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As raízes coloniais do entendimento da alma nacional (FAPESP)

HUMANIDADES | MELANCOLIA
A psicologia do púlpito

Carlos Haag
Edição Impressa 185 – Julho 2011

© MELENCOLIA I (GRAVURA DE ALBRECHT DÜRER / WIKIMEDIA COMMONS)

Em seu Sermão da quarta dominga depois da Páscoa, o padre Antônio Vieira (1608-1697) discute a tristeza a partir da passagem bíblica em que Cristo anuncia sua morte aos apóstolos, que se entristecem. Para Vieira, porém, a causa daquela tristeza não era a ausência iminente do mestre, mas o silêncio diante de sua partida. Se tivessem perguntado aonde Cristo iria teriam compreendido que não havia motivos para sofrer. Assim, a causa da tristeza era o silêncio. Num curioso paralelo, em 1895, Freud afirmou: “Sofremos de reminiscências que se curam lembrando”. A base da psicanálise freudiana era a cura pela palavra e pelo autoconhecimento da alma. Algo a que, em 1676, Vieira (leia mais na página 86) já aludia em As cinco pedras da funda de Davi: “O primeiro móbil de todas as nossas ações é o conhecimento de nós mesmos”, acrescentando no Sermão da quarta dominga do advento: “Nenhuma coisa trazemos mais esquecida, mais detrás de nós que a nós mesmos”.

“Nessa primeira modernidade havia uma forma de terapia que usava as palavras para tratar as dores da alma, ainda que identificá-la diretamente com a psicoterapia atual seja uma imprecisão”, explica o psicólogo Paulo José Carvalho da Silva, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor da pesquisa Ideias sobre as dores da alma no Brasil entre os séculos XVI e XVIII, apoiada pela FAPESP. “Ainda assim, investigar as noções de dores da alma nesse período é um desdobramento original da história das ideias psicológicas, uma área de pesquisa emergente na história da ciência. A psicologia como ciência de práticas terapêuticas só foi sistematizada no final do século XIX, mas desde a Antiguidade muitos pensadores quiseram compreender e tratar a alma e um dos nomes desses saberes era a medicina da alma”, analisa o pesquisador. “Muitos dos conceitos da psicologia moderna têm raízes no passado e olhar para esse passado nos permite reconhecer os elos de continuidade com nosso presente, as origens de teorias e métodos próprios do nosso modo de pensar. Se analisarmos o conjunto da produção luso-brasileira colonial, destacando-se o aporte dos jesuítas, notamos a criação de formas e métodos para a construção de um tipo de conhecimento da subjetividade e do comportamento humanos muito relevantes para a definição dos alicerces que darão origem à psicologia moderna”, afirma a psicóloga Marina Massimi, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo e autora, entre outros, de História da psicologia brasileira (E.P.U.) “A preocupação com os fenômenos psicológicos no Brasil não é recente e desde os tempos da colônia eles aparecem em obras de filosofia, moral, teologia, medicina, política etc. cujo estudo mostra uma produção muitas vezes original e mesmo questões até hoje atuais”, concorda a psicóloga Mitsuko Makino Antunes, da PUC-SP, e autora de A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição.

O psicólogo e professor da USP Isaías Pessotti observa em seu estudo Notas para uma história da psicologia brasileira que “a evolução da psicologia moderna começa no Brasil colonial em que se veiculam ideias de interesse para a área em diversas áreas do saber mesmo sem a presunção de construir uma psicologia”. Segundo o pesquisador, esses textos eram explicitamente sobre outros temas, mas tratavam de questões como método de ensino, controle das emoções, causas da loucura, diferença de comportamentos entre sexos e raças etc. compondo o pensamento da elite cultural da época colonial. “É um período pré-institucional, pois o que se publica são obras desvinculadas de instituições da psicologia. São trabalhos individuais, sem compromisso com a construção ou difusão do saber psicológico, escritos por autores indiferentes ao progresso do saber psicológico per se. Na sua maioria são religiosos ou políticos, homens de projeção e poder, iluminados pela cultura europeia e interessados em usar essa ‘psicologia’ para a organização da sociedade e do Estado brasileiro.”

Os tratamentos para as patologias da alma eram assumidos, no início, pelos religiosos, no caso do Brasil colônia pelos missionários jesuítas, seguidos de outros, embora isso não significasse que a medicina da alma fosse uma empresa estritamente religiosa. Postulava-se, de modo geral, uma continuidade entre a dor do corpo e a da alma, identificada como tristeza, luto ou descontentamento. “Na primeira modernidade, o debate filosófico sobre a definição da natureza das paixões também incluía sua relação com a violência. Muitos sustentavam que a paixão era um perigoso elemento da natureza humana com enorme potencial subversivo. Filósofos das mais variadas tradições afirmavam que as paixões são capazes de corromper governos, arruinar sociedades ou mesmo provocar a morte. A paixão era um problema da ordem da ética, da política, estética, medicina e da teologia”, nota Carvalho da Silva. Para os que viviam no Brasil dos séculos XVI e XVII, experimentar uma paixão era sinônimo de “sentir”, de ter sentimentos, e ser afetado por uma paixão significava emocionar-se, viver uma emoção. “Há uma produção cultural elaborada no Brasil que mostra o interesse predominante dessa dimensão poderosa e frágil da experiência humana. O conhecimento, controle e manipulação das paixões, em sua natureza teórica e prática, eram um instrumento particularmente importante para os objetivos religiosos, sociais e políticos da Companhia de Jesus, como revela o interesse dos jesuítas sobre o tema”, avalia Marina Massimi.

© NARCISO (MICHELANGELO CARAVAGGIO / WIKIMEDIA COMMONS)

O sistema baseava-se nas teorias formuladas por Aristóteles, revisitado no século XIII por Tomás de Aquino (daí a sua denominação de doutrina “aristotélico-tomista”), um caldo reelaborado pelos pensadores da companhia, nos chamados tratados Conimbrences (termo derivado de Conimbrica, nome latino da cidade de Coimbra, onde os estudos foram elaborados), comentários das obras aristotélicas sobre as paixões. Esses estudiosos atribuíam grande importância aos estados da alma definidos como paixões, entendidas como movimentos do apetite sensitivo, provenientes da apreensão do bem ou do mal, acarretando algum tipo de mutação não natural do corpo. “Os filósofos jesuítas reafirmaram, nos moldes de Aristóteles e Aquino, a função positiva das paixões, caso fossem ordenadas pela razão, o que ajudaria na sobrevivência do homem e o ajudariam a alcançar a virtude. Elas se transformariam em doenças ou distúrbios do ânimo apenas enquanto se afastam da regra e moderação da razão. Assim, a ‘psicologia’ dos Conimbrences é expressiva da posição cultural da modernidade nascente”, avalia Marina. Nesse movimento se estabelece uma analogia profunda entre o organismo do homem, considerado como realidade psicossomática, e o organismo político-social. “É nesse encontro que o controle e a terapia das paixões parecem encontrar sua função teórica e prática. Na dinâmica do corpo social, bem como na do corpo individual, o ‘despotismo’ das paixões deve ser submetido a uma ‘monarquia’ onde o governo da razão e da liberdade atribua a cada aspecto da vida psíquica sua função e seu lugar peculiar”, completa a pesquisadora.

“Daí decorre a importância da pregação, vista como fonte de transmissão de conceitos e práticas psicológicas, mas também como expressão da articulação entre retórica, teoria do conhecimento e psicologia filosófica, resultando numa prática de uso da palavra muito significativa e, num certo sentido, precursora da moderna confiança na força da palavra e do discurso que está presente na psicanálise e nas psicoterapias em geral.” A palavra do pregador seria capaz de mudar juízos e atitudes dos ouvintes e um dos alicerces desse poder, nota a autora, seria a possibilidade de a palavra atingir e mobilizar o dinamismo psíquico dos destinatários, nos termos das psicologias formuladas por Aristóteles, Tomás e Agostinho. “A palavra pregada visa ensinar o ato de conhecimento envolvendo todo o psiquismo humano”, afirma Marina. Um caso exemplar disso seriam os Sermões de Vieira, onde se combinariam a preocupação jesuítica com os efeitos morais da tristeza entre a população brasileira, a apreensão pela insatisfação melancólica dos colonos e a longa tradição europeia de meditações médicas, filosóficas e teológicas sobre essa paixão da alma. “Vieira enfatiza a universalidade e a gravidade da tristeza a que estão sujeitos mesmo os reis de todas as terras, os imperadores mais poderosos e os papa. Ela é tão perigosa para a saúde do corpo como para a salvação da alma. Mais ou menos aguda, a tristeza é sempre mortal, é como um verme que come por dentro, secando tudo até que o princípio da vida se apague. Também segundo ele, as tristezas que permanecem ocultas são as mais opressivas, sensíveis e perigosas”, explica Carvalho.

Mas a dor era entendida como um fenômeno da condição humana que extravasa os limites concebíveis entre a alma, o corpo e mesmo os limites que separariam um indivíduo de outro. O que revela que existia uma confluência de saberes e campos que ora se apresentavam dissociados, mas que, naquele período, dialogavam de modo mais ou menos fluente. Falar sobre a dor implicava abordar não apenas a saúde e a doença, mas temas como finitude e eternidade, perda e separação, fantasia e realidade, afeto e razão, gozo e sofrimento, vida e morte”, continua o pesquisador. “Que é este mundo senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças e mortes?”, escreveu o Padre Vieira. A consolação passou, então, a fazer parte das atividades pastorais, e ao lado da administração dos sacramentos os padres ofereciam a medicina da alma para aqueles que se encontravam na dor. “Para tanto, a identificação da verdadeira e legítima dor é uma referência fundamental para o consolador cristão e uma condição para a experiência de ir além da dor, necessária para a salvação da alma. Todo consolador, como todo confessor, deve saber nomear a dor de quem sofre”, diz Carvalho. Segundo o pesquisador, os sermões eram o meio mais utilizado para a realização da arte da consolação e da medicina da alma em sua função psicológica e espiritual, o que pressupunha um conhecimento prático sobre a importância da memória na experiência da dor e no seu tratamento, em especial, na sua função na origem e na permanência das dores da alma e, portanto, na sua superação. “Mas é importante lembrar que consolar-se é fruto de uma decisão solitária e pessoal. Na medida em que a noção de indivíduo e de vida interior ganhou mais espaço na mentalidade moderna, a relação entre conhecimento de si e a experiência da consolação foi se estreitando cada vez mais.”

Vieira, em particular, apostava na autonomia da razão humana para dominar suas paixões e apetites quando afirma que “o conhecimento de si mesmo, e o conceito que cada um faz de si, é uma força poderosa sobre as próprias ações”. É preciso voltar os olhos, sempre abertos em coisas exteriores, para o interior. “Frei Chagas, por exemplo, recomendava que era melhor empregar o tempo e a inteligência não tanto no exame da história, da geografia e da cultura, mas no da própria alma. Essa anatomia de si é o equivalente moderno do que se viria a ser a análise da alma, ou seja, a decomposição nas menores partes para poder compreendê-la melhor”, nota o autor. “O saber de si mesmo é visto como funcional para o controle sobre suas próprias ações, fundamentando-se na possibilidade de o sujeito representar sua vivência interior através do discurso. A necessidade da palavra para formular o autoconhecimento faz com que esse não seja possível, por exemplo, em experiências intensas como o choro simplesmente. O autoconhecimento se traduz num discurso cuja finalidade é comunicar para o outro a experiência vivenciada. O outro é um ouvinte. A escuta, que ele oferece ao sujeito, permite a este a melhor articulação de sua comunicação verbal e a catarse. O relacionamento interpessoal e o diálogo assumem uma função terapêutica, princípio, aliás, de toda psicoterapia moderna”, analisa Marina. Assim, o sujeito ocupa um lugar ativo, sendo o conhecimento possível pela transformação em discurso da vivência interior que ele próprio elabora. A consciência dos fenômenos e sua comunicação verbal são as condições para o entendimento deste fenômeno.

© DETALHE DE O SONHO DE CONSTANTINO (PIERO DELLA FRANCESCA / WIKIMEDIA COMMONS)

“As palavras, ao mesmo tempo que objetivam os fenômenos subjetivos, exteriorizando o que era contido na intimidade da pessoa, favorecem a libertação das emoções penosas desses estados.” Falar das dores podia aliviar o coração, bem como silenciá-las fazia com que essas se acumulassem e aumentassem ainda mais. “Era possível curar por meio da palavra. Acreditava-se também que o verdadeiro orador, como um médico de almas, curaria seus auditórios de suas enfermidades, combatendo as paixões que lhes são contrárias: eles apaziguam a cólera, aumentam a coragem e fazem suceder o amor ao ódio, e assim por diante”, fala Carvalho. “Vale lembrar ainda a importância da imagem, que, juntamente com a palavra, é um grande recurso de transmissão cultural em sociedades marcadas pela oralidade”, observa Marina.

A chegada de novos princípios científicos ao Brasil colonial trazem mudanças nessa visão psicológica do homem. “Desenvolvem-se uma psicologia e uma psicopatologia inovadoras em relação à tradição cultural anterior. Sendo a mente redutível ao organismo e sendo este regulado pelas leis da natureza, é possível abordar o seu estudo por meio do método científico, que já se mostrara efetivo na física e na biologia. Os distúrbios psíquicos, assim, que dependem do funcionamento do organismo segundo essa nova visão iluminada, poderiam ser conhecidos causalmente, prevenidos e tratados, modificando as variáveis por remédios físicos e normas higiênicas”, explica a pesquisadora. “A terapêutica das dores da alma, agora, deve ser realizada por remédios farmacêuticos que acabam por subordinar a teologia moral à medicina, considerada a disciplina que ultimamente pode instrumentar os tratamentos da alma, inclusive aqueles tradicionalmente cuidados pelos confessores”, concorda Carvalho.

É o caso, por exemplo, de Francisco de Mello Franco (1757-1822), que em sua Medicina teológica postula que a figura do confessor seja substituída pela do médico que detém o conhecimento exato das causas das enfermidades da alma e proporciona os métodos terapêuticos como remédio, tudo fruto de uma análise objetiva e causal. “O objetivo da psicologia médica do século XVIII, que será consolidada no século XIX, é o de definir uma ‘verdade’ sobre o homem, alternativa à proclamada pelo saber tradicional de matriz cristã. A felicidade é identificada com a boa regulação da máquina corporal, segundo a ordem do sistema da natureza”, diz Marina. “Não é uma cura pela palavra, mas uma medicina propriamente dita. Obras como a de Mello Franco propõem a substituição dos confessores pela nova medicina dos nervos e defende que é necessário conhecer os nervos, sua estrutura, para poder tratar os vícios humanos. Na contramão da medicina da alma, abre-se uma nova via à medicina, fundada nas bases de uma nova concepção de homem, de ciência e de racionalidade”, defende Carvalho.

