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>Loucura artística – Como a sétima arte retrata os distúrbios mentais (FAPESP)

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HUMANIDADES | CINEMA

Alexandre Agabiti Fernandez
Edição Impressa – Fevereiro 2011

Loucura de Dalí em Quando fala o coração

O cinema se presta, mais do que qualquer outra forma de arte, à representação de transtornos mentais. Paranoicos, psicóticos e outros transtornados fascinam ou perturbam o espectador porque a loucura interrompe a ordem imanente do mundo e as modalidades habituais de percepção deste. Cinema e loucura – Conhecendo os transtornos mentais através dos filmes (Artmed), de J. Landeira-Fernandez e Elie Cheniaux, é a primeira obra publicada entre nós a classificar sistematicamente os distúrbios mentais de personagens cinematográficos. Cada capítulo descreve os aspectos clínicos de um determinado transtorno mental e, em seguida, exemplos cinematográficos do mesmo transtorno são apresentados e comentados. Os autores discutem um total de 184 filmes, muitos deles bastante conhecidos. “O livro é uma ferramenta acadêmica para o ensino de psicopatologia e de psiquiatria, fornecendo exemplos concretos que em sala de aula são tratados de maneira mais abstrata”, afirma J. Landeira-Fernandez, professor da Universidade Estácio de Sá (Unesa). “Usar filmes motiva o aluno e é especialmente interessante nos casos de alunos que não têm acesso a pacientes de carne e osso”, observa Elie Cheniaux, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

A relação entre o cinema e o psiquismo é uma evidência, pois a sétima arte representa o humano sob todas as suas formas, das mais risonhas às mais sombrias. Por outro lado, o próprio dispositivo cinematográfico – a sala escura em que são projetadas imagens, com o espectador em situação de passividade relativa, de imobilidade – determina um estado regressivo artificial que remete ao sonho. Este implica sujeito que se afasta do real e é envolvido por suas imagens. No cinema, acontece algo semelhante com o espectador. A experiência do sonho, com suas associações livres, também pode ser comparada à montagem cinematográfica, que faz coexistir mundos aparentemente heterogêneos.

Além dessas analogias, convém lembrar que o cinema e a psicanálise, oriunda da psiquiatria, nasceram praticamente ao mesmo tempo, entre o fim do século XIX e o começo do seguinte, revolucionando a abordagem da realidade. Hanns Sachs, discípulo de Freud, foi um dos primeiros psicanalistas a manifestar interesse pelo cinema. Em seu seminário, Jacques Lacan, outro pioneiro da psicanálise, fez uma análise do personagem principal de O alucinado (1953), de Luis Buñuel, um célebre caso de paranoia.

“A dramaturgia se baseia no conflito. Um filme, segundo o modelo clássico, tem três atos: a introdução dos personagens, o desenvolvimento de conflitos entre eles e a resolução dos conflitos. Muitos desses conflitos são de natureza mental. Um filme com personagens ‘normais’, resolvidos e sem conflito, não despertaria o interesse do público. Mas um filme com figuras perturbadas, fora da normalidade, traz conflitos, que fazem a narrativa avançar. O personagem ‘maluco’ é mais cinematográfico. O desvio seduz; a norma, não”, argumenta Flávio Ramos Tambellini, coordenador docente da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio.

Em Cinema e loucura, os personagens cinematográficos são encarados como casos clínicos.Farrapo humano (1945), de Billy Wilder, retrata muito bem a riqueza dos sintomas presentes no quadro de abstinência de álcool. Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), de Woody Allen, apresenta o transtorno distímico – caracterizado por sintomas depressivos menos intensos do que os observados em um quadro depressivo típico – e também o transtorno de ansiedade generalizada.

Porém muitas vezes os transtornos mentais não estão bem representados, pois o filme não tem finalidade educativa, obedece a injunções artísticas e comerciais. “Roteiristas e cineastas não têm obrigação de ser fiéis à realidade. O cinema não tem a obrigação de ser didático. É arte, não ciência”, constata Cheniaux. Entretanto tais distorções não desautorizam a abordagem proposta pelos autores, ao contrário. Em Uma mente brilhante(2001), de Ron Howard, biografia de John Nash, matemático e Prêmio Nobel de Economia, a esquizofrenia do personagem está mal descrita. “Ele tem alucinações visuais, cinestésicas e auditivas. Está errado, pois os esquizofrênicos têm alucinações unimodais, sendo a modalidade auditiva a mais co­mum. Efetivamente, o John Nash real tinha apenas alucinações auditivas. Mesmo estando errada, a representação do sintoma já serve como exemplo negativo”, diz Landeira-Fernandez.

