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Antas dos brancos, veados grandes, onças de criação (ComCiência)

Artigo

Por Felipe Ferreira Vander Velden
10/12/2011

O antropólogo francês Philippe Descola argumentou certa vez que, se as Américas contribuíram de modo decisivo com produtos agrícolas, vegetais, para a economia e a culinária europeias, o traço distintivo do fluxo oposto – da Europa para terras americanas –bem poderia ter sido a introdução de numerosas espécies de animais domesticados no Novo Mundo: bois, cabras, ovelhas, cavalos, galinhas, porcos, e mesmo cães e patos, cujas populações nativas alcançavam apenas certas porções do continente (América do Norte e Central, Andes e a região do escudo das Guianas).

Pode-se afirmar, todavia, que o que de mais importante os europeus trouxeram para a América – e, aqui, passo a referir-me especificamente à América do Sul e, ainda mais precisamente, às terras baixas do continente, uma vez que a zona andina (as terras altas, montanhosas) possui características muito particulares quanto a essas questões – não foram os animais em si, mas a própria domesticidade enquanto critério definidor de certa relação entre seres humanos e animais. Com efeito, não havia animais domesticados, no sentido estrito do termo – populações animais mantidas em estreito contato com agrupamentos humanos por meio do controle reprodutivo e da seleção artificial – por estas plagas; havia, isto sim, e em abundância, animais que chamamos familiarizados, ou amansados (na tradução do inglês tamed, ou do francês apprivoisée), isto é, trazidos como filhotes da floresta e criados no convívio com humanos nas aldeias: aquilo que os povos Tupi costeiros denominavam xerimbabos.

Credito: Revista de Atualidade Indígena, ano II, nº 8, 1978. Funai. Primeiro contato com os Matis, no vale do Javari (AM): os índios pediram filhotes de cães aos funcionários da Funai

Essa domesticidade foi, evidentemente, transformada aqui, de modos diversos, processo que continua a se desenrolar hoje em dia. Não obstante, se a presença de animais de origem exógena nas aldeias indígenas na Amazônia e em outras partes das terras baixas sul-americanas despertou algum interesse (pouco, é verdade), este foi sobretudo anedótico ou, quando muito, impressionista: “abundam cães” em uma aldeia Tapirapé, ou os Parintintim “criam galinhas em quantidade” ou, ainda “os Bakairi adotaram a criação bovina no início do século XX”. Nada mais do que isso, carecemos de pesquisas detalhadas que compreendam o lugar ocupado por essas espécies alienígenas nos universos sociais, cosmológicos, técnico-econômicos e rituais das diferentes sociedades indígenas no continente, mesmo naqueles locais em que esses seres emergiram inequivocamente como de capital valor simbólico e de crucial importância no conjunto de práticas e conhecimentos nativos, tal o cavalo entre os Kadiweu (inclusive chamados, no período colonial, de “índios cavaleiros”) no Mato Grosso do Sul e os bovinos entre os Wayuu (também conhecidos como Guajiro) na fronteira venezuelana-colombiana.

Tal ausência dos animais domesticados de origem europeia nas reflexões de cientistas sociais contrasta fortemente com a ubiquidade desses seres nas aldeias, no passado e atualmente e, provavelmente, expressa uma faceta daquilo que a antropóloga Joanna Overing definiu como “um desinteresse antropológico pela domesticidade e pelo cotidiano”. Focada em uma interpretação que toma, como definidora das sociocosmologias nativas das terras baixas, a relação com a alteridade definida pelo idioma da afinidade (aliança) e atualizada em mecanismos de abertura violenta para o exterior como a caça, o canibalismo, o xamanismo e a guerra, a etnologia e a história indígenas da América do Sul têm deixado, tradicionalmente, de lado as dimensões “internas” das sociedades nativas, os modos por meio dos quais a sociedade é criada a partir das relações de consanguinidade, de filiação, de amizade, de companheirismo, de mutualismo, de confiança, de afeição. Ora, qualquer um que tenha animais de estimação, ou que se interesse minimamente pelo tema, sabe que este é o vocabulário absolutamente compreensível e corrente: falar de animais domésticos é falar em convivência (ou convivialidade, como a mesma Joanna Overing prefere dizer).