Afinal, o mundo ideal preconizado em sermões não se sustentava mais. “O sonho de uma sociedade ordenada pela verdade e pela justiça é substituído pela consciência da inevitabilidade do destino imposto pelo regime colonial. Então, a dimensão psicológica interior do homem não é mais concebida como o espelho da harmonia universal, como queria a reforma ordenada aristotélico-tomista, nem como o lugar onde mora no homem aquela faísca divina que garante a sua imortalidade, mas como o refúgio precário e passageiro do indivíduo ante os absolutismos do poder e a desordem exterior da sociedade”, explica a pesquisadora. Aos poucos, nasce a ideologia do caráter nacional brasileiro que manipula traços psicológicos na construção de teorias para definir características coletivas do “brasileiro”. “No século XIX, o processo de organização da sociedade nacional traz a necessidade de nivelar os sujeitos sociais e culturais. A nova pergunta é ‘quem somos nós?’ Creio que foi a ocorrência desse processo um dos motivos que explicam, parcialmente, por que a introdução e a difusão da psicologia moderna no país, em suas vertentes de ciência do comportamento ou da psicologia das diferenças individuais, com suas técnicas de avaliação e de medida do ser humano, foi muito favorecida e apoiada como instrumento oportuno e moderno a ser utilizado nessa perspectiva.” Até o início do século XIX não havia no Brasil uma psicologia propriamente dita como prática reconhecida. Mas era crescente o interesse da elite nacional pela produção e aplicação de saberes psicológicos, em especial nas recém-criadas faculdades de Medicina do Rio e da Bahia, onde se produziram várias teses sobre o tema.

Na Bahia, a preocupação principal era a aplicação da psicologia nos problemas sociais, como na higiene mental e psiquiatria forense. No Rio, o interesse era sobre a relação da psicologia com a neuropsiquiatria e a neurologia, com estudos de psicologia experimental. “Boa parte dessas produções se ligava ao movimento que buscava o saneamento das cidades, o que envolvia a eliminação das ‘imundícies’ físicas e morais dos centros urbanos. Os médicos se envolviam em ações para erradicar esses problemas e criar uma sociedade sadia, organizada, normalizada, livre da desordem e dos desvios da escória social. Chegaram os hospícios, com o argumento de ajudar o louco, os quais seriam asilos higiênicos, com base no tratamento moral, mas serviram apenas para excluir do convívio social os indesejáveis”, nota Mitsuko Antunes. Uma escolha que trouxe graves consequências para a psicologia nacional. “Um psicólogo enraizado em sua cultura e sociedade é um agente de transformação social e não de normalização. Hoje temos uma escolha: atuar na redução do ser humano como peça produtiva da sociedade globalizada ou atuar para afirmá-lo como protagonista da sociedade. Acho que o conhecimento das ideias psicológicas surgidas no âmago da história cultural de nosso país tem a função de iluminar essa escolha”, avalia Marina.

The Birth of Religion (fragment, National Geographic)

By Charles C. Mann
Photograph by Vincent J. Musi
June 2011

Göbekli Tepe

[…]

Anthropologists have assumed that organized religion began as a way of salving the tensions that inevitably arose when hunter-gatherers settled down, became farmers, and developed large societies. Compared to a nomadic band, the society of a village had longer term, more complex aims—storing grain and maintaining permanent homes. Villages would be more likely to accomplish those aims if their members were committed to the collective enterprise. Though primitive religious practices—burying the dead, creating cave art and figurines—had emerged tens of thousands of years earlier, organized religion arose, in this view, only when a common vision of a celestial order was needed to bind together these big, new, fragile groups of humankind. It could also have helped justify the social hierarchy that emerged in a more complex society: Those who rose to power were seen as having a special connection with the gods. Communities of the faithful, united in a common view of the world and their place in it, were more cohesive than ordinary clumps of quarreling people.

Göbekli Tepe, to Schmidt’s way of thinking, suggests a reversal of that scenario: The construction of a massive temple by a group of foragers is evidence that organized religion could have come before the rise of agriculture and other aspects of civilization. It suggests that the human impulse to gather for sacred rituals arose as humans shifted from seeing themselves as part of the natural world to seeking mastery over it. When foragers began settling down in villages, they unavoidably created a divide between the human realm—a fixed huddle of homes with hundreds of inhabitants—and the dangerous land beyond the campfire, populated by lethal beasts.

French archaeologist Jacques Cauvin believed this change in consciousness was a “revolution of symbols,” a conceptual shift that allowed humans to imagine gods—supernatural beings resembling humans—that existed in a universe beyond the physical world. Schmidt sees Göbekli Tepe as evidence for Cauvin’s theory. “The animals were guardians to the spirit world,” he says. “The reliefs on the T-shaped pillars illustrate that other world.”

Schmidt speculates that foragers living within a hundred-mile radius of Göbekli Tepe created the temple as a holy place to gather and meet, perhaps bringing gifts and tributes to its priests and crafts­people. Some kind of social organization would have been necessary not only to build it but also to deal with the crowds it attracted. One imagines chanting and drumming, the animals on the great pillars seeming to move in flickering torchlight. Surely there were feasts; Schmidt has uncovered stone basins that could have been used for beer. The temple was a spiritual locus, but it may also have been the Neolithic version of Disneyland.

Over time, Schmidt believes, the need to acquire sufficient food for those who worked and gathered for ceremonies at Göbekli Tepe may have led to the intensive cultivation of wild cereals and the creation of some of the first domestic strains. Indeed, scientists now believe that one center of agriculture arose in southern Turkey—well within trekking distance of Göbekli Tepe—at exactly the time the temple was at its height. Today the closest known wild ancestors of modern einkorn wheat are found on the slopes of Karaca Dağ, a mountain just 60 miles northeast of Göbekli Tepe. In other words, the turn to agriculture celebrated by V. Gordon Childe may have been the result of a need that runs deep in the human psyche, a hunger that still moves people today to travel the globe in search of awe-inspiring sights.

Some of the first evidence for plant domestication comes from Nevalı Çori (pronounced nuh-vah-LUH CHO-ree), a settlement in the mountains scarcely 20 miles away. Like Göbekli Tepe, Nevalı Çori came into existence right after the mini ice age, a time archaeologists describe with the unlovely term Pre-pottery Neolithic (PPN). Nevalı Çori is now inundated by a recently created lake that provides electricity and irrigation water for the region. But before the waters shut down research, archaeologists found T-shaped pillars and animal images much like those Schmidt would later uncover at Göbekli Tepe. Similar pillars and images occurred in PPN settlements up to a hundred miles from Göbekli Tepe. Much as one can surmise today that homes with images of the Virgin Mary belong to Christians, Schmidt says, the imagery in these PPN sites indicates a shared religion—a community of faith that surrounded Göbekli Tepe and may have been the world’s first truly large religious grouping.

Naturally, some of Schmidt’s colleagues disagree with his ideas. The lack of evidence of houses, for instance, doesn’t prove that nobody lived at Göbekli Tepe. And increasingly, archaeologists studying the origins of civilization in the Fertile Crescent are suspicious of any attempt to find a one-size-fits-all scenario, to single out one primary trigger. It is more as if the occupants of various archaeological sites were all playing with the building blocks of civilization, looking for combinations that worked. In one place agriculture may have been the foundation; in another, art and religion; and over there, population pressures or social organization and hierarchy. Eventually they all ended up in the same place. Perhaps there is no single path to civilization; instead it was arrived at by different means in different places.

[…]

Full text at http://ngm.nationalgeographic.com/2011/06/gobekli-tepe/mann-text/1

As artes de Roger Bastide (Fapesp)

HUMANIDADES | SOCIOLOGIA
Artigos sobre o Brasil foram fundamentais para a formação de seu pensamento
Carlos Haag
Edição Impressa 184 – Junho 2011

© ARQUIVO / AE

Há 60 anos, o sociólogo “francês abrasileirado” (como o chamava Gilberto Freyre) Roger Bastide (1898-1974) realizou um sonho antigo, acalentado desde pouco depois de sua chegada ao país, em 1938, vindo como substituto do antropólogo Claude Lévi- -Strauss à frente da cadeira de sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Em dois dias plenos de cerimônia, entre 3 e 4 de agosto de 1951, Bastide foi iniciado no candomblé como filho de Xangô e passou a usar o colar de contas vermelho e branco com grande orgulho. Por um curioso paradoxo, a passagem religiosa foi o ápice de suas pesquisas científicas no Brasil e, ao mesmo tempo, expressão sincera do seu “encantamento” pelas descobertas. “A pesquisa científica exigia de mim a passagem preliminar pelo ritual de iniciação. Até a minha morte serei reconhecido a todas as Mães de Santo que me trataram como um filho branco e compreenderam, com seu dom superior de intuição, minha ânsia por novos alimentos culturais e pressentiram que meu pensamento cartesiano não suportaria as novas substâncias como verdadeiros alimentos”, escreveu em Estudos afro-brasileiros.

Chegou ao Brasil sem saber o que encontraria. “Partiremos em algumas horas e as gaivotas traçam sinos cabalísticos no céu”, escreveu a bordo do navio que o trazia aos trópicos, revelando o espírito aberto ao oculto, ao irracional. Aqui, deparou-se com uma questão complexa: gostaria de ser um intérprete do novo país, mas como fazer isso sendo um estrangeiro em busca da compreensão da “identidade brasileira”? Será seu encontro com os modernistas, em especial Mário de Andrade, que o ensinará a procura do “exótico do exótico” do “outro do outro”. Daí a importância de sua iniciação e, também, da sua inserção na discussão sobre as artes plásticas que os modernistas realizavam. “As artes plásticas, o folclore, o barroco ensinam a Bastide que a originalidade da cultura brasileira era seu hibridismo, a solução ímpar que aconteceu aqui com o cruzamento de civilizações distintas”, explica a antropóloga Fernanda Arêas Peixoto, professora da USP e autora deDiálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. Do Bastide do candomblé muito se fala, mas o crítico de arte que arregaçou as mangas e saiu da universidade para os jornais é bem menos conhecido, apesar da importância de seus escritos para a compreensão de seu pensamento. Essa lacuna está sendo, aos poucos, preenchida, como revela o lançamento de Impressões do Brasil (ver resenha “Impressão do Brasil”), livro recém- 
-lançado pela Imprensa Oficial, que reúne 11 artigos que retratam o processo de ambientação intelectual do francês no país e seu envolvimento com a cultura nacional. “Essa paixão pelas artes e pelas letras não era um passatempo dominical de Bastide, mas uma disciplina estética que ele soube cultivar. Os textos revelam a inclusão crescente de temas brasileiros em seu repertório intelectual. E de como, com rapidez e profundidade, ele se enganou com a matéria brasileira, antiga e contemporânea”, avalia o professor de literatura da USP, Samuel Titan Jr., que, ao lado da socióloga Fraya Frehse, foi responsável pela organização dos artigos do livro, entre esses: “Machado de Assis, paisagista”; “Igrejas barrocas e cavalinhos de pau”; “Estética de São Paulo”; “Variações sobre a porta barroca”; “Arte e religião: o culto aos gêmeos”; entre outros.

Há ainda outras boas-novas. “Os estudiosos da obra de Bastide são, em geral, das ciências sociais. Apesar da eficiência desse fio de Ariadne para nos movimentarmos nos aspectos gerais da sua produção, a literatura abre ramificações próprias. Ele trouxe uma contribuição importante com o seu olhar estrangeiro e aberto, iluminando de uma forma diferente a nossa própria literatura”, acredita Glória Carneiro do Amaral, professora livre-docente aposentada da USP, atualmente pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autora de Navette literária França-Brasil: a crítica de Roger Bastide, recém-editado pela Edusp em dois volumes que analisam as críticas literárias bastidianas e as reúnem pela primeira vez, muitas delas quase desconhecidas de pesquisadores de sua obra.

“Bastide pensou e escreveu sobre o Brasil à medida que o foi conhecendo. No exercício rotineiro da crítica jornalística, ele comenta as artes visuais e a literatura nacional, discutindo obras no calor da hora. A arte é lida por ele como forma de compreensão da cultura brasileira mais ampla, ligando-se à análise cultural. Foi a partir da matéria artística que ele pensou os processos de ‘aculturação literária’, a incorporação do negro à literatura e mestiçagem estética. O mesmo se deu em outros campos da arte. Ele praticou a interdisciplinaridade num momento em que isso não era praticado como hoje em dia”, analisa Fernanda Peixoto. “O Brasil que emerge das artes e da cultura popular é um Brasil mestiço do que Bastide se aproxima dos mais diversos ângulos. Ele deve ser visto como um elemento de ligação entre o meio universitário e o cenário intelectual mais amplo, representando, com esses textos, dentro da universidade, a articulação entre a academia e os jornais; entre a sociologia acadêmica, a crítica e o ensaísmo; entre as ciências sociais e o modernismo literário”, completa a pesquisadora. “Bastide se interessou a fundo pela nossa arte e pela nossa literatura, tornando-se crítico militante e um estudioso que pesou de maneira notável na interpretação de fatos, ideias e obras. Sua visão sociológica concorria para a ampliação das interpretações, sendo um dos raros estudiosos a usar com segurança e felicidade essa combinação difícil da sociologia e da crítica da arte”, escreveu o ex-aluno Antonio Candido em Recortes.

Mas não se trata aqui da “arte pela arte”. “Nas análises que fez sobre a produção artística brasileira, eruditas ou populares (folclore, artes plásticas e literatura), Bastide se concentrou na busca das marcas africanas que estariam impressas nessa produção ou, nas palavras dele, ‘buscamos a raça na trama da obra escrita’. O que essa produção revela é a presença de uma África em surdina, oprimida por modelos cultos europeus, exemplificando o drama do africanismo oprimido no país. Daí ele ter se voltado, ao mesmo tempo, para os escritos sobre arte e os estudos sobre as religiões afro-brasileiras que obrigam a redefinir suas análises anteriores”, observa Fernanda. “Se as manifestações artísticas o levam a ver o Brasil a partir de uma trama sincrética (a competição desigual entre a civilização europeia e a africana, que luta para impor seus valores e modelos), a religião trouxe a ele outro ângulo de observação”, continua. Segundo Bastide, nota a pesquisadora, os cultos afro-brasileiros seriam redutos privilegiados da reação, o polo de resistência africana e permitem que se possa “decantar” a África pela sua composição mestiça, uma forma nova de compreender a presença africana no Brasil. “Esse é o campo de observação de Bastide aqui: o triângulo África, Europa e Brasil, este último o lugar da barganha dos dois sistemas simbólicos, africano e europeu”, diz a professora. A religião teria o poder de inverter o sentido da equação sincrética, pois seria o lugar em que a contribuição negra é a base e, assim, oferece ao intérprete o caminho preferencial para entender a África no Brasil.

