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Sobre fenômenos paranormais no apartamento de Millôr Fernandes e no IUPERJ

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Opinião – Ruy Castro: Fim do mistério (Folha de S.Paulo)

Ruy Castro, 6 de setembro de 2020

RIO DE JANEIRO”‚Solicitado além da conta pelas mesquinharias do Aquém, tive de me dedicar também nos últimos anos a certas intervenções do Além. Refiro-me aos fenômenos ocorridos recentemente num apartamento de Ipanema onde, por 50 anos, manteve seu estúdio um amado jornalista, escritor, cartunista, dramaturgo e pensador. A listagem dessas categorias e o fato de ser um personagem de Ipanema podiam levar à sua imediata identificação —Millôr Fernandes, claro—, mas mantive seu nome em segredo na primeira vez que escrevi sobre o caso (“Abraçado a este mundo“, 31/5/2017).

Millôr morrera havia cinco anos, em 2012. Seu acervo já tinha sido levado e o apartamento estava passando por reforma para ser alugado. Mas a obra se arrastava porque nenhuma turma de operários durava muito tempo. Móveis, ferramentas e apetrechos pesados anoiteciam num lugar e amanheciam em outro, sem que ninguém entrasse lá de madrugada. Coisas assim. E, a qualquer hora, ouviam-se suspiros vindos de aposentos vazios.

A custo a reforma terminou e um americano alugou o apartamento para morar. Era fã de Millôr, mas nem isso impediu que o inexplicável continuasse a acontecer, como lâmpadas acendendo e apagando como numa coreografia e livros se pondo de cabeça para baixo quando ninguém estava olhando. O americano também deu no pé e, já autorizado a dizer o nome, escrevi que, pelo visto, Millôr não se empolgara com o outro mundo e queria voltar para o nosso (“A volta de quem não foi“, 20/4/2018).

Em fins do ano passado, o apartamento foi alugado de novo. Mas algo benigno deve ter rompido a cadeia de mistério, porque, desde então, ele nunca mais foi palco do insondável. Suas atuais inquilinas vivem lá tranquilamente com seu cachorrinho, a que deram o nome de Millôr.

Trata-se de um shih tzu, originário da China, com mil anos de linhagem e considerado sagrado. Só pode ser isso.


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Opinião – Ruy Castro: A volta de quem não foi (Folha de S.Paulo)

Ruy Castro, 20 de abril de 2018

Há tempos escrevi aqui sobre um apartamento, em Ipanema, de certo intelectual morto em 2012 e que, na iminência de ser ocupado por um novo morador, começou a acusar fenômenos estranhos —como se o antigo proprietário ainda estivesse por ali, inconformado por ter morrido e surpreso por constatar que, ao contrário do que sempre acreditara em vida, parecia existir, sim, um “outro mundo”.

Que fenômenos? Eram objetos deixados pelos operários num lugar e que reapareciam em outro, vasos sanitários que davam descarga por conta própria e lâmpadas que se acendiam e se apagavam seguindo uma coreografia. E os suspiros, gemidos e pigarros, que se podiam identificar como sendo do falecido morador. Era como se o homem estivesse tentando se comunicar com o nosso miserável mundo —ele que, por 70 anos, escrevendo e desenhando em jornais, revistas e livros, enriquecera este mundo com seu gênio e rigor implacáveis.

 Pois aconteceu que um jovem americano alugou o apartamento. Sabendo quem morara ali, quis conhecer seus textos e cartuns. Isso pode ter aplacado a situação, mas não por muito tempo. Logo os livros começaram a aparecer ao contrário na estante e os quadros a amanhecer de cabeça para baixo. O americaninho estava disposto a aguentar até que, há poucas semanas, uma parte do teto desabou. O rapaz pegou o boné —largou tudo e voltou para os EUA.

Foi preciso fazer nova obra no apartamento. E terá sido coincidência que, no dia 27 de março último, sexto aniversário da morte de nosso amigo, o chão do apartamento tenha afundado? Não há dúvida —ele quer voltar e, pelas amostras, deve ter muito a dizer.

Até hoje omiti seu nome, mas fui finalmente autorizado a revelá-lo: Millôr Fernandes. Não acredito nessas coisas, mas, se Millôr voltar, você pode me aguardar, de barba, cajado e túnica, pelas ruas do Rio.