A afinidade, portanto, parece não servir bem como modelo para abordar as relações entre índios e animais domesticados. Serve para a caça, mas não para a domesticidade, melhor descrita pelos idiomas da familiarização e da consanguinidade. Os Karitiana – povo de língua Tupi-Arikém em Rondônia, com quem trabalho há dez anos, e entre os quais desenvolvi uma pesquisa sobre a presença desses seres exóticos – afirmam que “cachorro é como filho”, destacando, assim, a relação de familiaridade/consanguinidade que corta as fronteiras entre o humano e o não-humano. Como tal, os animais criados por eles assumem uma posição em tudo análoga à das crianças humanas: há um genuíno prazer na criação desses seres, no cuidado cotidiano com eles; prazer que, inclusive, porta dimensão estética, pois se diz que os animais de criação (como são chamados), como as crianças, “enfeitam a aldeia”, tornando-a agradável ao olhar de todos; há, ainda, a percepção de que esses seres cumprem um ciclo de vida tal qual o dos humanos: filhotes são mimados e protegidos, mas animais adultos devem portar-se como indivíduos autônomos e responsáveis, cuidando de suas próprias necessidades e desejos – da mesma forma que qualquer humano maduro; por fim, há de se frisar que o cuidado com os animais domésticos é, sobretudo, assunto de mulheres, competência de uma esfera de saberes e afetos propriamente femininos.

Como filhos, matar esses animais com quem se convive diuturnamente torna-se uma questão complexa e prenhe de implicações afetivas e emocionais. Há, nas aldeias Karitiana, sempre muitas galinhas, e os índios afirmam que as comem; entretanto, conforme relatado por outros autores, os Karitiana “dizem que comem, mas não comem”. Ao menos, não comem as galinhas de sua criação, pois não parece haver problema em deliciar-se com galinhas alheias, roubadas do vizinho, compradas na cidade ou cedidas para outrem. Apenas duas vezes vi pessoas terem de sacrificar suas próprias galinhas em função da necessidade de se ter carne para o almoço – e, como é amplamente sabido, na Amazônia uma refeição sem carne está lamentavelmente incompleta: nas duas ocasiões as aves foram perseguidas por homens armados de arco e flechas, numa perfeita simulação do ato de caçar. Assim, para que sejam tornadas alimento, as galinhas domésticas precisam, antes, ser convertidas em caça, des-familiarizadas violentamente, interpondo entre elas e a panela a ação das armas que buscam quebrar o vínculo forte entre os animais e as mulheres que as criam. O que não quer dizer que o consumo dessa carne seja, deste modo, tornado simples e desprovido de sentimentos: toda morte de um animal gera sentimentos ambíguos e, no caso dos animais de criação, genuína tristeza e raiva (contra o agressor), especialmente nas mulheres e nas crianças.

Para comer, pois, é necessário caçar: o termo Karitiana para (animal de) caça (himo) é, significativamente, o mesmo para carne. Os animais de criação, então, não são carne e, em certo sentido, não são mesmo animais, presos à convivência direta e contínua com seus pares humanos: o que define a animalidade propriamente dita – a intolerância à presença humana, a agressividade, a fuga, a timidez e, acima de tudo, a comestibilidade (pois caça é carne e é animal) – falta aos animais domésticos, comensais dos homens e mulheres, seus protegidos, seus filhos. Sua eventual conversão em carne, como visto acima, envolve operações simbólicas precisas não isentas, contudo, de fortes implicações afetivas.

O idioma da predação, portanto, não parece prestar-se à domesticidade. Isso, quanto aos animais introduzidos pelos brancos: este ser por definição doméstico não é familiarizado no sentido usual do termo – tornado familiar de um afim genérico, como acontece, por contraste, com o animal trazido do mato e amansado nas aldeias, conforme Carlos Fausto. Ele parece, desde já, portar uma familiaridade intrínseca, talvez por vir sempre acompanhado de humanos (brancos) e, em certo sentido, ser feito por eles: “criado”, na dupla acepção da palavra em português (fazer e cuidar). Talvez por isso os Karitiana sustentem uma diferença notável entre os animais nativos e aqueles introduzidos: estes, diz-se, “não têm história”, destacando-se que não existiam nos tempos míticos – o que denominam “tempo antigamente” – e não foram feitos pelos criadores do universo Karitiana, como aconteceu com os xerimbabos nativos. Vieram “pela mão dos brancos”, como contam as narrativas dos primeiros encontros de vários dos homens e mulheres mais idosos, que viram essas curiosas criaturas, pela primeira vez, na infância, lá pelos anos de 1940.