Mas por que a opção africana? O encontro entre Bastide e a África aconteceu em território brasileiro na sua primeira viagem ao Nordeste, em 1944. “Diante da fonte europeia e africana, que alimenta o misticismo brasileiro, ele vira sua atenção para a matriz africana. Isso não significa uma escolha, mas, pensa, a única opção segura para quem quer entender o caráter particular do misticismo nacional. Pode-se dizer que não é o intérprete que elege o mundo africano como objeto de reflexão, mas é a África que se impõe ao observador”, nota Fernanda. Afinal ela “penetra pelos ouvidos, pelo nariz e pela boca, bate no estômago, impõe seu ritmo ao corpo e ao espírito, obrigando-o a passar do estudo da mística das pedras e da madeira talhada para a religião dos pretos”, como escreveu Bastide emImagens do Nordeste em preto e branco, “reportagem literária” feita pelo francês em 1944 a pedido da revista O Cruzeiro. “A civilização africana, nos termos de Bastide, é recriada no Brasil a partir (e apesar) do encontro entre as três civilizações. Assim, a África brasileira, longe de cópia de um modelo original, é reelaboração, um produto também híbrido. É uma África sincrética, composta de brancos e negros, como mostram seus estudos sobre arte e literatura. Para ele, o negro está ao mesmo tempo unido e separado na sociedade brasileira.”

Assim, se Gilberto Freyre, referência fundamental para Bastide, ao lado dos modernistas e Florestan Fernandes (seu aluno e colega de pesquisas), estudou o sincretismo do ponto de vista da civilização brasileira, Bastide virou-se para as civilizações africanas, com isso, como escreveu, pretendendo “retomar o problema pelo outro lado da luneta”. O sincretismo bastidiano é, acima de tudo, sinônimo de resistência africana. Isso gerou críticas ao sociólogo, visto como passadista, um romântico em busca de purezas perdidas no tempo. “Se ele se esforça em isolar os universos africanos do amálgama mestiço, ao mesmo tempo está preocupado em entender como esses ‘nichos africanos’ se articulam na sociedade. A procura de ilhas africanas é inseparável da análise de relações, de aproximações e afastamentos”, nota Fernanda.

“O Brasil é um caso exemplar de interpenetração de civilizações a ser observado e produtor de teorias que Bastide irá usar, não apenas para entender as especificidades do Brasil, mas também para criar seu instrumental analítico e conceitual”, avisa Fernanda. “Bastide não era um sociólogo de gabinete, mas um intelectual que realizou detalhadas pesquisas etnográficas e históricas e seus textos têm o valor de reabilitar a cultura negra, agora vista como elaborada e plena de valores, recusando a perspectiva preconceituosa de autores brasileiros que o precederam”, observa o sociólogo Lísias Nogueira Negrão, professor titular da USP e autor de Roger Bastide: do candomblé à umbanda.

“Para Bastide, olhar a África no Brasil implica obrigatoriamente o mo-vimento inverso: olhar o Brasil sincrético a partir da África, já que sem o termo africano é impossível pensar o país”, nota Fernanda Peixoto. Entre 1950 e 1951, esse raciocínio avançará em novas direções por causa do convite feito a Bastide pela Unesco para investigar as relações raciais no Brasil, já que então o país parecia, ao menos de longe, sofrer menos do que os outros os efeitos do preconceito racial e seria desejável entender as raízes dessa suposta harmonia. Bastide une-se ao ex-aluno Florestan Fernandes na tarefa e o diálogo entre os dois será fecundo ao pensamento bastidiano em sua fase final, em especial na avaliação dos nexos entre “novo” e “velho” na sociedade brasileira.

“O tom otimista das previsões de Florestan não encontra eco em Bastide, mesmo que ele considere notável a maior aceitação dos negros pelas novas gerações”, observa Fernanda. “Mas, para Bastide, a matriz da análise é dada pela persistência dos elementos da sociedade tradicional no mundo moderno, e não pela mudança. As dificuldades dos negros para se organizarem politicamente se dão nesse contexto em que não há ideologia da revolta. Fruto de uma ambivalência ideológica entre o orgulho de ser negro e a sensação de inferioridade, a adoção do ponto de vista branco.” Nisso, apesar das críticas que sofreu, Bastide não vê uma aversão ao moderno. Pelo contrário, como revela numa palestra feita em 1973 quando remete seu pensamento ao mito de Prometeu, torturado pelos deuses com um abutre ao dar o “fogo divino” do saber aos homens. “A civilização ocidental traz em seu mito de origem o progresso e a decadência, gerados pela mesma fonte. Não é possível, diz Bastide, refletir sobre a civilização e sobre a modernidade (Prometeu) sem incorporar a análise da antimodernidade (o abutre), faces de uma mesma moeda.”

Assim, segundo o francês, a exportação de valores para países do Terceiro Mundo (a generalização da modernidade) que levaria a uma homogenização do modelo ocidental não aconteceu. Bastide, então, questiona se haveria mesmo só um único modelo para alcançar a modernidade e se coloca em defesa das “modernidades diferenciadas”, fruto do que viu e observou no Brasil com a cultura africana. Foi um entusiasta dos movimentos jovens dos anos 1960, exemplos da contramodernidade produtiva: a contestação jovem à sociedade ocidental era feita tendo como modelo as formas arcaicas de sociabilidade reeditadas porhippies e outros. O que provaria a vitalidade dos modelos arcaicos, que logram sobreviver às revoluções mais violentas, refugiando-se em nichos. “Na produção de Bastide, mesmo depois de seu retorno à França, persiste o interesse pelas ‘Áfricas’ do mundo todo”, analisa Fernanda. Um pensamento forjado em terras baianas, como recorda Jorge Amado ao lembrar-se do amigo francês, que falava um português enviesado, em visita a um terreiro. “Como se entenderam o sociólogo francês e a mãe- 
-pequena baiana, não sei até hoje; é para mim um mistério tão grande quanto o da Santíssima Trindade.”

Noviça pintada pelo orixá © JOSÉ MEDEIROS / ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

World-Wide Assessment Determines Differences in Cultures (NSF)

[Apesar dos problemas metodológicos desse tipo de pesquisa (identificação de fronteiras nacionais com fronteiras culturais, reificação do conceito de cultura, abordagem sincrônica, dentre muitos outros), os resultados são provocadores, e portanto incitam a um debate interessante. RT]

Press Release 11-106 – Video
Michele Gelfand discusses what makes cultures restrictive versus permissive.

Watch video here.

University of Maryland Psychology Professor Michele Gelfand discusses recent research that investigates the “tightness” and “looseness” of 33 countries. “Tight” refers to nations that have strong social norms and low tolerance for deviation from those norms, whereas another term, “loose,” refers to nations with weak social norms and a high tolerance for deviation from those norms.

Credit: University of Maryland/National Science Foundation.

Press Release 11-106
World-Wide Assessment Determines Differences in Cultures

Ukraine, Israel, Brazil and the United States are “loose” cultures

Population density helps determine whether a country is tight or loose as this German street hints.

May 26, 2011

Conflicts and misunderstandings frequently arise between individuals from different cultures. But what makes cultures different; what makes one more restrictive and another less so?

A new international study led by the University of Maryland and supported by the National Science Foundation’s Division of Behavioral and Cognitive Sciences offers insights that may help explain such cultural differences and bridge the gaps between them.

Published in the May 27 issue of the journal Science, the study for the first time assesses the degree to which countries are restrictive versus permissive and it all comes down to factors that shape societal norms.

The researchers found a wide variation in the degree to which various societies impose social norms, enforce conformity and punish anti-social behavior. They also found the more threats experienced by a society, the more likely the society is to be restrictive, the authors say.

“There is less public dissent in tight cultures,” said University of Maryland Psychology Professor Michele Gelfand, who led the study. “Tight societies require much stronger norms and are much less tolerant of behavior that violates norms.”

“Tight” refers to nations that have strong social norms and low tolerance for deviation from those norms, whereas another term, “loose,” refers to nations with weak social norms and a high tolerance for deviation from them.

Gelfand and colleagues found that countries such as Japan, Korea, Singapore and Pakistan are much tighter whereas countries such as the Ukraine, Israel, Brazil and the United States are looser.

“Is important, within our view, to be mindful that we don’t think that either culture is worse or better,” said Gelfand.

She and her colleagues examined cultural variation in both types of societies.

“We believe this knowledge about how tight or loose a country is and why it is that way can foster greater cross-cultural tolerance and understanding,” said Gelfand. “Such understanding is critical in a world where both global interdependence and global threats are increasing.”

The researchers surveyed 6,823 respondents in 33 nations. In each nation, individuals from a wide range of occupations, as well as university students, were included. Data on environmental and historical threats and on societal institutions were collected from numerous established databases. Historical data–population density in 1500, history of conflict over the last hundred years, historical prevalence of disease outbreaks–were included whenever possible, and data on a wide range of societal institutions, including government, media and criminal justice, were obtained.

“You can see tightness reflected in the response in Japan to the natural disasters recently,” said Gelfand referring to the massive earthquake and tsunami that hit the country on March 11 of this year.

“The order and social coordination after the event, we believe, is a function of the tightness of the society,” Gelfand said, noting that tightness is needed in Japan to face these kinds of ecological vulnerabilities.

The research further showed that a nation’s tightness or looseness is in part determined by the environmental and human factors that have shaped a nation’s history–including wars, natural disasters, disease outbreaks, population density and scarcity of natural resources.

Tight and loose societies also vary in their institutions, with tight societies having more autocratic governments, more closed media and criminal justice systems that have more monitoring and greater deterrence of crime as compared to loose societies.

The study found that the situations that people encounter differ in tight and loose societies. For example, everyday situations–like being in a park, a classroom, the movies, a bus, at job interviews, restaurants and even one’s bedroom–constrain behavior much more in tight societies and afford a wider range of behavior in loose societies.

“We also found that the psychological makeup of individual citizens varies in tight and loose societies,” Gelfand said. “For example, individuals in tight societies are more prevention focused, have higher self-regulation strength and have higher needs for order and self-monitoring abilities than individuals in loose societies.”

These attributes, Gelfand said, help people to adapt to the level of constraint, or latitude, in their cultural context, and at the same time, reinforce it.

The research team combined all these measures in a multi-level model that shows how tight and loose systems are developed and maintained.

Gelfand said knowledge about these cultural differences can be invaluable to many people–from diplomats and global managers to military personal, immigrants and travelers–who have to traverse the tight-loose divide.

“When we understand why cultures, and the individuals in those cultures, are the way they are, it helps us to become less judgmental. It helps us to understand and appreciate societal differences.”

-NSF-

Media Contacts
Bobbie Mixon, NSF (703) 292-8485 bmixon@nsf.gov
Lee Tune, University of Maryland (301) 405-4679 ltune@umd.edu

Principal Investigators
Michele Gelfand, University of Maryland (301) 405-6972 mgelfand@psyc.umd.edu

Witchy Town’s Worry: Do Too Many Psychics Spoil the Brew? (N.Y. Times)

Lorelei Stathopoulos is concerned Salem will lose its “quaint reputation.” Photo: Gretchen Ertl for The New York Times.
By KATIE ZEZIMA. Published: May 26, 2011
SALEM, Mass. — Like any good psychic, Barbara Szafranski claims she foresaw the problems coming.
Gretchen Ertl for The New York Times

Christian Day, who owns two shops, thinks competition is a good thing.

Gretchen Ertl for The New York Times

Debra Ann Freeman read a customer’s tarot cards in Salem, Mass.

Her prophecy came in 2007, as the City Council was easing its restrictions on the number of psychics allowed to practice in this seaside city, where self-proclaimed witches, angels, clairvoyants and healers still flock 319 years after the notorious Salem witch trials. Some hoped for added revenues from extra licenses and tourists. Others just wanted to bring underground psychics into the light.

Just as Ms. Szafranski predicted, the number of psychic licenses has drastically increased, to 75 today, up from a mere handful in 2007. And now Ms. Szafranski, some fellow psychics and city officials worry the city is on psychic overload.

“It’s like little ants running all over the place, trying to get a buck,” grumbled Ms. Szafranski, 75, who quit her job as an accountant in 1991 to open Angelica of the Angels, a store that sells angel figurines and crystals and provides psychic readings. She says she has lost business since the licensing change.

“Many of them are not trained,” she said of her rivals. “They don’t understand that when you do a reading you hold a person’s life in your hands.”

Christian Day, a warlock who calls himself the “Kathy Griffin of witchcraft,” thinks the competition is good for Salem.

“I want Salem to be the Las Vegas of psychics,” said Mr. Day, who used to work in advertising and helped draft the 2007 regulations. Since they went into effect, he has opened two stores, Hex and Omen.

But not everyone is sure that quantity can ensure quality. Lorelei Stathopoulos, formerly an exotic dancer known as Toppsey Curvey, has been doing psychic readings at her store, Crow Haven Corner, for 15 years. She thinks psychics should have years of experience to practice here.

“I want Salem to keep its wonderful quaint reputation,” said Ms. Stathopoulos, who was wearing a black tank top that read “Sexy witch.” “And with that you have to have wonderful people working.”

Under the 2007 regulations, psychics must have lived in the city for at least a year to obtain an individual license, and businesses must be open for at least a year to hire five psychics. License applicants are also subject to criminal background checks.

Ms. Stathopoulos says a garden-variety reader makes 40 percent of a $35 reading that lasts 15 minutes. She charges $90 and up for a half-hour of her services, and keeps all of that.

Now, talk has started about new regulations that would include a cap on the number of psychic businesses, but the grumbling has in no way reached the level of viciousness that occurred in 2007, when someone left the mutilated body of a raccoon outside Ms. Szafranski’s shop and Mr. Day and Ms. Stathopoulos got into a fight.

