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AGÊNCIA FAPESP – 9/11/2009

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – “Civilizar” o país e inseri-lo em um projeto de modernidade significava, em grande parte, abandonar a ideia do ambiente rural, da natureza selvagem e dos territórios inóspitos e atrasados. Paraíso terrestre, guerra contra a natureza, sentimento de nostalgia, ideia de progresso e transformação da natureza são alguns dos aspectos analisados no livro Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922), que acaba de ser lançado.

A obra investiga como grande parte da intelectualidade brasileira – do fim do século 19 até a Semana de Arte Moderna, em 1922 – percebia e concebia as múltiplas relações entre natureza e sociedade, aliado a um projeto de modernidade nacional.

O livro analisa um conjunto de escritos desse período tanto na ficção como em textos não literários (ensaios, relatos de viagem e memórias) de autores consagrados, como Euclides da Cunha, Graça Aranha e Visconde de Taunay, e outros menos conhecidos, como Alberto Rangel, Hugo de Carvalho Ramos e Domicílio da Gama.

De acordo com a autora Luciana Murari, o conjunto de textos é multifacetado, com muitas contradições, dividido de um lado pela tentativa de “racionalizar tudo”, de encaixar a realidade em modelos cognitivos que a explicassem e que possibilitassem que o homem adquirisse controle sobre a natureza e, de outro, pela percepção da natureza como um espaço sagrado e inatingível.

“Essas duas inclinações não se mostravam mutuamente excludentes no contexto das obras, nem mesmo no conjunto da obra de um mesmo autor. Na melhor das hipóteses, em momentos otimistas, grande parte dos intelectuais brasileiros acreditava que o progresso resolveria tudo, anularia as diferenças e criaria a própria nacionalidade”, disse Luciana, professora do Centro de Ciências Humanas e do Programa de Pós-graduação em Letras, Cultura e Regionalidade da Universidade de Caxias do Sul, à Agência FAPESP

O livro é resultado de sua tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo (USP) sob a orientação de Elias Thomé Saliba, professor titular em Teoria da História da USP, e recebeu apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

“O livro mostra que essa geração de pensadores e ensaístas, mais do que presa às explicações deterministas, biológicas e racistas, viveu uma consciência dividida, característica da cultura do fim de século”, disse Saliba.

“A obra revela ainda como esses pensadores, cada um a sua maneira, denunciam a modernidade postiça, construída a partir da devastação brutal da natureza e da destruição dos laços que mantinham a coesão da sociedade tradicional. Alguns de seus argumentos e descrições, com difusa e surpreendente consciência ecológica, mostram-se ainda estranhamente atuais”, disse.

De acordo com Luciana, em relação ao recorte histórico pouco convencional, a ideia foi investigar o período anterior à Semana de Arte Moderna, “porque esse período precisa ser revisto como um todo e não apenas nos momentos que pareceriam, na melhor das hipóteses, antecipar a chamada revolução modernista”.

“A delimitação é uma referência para se pensar o início do processo de modernização produtiva no Brasil, que também viveu uma espécie de modernização intelectual nesse período, dedicado a transformar os padrões cognitivos em vigor no debate sobre a nacionalidade e a construir uma nova imagem e uma nova postura frente ao país, baseada na ciência”, disse.

Embora não analise os textos dos chamados modernistas de 1922, a pesquisadora conta ter percebido que não houve uma ruptura radical em relação ao debate modernista e algumas questões que circulavam há tempos entre os intelectuais brasileiros do período anterior.

“Os modernistas transformaram muitas coisas e estabeleceram novos padrões estéticos, mas talvez essa noção de ruptura associada ao movimento reproduza o próprio discurso deles, ou de alguns deles, e nos impeça de ver continuidades importantes”, disse.

Ao elencar os escritores interessados na questão da natureza brasileira, Luciana destaca três nomes: o cearense Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel, um seguidor de Euclides da Cunha cuja linha ficcional apresenta características de não ficcionais, e Coelho Neto, um dos intelectuais mais prestigiados do seu tempo, mas muito pouco estudado.

Coelho Neto era uma referência para seus contemporâneos, sempre chamado para palpitar nos assuntos mais importantes da vida nacional. Mas acabou, segundo a pesquisadora, ganhando fama de intelectual alienado da realidade nacional.

“Essa acusação, a meu ver, não tem fundamento, mesmo porque ele foi uma referência para o nativismo de sua época, como pioneiro da literatura regionalista. A visão de Coelho Neto sobre a natureza resume muito do que seus contemporâneos discutiam, mas ao mesmo tempo é bastante original porque tem um aspecto místico muito forte e uma emotividade arrebatadora”, disse Luciana.

Sonho da modernidade

Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922) está dividido em quatro capítulos, mais um pós-escrito. Um paraíso terrestre mostra as concepções teóricas sobre a relação entre homem e natureza no país e como a relação da sociedade brasileira com sua base natural adquiriu um sentido negativo, “exprimindo um conflito inexorável entre os empreendimentos humanos e as condições do meio natural”.

Guerra contra a natureza, segundo capítulo, aprofunda o diagnóstico “negativo” de uma relação baseada na violência recíproca: tanto a ação destrutiva da natureza em relação aos desígnios humanos como a ação destruídora do homem em relação a ela.

Nos dois últimos capítulos, a autora aborda, respectivamente, o Sentimento do sertão na alma brasileira e o Progresso e transformação da natureza.

“Nesse quarto capítulo, discuto a modernidade propriamente dita, compreendida como uma relação de domínio do homem sobre a natureza. Os autores tentavam demonstrar a viabilidade de uma sociedade moderna no ambiente brasileiro, pacificando a luta do homem contra a natureza e superando a melancolia por meio da ação. É um capítulo sobre as utopias da modernidade brasileira”, explicou.

Segundo Luciana, a construção da natureza no imaginário nacional permite observar o dilema brasileiro a partir da perspectiva de homens conscientes e temerosos do peso da formação colonial e escravocrata do Brasil.

“Trata-se de um fardo que concorria com seus projetos de alinhamento à modernidade e que perturbava a formação de um sentimento coletivo em um país em que as divisões sociais eram muito profundas e irredutíveis”, apontou.

“A modernidade era um sonho que parecia fadado a nunca se realizar, porque aquele peso sempre se fazia sentir e se expressava de forma muito intensa na relação do país com seu meio físico”, disse a autora.

Título: Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922)
Autora: Luciana Murari
Ano: 2009
Páginas: 474
Preço: R$ 50
Mais informações: http://www.alamedaeditorial.com.br

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