Assim, esses animais – exóticos, exógenos, introduzidos – portam uma dupla marca de estranheza, advinda do fato de terem se apresentado sempre na companhia dos colonizadores brancos: não partilham da história antiga do povo Karitiana, e não habitam a floresta (gopit), espaço por excelência dos animais criados pelo demiurgo Botyj no início de tudo. Estranheza que os Karitiana buscaram administrar por meio da designação dessas novas espécies de seres, feita a partir das criaturas que já conheciam: assim, cavalos viraram “veados grandes” (de ty), bois tornaram-se “antas dos brancos” (opoko irip’), cachorros, “onças de criação”, “onças domésticas” (obaky by’edna). Galinhas, denominadas opok ako, “o muito dos brancos”, quer seja, aquilo que os brancos possuem e carregam em abundância, sinaliza outro tema importante da percepção Karitiana não só desses animais, mas também dos brancos e de seus bens em geral: a multiplicidade, ou a capacidade de reproduzir-se de maneira descontrolada e exagerada. De fato, xerimbabos nativos só muito raramente reproduzem no interior das aldeias; galinhas, contudo, contrariam essa esterilidade aldeã de forma notável; assim fazendo, apontam na direção das formas de apropriação contemporânea desses animais entre numerosos povos indígenas nas terras baixas.

Mulher Tapuia, de Albert Eckhout (1643) pintada no período da ocupação holandesa do Nordeste. Símbolo da ferocidade e do caráter diabólico, a presença do cachorro está em consonância com a imagem que os europeus tinham dos índios do interior nordestino, selvagens e bárbaros em comparação com os Tupi da costa. A obra também pode sugerir a convivência e relação próxima existente entre índios e cães – introduzidos com a colonização – no sertão desde, pelo menos, o século XVII

O animal doméstico: história e antropologia

A introdução de animais domesticados de origem exógena em populações indígenas é uma constante na história do Brasil, intercâmbio inaugurado na própria certidão de nascimento do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha, que narra o encontro entre índios e portugueses no litoral sul da Bahia em abril de 1500, e que conta como os índios reagiram à aproximação de cabras e galinhas trazidas nas embarcações europeias. Desde então, esses seres exóticos espalharam-se rapidamente pelo território nacional, naquilo que o biogeógrafo Alfred Crosby definiu como “imperialismo ecológico”: a paulatina transformação da biota nativa em paisagens cada vez mais parecidas com a Europa, colonização movida pela “pata do boi”, no dizer de Capistrano de Abreu. Conhecemos razoavelmente bem os mecanismos e os efeitos da “frente de ocupação pastoril” – conforme a definiu Darcy Ribeiro – mas apenas em suas linhas-mestras; o detalhe permanece-nos obscuro, e sabemos menos ainda dos modos como a ocupação do Brasil por esses animais estrangeiros impactou as múltiplas sociedades indígenas que habitavam, e habitam, a região. Menos ainda se sabe sobre como esses seres – bovinos, caprinos, suínos, equinos, caninos, galináceos – ocuparam a Amazônia, dado que, nas áreas de floresta densa, os animais não podem se mover livremente, dependendo da condução de seres humanos: dado para o qual atentam os Karitiana, que afirmam ter conhecido esses seres desde sempre “na companhia dos brancos”. Uma história da ocupação animal da floresta amazônica ainda está por ser escrita.

Ocupação cuja face perversa estamos vendo se agravar nos dias correntes, com o avanço da pecuária sobre a hileia, na última fronteira do processo que tornou o Brasil o dono do maior rebanho de bois e o maior exportador de carne bovina do planeta. Este processo de transformação do país em um gigante global do agronegócio tem sido feito às custas da brutal destruição da Amazônia e da sua transformação em extensas pastagens.