Ms. Szafranski says she plans to send the council an official complaint in June.

This time, she has no prediction how it will turn out.

Intuitions Regarding Geometry Are Universal, Study Suggests (ScienceDaily)

ScienceDaily (May 26, 2011) — All human beings may have the ability to understand elementary geometry, independently of their culture or their level of education.

A Mundurucu participant measuring an angle using a goniometer laid on a table. (Credit: © Pierre Pica / CNRS)

This is the conclusion of a study carried out by CNRS, Inserm, CEA, the Collège de France, Harvard University and Paris Descartes, Paris-Sud 11 and Paris 8 universities (1). It was conducted on Amazonian Indians living in an isolated area, who had not studied geometry at school and whose language contains little geometric vocabulary. Their intuitive understanding of elementary geometric concepts was compared with that of populations who, on the contrary, had been taught geometry at school. The researchers were able to demonstrate that all human beings may have the ability of demonstrating geometric intuition. This ability may however only emerge from the age of 6-7 years. It could be innate or instead acquired at an early age when children become aware of the space that surrounds them. This work is published in thePNAS.

Euclidean geometry makes it possible to describe space using planes, spheres, straight lines, points, etc. Can geometric intuitions emerge in all human beings, even in the absence of geometric training?

To answer this question, the team of cognitive science researchers elaborated two experiments aimed at evaluating geometric performance, whatever the level of education. The first test consisted in answering questions on the abstract properties of straight lines, in particular their infinite character and their parallelism properties. The second test involved completing a triangle by indicating the position of its apex as well as the angle at this apex.

To carry out this study correctly, it was necessary to have participants that had never studied geometry at school, the objective being to compare their ability in these tests with others who had received training in this discipline. The researchers focused their study on Mundurucu Indians, living in an isolated part of the Amazon Basin: 22 adults and 8 children aged between 7 and 13. Some of the participants had never attended school, while others had been to school for several years, but none had received any training in geometry. In order to introduce geometry to the Mundurucu participants, the scientists asked them to imagine two worlds, one flat (plane) and the second round (sphere), on which were dotted villages (corresponding to the points in Euclidean geometry) and paths (straight lines). They then asked them a series of questions illustrated by geometric figures displayed on a computer screen.

Around thirty adults and children from France and the United States, who, unlike the Mundurucu, had studied geometry at school, were also subjected to the same tests.

The result was that the Mundurucu Indians proved to be fully capable of resolving geometric problems, particularly in terms of planar geometry. For example, to the question Can two paths never cross?, a very large majority answered Yes. Their responses to the second test, that of the triangle, highlight the intuitive character of an essential property in planar geometry, namely the fact that the sum of the angles of the apexes of a triangle is constant (equal to 180°).

And, in a spherical universe, it turns out that the Amazonian Indians gave better answers than the French or North American participants who, by virtue of learning geometry at school, acquire greater familiarity with planar geometry than with spherical geometry. Another interesting finding was that young North American children between 5 and 6 years old (who had not yet been taught geometry at school) had mixed test results, which could signify that a grasp of geometric notions is acquired from the age of 6-7 years.

The researchers thus suggest that all human beings have an ability to understand Euclidean geometry, whatever their culture or level of education. People who have received no, or little, training could thus grasp notions of geometry such as points and parallel lines. These intuitions could be innate (they may then emerge from a certain age, as it happens 6-7 years). If, on the other hand, these intuitions derive from learning (between birth and 6-7 years of age), they must be based on experiences common to all human beings.

(1) The two CNRS researchers involved in this study are Véronique Izard of the Laboratoire Psychologie de la Perception (CNRS / Université Paris Descartes) and Pierre Pica of the Unité ?Structures Formelles du Langage? (CNRS / Université Paris 8). They conducted it in collaboration with Stanislas Dehaene, professor at the Collège de France and director of the Unité de Neuroimagerie Cognitive à NeuroSpin (Inserm / CEA / Université Paris-Sud 11) and Elizabeth Spelke, professor at Harvard University.

Journal ReferenceVéronique Izard, Pierre Pica, Elizabeth S. Spelke, and Stanislas Dehaene. Flexible intuitions of Euclidean geometry in an Amazonian indigene group. Proceedings of the National Academy of Sciences, 23 May 2011.

Aceitam tudo (Terra Magazine)

Quinta, 19 de maio de 2011, 08h14 Atualizada às 18h50 (link original aqui).

Trecho do livro “Por uma Vida Melhor” apresenta a pergunta “posso falar ‘os livro’?”

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

De vez em quando, alguém diz que lingüistas “aceitam” tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). Um comentário semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.

Mas a razão para tentar ser claro não tem mais a ver apenas com aquele comentário. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentários, entrevistas etc. a propósito de um livro de português que o MEC aprovou e que ensinaria que é certo dizer Os livro. Perguntado no espaço dos comentários, quando fiquei sabendo da questão, disse que não acreditava na matéria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso à indigitada página, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler.

Vou tratar do tal “aceitam tudo”, que vale também para o caso do livro.

Primeiro: duvido que alguém encontre esta afirmação em qualquer texto de linguística. É uma avaliação simplificada, na verdade, um simulacro, da posição dos linguistas em relação a um dos tópicos de seus estudos – a questão da variação ou da diversidade interna de qualquer língua. Vale a pena insistir: de qualquer língua.

Segundo: “aceitar” é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.

Não só não se pergunta se eles “aceitam”, como também não se pergunta se isso tudo está certo. Como se sabe, houve época em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraçado pelos médicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mãos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autópsia e fosse verificar o grau de dilatação de uma parturiente). Não faltou quem dissesse “quem é ele para mandar a gente lavar as mãos?”

Ou seja: não se trata de aceitar ou de não aceitar nem de achar ou de não achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, três quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estávamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! Não era um congresso científico, nem um julgamento do Supremo!

Um linguista simplesmente “anota” os dados e tenta encontrar uma regra, isto é, uma regularidade, uma lei (não uma ordem, um mandato).

O caso é manjado: nesta variedade do português, só há marca de plural no elemento que precede o nome – artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, três quilo). Se houver mais de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invariável. O linguista vê isso, constata isso. Não só na fila do supermercado, mas também em documentos da Torre do Tombo anteriores a Camões. Portanto, mesmo na língua escrita dos sábios de antanho.

O linguista também constata the books no inglês, isto é, que não há marca de plural no artigo, só no nome, como se o inglês fosse uma espécie de avesso do português informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele não tem alternativa! É um dado, é um fato, como a combustão, a gravitação, o bico do tucano ou as marés. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse é outro departamento, ao qual volto logo.

Faço uma digressão para dar um exemplo de regra, porque sei que é um conceito problemático. Se dizemos “as cargas”, a primeira sílaba desta sequência é “as”. O “s” final é surdo (as cordas vocais não vibram para produzir o “s”). Se dizemos “as gatas”, a primeira sílaba é a “mesma”, mas nós pronunciamos “az” – com as cordas vocais vibrando para produzir o “z”. Por que dizemos um “z” neste caso? Porque a primeira consoante de “gatas” é sonora, e, por isso, a consoante que a antecede também se sonoriza. Não acredita? Vá a um laboratório e faça um teste. Ou, o que é mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga “as gatas” e perceberá a vibração. Tem mais: se dizemos “as asas”, não só dizemos um “z” no final de “as”, como também reordenamos as sílabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas (“as” se dividiu, porque o “a” da palavra seguinte puxou o “s/z” para si). Dividimos “asas” em “a.sas”, mas dividimos “as asas” em a.sa.sas.

Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem só teve aula de certo / errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difícil entender que o trabalho do linguista é completamente diferente do trabalho do professor de português.

Não “aceitar” construções como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais “chocantes” é, para um linguista, o que seria para um botânico não “aceitar” uma gramínea. O que não significa que o botânico paste.

Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasça no ano 2500. Suponha que o português culto de então inclua formas como “A casa que eu moro nela mais os dois armário vale 300 cabral” (acho que não será o caso, mas é só um experimento). Seu descendente nunca saberá que fala uma língua errada. Saberá, talvez (se estudar mais do que você), que um ancestral dele falava formas arcaicas do português, como 300 cabrais.

Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.

O linguista não propõe isso por duas razões: a) as pessoas já sabem falar os livro, não precisam ser ensinadas (observe-se que ninguém falao livros, o que não é banal); b) ele acha – e nisso tem razão – que é mais fácil que alguém aprenda os livros se lhe dizem que há duas formas de falar do que se lhe dizem que ele é burro e não sabe nem falar, que fala tudo errado. Há muitos relatos de experiências bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relação à fala dos alunos.

Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou não.

PS 1 – todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 – Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: “quando eu TAVA na escola…”. Uma carta de leitor que criticava a forma “os livro” dizia “ensinam os alunos DE que se pode falar errado”. Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse “a língua é ONDE nos une” e Monforte perguntou “Onde FICA as leis de concordância?”. Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

* * *

[Quatro dias após esse excelente artigo de Sírio Possenti, O Globo publica editorial – abaixo – onde fica evidente que, como sugere Sírio, tanto foco em questões formais tem o intuito de esconder a baixa qualidade dos argumentos (e do jornalismo que daí decorre). Um verdadeiro show de conservadorismo reducionista: escola é pra “salvar os pobres” inculcando-lhes “a verdadeira cultura”, essa que também deve ser a marca da “inteligência do País”. A qualidade da educação, sugere o texto, se mede com indicadores estatísticos apenas – e não tem nada que ver com a formação de cidadãos, membros ativos de suas comunidades, etc. Ou seja, a educação é um problema técnico, e não político. Na minha opinião, a classe média carioca não merece tanto bolsonarismo.]

Desatino nas escolas

Editorial do jornal O Globo de 23/05/2011.

Os dicionários definem o termo “didática” como a técnica de ensinar, meio para dirigir e orientar o aprendizado. Os livros didáticos, por extensão, se constituem no instrumento pelo qual o ensino do uso correto da língua é ministrado nas escolas. Ao permitir na rede pública – base da formação educacional da grande maioria dos estudantes do País – a adoção de um livro que permite erros de português como parte do processo de aprendizagem, o MEC dá abrigo a uma perigosa contradição. Em nome de uma ideologia de proteção a “excluídos da sociedade”, o governo avaliza um projeto que, na prática, inviabiliza a inclusão. Coonestar erros de gramática, sob o falso princípio de que se deve derrubar preconceitos linguísticos, agrava o marginalismo cultural a que o desconhecimento da língua condena aqueles que, por enfrentar condições sociais adversas, têm poucas chances de adquirir conhecimentos que lhes permitam mudar sua realidade.

O argumento da autora do livro “Por uma vida melhor”, Heloísa Ramos, de que em vez de “certo” e “errado” na avaliação do aprendizado da língua deve-se usar a ideia de “adequado” ou “inadequado”, transfere a discussão para o plano da linguística, quando o que de fato interessa é a questão da didática do ensino, a maneira como as crianças serão alfabetizadas e os instrumentos de instrução que lhes serão fornecidos para aprenderem a escrever corretamente.

Trata-se de questão muito mais séria do que é capaz de alcançar a ideologia de almanaque que justifica tais agressões à língua, à inteligência do País e, não menos importante, à formação dos próprios jovens alunos. A defesa de erros primários de concordância verbal e de princípios da gramática, por si só, é inconcebível em qualquer nação que zele por sua língua. E se torna ainda mais indefensável num País como o Brasil, onde o precário nível de ensino, particularmente nas escolas públicas, é responsável por vergonhosos indicadores educacionais. Pode-se imaginar a confusão na cabeça do jovem aluno que, despendendo esforços para aprender as regras da sua língua, seja confrontado com um livro – logo, instrumento supostamente confiável – em que se tem como corretas frases do tipo “nós pega o peixe” ou “dois real”.

Por outros exemplos de semelhantes ataques a padrões de comportamento, tem-se por óbvio que a questão do livro de Heloísa Ramos não é episódio isolado no País. Faz parte de um contexto mais amplo, que se move pelo princípio do “politicamente correto”. É a mesma cartilha que, no plano do ensino, instrui adeptos do racialismo a condenar, como racista, a obra de Monteiro Lobato (e, como decorrência, a praticar boçalidades como a manifestação, no Rio, contra um bloco de carnaval, e iniquidades como a edição, pelo MEC, de uma bula que oriente os professores como “ensinar” a obra do escritor nas escolas).

Em última análise, permitir a circulação de tal livro é uma agressão não só ao bom senso, mas ao direito do aluno de receber ensino de boa qualidade. Ao aceitar tal desatino, em nome de um ideário de suposta defesa dos excluídos, o MEC boicota o esforço de melhorar os indicadores da Educação no País. Em vez de ajudar a abrir fronteiras da cultura a uma considerável parcela de brasileiros, para os quais o acesso a instrução é tábua de salvação contra adversidades sociais, o ministério apenas os estimula a cultivar erros – que no futuro, na luta pela inclusão social (seja no mercado de trabalho, ou em instituições de ensino que lhes cobrarão conhecimento da língua), lhes custarão caro.

Amondawa tribe lacks abstract idea of time, study says (BBC News)

20 May 2011
By Jason Palmer
Science and technology reporter, BBC News

The Amondawa were first “discovered” by anthropologists in 1986

An Amazonian tribe has no abstract concept of time, say researchers.

The Amondawa lacks the linguistic structures that relate time and space – as in our idea of, for example, “working through the night”.

The study, in Language and Cognition, shows that while the Amondawa recognise events occuring in time, it does not exist as a separate concept.

The idea is a controversial one, and further study will bear out if it is also true among other Amazon languages.

The Amondawa were first contacted by the outside world in 1986, and now researchers from the University of Portsmouth and the Federal University of Rondonia in Brazil have begun to analyse the idea of time as it appears in Amondawa language.

“We’re really not saying these are a ‘people without time’ or ‘outside time’,” said Chris Sinha, a professor of psychology of language at the University of Portsmouth.

“Amondawa people, like any other people, can talk about events and sequences of events,” he told BBC News.

“What we don’t find is a notion of time as being independent of the events which are occuring; they don’t have a notion of time which is something the events occur in.”

The Amondawa language has no word for “time”, or indeed of time periods such as “month” or “year”.

The people do not refer to their ages, but rather assume different names in different stages of their lives or as they achieve different status within the community.

But perhaps most surprising is the team’s suggestion that there is no “mapping” between concepts of time passage and movement through space.

Ideas such as an event having “passed” or being “well ahead” of another are familiar from many languages, forming the basis of what is known as the “mapping hypothesis”.