Em outros casos, o personagem tem um comportamento que não se encaixa em nenhuma categoria diag­nóstica. Frequentemente, essa “loucura” reflete o senso comum, é muito diferente dos sintomas de um doente mental real. O livro também compila filmes com estas distorções. Em Repulsa ao sexo (1965), de Roman Polanski, Carol, personagem vivida por Catherine Deneuve, tem horror à penetração e apresenta uma série de comportamentos estranhos. Qual transtorno mental teria estas características? Os distúrbios de Carol não se enquadram nas categorias descritas pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR), que orientou os autores.

Cena de Repúdio ao sexo

Os problemas de diagnóstico, contudo, estão longe de ser uma especificidade do cinema. “Na medicina, as doenças são definidas a partir de suas causas. Mas na psiquiatria as categorias são descritas apenas pelos sintomas e isso é bastante criticável. Frequentemente, um mesmo paciente preenche critérios diagnósticos para mais de uma categoria nosológica ao mesmo tempo. Fica difícil acreditar que ele tenha três ou quatro doenças psiquiátricas ao mesmo tempo. É algo até certo ponto arbitrário”, afirma Cheniaux.

Nas primeiras décadas do século passado, os “loucos” estavam geralmente confinados ao gênero fantástico e eram, em geral, criminosos. Com O gabinete do doutor Caligari (1919), clássico do expressionismo alemão, de Robert Wiene, a loucura entra nas modalidades de representação cinematográfica. Como em outros filmes expressionistas, os cenários fortemente estilizados e a gestualidade brusca dos atores traduzem simbolicamente a mentalidade dos personagens e seus estados de alma. Caligari é um médico louco que hipnotiza César, seu assistente, para que ele cometa crimes, afirmando uma vontade de poder paranoica. Outra figura perversa e inteligente desta época é o personagem central deDoutor Mabuse (1922), de Fritz Lang. Trata-se de um psiquiatra que também recorre à hipnose para manipular as pessoas e cometer seus crimes. Mabuse é devorado pelo desejo de governar por meio do dinheiro, enquanto a sede de poder de Caligari é abstrata. A loucura de Mabuse e a passividade mórbida de suas vítimas apontam para a decadência da sociedade alemã da época e para o caos que então grassava no país.

Outro filme de Lang, M – O vampiro de Dusseldorf (1931), se interessa de maneira mais realista pela psicologia dos personagens. A figura central é um assassino de meninas, que, entretanto, é mostrado com humanidade em seu horror. Mas a sociedade não é melhor: diante da incapacidade da polícia em prendê-lo, ele é “julgado” por outros delinquentes, prefigurando o que iria acontecer na Alemanha em poucos meses com a chegada dos nazistas ao poder.

A partir dos anos 1940, a psicanálise ganha espaço nos meios de comunicação. Surgem osthrillers psicanalíticos, que utilizam o arsenal da psicanálise de maneira rústica e ingênua. O protótipo destes filmes é Quando fala o coração (1945), de Alfred Hitchcock. Constance (Ingrid Bergman) é uma jovem psiquiatra de um asilo que se apaixona pelo novo diretor. Mas ela logo se dá conta de que o homem que ama (Gregory Peck) é um doente mental que se faz passar pelo doutor Edwards. A partir dos sonhos do doente e depois de uma sessão de análise, Constance descobre que ele perdera a memória e com­preende por que o doente assumira a culpa por um crime que não cometera: ele testemunhara a morte do verdadeiro Edwards, assassinado pelo ex-diretor do asilo, assim como ele mesmo, em uma brincadeira quando era criança, empurrara o irmão menor para a morte. Além da angústia diante da loucura, o filme mostra a angústia da loucura, figurando o medo do personagem por meio de sonhos (desenhados por Salvador Dalí) que revelam um mundo cheio de alucinações e símbolos pretensamente produzidos pelo inconsciente. Neste e em outros filmes do período, a psicanálise é reduzida a um método capaz de resolver obscuros conflitos por meio do deciframento de um conjunto de signos geralmente claríssimos.