Vários povos indígenas na Amazônia – como os Karitiana – e alhures não escapam a essa febre agropastoril, e vêm, crescentemente, se interessando por projetos de implementação de criação animal em suas aldeias. Vinculando a introdução da pecuária a políticas de segurança alimentar e combate à fome e à desnutrição, os proponentes desses projetos – ligados a esferas estatais e a organizações não-governamentais – ignoram aspectos importantes da natureza das relações entre índios e animais. O mecanismo de familiarização – animais tratados como filhos – acima evocado, por exemplo, traz importantes implicações para a tripla relação entre animais, povos indígenas e esses novos agentes de formulação e implantação de políticas públicas. Com efeito, muitos dos projetos destinados às aldeias indígenas, em seus componentes geração de renda e economia, preconizam a instalação da criação animal em escalas ampliadas. Esses projetos desconsideram, ainda, a experiência, pois as perspectivas de sucesso têm se mostrado, em geral, pífias: colecionam-se fracassos – galinheiros destruídos, bois abandonados, gramíneas forrageiras invasoras espalhando-se descontroladamente, abate indiscriminado, desconhecimento técnico – mas as razões para eles ainda são pouco conhecidas.

Olhar para a introdução de animais domesticados em povos indígenas nas terras baixas da América do Sul implica, portanto, também estar atento às inflexões locais de processos macropolíticos e macroeconômicos. Ademais, questões de saúde pública (zoonoses) também se colocam, sem falar na reflexão – ainda por fazer, mas mais do que necessária – sobre a precária condição de muitos desses seres nas aldeias vis-à-vis à legislação ambiental e de proteção aos animais do país e os intensos debates, acadêmicos e leigos, acerca da defesa e da libertação animal.

A antropologia pode e deve, seguramente, ser uma ferramenta a contribuir com esse importante conjunto de debates públicos, ao olhar com cuidado para as modalidades indígenas de constituição das relações entre humanos e animais. O foco nos afetos, emoções e vínculos, contudo, sugere que um passo a mais deve ser dado na análise consagrada de taxonomias e de representações indígenas de seres e da relação com esses mesmos seres. Não o animal como signo, ou símbolo, mas – conforme defende o antropólogo John Knight – o animal como sujeito, como partícipe ativo e agente na construção e reconstrução das sociabilidades comunitárias. Animais e humanos como elementos de um conjunto de laços de natureza simbiótica, naturezaculturas, na inspirada sugestão de Donna Haraway. Só assim poderemos compreender melhor o que é o animal domesticado, esta figura ambígua e complexa entre a natureza e a cultura ou, como dizem os Karitiana, entre a casa e o mato e entre a aldeia e a cidade. Assim poderemos avaliar com justeza o papel central que tiveram esses seres não só na história geral do Novo Mundo, mas nas histórias particulares de cada um de seus povos nativos.

Para saber mais:

– “Rebanhos em aldeias: investigando a introdução de animais domesticados e formas de criação animal em povos indígenas na Amazônia (Rondônia)”, de Felipe Vander Velden. Espaço Ameríndio, vol. 5, no. 1, 2011, disponível em http://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/view/16602)

– Número especial da Revista de História da Biblioteca Nacional (no. 60, setembro de 2010) dedicado a abordagens historiográficas sobre os animais, e que traz alguns artigos sobre a introdução de espécies no Brasil colonial. (disponível apenas para assinantes)

Felipe Vander Velden é professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A tese de doutorado (Inquietas companhias: sobre os animais de criação entre os Karitiana, Campinas, Unicamp, 2010) de Felipe Vander Velden, na qual discute aprofundadamente os temas apenas evocados neste artigo, será publicada, em breve, pela Alameda Casa Editorial.

The Mental Time Travel Of Animals (NPR)

11:39 am

November 3, 2011

by BARBARA J KING

Don't underestimate the crow.

Arif Ali/AFP/Getty Images. Don’t underestimate the crow.

Without a trace of agitation, the male chimpanzee piles up stones in small caches within his enclosure. He does this in the morning, before zoo visitors arrive. Hours later, in an aroused state, the ape hurls the stones at people gathering to watch him.

detailed report by Mathias Osvath concluded that the ape had planned ahead strategically for the future. It is exactly this feat of mental time travel that psychologist Michael C. Corballis, in his book The Recursive Mind: The Origins of Human Language, Thought, and Civilization, claims is beyond the reach of nonhuman animals. Last week, my review of Corballis’s book appeared in the Times Literary Supplement.