The Amondawa have no words for time periods such as “month” or “year”

But in Amondawa, no such constructs exist.

“None of this implies that such mappings are beyond the cognitive capacities of the people,” Professor Sinha explained. “It’s just that it doesn’t happen in everyday life.”

When the Amondawa learn Portuguese – which is happening more all the time – they have no problem acquiring and using these mappings from the language.

The team hypothesises that the lack of the time concept arises from the lack of “time technology” – a calendar system or clocks – and that this in turn may be related to the fact that, like many tribes, their number system is limited in detail.

Absolute terms
These arguments do not convince Pierre Pica, a theoretical linguist at France’s National Centre for Scientific Research (CNRS), who focuses on a related Amazonian language known as Mundurucu.

“To link number, time, tense, mood and space by a single causal relationship seems to me hopeless, based on the linguistic diversity that I know of,” he told BBC News.

Dr Pica said the study “shows very interesting data” but argues quite simply that failing to show the space/time mapping does not refute the “mapping hypothesis”.

Small societies like the Amondawa tend to use absolute terms for normal, spatial relations – for example, referring to a particular river location that everyone in the culture will know intimately rather than using generic words for river or riverbank.

These, Dr Pica argued, do not readily lend themselves to being co-opted in the description of time.

“When you have an absolute vocabulary – ‘at the water’, ‘upstream’, ‘downstream’ and so on, you just cannot use it for other domains, you cannot use the mapping hypothesis in this way,” he said.

In other words, while the Amondawa may perceive themselves moving through time and spatial arrangements of events in time, the language may not necessarily reflect it in an obvious way.

What may resolve the conflict is further study, Professor Sinha said.

“We’d like to go back and simply verify it again before the language disappears – before the majority of the population have been brought up knowing about calendar systems.”

Brazil tribe prove words count

BBC News, 20 August, 2004

When it comes to counting, a remote Amazonian tribespeople have been found to be lost for words.

Researchers discovered the Piraha tribe of Brazil, with a population of 200, have no words beyond one, two and many.

The word for “one” can also mean “a few”, while “two” can also be used to refer to “not many”.

Peter Gordon of Columbia University in New York said their skill levels were similar to those of pre-linguistic infants, monkeys, birds and rodents.

He reported in the journal Science that he set the tribe simple numerical matching challenges, and they clearly understood what was asked of them.

“In all of these matching experiments, participants responded with relatively good accuracy with up to two or three items, but performance deteriorated considerably beyond that up to eight to 10 items,” he wrote.

Language theory

Dr Gordon added that not only could they not count, they also could not draw.

“Producing simple straight lines was accomplished only with great effort and concentration, accompanied by heavy sighs and groans.”

The tiny tribe live in groups of 10 to 20 along the banks of the Maici River in the Lowland Amazon region of Brazil.

Dr Gordon said they live a hunter-gatherer existence and reject any assimilation into mainstream Brazilian culture.

He added that the tribe use the same pronoun for “he” and “they” and standard quantifiers such as “more”, “several” and “all” do not exist in their language.

“The results of these studies show that the Piraha’s impoverished counting system truly limits their ability to enumerate exact quantities when set sizes exceed two or three items,” he wrote.

“For tasks that required cognitive processing, performance deteriorated even on set sizes smaller than three.”

The findings lend support to a theory that language can affect thinking.

Linguist Benjamin Lee Whorf suggested in the 1930s that language could determine the nature and content of thought.

It’s Even Less in Your Genes (The New York Review of Books)

MAY 26, 2011
Richard C. Lewontin

The Mirage of a Space Between Nature and Nurture
by Evelyn Fox Keller
Duke University Press, 107 pp., $64.95; $18.95 (paper)

In trying to analyze the natural world, scientists are seldom aware of the degree to which their ideas are influenced both by their way of perceiving the everyday world and by the constraints that our cognitive development puts on our formulations. At every moment of perception of the world around us, we isolate objects as discrete entities with clear boundaries while we relegate the rest to a background in which the objects exist.

That tendency, as Evelyn Fox Keller’s new book suggests, is one of the most powerful influences on our scientific understanding. As we change our intent, also we identify anew what is object and what is background. When I glance out the window as I write these lines I notice my neighbor’s car, its size, its shape, its color, and I note that it is parked in a snow bank. My interest then changes to the results of the recent storm and it is the snow that becomes my object of attention with the car relegated to the background of shapes embedded in the snow. What is an object as opposed to background is a mental construct and requires the identification of clear boundaries. As one of my children’s favorite songs reminded them:

You gotta have skin.
All you really need is skin.
Skin’s the thing that if you’ve got it outside,
It helps keep your insides in.
Organisms have skin, but their total environments do not. It is by no means clear how to delineate the effective environment of an organism.

One of the complications is that the effective environment is defined by the life activities of the organism itself. “Fish gotta swim and birds gotta fly,” as we are reminded by yet another popular lyric. Thus, as organisms evolve, their environments necessarily evolve with them. Although classic Darwinism is framed by referring to organisms adapting to environments, the actual process of evolution involves the creation of new “ecological niches” as new life forms come into existence. Part of the ecological niche of an earthworm is the tunnel excavated by the worm and part of the ecological niche of a tree is the assemblage of fungi associated with the tree’s root system that provide it with nutrients.

The vulgarization of Darwinism that sees the “struggle for existence” as nothing but the competition for some environmental resource in short supply ignores the large body of evidence about the actual complexity of the relationship between organisms and their resources. First, despite the standard models created by ecologists in which survivorship decreases with increasing population density, the survival of individuals in a population is often greatest not when their “competitors” are at their lowest density but at an intermediate one. That is because organisms are involved not only in the consumption of resources, but in their creation as well. For example, in fruit flies, which live on yeast, the worm-like immature stages of the fly tunnel into rotting fruit, creating more surface on which the yeast can grow, so that, up to a point, the more larvae, the greater the amount of food available. Fruit flies are not only consumers but also farmers.

Second, the presence in close proximity of individual organisms that are genetically different can increase the growth rate of a given type, presumably since they exude growth-promoting substances into the soil. If a rice plant of a particular type is planted so that it is surrounded by rice plants of a different type, it will give a higher yield than if surrounded by its own type. This phenomenon, known for more than a half-century, is the basis of a common practice of mixed-variety rice cultivation in China, and mixed-crop planting has become a method used by practitioners of organic agriculture.

Despite the evidence that organisms do not simply use resources present in the environment but, through their life activities, produce such resources and manufacture their environments, the distinction between organisms and their environments remains deeply embedded in our consciousness. Partly this is due to the inertia of educational institutions and materials. As a coauthor of a widely used college textbook of genetics,(1) I have had to engage in a constant struggle with my coauthors over the course of thirty years in order to introduce students to the notion that the relative reproductive fitness of organisms with different genetic makeups may be sensitive to their frequency in the population.

But the problem is deeper than simply intellectual inertia. It goes back, ultimately, to the unconsidered differentiations we make—at every moment when we distinguish among objects—between those in the foreground of our consciousness and the background places in which the objects happen to be situated. Moreover, this distinction creates a hierarchy of objects. We are conscious not only of the skin that encloses and defines the object, but of bits and pieces of that object, each of which must have its own “skin.” That is the problem of anatomization. A car has a motor and brakes and a transmission and an outer body that, at appropriate moments, become separate objects of our consciousness, objects that at least some knowledgeable person recognizes as coherent entities.

It has been an agony of biology to find boundaries between parts of organisms that are appropriate for an understanding of particular questions. We murder to dissect. The realization of the complex functional interactions and feedbacks that occur between different metabolic pathways has been a slow and difficult process. We do not have simply an “endocrine system” and a “nervous system” and a “circulatory system,” but “neurosecretory” and “neurocirculatory” systems that become the objects of inquiry because of strong forces connecting them. We may indeed stir a flower without troubling a star, but we cannot stir up a hornet’s nest without troubling our hormones. One of the ironies of language is that we use the term “organic” to imply a complex functional feedback and interaction of parts characteristic of living “organisms.” But musical organs, from which the word was adopted, have none of the complex feedback interactions that organisms possess. Indeed the most complex musical organ has multiple keyboards, pedal arrays, and a huge array of stops precisely so that different notes with different timbres can be played simultaneously and independently.

Evelyn Fox Keller sees “The Mirage of a Space Between Nature and Nurture” as a consequence of our false division of the world into living objects without sufficient consideration of the external milieu in which they are embedded, since organisms help create effective environments through their own life activities. Fox Keller is one of the most sophisticated and intelligent analysts of the social and psychological forces that operate in intellectual life and, in particular, of the relation of gender in our society both to the creation and acceptance of scientific ideas. The central point of her analysis has been that gender itself (as opposed to sex) is socially constructed, and that construction has influenced the development of science:

If there is a single point on which all feminist scholarship…has converged, it is the importance of recognizing the social construction of gender…. All of my work on gender and science proceeds from this basic recognition. My endeavor has been to call attention to the ways in which the social construction of a binary opposition between “masculine” and “feminine” has influenced the social construction of science.(2)

Beginning with her consciousness of the role of gender in influencing the construction of scientific ideas, she has, over the last twenty-five years, considered how language, models, and metaphors have had a determinative role in the construction of scientific explanation in biology.

A major critical concern of Fox Keller’s present book is the widespread attempt to partition in some quantitative way the contribution made to human variation by differences in biological inheritance, that is, differences in genes, as opposed to differences in life experience. She wants to make clear a distinction between analyzing the relative strength of the causes of variation among individuals and groups, an analysis that is coherent in principle, and simply assigning the relative contributions of biological and environmental causes to the value of some character in an individual.

It is, for example, all very well to say that genetic variation is responsible for 76 percent of the observed variation in adult height among American women while the remaining 24 percent is a consequence of differences in nutrition. The implication is that if all variation in nutrition were abolished then 24 percent of the observed height variation among individuals in the population in the next generation would disappear. To say, however, that 76 percent of Evelyn Fox Keller’s height was caused by her genes and 24 percent by her nutrition does not make sense. The nonsensical implication of trying to partition the causes of her individual height would be that if she never ate anything she would still be three quarters as tall as she is.

In fact, Keller is too optimistic about the assignment of causes of variation even when considering variation in a population. As she herself notes parenthetically, the assignment of relative proportions of population variation to different causes in a population depends on there being no specific interaction between the causes. She gives as a simple example the sound of two different drummers playing at a distance from us. If each drummer plays each drum for us, we should be able to tell the effect of different drummers as opposed to differences between drums. But she admits that is only true if the drummers themselves do not change their ways of playing when they change drums.

Keller’s rather casual treatment of the interaction between causal factors in the case of the drummers, despite her very great sophistication in analyzing the meaning of variation, is a symptom of a fault that is deeply embedded in the analytic training and thinking of both natural and social scientists. If there are several variable factors influencing some phenomenon, how are we to assign the relative importance to each in determining total variation? Let us take an extreme example. Suppose that we plant seeds of each of two different varieties of corn in two different locations with the following results measured in bushels of corn produced (see Table 1).

There are differences between the varieties in their yield from location to location and there are differences between locations from variety to variety. So, both variety and location matter. But there is no average variation between locations when averaged over varieties or between varieties when averaged over locations. Just by knowing the variation in yield associated with location and variety separately does not tell us which factor is the more important source of variation; nor do the facts of location and variety exhaust the description of that variation.

There is a third source of variation called the “interaction,” the variation that cannot be accounted for simply by the separate average effects of location and variety. There is no difference that appears between the average of different varieties or average of different locations, suggesting that neither location or variety matters to yield. Yet the yields of corn were different when different particular combinations of variety and location are observed. These effects of particular combinations of factors, not accounted for by the average effects of each factor separately, are thrown into an unanalyzed category called “interaction” with no concrete physical model made explicit.

In real life there will be some difference between the varieties when averaged over locations and some variation between locations when averaged over varieties; but there will also be some interaction variation accounting for the failure of the separately identified main effects to add up to the total variation. In an extreme case, as for example our jungle drummers with a common consciousness of what drums should sound like, it may turn out to be all interaction.

The Mirage of a Space Between Nature and Nurture appears in an era when biological—and specifically, genetic—causation is taken as the preferred explanation for all human physical differences. Although the early and mid-twentieth century was a period of immense popularity of genetic explanations for class and race differences in mental ability and temperament, especially among social scientists, such theories have now virtually disappeared from public view, largely as a result of a considerable effort of biologists to explain the errors of those claims.

The genes for IQ have never been found. Ironically, at the same time that genetics has ceased to be a popular explanation for human intellectual and temperamental differences, genetic theories for the causation of virtually every physical disorder have become the mode. “DNA” has replaced “IQ” as the abbreviation of social import. The announcement in February 2001 that two groups of investigators had sequenced the entire human genome was taken as the beginning of a new era in medicine, an era in which all diseases would be treated and cured by the replacement of faulty DNA. William Haseltine, the chairman of the board of the private company Human Genome Sciences, which participated in the genome project, assured us that “death is a series of preventable diseases.” Immortality, it appeared, was around the corner. For nearly ten years announcements of yet more genetic differences between diseased and healthy individuals were a regular occurrence in the pages of The New York Times and in leading general scientific publications like Science and Nature.

Then, on April 15, 2009, there appeared in The New York Times an article by the influential science reporter and fan of DNA research Nicholas Wade, under the headline “Study of Genes and Diseases at an Impasse.” In the same week the journal Science reported that DNA studies of disease causation had a “relatively low impact.” Both of these articles were instigated by several articles in The New England Journal of Medicine, which had come to the conclusion that the search for genes underlying common causes of mortality had so far yielded virtually nothing useful. The failure to find such genes continues and it seems likely that the search for the genes causing most common diseases will go the way of the search for the genes for IQ.

A major problem in understanding what geneticists have found out about the relation between genes and manifest characteristics of organisms is an overly flexible use of language that creates ambiguities of meaning. In particular, their use of the terms “heritable” and “heritability” is so confusing that an attempt at its clarification occupies the last two chapters of The Mirage of a Space Between Nature and Nurture. When a biological characteristic is said to be “heritable,” it means that it is capable of being transmitted from parents to offspring, just as money may be inherited, although neither is inevitable. In contrast, “heritability” is a statistical concept, the proportion of variation of a characteristic in a population that is attributable to genetic variation among individuals. The implication of “heritability” is that some proportion of the next generation will possess it.