A partir dos anos 1950, sob o impacto dos horrores da Segunda Guerra Mundial, tem início o questionamento da reclusão do doente. Ao mesmo tempo, surgem novos psicofármacos, que provocam graves efeitos colaterais, levando muitos pacientes a recusar o tratamento. Como reação à psiquiatria da época, aparece a antipsiquiatria, que ganhou vulto nos anos 1960, no auge da contracultura. Alguns filmes retratam bem este momento, como Family life (1971), de Ken Loach; Uma mulher sob influência (1974), de John Cassavetes, e Um estranho no ninho (1975), de Milos Forman, criticando uma sociedade que prefere confinar os doentes em vez de ajudá-los a mitigar seu sofrimento, oferecendo como tratamento apenas a camisa de força, choques elétricos e drogas.

Estes filmes afirmam uma nova visão do cinema sobre a loucura, mais preocupados com o peso da sociedade sobre os indivíduos. Alguns deles interrogam a “loucura” desta sociedade, da família, levantando a questão da normalidade.

O grande precursor desta vertente é Ingmar Bergman, que fez da loucura um de seus temas obsessivos. Apesar das transformações na representação da loucura pelo cinema, a imensa maioria dos filmes continua a banalizar a loucura, com velhos clichês que fazem dos doentes mentais criminosos de filme policial ou abobalhados de comédia.

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>In Denial – Climate on the Couch (BBC)

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Thu 10 Feb 2011
BBC Radio 4

http://www.bbc.co.uk/programmes/b00y92mn

Something strange is happening to the climate – the climate of opinion. On the one hand, scientists are forecasting terrible changes to the planet, and to us. On the other, most of us don’t seem that bothered, even though the government keeps telling us we ought to be. Even climate scientists and environmental campaigners find it hard to stop themselves taking holidays in long haul destinations.

So why the gap between what the science says, and what we feel and do? In this programme Jolyon Jenkins investigates the psychology of climate change. Have environmentalists and the government been putting out messages that are actually counterproductive? Might trying to scare people into action actually be causing them to consume more? Are images of polar bears actually damaging to the environmentalists’ case because they alienate people who don’t think of themselves as environmentalists – and make climate change seem like a problem that’s a long way off and doesn’t have much relevance to normal life? Does the message that there are “simple and painless” steps we can take to reduce our carbon footprint (like unplugging your phone charger) unintentionally cause people to think that the problem can’t be that serious if the answers are so trivial?

Jolyon talks to people who are trying to move beyond the counterproductive messages. On the one hand there are projects like Natural Change, run by WWF Scotland, which try to reconnect people with nature using the therapeutic techniques of “ecopsychology” – intense workshops that take place in the wilderness of the west of Scotland, and which seem to convert the uncommitted into serious greens. On the other, there are schemes that try to take the issue out of the green ghetto and engage normal people with climate change. Jolyon visits a project in Stirling which has set itself the ambitious challenge of talking face to face with 35,000 people, through existing social groups like rugby clubs, knitting circles and art groups. It wants to sign up these groups to carbon cutting plans, and make carbon reduction a social norm rather than something that only eco-warriors bother with.

And he attends a “swishing party” in London, which tries to replicate the buzz women get from clothes shopping, but in a carbon neutral way. Can the green movement find substitutes for consumerism that are as fun and status-rich, that will deliver carbon reduction but without making people feel they have signed up to a life of grim austerity? And even if the British and Europeans shift their attitudes, can the Americans ever be reconciled to the climate change message? Producer Jolyon Jenkins.

>‘Shrinking’ the Climate Problem (N.Y. Times)

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October 28, 2010, 3:24 pm
‘Shrinking’ the Climate Problem
By ANDREW C. REVKIN

I’ve written here before about the substantial part of the climate challenge that isn’t out in the world of greenhouse gases and coal furnaces, but within the human mind.

