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Sob o céu Guarani (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4555, de 06 de Agosto de 2012

Livro lançado na 64ª Reunião da SBPC resgata técnicas da astronomia indígena no Mato Grosso do Sul.

Clarissa Vasconcellos – Jornal da Ciência

Lançado na 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em São Luís, o livro ‘O Céu dos Índios de Dourados – Mato Grosso do Sul’ (Editora UEMS), de Germano Bruno Afonso e Paulo Souza da Silva, escrito em guarani e português, nasceu com a ideia de recuperar a tradição indígena de observação do céu. Trata-se de uma publicação voltada para o ensino de alunos de cultura indígena (mas não exclusivamente para eles), usada por professores Guarani como referência para mostrar como esses povos procuravam o melhor aproveitamento dos recursos naturais.

A publicação nasceu do projeto ‘Etnoastronomia dos Índios Guarani da Região da Grande Dourados – MS’, cuja meta era reconstruir três observatórios solares em Dourados, dois deles em escolas. “Eram uma espécie de relógio que os Guarani usavam para vários fins, como festejos ou medição das estações, e com isso podiam fazer previsões e criar cronogramas até para a concepção de bebês”, detalha ao Jornal da Ciência Paulo Souza da Silva, professor do curso de Física da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS).

As técnicas dos índios também ajudam a explicar as marés e o comportamento da fauna e flora (útil para a caça e cultivo), entre outros fenômenos, mostrando que seu sistema astronômico vai muito mais além do que apenas a observação dos corpos celestes. O que acaba despertando o interesse até dos não índios.

Foi o que constatou o astrônomo do Museu da Amazônia Germano Bruno Afonso na palestra sobre o tema que ofereceu na Reunião da SBPC. “Foi mais gente do que esperávamos. A recepção das pessoas em São Luís me chamou a atenção, embora eu tenha falado bastante dos Tupinambá do Maranhão”, observa o pesquisador. Os Tupinambá, assim como os Tembé e os Guarani, pertencem à família linguística Tupi-Guarani, a maior em número e extensão geográfica do tronco linguístico Tupi.

Diferenças e semelhanças – Os Tupinambá maranhenses, uma etnia já extinta, não são o objeto principal do livro, mas estão presentes porque têm muito em comum com os Guarani do Sul a respeito da observação do céu. Germano conta que Tupinambá e Guarani têm técnicas muito parecidas, baseando-se no trabalho de Claude d’Abbeville, monge capuchinho que passou quatro meses no Maranhão em 1612. Seu livro ‘Histoire de la mission de Peres capucins en l’Isle de Maragnan ET terres circonvoisines’ é considerado uma das fontes mais importantes da etnografia dos Tupi.

“É interessante identificar o mesmo conhecimento com mais três de mil quilômetros de distância e 400 anos de diferença, embora Guarani e Tupinambá pertençam ao mesmo tronco linguístico”, pontua Germano, lembrando que a semelhança de idiomas isso facilitou que o conhecimento fosse repassado. Germano tem origem indígena e até os 17 anos de idade viveu numa aldeia Guarani.

O livro, originalmente uma cartilha, poderia ser complementar a ‘O Céu dos Índios Tembé’, que rendeu a Germano o Prêmio Jabuti de 2000. “Os Tembé são remanescentes dos Tupinambá, pela divisa do Pará com Maranhão, e eles também mantêm esse mesmo sistema astronômico”, conta. Após o livro dos Tembé, ele e Paulo Souza Silva ganharam uma bolsa de pesquisa do CNPq para trabalhar com os Guarani de Dourados, no projeto citado acima.

“Mas sabemos que esse trabalho é adaptável para todos os grupos da família Tupi-Guarani. Por isso fizemos um livro geral para professores, para eles aplicarem e modificarem de acordo com a cultura local. Um Guarani do Rio Grande do Sul não vê o céu da mesma maneira que um do Espírito Santo. A base é a mesma, mas o céu é diferente”, detalha Germano.

“Você tem que despertar o interesse da liderança, resgatar essa cultura”, opina Silva sobre a importância do livro e do projeto. Ele lembra que o indígena é marginalizado em cidades como Dourados, onde a cultura está se perdendo entre os jovens índios. “Muitos nem falam guarani”, lamenta.

Intercâmbio com a astronomia – A investigação desse conhecimento de grupos étnicos ou culturais que não utilizam a chamada ‘astronomia ocidental’ (ou oficial), caso dos povos indígenas do Brasil, deu origem à disciplina etnoastronomia ou astronomia antropológica. Ela requer especialistas em áreas como astronomia, antropologia, biologia e história. Germano conta que vê pouca colaboração entre a etnoastronomia e a astronomia.

“Não vejo troca nenhuma, exatamente por preconceito e falta de informação da astronomia ‘oficial’, pelo desconhecimento dos povos indígenas do próprio Brasil. A gente conhece a cultura dos maias, dos astecas e até dos aborígenes da Austrália, mas aqui temos muito desconhecimento”, lamenta, dizendo que busca a aceitação não apenas da academia, mas também do público leigo. Ele gostaria que o reconhecimento acontecesse conforme ocorreu na botânica e farmácia, disciplinas que aproveitaram muito o conhecimento tradicional desses povos. Para Silva, o preconceito diminuiu um pouco, apesar de haver quem diga que a etnoastronomia “é cultura e não ciência”.  “Como cientistas, temos que estar abertos ao que outros têm a oferecer”, opina o físico.

Atualmente, Germano está em Manaus e pretende passar seis meses em São Gabriel da Cachoeira, noroeste do Amazonas,” onde 95% da população são indígenas, com 27 etnias”. A ideia é fazer outro livro similar, levando em conta as diferenças regionais. “Enquanto no Sul é a temperatura que manda no clima, lá é a chuva. Vamos observar os períodos de chuva e as enchentes dos rios, aspectos climáticos que regem a fauna e flora”, detalha. Já Silva pretende fazer um livro sobre os mitos indígenas do céu, com questões como a formação do mundo.

Os autores desejam que esse conhecimento chegue aos bancos das escolas de todo o País, não apenas as que ensinam cultura indígena. “A mitologia indígena, comparada com a Greco-Romana [usada na astronomia], é muito mais fácil de visualizar no céu”, exemplifica Silva. “Nós explicamos, de uma maneira empírica, assim como os índios fazem, as estações do ano, os pontos cardeais, as fases da lua, as marés e os eclipses, só por meio da observação da natureza. Qualquer criança pode começar a entender isso sem a complicação matemática, então é uma maneira alternativa e prazerosa para ensinar também os não índios, antes de se aplicar a ciência formal”, conclui Germano.

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