A ciência inútil de Alckmim (OESP)

14 Maio 2016 | 03h 00

Geraldo Alckmin insinuou, semanas atrás, que o dinheiro destinado à pesquisa científica no Estado de São Paulo é desperdiçado em estudos irrelevantes ou mesmo inúteis. Ninguém duvida que a aplicação do dinheiro público deve ser cuidadosa e sempre pode ser melhorada. O problema é saber o que é ciência útil.

Quinze páginas publicadas nesta semana na mais conceituada revista científica mundial podem ser consideradas uma resposta às criticas do governador. Principalmente porque seus autores foram, durante anos, considerados grandes produtores de ciência “inútil”. Mas vamos à história que culminou na publicação.

Faz mais de 20 anos, um amigo voltou da França com uma ideia fixa. Queria estudar a biologia molecular dos vírus. Argumentava que novos vírus surgiriam do nada para assombrar a humanidade. O HIV e o ebola eram o prenúncio do que nos esperava no futuro. Sua ciência sempre foi criativa e de qualidade. E foi por esse motivo, e não com medo do apocalipse, que a Fapesp passou a financiar o jovem virologista. O grupo cresceu.

A ciência que esses virologistas produziram nas últimas décadas pode ser classificada como básica ou pura, sem utilidade aparente. Talvez fosse considerada “inútil” pelo governador. Pessoas que pensam assim acreditam que o papel do Estado é financiar projetos que resultem em conhecimentos de utilidade óbvia e imediata, que resolvam os problemas da Nação. Como essa política científica utilitarista e de curto prazo não predomina na Fapesp, a virologia molecular “inútil” prosperou no Estado de São Paulo. Entre os anos 2000 e 2007, eles formaram uma rede de pesquisa, montaram laboratórios, formaram estudantes e publicaram trabalhos científicos. Depois cada um seguiu seu caminho, estudando vírus diferentes, com métodos distintos, nas mais diversas unidades da USP.

Em dezembro, meu colega apareceu na Fapesp com outra ideia fixa. Argumentou que um vírus quase desconhecido poderia estar relacionado aos casos de microcefalia que pipocavam no Nordeste. Era o zika. Enquanto o pânico se espalhava em meio à total desinformação, em uma semana a rede dos virologistas moleculares se aglutinou e resolveu atacar o problema. Eram 45 cientistas agrupados em 15 laboratórios “inúteis”. Na semana seguinte, a Fapesp aumentou o financiamento desses laboratórios. Não tardou para um exército de virologistas moleculares paulistas desembarcar no palco da tragédia munidos de tudo que existia de “inútil” nos seus laboratórios. Isolaram o vírus dos pacientes e, enquanto um laboratório “inútil” cultivava o vírus, outro “inútil” sequenciou seu genoma. Rapidamente esse grupo de cientistas básicos se tornou “útil”. Demonstraram que o vírus ataca células do sistema nervoso, que atravessa a placenta e infecta o sistema nervoso do feto. E que provoca o retardo de seu crescimento.

Em poucos meses, a nova variante do vírus zika foi identificada, isolada, seu mecanismo de ação, esclarecido, e um modelo experimental para a doença foi desenvolvido. Essas descobertas vão servir como base para o desenvolvimento de uma vacina nos próximos anos. São essas descobertas “úteis”, descritas no trabalho realizado por cientistas “inúteis”, que agora foram publicadas pela revista Nature.

Premidos pela Segunda Guerra, cientistas “inúteis” dos EUA e da Inglaterra desenvolveram o radar, a bomba atômica e o computador. Premidos pela microcefalia, nossos virologistas estão ajudando a resolver o problema. Da mesma maneira que era impossível prever no entreguerras que o financiamento de linguistas, físicos teóricos, matemáticos e outros cientistas “inúteis” fosse ajudar no esforço de guerra, era impossível prever que os esforços de financiamento de jovens virologistas iriam, anos mais tarde, solucionar o enigma do zika antes da toda poderosa ciência americana.

Esse é um dos motivos que levam todo país que se preza a financiar essa tal de ciência “inútil”. Esse repositório de cientistas, laboratórios e conhecimento não somente aumenta nosso conhecimento sobre a natureza e ajuda a educar nossos jovens, mas pode ser aglutinado em uma emergência. Foi porque a Fapesp financiou ciência “inútil” por anos que agora temos a capacidade de responder rapidamente a uma emergência médica nacional. Do meu ponto de vista, a simples existência desse trabalho científico é uma resposta da comunidade científica às críticas ventiladas por nosso governador.

MAIS INFORMAÇÕES: THE BRAZILIAN ZIKA VÍRUS STRAIN CAUSES BIRTH DEFECTS IN EXPERIMENTAL MODELS. NATURE DOI:10.1038/NATURE18296 2016

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