Fenômenos paranormais no IUPERJ

Postagem no Facebook de Luiz Eduardo Soares de 7 de setembro de 2020

Meu materialismo radical e meu amor pela ciência não me impedem de reconhecer a realidade do que não sei explicar. Pelo contrário, me obrigam à humildade ante o mistério. A coluna de hoje do Ruy Castro conta a saga inexplicável do apartamento do Millôr, depois de sua morte. Equipamentos pesados de reforma se movendo, livros virando de ponta cabeça, os sons nos aposentos, ao longo de anos. Os enigmas do real e o real dos enigmas desafiaram as mais céticas testemunhas. Foi parecida minha experiência noturna no IUPERJ, onde lecionei por 15 anos. O casarão da rua da Matriz ficava vazio de madrugada. Eu gostava de entrar noite adentro, naquela paz, lendo e escrevendo. Eram meus momentos mais concentrados e produtivos. Minha única companhia era o porteiro, uma noite seu Raimundo, outra, seu Manoel. Minha salinha ficava no segundo andar, longe da entrada, onde um dos dois atravessava a madrugada, atrás da mesinha de madeira, no escuro. Essa foi minha rotina por bastante tempo, até que, certa vez, bateram à porta, batidas claras e distintas, uma, duas, três, quatro. “Pode entrar”, eu disse, virando a cabeça para trás, à espera do sorriso largo de seu Raimundo, ou da circunspecção gentil de seu Manoel, aproveitando a ronda pela casa pra me levar um cafezinho. Nada. Eu insisti: “Entra”. Mesmo com o ar-refrigerado desligado, às vezes não se ouvia. Aumentei o volume: “Pode entrar”. Nada. Levantei e abri a porta. Ninguém. Liguei a luz do corredor, “Oi, estou aqui, quem é?”. Andei de uma ponta a outra. Salas vazias, portas fechadas, nenhum sinal de vida. Gatos não batem à porta. “Seu Raimundo?” Nenhuma resposta. Voltei à minha leitura. Alguns minutos depois, o enredo se repetiu. Dessa vez, liguei para a portaria: “Tem alguém na casa, seu Raimundo?” Só o senhor mesmo. Contei a história. O porteiro não se abalou. Respondeu um “acontece”, que não entendi, nem me esforcei por entender. A informação me bastava. Não havia ninguém e pronto. Voltei ao estudo, mas tive o cuidado de trancar a porta. Felizmente, não houve mais batidas, ou melhor, por cerca de uma hora li sem interrupções, até que a rodada de batidas e procura por quem teria batido recomeçou. Decidi tirar aquilo a limpo. Desci as escadas, depois de dar uma olhada no terceiro andar e deixar as luzes acesas, no segundo. Na portaria, puxei uma cadeira, me servi do café no copinho de plástico: “O que o senhor quis dizer quando me disse acontece?” Ah, isso é comum, seu Raimundo explicou, é normal. E emendou uma fileira de casos daquele tipo, que incluíam derrubada de livros na biblioteca, sem gatos ou vento. Ele tinha suas teorias sobrenaturais. Preferi ficar estacionado na perplexidade. Não compro teorias conspiratórias nem políticas nem metafísicas. Nem por isso nego evidências. Ainda insisti com uma derradeira tentativa de encaixar as batidas na porta com meu código de construção cognitiva da realidade: “Será que eu dormi e sonhei com as batidas, seu Raimundo?” Foi isso não, ele disse. Essa noite, tá muito movimentado no segundo andar, dá pra ouvir daqui gente correndo, feito crianças apostando corrida. Volta e meia é assim. Fui pra casa. No dia seguinte, as cenas se repetiram e minha conversa foi com seu Manuel, que confirmou o testemunho do colega. O senhor não tinha reparado? Eu nunca tinha reparado, mas, a partir daquela noite, passei a ser importunado com frequência, até a noite em que, antes das batidas, ouvi os passos se aproximando. Em vez de dizer “entra”, abri a porta abruptamente. Não havia ninguém. Olhei para um lado e outro. Fechei. Ainda de pé, alerta, pronto para abrir a porta e surpreender o engraçadinho, aguardei. De novo, batidas firmes, fortes, para não deixar nenhum resquício de dúvida. Em um segundo escancarei a porta. Nada. Confesso que o coração bateu mais forte. Desisti de atravessar as madrugadas no casarão da rua da Matriz. Interessante foi perceber, depois de consultar as bibliotecárias, que nada daquilo era novo e que nós, os professores, as professoras, com nossos PHDs, jamais havíamos nos dado conta de que, ao nosso lado, havia todo um universo de crenças, valores, experiências e relatos, universo habitado pelos trabalhadores que nos serviam e que jamais haviam compartilhado conosco suas incríveis aventuras, algumas mais fascinantes do que nossos tratados sociológicos, talvez porque temessem nossa ironia, talvez porque temessem que desdenhássemos de sua “ignorância”. Em nosso senso de realidade não cabia toda a realidade. Nossa acuidade racional longamente apurada nos era muito útil, mas também nos blindava contra o que perturbasse nossas convicções. E no entanto, bastava deixar-se estar por mais tempo na casa e conviver com o outro lado do cotidiano ordenado da instituição. Com o outro lado de nossa classe social. Bastava arriscar-se um pouco além do prazo de validade do dia de trabalho, bastava desligar as formalidades que nos mantinham próximos e distantes desses outros companheiros e dessas outras companheiras de trabalho. A materialidade ultrapassava os domínios da racionalidade que lhe atribuíamos. Enquanto isso, outros modos de saber se mostravam mais flexíveis e capazes de reconhecer a extensão incognoscível e incontrolável dos fatos. Entretanto, disso nunca tratamos com nossos alunos.