Still, I was intrigued earlier this month when I heard from Renee Lertzman, a research fellow in humanities and sustainability at Portland State University, that she was speaking on “the myth of apathy,” the subject of a book she’s writing, at “Engaging With Climate Change: Psychoanalytic Perspectives,” a meeting of psychoanalysts and behavioral researchers in London.

In regarding the polarized, confused, paralyzed discourse around global warming for more than two decades (including my own focus on the field for so long), I’ve sometimes thought that Freud would have had a field day in this realm. Now his successors may be starting to dive in. (The photograph below is from the Freud Museum in London.)

Lertzman sent a link to the “Beyond the Couch” Web site of the Institute for Psychoanalysis, which held a fascinating list of talks at the meeting, including “Unconscious obstacles to caring for the planet,” “Engaging with the natural world and with human nature” and “Climate change denial in a perverse culture.”

I invited Lertzman to send a Dot Earth “post card,” which you can read below, followed by a brief set of followup questions and her replies:

I’ve just returned from speaking at the international headquarters of psychoanalysis, the Institute of Psychoanalysis, established in 1913 in London…. I imagine this was the first time eminent psychoanalysts, environmental professionals, activists and scholars have gathered within these hallowed halls to contemplate our current environmental predicaments. For two full days, almost two hundred people came together to “shrink” the climate change crisis….

Psychoanalysis may be most popularly known as an insular and esoteric relic of the Victorian era. However, it’s come a long way since Freud; this event ably demonstrated that psychoanalysis is an essential voice on these matters. At least it is, if we want to address the messiness of how the human mind can cope with such overwhelming issues.

What are the unconscious dimensions of climate change? Is it possible that anxiety and fear are profoundly impeding our abilities to respond proactively and creatively to our impending crises? How can we explain the inertia and paralysis on the part of both the public and our politicians?

While most psychological research on climate change is fixated on attitudes, behavior and cognition (i.e. barriers to action), psychoanalysis is mainly concerned with the ubiquity of the unconscious in everyday life. The concept of a “barrier” or “apathy” dissolves, as it’s assumed we all have conflict, ambivalence, contradictions — the bread and butter of psychoanalytic theory.

Topics ranged from consumption, identity and our disavowal of the human dependence on nature to issues of loss and mourning as we face a new relationship with oil, and the psychic complexities of inaction.

I was delighted to witness this historic event and the sense that finally, after much time, psychoanalysis was finally able to take stock of its environment and life outside of the consulting room. The psychoanalyst Hanna Segal wrote two decades ago about the insidious silence in the psychoanalytic community on political and social travesties.

Now it appears the silence may be breaking, and we can glean what we can from those whose work is about resistance to change, loss and mourning, anxiety and denial. We need these perspectives. I hope this signals a shift in the right direction.

I followed up with some questions:

Q: So what is the “myth of apathy” in the context of human reactions to the science pointing to a building risk from human-driven climate change?

A: The myth of apathy is the idea that apathy itself is a misleading and damaging concept, and tells us nothing about why people may find it difficult to take in, or respond to, human-driven climate change threats. The label of apathy presumes “what you see is what you get.”

Those working in psychotherapeutic fields know that nothing can be further from the truth. So reframing the myth of apathy presumes care and concern. The mantra in environmental sectors is, “We have to get people to care.” The “myth of apathy” presumes people do care but we need to consider how to support, channel and foster that care. This means investigating what may be complicating our creative and reparative impulses.

This includes recognizing that how we manage anxiety, particularly unconsciously, can lead to numbing, denial, projection (it’s all their problem), victimization (and I am not speaking of actual victims here) and so on. Psychoanalysts called this “splitting” — the ability to split up the world and our internal experiences so we don’t have to feel anxiety, pain or fear. If we leverage tools from the psychotherapeutic and psychoanalytic disciplines — such as how to support people in facing the truth about ourselves and our lives without “splitting” — we begin to see that what we may need to be doing is attending primarily to anxiety and loss first and then figuring out how to change behavior, second.

At the moment, we seem to have it the other way around, and are focused mainly on engineering human behavior, without consideration of unconscious, affective dimensions of these extremely challenging and often frightening problems. We need both: attention to “barriers” to action, and acute sensitivity to what may be happening emotionally that makes this so difficult. A psychoanalytic perspective places these dimensions in the foreground, and assumes that if we get to the root of the matter, behavior change will follow. Psychological work in this area, while important, continues to focus on conscious dimensions and behavioral change.