Corballis suggests that mental time travel is one of two human ways of thinking that propelled our species into a unique cognitive status. (The other, theory of mind, I won’t deal with here.)

During mental time travel, we insert into our present consciousness an experience that we’ve had in the past or that we imagine for ourselves in the future. Corballis calls this ability mental recursion, and he’s right that we humans do it effortlessly. When we daydream at work about last weekend’s happy times with family and friends, or anticipate tonight’s quiet evening with a book, we engage in mental time travel.

Our highly elaborated ability to insert the past or future recursively into our thinking may play a role in the evolution of human civilization, as Corballis claims. But Corballis’s argument is weakened because he dismisses other animals’ mental capacities far too readily.

It’s not only one chimpanzee in a Swedish zoo who makes me think so.

When our pets grieve, as I wrote about in this space recently, they hold in their mind some memory of the past that causes them to miss a companion.

New research on the pattern of food storage by Eurasian jays indicates that these birds think ahead about what specific foods they will want in the future.

When apes (chimpanzees) and corvids (crows and ravens) make tools to obtain food, they too think ahead to a goal, even as they fashion a tool to solve the problem before them.

In the NATURE documentary film A Murder of Crows, a New Caledonian crow solves a three-part tool-using problem totally new to him (or to any other crow). As one researcher put it, the bird thinks “three chess moves into the future” as he finds one tool that allows him to get another tool that he uses finally to procure food.

Have a look at this crow’s stunning problem-solving here. The experimental footage begins at 16:30, but starting at 13:00 offers good context. And the entire film is a delight.

Man’s best friends: How animals made us human (New Scientist)

31 May 2011 by Pat Shipman
Magazine issue 2814.

Video: How animals made us human

Our bond with animals goes far deeper than food and companionship: it drove our ancestors to develop tools and language

TRAVEL almost anywhere in the world and you will see something so common that it may not even catch your attention. Wherever there are people, there are animals: animals being walked, herded, fed, watered, bathed, brushed or cuddled. Many, such as dogs, cats and sheep, are domesticated but you will also find people living alongside wild and exotic creatures such as monkeys, wolves and binturongs. Close contact with animals is not confined to one particular culture, geographic region or ethnic group. It is a universal human trait, which suggests that our desire to be with animals is deeply embedded and very ancient.

On the face of it this makes little sense. In the wild, no other mammal adopts individuals from another species; badgers do not tend hares, deer do not nurture baby squirrels, lions do not care for giraffes. And there is a good reason why. Since the ultimate prize in evolution is perpetuating your genes in your offspring and their offspring, caring for an individual from another species is counterproductive and detrimental to your success. Every mouthful of food you give it, every bit of energy you expend keeping it warm (or cool) and safe, is food and energy that does not go to your own kin. Even if pets offer unconditional love, friendship, physical affection and joy, that cannot explain why or how our bond with other species arose in the first place. Who would bring a ferocious predator such a wolf into their home in the hope that thousands of years later it would become a loving family pet?

I am fascinated by this puzzle and as a palaeoanthropologist have tried to understand it by looking to the deep past for the origins of our intimate link with animals. What I found was a long trail, an evolutionary trajectory that I call the animal connection. What’s more, this trail links to three of the most important developments in human evolution: tool-making, language and domestication. If I am correct, our affinity with other species is no mere curiosity. Instead, the animal connection is a hugely significant force that has shaped us and been instrumental in our global spread and success in the world.

The trail begins at least 2.6 million years ago. That is when the first flaked stone tools appear in the archaeological record, at Gona in the Afar region of Ethiopia (Nature, vol 385, p 333). Inventing stone tools is no trivial task. It requires the major intellectual breakthrough of understanding that the apparent properties of an object can be altered. But the prize was great. Those earliest flakes are found in conjunction with fossilised animal bones, some of which bear cut marks. It would appear that from the start our ancestors were using tools to gain access to animal carcasses. Up until then, they had been largely vegetarian, upright apes. Now, instead of evolving the features that make carnivores effective hunters – such as swift locomotion, grasping claws, sharp teeth, great bodily strength and improved senses for hunting – our ancestors created their own adaptation by learning how to turn heavy, blunt stones into small, sharp items equivalent to razor blades and knives. In other words, early humans devised an evolutionary shortcut to becoming a predator.

