riscos e implica em mudanças em nossa sociedade que podem parecer incômodas, e as pessoas preferem ignorar esse alerta, aí é outra história! Espero que fique claro, assim, porque não se pode conceder um milímetro sequer aos negadores, em seu desserviço à opinião pública, em sua ação deliberada de desinformação, em sua campanha abertamente anti-ciência.

Mas se vocês querem saber, parece haver alguém que tem radicalizado no sentido oposto ao dos negadores, sim! Esse alguém tem mostrado que algumas projeções do IPCC são, ao invés de ponderadas, subestimadas, conservadoras… Já ouviram falar de uma tal de “Natureza”? Pois bem… Mas esse será o assunto de outro artigo…