The move from “heritable” to “heritability” is a switch from a qualitative property at the level of an individual to a statistical characterization of a population. Of course, to have a nonzero heritability in a population, a trait must be heritable at the individual level. But it is important to note that even a trait that is perfectly heritable at the individual level might have essentially zero heritability at the population level. If I possess a unique genetic variant that enables me with no effort at all to perform a task that many other people have learned to do only after great effort, then that ability is heritable in me and may possibly be passed on to my children, but it may also be of zero heritability in the population.

One of the problems of exploring an intellectual discipline from the outside is that the importance of certain basic methodological considerations is not always apparent to the observer, considerations that mold the entire intellectual structure that characterizes the field. So, in her first chapter, “Nature and Nurture as Alternatives,” Fox Keller writes that “my concern is with the tendency to think of nature and nurture as separable and hence as comparable, as forces to which relative strength can be assigned.” That concern is entirely appropriate for an external critic, and especially one who, like Fox Keller, comes from theoretical physics rather than experimental biology. Experimental geneticists, however, find environmental effects a serious distraction from the study of genetic and molecular mechanisms that are at the center of their interest, so they do their best to work with cases in which environmental effects are at a minimum or in which those effects can be manipulated at will. If the machine model of organisms that underlies our entire approach to the study of biology is to work for us, we must restrict our objects of study to those in which we can observe and manipulate all the gears and levers.

For much of the history of experimental genetics the chief organism of study was the fruit fly, Drosophila melanogaster, in which very large numbers of different gene mutations with visible effects on the form and behavior of the flies had been discovered. The catalog of these mutations described, in addition to genetic information, a description of the way in which mutant flies differed from normal (“wild type”) and assigned each mutation a “Rank” between 1 and 4. Rank 1 mutations were the most reliable for genetic study because every individual with the mutant genetic type could be easily and reliably recognized by the observer, whereas some proportion of individuals carrying mutations of other ranks could be indistinguishable from normal, depending on the environmental conditions in which they developed. Geneticists, if they could, avoided depending on poorer-rank mutations for their experiments. Only about 20 percent of known mutations were of Rank 1.

With the recent shift from the study of classical genes in controlled breeding experiments to the sequencing of DNA as the standard method of genetic study, the situation has gotten much worse. On the one hand, about 99 percent of the DNA in a cell is of completely unknown functional significance and any two unrelated individuals will differ from each other at large numbers of DNA positions. On the other hand, the attempt to assign the causes of particular diseases and metabolic malfunctions in humans to specific mutations has been a failure, with the exception of a few classical cases like sickle-cell anemia. The study of genes for specific diseases has indeed been of limited value. The reason for that limited value is in the very nature of genetics as a way of studying organisms.

Genetics, from its very beginning, has been a “subtractive” science. That is, it is based on the analysis of the difference between natural or “wild-type” organisms and those with some genetic defect that may interfere in some observable way with regular function. But to carry out such comparison it is necessary that the organisms being studied are, to the extent possible, identical in all other respects, and that the comparison is carried out in an environment that does not, itself, generate atypical responses yet allows the possible effect of the genetic perturbation to be observed. We must face the possibility that such a subtractive approach will never be able to reveal the way in which nature and nurture interact in normal circumstances.

An alternative to the standard subtractive method of genetic perturbations would be a synthetic approach in which living systems would be constructed ab initio from their molecular elements. It is now clear that most of the DNA in an organism is not contained in genes in the usual sense. That is, 98–99 percent of the DNA is not a code for a sequence of amino acids that will be assembled into long chains that will fold up to become the proteins that are essential to the formation of organisms; yet that nongenic DNA is transmitted faithfully from generation to generation just like the genic DNA.

It appears that the sequence of this nongenic DNA, which used to be called “junk-DNA,” is concerned with regulating how often, when, and in which cells the DNA of genes is read in order to produce the long strings of amino acids that will be folded into proteins and which of the many alternative possible foldings will occur. As the understanding and possibility of control of the synthesis of the bits and pieces of living cells become more complete, the temptation to create living systems from elementary bits and pieces will become greater and greater. Molecular biologists, already intoxicated with their ability to manipulate life at its molecular roots, are driven by the ambition to create it. The enterprise of “Synthetic Biology” is already in existence.

In May 2010 the consortium originally created by J. Craig Venter to sequence the human genome gave birth to a new organization, Synthetic Genomics, which announced that it had created an organism by implanting a synthetic genome in a bacterial cell whose own original genome had been removed. The cell then proceeded to carry out the functions of a living organism, including reproduction. One may argue that the hardest work, putting together all the rest of the cell from bits and pieces, is still to be done before it can be said that life has been manufactured, but even Victor Frankenstein started with a dead body. We all know what the consequences of that may be.

1. Anthony J.F. Griffiths, Susan R. Wessler, Sean B. Carroll, and Richard C. Lewontin, Introduction to Genetic Analysis , ninth edition (W.H. Freeman, 2008).

2. The Scientist , Vol. 5, No. 1 (January 7, 1991

Como não poderia deixar de ser, aí vem a tropa de choque do policiamento linguístico

MPF prevê ações contra o uso de livro com erros pelo MEC

Para a procuradora da República Janice Ascari, os responsáveis pela edição e pela distribuição do livro “estão cometendo um crime” contra a educação brasileira.

Diante da denúncia de que o livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos – que foi distribuído a 485 mil estudantes jovens e adultos pelo Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação -, defende o uso da linguagem popular e admite erros gramaticais grosseiros como “nós pega o peixe”, a procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, previu que haverá ações na Justiça. Para ela, os responsáveis pela edição e pela distribuição do livro “estão cometendo um crime” contra a educação brasileira.

– Vocês estão cometendo um crime contra os nossos jovens, prestando um desserviço à educação já deficientíssima do País e desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir. Essa conduta não cidadã é inadmissível, inconcebível e, certamente, sofrerá ações do Ministério Público – protestou a procuradora da República em seu blog.

No domingo, o livro já tinha sido duramente criticado por educadores e escritores. O MEC confirmou que não pretende retirar a publicação das escolas, alegando que não tem ingerência sobre o conteúdo das obras. Afirmando que se manifestava como mãe e sem analisar o aspecto jurídico da questão, Janice disse que ficou chocada com as notícias sobre o livro com erros aprovado e distribuído pelo MEC. Os autores defendem que essa linguagem coloquial não poderia ser classificada de certa ou errada, mas de adequada ou inadequada.

– Ainda não estou refeita do choque sofrido com as notícias sobre o conteúdo do livro aprovado pelo MEC, no qual consta autorização expressa para que os alunos falem “Nós pega o peixe”, “Os livro mais interessante estão emprestado” e por aí vai. Não, MEC e autores do livro, definitivamente isso não é certo e nem adequado – disse Janice Ascari.

Para o MEC, o debate é nas universidades – O MEC confirmou nesta segunda-feira que não cogita alterar o processo de seleção e avaliação de livros didáticos. As obras são lidas por professores de universidades públicas, a quem cabe selecionar os títulos que farão parte do catálogo nacional de livros. É com base nesse catálogo que escolas de todo o país escolhem as coleções que receberão gratuitamente, distribuídas pelo Programa Nacional do Livro Didático.

O MEC diz que o debate sobre a adequação ou não de uma obra didática deve ocorrer nas universidades, como é no sistema atual, e não dentro do ministério. Do contrário, segundo o MEC, haveria o risco de direcionamento político na escolha das obras a serem aprovadas para uso em sala de aula.

A professora Heloísa Ramos, autora do livro, discorda de que seja preciso modificar qualquer trecho. Ela argumenta que a frase discutida em seu livro trata de linguagem oral, e não escrita. E que a norma popular da língua é diferente da norma culta, mas não necessariamente errada, no caso da linguagem oral.

– Eu não admito mais que alguém escreva que o nosso livro ensina a falar errado ou que não se dedica a ensinar a norma culta – disse Heloísa. – Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade? Este assunto é complexo, é para especialistas.

Professora aposentada de língua portuguesa da rede estadual de São Paulo, Heloísa presta serviços de consultoria e escreve uma coluna na revista “Nova Escola”, dedicada a tirar dúvidas de professores. Segundo ela, o livro “Por uma vida melhor” é pioneiro ao destacar a importância da norma popular da língua, o que considera um avanço, no sentido de não menosprezar a fala da população menos instruída.

Responsável por livro com erros admite mudar texto – Responsável pela produção do livro didático “Por uma vida melhor”, da Editora Global, a ONG Ação Educativa admite que poderá mudar o texto, numa eventual nova edição. É o que disse nesta segunda-feira a coordenadora-geral da ONG, Vera Masagão. Ela classificou como infeliz a frase que considera correto, em certos contextos, falar com erros de concordância:

– Não acho que seja necessário recolher os livros, de forma nenhuma. Eventualmente, numa próxima vez, a gente pode colocar uma frase que não gere mal-entendidos. Concordo que a frase é infeliz, ainda mais destacada do contexto.

“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”, diz a frase criticada por ela.

Para Vera, a leitura integral do capítulo deixa claro que o foco é o ensino da norma culta da língua. O capítulo se chama “Escrever é diferente de falar”. O professor Marcos Bagno, da Universidade de Brasília (UnB), disse que não há motivo para polêmica, porque já faz mais de 15 anos que os livros didáticos de língua portuguesa aprovados pelo MEC abordam o tema da variação linguística:

– Não é coisa de petista. Já no governo Fernando Henrique, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo transforma qualquer idioma usado por uma comunidade humana.
(O Globo)

ABL critica livro distribuído pelo MEC que defende erro em fala

Segundo a Academia, professor deve ensinar a língua-padrão.

A Academia Brasileira de Letras divulgou ontem uma nota criticando o MEC (Ministério da Educação) e os autores do livro didático “Por uma Vida Melhor”, distribuído pelo ministério a 4.236 escolas do País.
Ao tratar da diferença entre a língua oral e a escrita, o livro didático afirma que é possível dizer “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” em determinados contextos. “A Casa de Machado de Assis vem estranhar certas posições teóricas dos autores de livros que chegam às mãos de alunos dos cursos fundamental e médio com a chancela do Ministério da Educação, órgão que se vem empenhando em melhorar o nível do ensino escolar no Brasil”, diz a nota.

A ABL argumenta que não cabe ao professor de língua portuguesa em sala de aula ensinar outras variedades da língua que não seja a padrão. “[O professor] espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua-padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona.”

O MEC afirmou na semana passada que o livro está em acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, que servem como orientação para escolas e professores. Sobre a nota da ABL, o MEC afirma que o programa de aquisição e seleção dos livros didáticos -em que há uma avaliação das obras e liberdade para as escolas escolherem os livros com que trabalharão- foi discutido e aprovado por várias associações, entre elas a ABL.

O livro em questão, elaborado pela ONG Ação Educativa, no capítulo em que trata das diferenças entre escrever e falar e das variações na linguagem oral, afirma: “Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.

A coordenadora da Ação Educativa, Vera Masagão Ribeiro, diz que a frase foi tirada de contexto e que o livro deixa claro que há uma norma culta da língua. De acordo com Ribeiro, não há o risco de um aluno entender que pode escrever dessa forma num concurso público ou falar assim numa entrevista de emprego.
(Folha de São Paulo)

Coluna de Merval Pereira no O Globo desta terça-feira (17)

Há um aspecto perverso nessa crise do livro didático de português, que o MEC insiste em manter em circulação, que ultrapassa qualquer medida do bom-senso de um governo, qualquer governo.

A pretexto de defender a fala popular como alternativa válida à norma culta do português, o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros, que terão efeito direto na sua vida na sociedade e nos resultados de exames, nacionais e internacionais, que avaliam a situação de aprendizado dos alunos, debilitando mais ainda a competitividade do país.

O ministro Fernando Haddad, que já protagonizou diversas confusões administrativas, agora se cala diante dessa “pedagogia da ignorância” que apresenta aos alunos da rede pública a defesa de erros de português, como se fossem corretas ou aceitáveis expressões populares como “nós pega o peixe” ou “dois real”.

(Aliás, cada vez que escrevo essas frases, o corretor de texto teima em sublinhá-las em verde, como se estivessem erradas. Esse computador ainda não passou pelo crivo do MEC).

Mas é o próprio MEC que veicula anúncios exaltando supostos avanços dos alunos brasileiros no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

O País registrou crescimento em todas as notas, embora continue muito abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e mesmo de alguns da América Latina.

Ora, se o próprio governo baliza sua atuação pela régua do Pisa, como justificar que a defesa de uma alternativa da fala correta seja uma política oficial do Estado brasileiro?

A professora Heloísa Ramos, autora do livro “Por uma vida melhor”, da Coleção Viver, Aprender (Editora Global) acredita ser “importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”.

Seria preciso então que as escolas e faculdades ensinassem o português popular para os que foram alfabetizados pela norma culta, numa radicalização esdrúxula que esse raciocínio estimula.

O caráter ideológico de certos livros didáticos utilizados pelo MEC, especialmente de história contemporânea, ganha assim uma nova vertente, mais danosa que a primeira, ou melhor, mais prejudicial para a vida do cidadão-aluno.

Enquanto distorções políticas que afetem posições pessoais do aluno podem ser revertidas no decorrer de sua vida, por outros conhecimentos e vivências, distorções didáticas afetam a perspectiva desse aluno, que permanecerá analfabeto, sem condições de melhorar de vida.

Fosse o livro uma obra de linguística da professora Heloísa Ramos, nada a opor quanto à sua existência, embora seus métodos e conclusões rasteiras do que seja preconceito contra a fala popular possam, sim, ser refutados como uma mera mistificação política.

Se fosse um romance, não haveria problema algum em reproduzir a maneira de falar de uma região, ou os erros de português de um personagem.

Mas o livro didático não pode aceitar como certo o erro de português. Didática, pelo dicionário (?) é “a arte de transmitir conhecimento, técnica de ensinar” ou “que proporciona instrução e informação”.

O fato de falarem de certa maneira em algumas regiões não quer dizer que este ou aquele linguajar represente o português correto.

A visão deturpada do que seja ensinar aparece na declaração de um assessor anônimo do MEC no Globo de ontem, alegando que não cabe ao ministério dizer “o que é certo e o que errado”, e nem mesmo fazer a análise do conteúdo dos livros didáticos.

Se não exerce esses deveres básicos, o que faz o MEC em relação ao ensino do País?