That had many consequences. On the plus side, eating more highly nutritious meat and fat was a prerequisite to the increase in relative brain size that marks the human lineage. Since meat tends to come in larger packages than leaves, fruits or roots, meat-eaters can spend less time finding and eating food and more on activities such as learning, social interaction, observation of others and inventing more tools. On the minus side, though, preying on animals put our ancestors into direct competition with the other predators that shared their ecosystem. To get the upper hand, they needed more than just tools and that, I believe, is where the animal connection comes in.

Two and a half million years ago, there were 11 true carnivores in Africa. These were the ancestors of today’s lions, cheetahs, leopards and three types of hyena, together with five now extinct species: a long-legged hyena, a wolf-like canid, two sabretooth cats and a “false” sabretooth cat. All but three of these outweighed early humans, so hanging around dead animals would have been a very risky business. The new predator on the savannah would have encountered ferocious competition for prizes such as freshly killed antelope. Still, by 1.7 million years ago, two carnivore species were extinct – perhaps because of the intense competition – and our ancestor had increased enough in size that it outweighed all but four of the remaining carnivores.

Why did our lineage survive when true carnivores were going extinct? Working in social groups certainly helped, but hyenas and lions do the same. Having tools enabled early humans to remove a piece of a dead carcass quickly and take it to safety, too. But I suspect that, above all, the behavioural adaptation that made it possible for our ancestors to compete successfully with true carnivores was the ability to pay very close attention to the habits of both potential prey and potential competitors. Knowledge was power, so we acquired a deep understanding of the minds of other animals.

Out of Africa

Another significant consequence of becoming more predatory was a pressing need to live at lower densities. Prey species are common and often live in large herds. Predators are not, and do not, because they require large territories in which to hunt or they soon exhaust their food supply. The record of the geographic distribution of our ancestors provides more support for my idea that the animal connection has shaped our evolution. From the first appearance of our lineage 6 or 7 million years ago until perhaps 2 million years ago, all hominins were in Africa and nowhere else. Then early humans underwent a dramatic territorial expansion, forced by the demands of their new way of living. They spread out of Africa into Eurasia with remarkable speed, arriving as far east as Indonesia and probably China by about 1.8 million years ago. This was no intentional migration but simply a gradual expansion into new hunting grounds. First, an insight into the minds of other species had secured our success as predators, now that success had driven our expansion across Eurasia.

Throughout the period of these enormous changes in the lifestyle and ecology of our ancestors, gathering, recording and sharing knowledge became more and more advantageous. And the most crucial topic about which our ancestors amassed and exchanged information was animals.

How do I know this? No words or language remain from that time, so I cannot look for them. I can, however, look for symbols – since words are essentially symbolic – and that takes me to the wealth of prehistoric art that appears in Europe, Asia, Africa and Australia, starting about 50,000 years ago. Prehistoric art allows us to eavesdrop on the conversations of our ancestors and see the topic of discussion: animals, their colours, shapes, habits, postures, locomotion and social habits. This focus is even more striking when you consider what else might have been depicted. Pictures of people, social interactions and ceremonies are rare. Plants, water sources and geographic features are even scarcer, though they must have been key to survival. There are no images showing how to build shelters, make fires or create tools. Animal information mattered more than all of these.

The overwhelming predominance of animals in prehistoric art suggests that the animal connection – the evolutionary advantages of observing animals and collecting, compiling and sharing information about them – was a strong impetus to a second important development in human evolution: the development of language and enhanced communication. Of course, more was involved than simply coining words. Famously, vervet monkeys have different cries for eagles, leopards and snakes, but they cannot discuss dangerous-things-that-were-here-yesterday or ask “what ate my sibling?” or wonder if that danger might appear again tomorrow. They communicate with each other and share information, but they do not have language. The magical property of full language is that it is comprised of vocabulary and grammatical rules that can be combined and recombined in an infinite number of ways to convey fine shades of meaning.