Q: Were there any powerful take-home points from the session on unconscious obstacles?

A: The most powerful take-home points were John Keene’s comments concerning anxieties when faced with actual limitations that climate change and other serious environmental issues present (i.e. our exploitation of non-renewable resources). Keene joins this up with how humans behave in groups, and how groups function to help manage our anxieties. Keene noted, “Many commentators are surprised at how difficult humans find it to change their behavior on the basis of sensible advice or of learning from experience. Facts are troublesome – stories and ideologies are easier.”

We often turn to others in social settings for stories and ideologies to help manage anxieties and seek comforting answers. Keene contends, “While thinking is hard enough for an individual in quiet contemplation, thinking clearly and acting in a group setting generates anxiety roughly in proportion to the size of the group. Here the individual is exposed to the risks of shame and criticism, isolation, fears of loss of one’s identity or at worst losing one’s mind. Our moral functions (super–ego functions), which push us to act in accordance with our ideals, and guard us from self-harm, operate largely out of awareness but become conscious as the voice of conscience or a sense of anxiety or alarm.”

Keene continues, “As I have suggested there is a universal tendency in group life for individuals groups and cultures to find people, structures and ideologies into which they can project their responsibilities in order to return to a childlike state. The cultural expectations that we grow in are the medium in which our individual super-egos swim and develop. As the world economy and its dominant business models drive the present surge towards growth with increasing pressure on the earth’s resources, this is probably the place to start to look at hope for the recovery of the world patient.”

All of this speaks to the fact that guilt, blame and moralizing don’t get us very far; that groups can actually hinder constructive environmental action; and that anxiety may be the largest unconscious obstacle to action (which is the theme of my work as well).

Q: What was your reaction to the session on climate denial in a perverse culture? what was the nature of the “perversion”?

A: “Perversion” here means something entirely different from what we commonly think of as perverse (i.e. “perverted”) — and is apt for thinking about how our culture is responding to human-driven climate change material. Paul Hoggett discussed how perversity (as a psychoanalytic concept) is a form of cultural behavior that functions in preventing coming to terms with loss — where outright rejection of reality becomes tenable. It is related to denial, but more insidious as a mode of conduct that is pervasive in corporate culture and particularly the financial institutions.

Hoggett drew on Susan Long’s work, The Perverse Organization and Its Seven Deadly Sins, as it applies to how we are dealing with climate change. The “sins” include prioritizing individual pleasures, instrumental relationships, and the collusion of others in the denial of reality. This is considered “perverse” behavior and has become normalized in our culture. At its essence it is an avoidance of reality on a massive scale, and an indulgence in omnipotent fantasies in order to avoid any sense of loss or sacrifice. Less clear is the antidote to a perverse culture — but we can imagine it relates in part to the support of intrinsic values, constructive group discussions and a recognition of the problem.

Q: My sense is that real action to change course on trends that matter (energy choices, balancing engineered and ecological systems) will only come if humans move away from “woe is me” and “shame on you” in considering environmental challenges and look inward for the source of problems — and solutions. Does your work, and the discussion at this meeting, reinforce or challenge that view?

A: These perspectives certainly reinforce the notion that we must look “inward” for the source of the problems: how we got into this situation in the first place, what sorts of mental, emotional, social and cultural forces shape our relations with nature, and what may be impeding our capacities for creative, reparative responses. A psychoanalytic view accepts that taking a moralizing or punitive tone supports the super-ego — our internalized task master — which leads usually to outright rebellion, and doesn’t get us very far. The same goes for using scare and alarm tactics.

My work, and the views reflected at this meeting, advocate both acknowledging the frightening or difficult aspects of these issues, and finding techniques to help people tap into our huge creative capacities. It’s a solutions approach but recognizes the emotional aspects of how we get to solutions. Our technological innovations require “engagement” — and “engagement” is about our emotional and affective investments in the world. The British psychoanalyst Donald Winnicott wrote about our capacity for concern as the basis of an ethics; that we have these capacities but they are fostered through creativity (and what he calls “play”).