Seria um equívoco lamentável e perigoso se o MEC, com essa postura, estivesse pretendendo fazer uma política a favor dos analfabetos, dos ignorantes, como se ela fosse a defesa dos que não tiveram condições de estudar. Na verdade, está é agravando as condições precárias do cidadão-aluno que busca na escola melhorar de vida, limitando, se não impossibilitando, que atinjam esse objetivo.

Se, porém, a base da teoria for uma tentativa de querer justificar a maneira como o presidente Lula fala, aí então teremos um agravante ao ato criminoso de manter os estudantes na ignorância.

Querer transformar um defeito, uma falha da educação formal do presidente-operário, em uma coisa meritória é um desserviço à população.

Os erros de português de Lula não têm mérito nenhum, ele os explora para fazer política, é um clássico do populismo, cuja consequência é deseducar a população.

Mas ele nunca teve a coragem de defender a fala errada, embora goste de ironizar palavras ou expressões que considera rebuscadas.

Ele desvaloriza o estudo, com frases como “não sei por que estudou tanto, e eu fiz mais do que ele”, ou quando se mostra como exemplo de que é possível subir na vida sem estudar.

Mas em outras ocasiões, estimula que a universidade seja acessível a todos, numa atitude que parece paradoxal, mas que ganha coerência quando se analisam os objetivos políticos de cada uma das atitudes.

Se, no entanto, o desdém pela norma culta do português transformou-se em política de Estado, aí teremos a certeza de termos chegado ao fundo do poço.

UFRN aprova obra que defende fala popular

Segundo o MEC, o aval ao livro que admite uso de linguagem oral com erros para estabelecer comunicação partiu de comissão de docentes potiguares.

Uma comissão formada por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aprovou o livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver e Aprender. O livro, que chegou a 484.195 alunos de todo o País, defende que a forma de falar não precisa necessariamente seguir a norma culta. “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode”, diz um trecho.

Por uma Vida Melhor, de autoria de Heloísa Ramos, afirma que o uso da língua popular – ainda que com seus erros gramaticais – é válido na tentativa de estabelecer comunicação. O livro lembra que, caso deixem de usar a norma culta, os alunos podem sofrer “preconceito linguístico”. “Fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”

O livro foi escolhido por um total de 4.236 escolas que definiram a obra “mais apropriada a cada contexto”, considerando as “propostas pedagógicas e curriculares desenvolvidas”, informou o Ministério da Educação. O MEC não comenta o mérito do livro – ressalta que coube a docentes da UFRN aprovar a obra e a cada escola a decisão de adotá-la ou não nas salas.

Padrões – Em nota divulgada pelo MEC, a autora defendeu que a ideia de “correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa”. Cercado pela polêmica que o livro levantou, o MEC observa que a seleção do conteúdo didático não coube ao ministério.

Os livros do Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLDEJA) são encaminhados para uma comissão, responsável pela avaliação e seleção das coleções didáticas. No caso de Por uma Vida Melhor, o debate ficou entre um grupo de docentes da UFRN. Depois de aprovadas, as obras são colocadas à disposição no Guia do Livro Didático, que funciona como uma ferramenta de orientação
na definição dos títulos.O ministério arca com as despesas dos livros.

Programa – Ao tratar dos componentes curriculares, o edital do programa do Ministério da Educação previa que os alunos do segundo segmento – do 6.º ao 9.º ano do ensino fundamental, que receberam a obra – “demandam novos tipos de reflexão sobre o funcionamento e as propriedades da linguagem em uso” e “a sistematização dos conhecimentos linguísticos correlatos mais relevantes”.

O edital também diz que “cabe ao ensino de língua materna, nesse nível de ensino-aprendizagem, aprofundar o processo de inserção qualificada do aluno na cultura da escrita”. O MEC afirmou que até ontem não havia pedidos de devolução dos exemplares. A Editora Global informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que é responsável pela comercialização e pela produção do livro, mas não pelo seu conteúdo. Procurada, a assessoria da UFRN disse que não se pronunciaria.

‘O livro é fruto da minha carreira. Escrevi o que já havia praticado’
Entrevista com Heloisa Cerri Ramos, coautora do livro “Por uma vida melhor”.

● Foi um mal entendido?
Pegaram uma frase sem contexto. Dentro do capítulo que trata de concordância nominal e verbal, explico que, na língua oral, quando se diz “os livro é popular”, entende-se que é plural. Mas, na verdade, acho que houve uma falta de aceitação. A mídia diz que a escola não produz aprendizagem, mas quando se mostra um aspecto pedagógico ou didático, ela tem posição conservadora, trata com ironia.

● A discussão, então, é antiga?
Sim. Há pelo menos 30 anos se fala disso entre os que se preocupam em democratizar o ensino. Talvez em um tempo em que só a elite ia para escola, a normal culta bastasse. Hoje, com o acesso da classe popular, a formação tem de ser mais ampla. E nosso livro é direcionado ao Ensino de Jovens e Adultos. Foi feito para aquele que pode ter sido discriminado por falar errado. Não defendo uma escola que fique parada na linguagem popular. Com o aprendizado, o estudante se vê como um falante da sua língua e sabe que, sem a norma culta, não terá acesso a bens culturais e conhecimentos científicos.

● O espanto, então, é por que você escreveu, colocou no papel, o que já se discute há tempos?
Sim. Acho que nenhum livro didático falou diretamente disso. Nosso livro tem a linguagem voltada para o aluno. Por isso, explicito essa questão da concordância. Recebi elogios de colegas. Muitos deles disseram que eu fui corajosa.

● E como é receber críticas de professores e de membros da Academia Brasileira de Letras?
Estou muito tranquila. Não cometi nenhum erro conceitual. O livro é fruto da minha carreira. O que eu escrevi, já havia praticado com meus alunos. E o livro também recebeu pareceres antes da publicação. Os outros dois autores da coleção e eu sempre falamos: se ninguém quiser os nossos livros, nós queremos.
(O Estado de São Paulo)

Luxo místico e riqueza marcam a estética do cangaço (Fapesp)

Humanidades
A cor que invadiu o sertão

Edição Impressa 176 – Outobro 2010

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Corisco, um dos cangaceiros mais vaidosos

“Olê, mulher rendeira/ olê, mulher rendá/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”, diz a canção-símbolo do cangaço. Sobre moda, Lampião e seus homens tinham pouco a aprender e muito a ensinar. Vestiam-se de forma colorida, cobertos por adornos de ouro e, como bons sertanejos, sabiam confeccionar toda a sorte de objetos e vestimentas sem que por isso se questionasse sua virilidade: o “rei do cangaço” costurava suas roupas e a de seus afilhados e bordava à máquina com perfeição, orgulhando-se da sua habilidade. “O bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor do livro Estrela de couro: a estética do cangaço (Escrituras, 258 páginas, R$ 150), com 300 fotos históricas e 160 reproduções de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, muitos pertencentes ao próprio autor. Tamanho apuro visual, pleno de detalhes nas coisas mais cotidianas (cães com coleiras trabalhadas em prata!), servia como proteção ao mau-olhado, instrumento de hierarquia interna, tinha funcionalidade militar e era um poderoso instrumento de propaganda junto às populações pobres, que se admiravam diante de todo aquele luxo, cor e brilho. Era também uma forma de arte que o cangaceiro carregava no seu corpo.

“Havia orgulho em tudo aquilo, um esforço para que se pudesse chegar ao anseio de beleza de cada um dos cabras. Era notável ainda um desprezo sistemático pela ocultação da figura, atitude oposta à de quem se considera criminoso”, explica. “Morando num meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza, satisfazendo seu anseio de arte e conforto místico. Era como se os mais esquivos habitantes do cinzento se levantassem contra o despotismo da ausência de cor na caa­tinga e proclamassem a folia de tons e de contrastes.” Em vez de procurar camuflagem, os cangaceiros desenvolveram uma estética brilhante e ostensiva com roupas adornadas de espelhos, moedas, metais, botões e recortes multicores que, paradoxalmente, os tornavam alvo fácil até no escuro. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, escreveu o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929. “Ainda que o fascínio pelo cangaço tenha existido sempre, fomentado pela literatura de cordel, Lampião soube jogar com todos os registros do visual para ‘magnificar’ a sua vida e transmitir a imagem de um bandido rico e poderoso. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua estética, usando modos de comunicação modernos que não faziam parte da sua cultura original, como a imprensa e a fotografia”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: senhor do sertão (Edusp).

Após terem seu visual cantado pelo cordel, a fotografia, ao chegar ao sertão na primeira década do século passado, fez a delícia do cangaço. “Essa existência criminal parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanho o cuidado do cangaceiro com o visual, com a imponência e a riqueza do traje guerreiro”, avalia Pernambucano. “As vestimentas dos bandidos foram sendo incrementadas até se tornarem quase fantasias. Esse era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros”, observa o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 320 páginas, R$ 54). O homem do cangaço era um orgulhoso que se esmerava no traje, até o final, como se pode ver na célebre foto das cabeças de Lampião e seus homens ao lado de seus chapéus: “Dentre os treze, não há dois iguais, tão ricos em tema e valor material quanto o do chefe, prova da imponência da estética, cuja afetação exagerada adjetivou o cangaço em sua etapa final, quando se chegou a incrustar alianças de ouro na boca das armas”, nota Pernambucano. “Havia uma estética rica que conferia uma ‘blindagem mística’ ao cangaceiro, satisfeito com a sua beleza e ainda seguro em meio a uma suposta inviolabilidade.” A ponto de contaminar as roupas dos policiais, que copiaram suas vestimentas, e mudar o foco da guerra. “O contágio inelutável dá a força dessa estética e evidencia a existência de outra luta, travada em paralelo, no plano da representação simbólica. A vingança estética do cangaço contra a eliminação militar se dá quando o ícone principal de sua simbologia se transforma na marca do Nordeste: a meia-lua com estrela do chapéu de Lampião.”

Bandidos – Estimulando essa “gana de ostentação” estava a própria essência política do cangaço. “Os cangaceiros não admitiam ser comparados ou confundidos com bandidos comuns, uma ofensa imperdoável. Viam-se como atores sociais distintos, na mesma estatura dos ‘coronéis’”, explica Pericás. O que lhes permitia usar e abusar dos figurinos: orgulhosos de si mesmos, tinham ainda um gosto pelas patentes militares, promovendo “cabras” a postos de hierarquia militar e considerando membros de seus efetivos como “soldados”. “Observe que todo grupo militar preza os símbolos, as insígnias, as representações de poder. Lembra-se do Brejnev com medalhas que não cabiam no peito no tempo da Rússia soviética? Sujeito inteligentíssimo, Lampião fez da costura e do bordado um critério a mais de promoção e status no seio do bando e ele mesmo costurava as vestimentas de seu bando. Saber prepará-los e conferi-los a seus homens era uma grande vantagem”, salienta Pernambucano. “Não se chama o boi batendo na perneira”, dizia o “rei”, consciente da necessidade de uma política de afagos interna para amenizar a disciplina de que não abria mão. “A estética era uma ferramenta para infundir o orgulho do irredentismo cangaceiro nos recrutas de modo quase instantâneo. Antes desse recurso estético, imagino que essa inoculação devesse ser lenta.”

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Cantil decorado e, ao lado, bornal florido

Patrões – “Os bandos de cangaceiros eram estruturas hierarquizadas com claras distinções entre as lideranças e a ‘arraia-miúda’, sem voz de comando em posição claramente subordinada aos chefes. Muitos consideravam os líderes do cangaço como ‘patrões’. E esses comandantes se viam assim, quase como os coronéis, com os quais mantinham boas relações, colocando-se em posição igualitária aos potentados rurais”, afirma Pericás. Na contramão do senso comum, os comandantes cangaceiros eram de famílias tradicionais e relativas posses. Lampião, por exemplo, pertencia à classe dos proprietários de terra e ele próprio foi um criador de gado. Por isso o cangaço não foi, diz o pesquisador, uma luta para reconstruir ou modificar a ordem social sertaneja tradicional, como preconizado por boa parte da literatura sobre o fenômeno. “Eles não lutavam para manter ou mudar nenhuma ordem política, mas para defender seus próprios interesses mediante o uso da violência, indistinta e indiscriminada. Os bandidos procuravam, sim, manter vínculos com os protetores poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o seu próprio povo”, diz Pericás. Nesse sentido, a famosa justificativa da adesão ao cangaço por motivos de disputas sociais ou vinganças familiares deve ser vista com desconfiança. “Os cangaceiros diziam-se vítimas, obrigados a entrar na luta por honra, mas isso era, na maior parte dos casos, um ‘escudo ético’, um argumento para convencer as populações pobres de que eram movidos por questões elevadas, se diferenciando dos bandidos comuns, o que não era real.” Lampião nunca viu como prioridade ajudar os necessitados. “Em geral, guardavam o dinheiro grande e davam alguns tostões aos pobres e às igrejas. E sempre faziam questão de que isso fosse divulgado para criar uma imagem positiva junto ao povo.”

Na prática, o comportamento dos cangaceiros era parecido com o dos coronéis, que agiam de forma paternalista com aqueles que eram considerados “seus” pobres. “Eles não eram bandidos sociais e se pode mesmo dizer que sua presença foi um obstáculo a um protesto social mais significativo. Apesar disso, como um executor independente da raiva silenciosa da pobreza rural, o cangaceiro tinha o apelo popular de um agente superior. A sua violência era um gesto admirado de afirmação psíquica na ausência de justiça e mudança positiva”, acredita a historiadora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, autora de The oligarchical limitations of social banditry in Brazil. Câmara Cascudo já notara que “o sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”. “O cangaço pode ser visto como uma continuidade do ambiente violento do sertão, onde era comum que paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida em questões morais, de honra e prestígio”, diz Pericás. Os cangaceiros construíram a imagem de indivíduos injustiçados que haviam ingressado na criminalidade por bons motivos. Mas, se eram violentos, o mesmo pode ser dito dos soldados que os perseguiam. “A população que sofria violências das volantes se voltava para os bandoleiros como uma resposta ou por vê-los em contraposição aos ‘agentes da lei’”, analisa Pericás.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Jabiracas de tecido inglês, de Lampião

“Com seus trajes inconfundíveis e nada tendentes à ocultação, se sentiam investidos de um mandato mais antigo, havido por mais legítimo que a própria lei, esta, a seus olhos, uma intrusão litorânea sobre os domínios rurais”, completa Pernambucano. Os cangaceiros supriram a falta de poder institucionalizado no sertão. “Eles seriam os fiéis da balança em muitos casos, sendo um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que tinha apelo para as massas rurais”, diz Pericás. Com o tempo, porém, o cangaço se revelou um negócio, o “Cangaço S/A”, como o descreve Pernambucano. “Era uma ‘profissão’, um ‘meio de vida’. Os bandidos estavam equidistantes do ‘povo’ e dos mandões, ainda que com maior proximidade das elites rurais”, concorda Pericás. Como eram “independentes”, tinham sua imagem dissociada diretamente dos coronéis. “Não sendo empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das camadas mais ricas e dos governos o monopólio da violência. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, da exploração, da falta de emprego e das secas, não ingressou no cangaço.” Segundo o pesquisador, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição à ordem instituída. “Os policiais representavam o governo, mas usavam a farda para transgredir. Assim, parte dessa sociedade se voltou para os cangaceiros e viu neles o oposto, ou seja, aqueles que lutavam contra a ordem.” Suas atividades crimi­nosas, então, eram justificadas no quadro maior da luta entre os dois “partidos”: cangaço e polícia.