Nobody doubts that language proved a major adaptive advantage to our ancestors in developing complex behaviours and sharing information. How it arose, however, remains a mystery. I believe I am the first to propose a continuity between the strong human-animal link that appeared 2.6 million years ago and the origin of language. The complexity and importance of animal-related information spurred early humans to move beyond what their primate cousins could achieve.

As our ancestors became ever more intimately involved with animals, the third and final product of the animal connection appeared. Domestication has long been linked with farming and the keeping of stock animals, an economic and social change from hunting and gathering that is often called the Neolithic revolution. Domestic animals are usually considered as commodities, “walking larders”, reflecting the idea that the basis of the Neolithic revolution was a drive for greater food security.

When I looked at the origins of domestication for clues to its underlying reasons, I found some fundamental flaws in this idea. Instead, my analysis suggests that domestication emerged as a natural progression of our close association with, and understanding of, other species. In other words, it was a product of the animal connection.

Man’s best friend

First, if domestication was about knowing where your next meal was coming from, then the first domesticate ought to have been a food source. It was not. According to a detailed analysis of fossil skulls carried out by Mietje Germonpré of the Royal Belgian Institute of Natural Sciences in Brussels and her colleagues, the earliest known dog skull is 32,000 years old (Journal of Archaeological Science, vol 36, p 473). The results have been greeted with some surprise, since other analyses have suggested dogs were domesticated around 17,000 years ago, but even that means they pre-date any other domesticated animal or plant by about 5000 years (see diagram). Yet dogs are not a good choice if you want a food animal: they are dangerous while being domesticated, being derived from wolves, and worst of all, they eat meat. If the objective of domestication was to have meat to eat, you would never select an animal that eats 2 kilograms of the stuff a day.

A sustainable relationship

My second objection to the idea that animals were domesticated simply for food turns on a paradox. Farming requires hungry people to set aside edible animals or seeds so as to have some to reproduce the following year. My Penn State colleague David Webster explores the idea in a paper due to appear in Current Anthropology. He concludes that it only becomes logical not to eat all you have if the species in question is already well on the way to being domesticated, because only then are you sufficiently familiar with it to know how to benefit from taking the long view. This means for an animal species to become a walking larder, our ancestors must have already spent generations living intimately with it, exerting some degree of control over breeding. Who plans that far in advance for dinner?

Then there’s the clincher. A domestic animal that is slaughtered for food yields little more meat than a wild one that has been hunted, yet requires more management and care. Such a system is not an improvement in food security. Instead, I believe domestication arose for a different reason, one that offsets the costs of husbandry. All domestic animals, and even semi-domesticated ones, offer a wealth of renewable resources that provide ongoing benefits as long as they are alive. They can provide power for hauling, transport and ploughing, wool or fur for warmth and weaving, milk for food, manure for fertiliser, fuel and building material, hunting assistance, protection for the family or home, and a disposal service for refuse and ordure. Domestic animals are also a mobile source of wealth, which can literally propagate itself.

Domestication, more than ever, drew upon our understanding of animals to keep them alive and well. It must have started accidentally and been a protracted reciprocal process of increasing communication that allowed us not just to tame other species but also to permanently change their genomes by selective breeding to enhance or diminish certain traits.

The great benefit for people of this caring relationship was a continuous supply of resources that enabled them to move into previously uninhabitable parts of the world. This next milestone in human evolution would have been impossible without the sort of close observation, accumulated knowledge and improved communication skills that the animal connection started selecting for when our ancestors began hunting at least 2.6 million years ago.

What does it matter if the animal connection is a fundamental and ancient influence on our species? I think it matters a great deal. The human-animal link offers a causal connection that makes sense of three of the most important leaps in our development: the invention of stone tools, the origin of language and the domestication of animals. That makes it a sort of grand unifying theory of human evolution.

And the link is as crucial today as it ever was. The fundamental importance of our relationship with animals explains why interacting with them offers various physical and mental health benefits – and why the annual expenditure on items related to pets and wild animals is so enormous.

Finally, if being with animals has been so instrumental in making humans human, we had best pay attention to this point as we plan for the future. If our species was born of a world rich with animals, can we continue to flourish in one where we have decimated biodiversity?

Pat Shipman is adjunct professor of biological anthropology at Penn State University. Her book The Animal Connection: A new perspective on what makes us human is published by W. W. Norton & Company on 13 June