So yes, it’s about looking inward with as much compassion as we can muster. Think of the therapist and the patient; does the therapist admonish the patient? Or provide support for facing the difficult truth? And then setting about finding creative avenues for action and collective responses.

>Irracional e sintomático

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“NÃO HÁ COMO FAZER DIFERENTE”, DIZ A IDEOLOGIA QUE SOBREVIVE À CRISE FINANCEIRA E FUNCIONA COMO UMA NEUROSE, “UMA VERDADEIRA COMPULSÃO À REPETIÇÃO”, AFIRMA TALES AB’SÁBER”

Na semana em que o Lehman Brothers ruiu, recebi uma pessoa em meu consultório que sofria de um modo especialmente ligado ao espírito do mundo

TALES AB’SÁBER
ESPECIAL PARA A FOLHA

Caderno Mais! – 13/09/2009

Lembrar é poder. Lembrar é poder se livrar do impensado da repetição. Mas, de fato, elaborar e transformar o mal é um ato de coragem pessoal e, por que não dizer, social.

No encerramento do fórum econômico mundial em Davos [Suíça], em janeiro de 2008, a então secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, declarou satisfeita que os Estados Unidos continuariam nos próximos tempos a puxar a economia mundial.

Aquela arrogância feliz, quase inconsequente, se ligava nitidamente ao movimento, ao longo do ano-catástrofe de 2008, de denegação sistemática próprio às autoridades financeiras americanas, do secretário do Tesouro, Henry Paulson, e do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, em relação à gravidade da crise em que o país, e nosso mundo, já estavam bem instalados.

Tudo se passou como se a realidade dos números, dos erros e dos resultados da alucinose financeira de décadas simplesmente não pudesse ser nomeada ou pensada, mas, ao contrário, pudesse ser transformada magicamente, por meio de um mantra obsessivo diário que já perdera toda serventia erótica, ato de fé vazio, próprio do fanático religioso, que tenta pular sobre o real com um gesto simples de “wishful thinking”, como dizem os próprios americanos.

A responsabilidade, dos responsáveis, de não agravar a crise econômica tornou-se, a partir de um certo ponto irreversível da história, a irresponsabilidade de negá-la obsessivamente. Vimos então um interessante espetáculo político e estético, o real confrontando a ideologia do Homo mercatus de modo irônico até o mais nítido patético.

Não deixou de ser divertido observarmos a realidade negando a cada semana, e a partir de um momento histórico, a cada dia, os senhores e responsáveis pela maior economia do mundo, de modo a abrir um fosso cada vez maior sob os seus pés, e sobre nossas cabeças, até a queda geral dos grandes bancos e de setores inteiros da economia no abismo.

O abismo era o da distância entre um real das contas privadas malfeitas, que atingiam ironicamente o sistema econômico total, e um sistema ideológico, simplesmente irracional e sintomático, o da liberdade total ao mercado, que havia muito não se mantinha de pé.

Fim de uma era

Como todos sabemos, a partir do segundo semestre de 2008, a economia americana, aquela mesma que continuaria a alavancar o mundo indefinidamente, viu seu PIB cair sucessivamente durante quatro trimestres consecutivos, acumulando inimagináveis perdas de quase 15% até hoje, em um resultado nunca visto desde que o índice passou a ser medido, em 1947.

Do ponto de vista humano, no mundo da vida -o que verdadeiramente importa-, esses números abstratos significaram nos EUA a perda de centenas de milhares de postos de trabalho, a quebra de empresas que vão de bancos tradicionais a arquitradicionais montadoras de veículos, o virtual fim de vida econômica para toda uma parte da população ou mesmo uma geração, a mudança total na estrutura do consumo, que passou dos excessos do consumo conspícuo e de luxo a um novo estado de sobrevivência.

Uma era histórica cíclica, que podemos remeter ao grito de guerra de Reagan e Thatcher nos longínquos anos 80, de todo poder ao mercado, se encerrava bruscamente, de modo melancólico e terrível, confirmando as visões dos críticos à cultura turbinada do dinheiro financeirizado e revelando, ao fim das contas e dos imensos processos de manipulação do poder, a vida sob o capitalismo hiperdesenvolvido como um risco iminente a todos, até mesmo ao próprio sistema.