Politicamente “reabilitados” e bem vistos, permitiam-se o luxo da ostentação, que se iniciava pelos chapéus, cujas abas levantadas podiam chegar aos 20 cm de raio anular, uma hipérbole em relação ao modelo original dos vaqueiros, de abas viradas, mas curtas. “Experimentei o chapéu de Lampião no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas: o pescoço bambeou. Tanto peso ornamental não teria nada a ver com funcionalidade militar, mas com valores bem mais sutis”, conta Pernambucano. O objeto tem cerca de 70 peças de ouro, entre moedas, medalhas e outros adereços, o que levou um repórter da época a defini-lo como “verdadeira exposição numismática”. O chapéu era o ponto de concentração dos adendos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro.

© reproduções do livro estrela de couro – A estética do cangaço
Chapéu de couro do rei do cangaço (à esq.) e conjunto de bornais

Amuletos – Coisas comuns eram transformadas em amuletos que, além de reforçar a hierarquia, viravam símbolos de uma crença mística. “A blindagem mística se traduziu nos muitos signos (estrela de davi, flor de lis, signo de salomão e outros) e na profusão do seu uso em todos os ângulos das vestimentas, o que dividia a atenção com o puro anseio estético, a se mesclar a este, conferindo utilitarismo à fusão, pela força de dar vida à crença tradicional numa suposta inviolabilidade em meio a riscos extremos.” Mas não se iluda o espectador ao pensar que os bandos eram “escolas móveis de superstição”. “O grosso da cabroeira, muito jovem, entre os 16 e os 23 anos, pautava-se pela lei da imitação, sem consciência daquilo de que se servia. O chefe usava? Basta.” As mulheres seguiam as modas de perto, mas de forma distinta. “Com alguns traços de valquíria e quase nenhum da amazona, a matuta que se engajou no cangaço jamais adotou o chapéu de couro, coisa de homem. A elas ficou reservado uma cobertura de feltro, de aba média, e a colocação, sobre a cabeça, de toalha ou lenço”, conta Pernambucano. O mesmo se dava com os punhais que podiam chegar a 80 cm para os homens (o tamanho limite era o do punhal de Lampião, que não poderia ser superado), mas não passavam dos 37 cm no caso das mulheres.

© Reprodução do livro Estrela de couro – a estética do cangaço
Facão com cabo de gavião, de Lampião

As armas brancas, aliás, são paradigmas na vestimenta do cangaceiro. Com função militar quase morta após o advento da espingarda de repetição, os punhais serviam no ritual letal do sangramento nordestino ou como símbolo de status. “Era usado orgulhosamente sobre o abdome, à vista de todos, aço da melhor qualidade europeia com cabo decorado de prata. Desfrutável ao primeiro olhar. Ou à primeira fotografia.” O punhal de Zé Baiano, presente de Lampião, foi avaliado em mais de 1 conto de réis, preço de uma casa. Outros símbolos de prestígio eram a bandoleira, correia para segurar a espingarda no ombro, e a cartucheira trespassada, essa uma necessidade nascida de se prover um adicional de munição: 150 cartuchos de fuzil Mauser presos com enfeites de ouro. Era comum, porém, que as volantes, cientes do prestígio de seu uso, mirassem em quem portasse uma dessas. A seu lado, iam os cantis, decorados com esmero, um espaço surpreendente de arte de projeção. Como as luvas a que, nota Pernambucano, o cangaceiro, no fausto dos anos 1930, juntou um bordado colorido. O lugar privilegiado das cores, porém, eram os bornais, cuja policromia levou um jornalista a descrever os cangaceiros como “ornamentados e ataviados de cores berrantes que mais pareciam fantasiados para um carnaval”. Visíveis por todos os ângulos, os bornais eram responsáveis por mais de dois terços desse “porre de cores”, o resto ficando por conta do lenço de pescoço, a jabiraca, com que também se coava o líquido extraído de plantas da caatinga. “Nela, nada de nós, mas puxadas as duas pontas para a frente, em paralelo, o cangaceiro ia colecionando alianças de ouro, tomando-se como rico quando formava o cartucho. Houve quem tivesse mais de 30 alianças no pescoço”, conta. Viajando por Sergipe, em 1929, Lampião teve os “apetrechos” pesados numa balança de armazém: 29 quilos sem as armas. No total, o peso carregado no calor tórrido da caatinga podia chegar a quase 40 quilos.

Místico – Com menos aprumo, a vestimenta contagiou os policiais. “A sedução da indumentária dos cangaceiros arrebatava pelo funcional, pelo estético e pelo místico. A volante se mimetizou a tal ponto que dela não restou imagem própria”, diz Pernambucano. Para desespero das autoridades, que se sentiam derrotadas também no simbólico. “Cumpre que se adote a proibição de fardamentos exóticos, de berloques, estrelas, punhais alongados e outros exageros notoriamente conhecidos, porque a impressão se faz no cérebro rude e, à primeira oportunidade, o chapéu de couro cobre a testa e o rifle pende a tiracolo”, alertava um relatório oficial. Curiosamente, nota o pesquisador, pintores como Portinari ou Vicente do Rego Monteiro não souberam captar o luxo e o colorido dessa estética em suas reproduções do cangaço, optando, ideologicamente, por uma visão monocromática opaca, para ressaltar o aspecto social do fenômeno, à custa da fidelidade ao real. “Não é exagero dizer que ainda está por surgir, na pintura ou no cinema, quem consiga combinar o ethos e o ethnos dessas comunidades para retratá-las”, avalia Pernambucano. “O cangaço foi o último movimento a viver ‘sem lei nem rei’ em nossos dias, após varar cinco séculos de história. E o último a fazê-lo com tanto orgulho, com tanta cor, com tanta festa e com uma herança visual tão significativa.” Como, aliás, já diziam os versos de Mulher rendeira: “O fuzil de Lampião/ tem cinco laços de fita/ No lugar em que ele habita/ não falta moça bonita”.

‘Culture of Poverty’ Makes a Comeback (N.Y. Times)


A vacant lot on East 110th Street in New York in 1952: the study of urban blight has long been influenced by political fashions.

By PATRICIA COHEN
Published: October 17, 2010

For more than 40 years, social scientists investigating the causes of poverty have tended to treat cultural explanations like Lord Voldemort: That Which Must Not Be Named.

Daniel Patrick Moynihan in his office at Harvard in 1971. George Tames/The New York Times.

The reticence was a legacy of the ugly battles that erupted after Daniel Patrick Moynihan, then an assistant labor secretary in the Johnson administration, introduced the idea of a “culture of poverty” to the public in a startling 1965 report. Although Moynihan didn’t coin the phrase (that distinction belongs to the anthropologist Oscar Lewis), his description of the urban black family as caught in an inescapable “tangle of pathology” of unmarried mothers and welfare dependency was seen as attributing self-perpetuating moral deficiencies to black people, as if blaming them for their own misfortune.

Moynihan’s analysis never lost its appeal to conservative thinkers, whose arguments ultimately succeeded when President Bill Clinton signed a bill in 1996 “ending welfare as we know it.” But in the overwhelmingly liberal ranks of academic sociology and anthropology the word “culture” became a live grenade, and the idea that attitudes and behavior patterns kept people poor was shunned.

Now, after decades of silence, these scholars are speaking openly about you-know-what, conceding that culture and persistent poverty are enmeshed.

“We’ve finally reached the stage where people aren’t afraid of being politically incorrect,” said Douglas S. Massey, a sociologist at Princeton who has argued that Moynihan was unfairly maligned.

The old debate has shaped the new. Last month Princeton and the Brookings Institution released a collection of papers on unmarried parents, a subject, it noted, that became off-limits after the Moynihan report. At the recent annual meeting of the American Sociological Association, attendees discussed the resurgence of scholarship on culture. And in Washington last spring, social scientists participated in a Congressional briefing on culture and poverty linked to a special issue of The Annals, the journal of the American Academy of Political and Social Science.

“Culture is back on the poverty research agenda,” the introduction declares, acknowledging that it should never have been removed.

The topic has generated interest on Capitol Hill because so much of the research intersects with policy debates. Views of the cultural roots of poverty “play important roles in shaping how lawmakers choose to address poverty issues,” Representative Lynn Woolsey, Democrat of California, noted at the briefing.

This surge of academic research also comes as the percentage of Americans living in poverty hit a 15-year high: one in seven, or 44 million.

With these studies come many new and varied definitions of culture, but they all differ from the ’60s-era model in these crucial respects: Today, social scientists are rejecting the notion of a monolithic and unchanging culture of poverty. And they attribute destructive attitudes and behavior not to inherent moral character but to sustained racism and isolation.

To Robert J. Sampson, a sociologist at Harvard, culture is best understood as “shared understandings.”

“I study inequality, and the dominant focus is on structures of poverty,” he said. But he added that the reason a neighborhood turns into a “poverty trap” is also related to a common perception of the way people in a community act and think. When people see graffiti and garbage, do they find it acceptable or see serious disorder? Do they respect the legal system or have a high level of “moral cynicism,” believing that “laws were made to be broken”?

As part of a large research project in Chicago, Professor Sampson walked through different neighborhoods this summer, dropping stamped, addressed envelopes to see how many people would pick up an apparently lost letter and mail it, a sign that looking out for others is part of the community’s culture.

In some neighborhoods, like Grand Boulevard, where the notorious Robert Taylor public housing projects once stood, almost no envelopes were mailed; in others researchers received more than half of the letters back. Income levels did not necessarily explain the difference, Professor Sampson said, but rather the community’s cultural norms, the levels of moral cynicism and disorder.

The shared perception of a neighborhood — is it on the rise or stagnant? — does a better job of predicting a community’s future than the actual level of poverty, he said.

William Julius Wilson, whose pioneering work boldly confronted ghetto life while focusing on economic explanations for persistent poverty, defines culture as the way “individuals in a community develop an understanding of how the world works and make decisions based on that understanding.”

For some young black men, Professor Wilson, a Harvard sociologist, said, the world works like this: “If you don’t develop a tough demeanor, you won’t survive. If you have access to weapons, you get them, and if you get into a fight, you have to use them.”

Seeking to recapture the topic from economists, sociologists have ventured into poor neighborhoods to delve deeper into the attitudes of residents. Their results have challenged some common assumptions, like the belief that poor mothers remain single because they don’t value marriage.

In Philadelphia, for example, low-income mothers told the sociologists Kathryn Edin and Maria Kefalas that they thought marriage was profoundly important, even sacred, but doubted that their partners were “marriage material.” Their results have prompted some lawmakers and poverty experts to conclude that programs that promote marriage without changing economic and social conditions are unlikely to work.

A Chicago mother and child in 1997 at the notorious Robert Taylor Homes, since demolished. Ozier Muhammad/The New York Times.

Mario Luis Small, a sociologist at the University of Chicago and an editor of The Annals’ special issue, tried to figure out why some New York City mothers with children in day care developed networks of support while others did not. As he explained in his 2009 book, “Unanticipated Gains,” the answer did not depend on income or ethnicity, but rather the rules of the day-care institution. Centers that held frequent field trips, organized parents’ associations and had pick-up and drop-off procedures created more opportunities for parents to connect.

Younger academics like Professor Small, 35, attributed the upswing in cultural explanations to a “new generation of scholars without the baggage of that debate.”

Scholars like Professor Wilson, 74, who have tilled the field much longer, mentioned the development of more sophisticated data and analytical tools. He said he felt compelled to look more closely at culture after the publication of Charles Murray and Richard Herrnstein’s controversial 1994 book, “The Bell Curve,” which attributed African-Americans’ lower I.Q. scores to genetics.

The authors claimed to have taken family background into account, Professor Wilson said, but “they had not captured the cumulative effects of living in poor, racially segregated neighborhoods.”

He added, “I realized we needed a comprehensive measure of the environment, that we must consider structural and cultural forces.”

He mentioned a study by Professor Sampson, 54, that found that growing up in areas where violence limits socializing outside the family and where parents haven’t attended college stunts verbal ability, lowering I.Q. scores by as much as six points, the equivalent of missing more than a year in school.

Changes outside campuses have made conversation about the cultural roots of poverty easier than it was in the ’60s. Divorce, living together without marrying, and single motherhood are now commonplace. At the same time prominent African-Americans have begun to speak out on the subject. In 2004 the comedian Bill Cosby made headlines when he criticized poor blacks for “not parenting” and dropping out of school. President Obama, who was abandoned by his father, has repeatedly talked about “responsible fatherhood.”

Conservatives also deserve credit, said Kay S. Hymowitz, a fellow at the conservative Manhattan Institute, for their sustained focus on family values and marriage even when cultural explanations were disparaged.

Still, worries about blaming the victim persist. Policy makers and the public still tend to view poverty through one of two competing lenses, Michèle Lamont, another editor of the special issue of The Annals, said: “Are the poor poor because they are lazy, or are the poor poor because they are a victim of the markets?”

So even now some sociologists avoid words like “values” and “morals” or reject the idea that, as The Annals put it, “a group’s culture is more or less coherent.” Watered-down definitions of culture, Ms. Hymowitz complained, reduce some of the new work to “sociological pablum.”

“If anthropologists had come away from doing field work in New Guinea concluding ‘everyone’s different,’ but sometimes people help each other out,” she wrote in an e-mail, “there would be no field of anthropology — and no word culture for cultural sociologists to bend to their will.”

Fuzzy definitions or not, culture is back. This prompted mock surprise from Rep. Woolsey at last spring’s Congressional briefing: “What a concept. Values, norms, beliefs play very important roles in the way people meet the challenges of poverty.”