O mais curioso, e que evoca problemas de valor psicanalítico, é que, no encontro econômico de Davos em janeiro de 2009, quando o mundo já estava totalmente instalado na crise -em grande parte gestada por décadas na ideologia daquele próprio espaço-, empresários, banqueiros e políticos, que não estavam naquele momento na bancarrota ou às voltas com a Justiça, tentaram um esforço hermenêutico retrospectivo diante da grande angústia e do mal-estar real, de pensar como poderiam ter pensado, e agido, diferentemente nos últimos tempos que levaram à nova grande recessão.

O resultado foi interessantemente melancólico: em um raro momento de honestidade, mas reconfirmando o prazer da repetição do seu sistema alucinatório de gozo, concluiu-se que não haveria como fazer diferente, e, em caso semelhante, todos agiriam do mesmo modo, tomariam as mesmas decisões.

Catástrofe da razão

Por um segundo a falsa consciência da racionalidade ideologicamente infinita do homem de mercado se deparou com o seu próprio limite, interior.

Tal racionalidade levaria, mais uma vez e ainda mais outra, e mais outra, a uma nova ordem catastrófica, contra os próprios interesses conscientes de todos. Pela primeira vez o capitalismo apareceu para si mesmo como o que ele é: um sistema tão produtivo quanto destrutivo, virtualmente autodestrutivo.

Não há definição melhor, não faltando nem mesmo o índice de angústia e de sofrimento de um sintoma psicanalítico, o que implica a análise de um elemento não reconhecido na ordem da consciência: toda minha prática resulta no contrário do que desejo, e meu mundo consciente, e sua equação de defesas ideológicas, se tornam o avesso do que deveriam ser.

Podemos dizer que um elemento inconsciente passou a habitar definitivamente a história do mercado, que, como certa vez [Theodor] Adorno falou a respeito do nazismo, também necessita da psicanálise para ser pensado.

Esta é a grandiosa máquina do mundo, que, mais ou menos como pensava Marx, no mesmo movimento em que se reproduz, também descarrila. Talvez seja interessante observarmos como ela funciona, na dinâmica do mero e mínimo ponteiro dos segundos, na vida de um consultório psicanalítico de hoje.

Na semana em que a sólida ideologia neoliberal de um quarto de século ruiu junto com os sólidos bancos Merrill Lynch e Lehman Brothers e com a megasseguradora AIG, eu pude receber uma pessoa em meu consultório que sofria de um modo especialmente ligado ao espírito do mundo.

Pequena inconveniência

Posso garantir que aquele ser humano tinha contato profissional o suficiente com o mercado financeiro e particularmente com o setor diretamente envolvido na espetacular crise que virou a excitação mundial daquele período, o dos fundos de hedge, o mercado de derivativos. Foi muito interessante e curioso vê-lo falar muito tranquilamente, ao longo de sua hora analítica, de seus planos futuros de férias, o que já vinha pensando havia semanas, enquanto o seu próprio mundo estava simplesmente acabando, diante do olhar de todos.

Quanto a essa pequena inconveniência da realidade, nem uma palavra, nem mesmo um sinal de angústia. Exatamente como os senhores do grande mundo do dinheiro, o pequeno operador, que recebia a sua cota local de grandes lucros hiperinflados, não podia pensar, de nenhum modo, da angústia à reflexão, na própria ordem de catástrofe de seu mundo, sobre a sua realidade.

Era como se a realidade não existisse. Além da radical instabilidade com a vida real, o capitalismo contemporâneo exige adesão ideológica sem reflexão ou ambivalência a sua forma mentirosa.

Aquela pessoa radicalmente aplainada na ideologia fixa de seu tempo simplesmente se humanizou quando pôde perceber, em um único movimento, que o mundo que se autodestruía bem a sua frente era o mesmo que funcionava para ela de modo impensável, o mesmo que a impedia de pensar o seu próprio mundo, e que esses dois efeitos -como Condoleezza Rice, Ben Bernanke e Henry Paulson já haviam ensinado- eram de fato um só.

Nos meses que se seguiram ao crash das contas malfeitas da razão autorregulada do mercado, vimos o novo lance fantástico do sistema: o Estado chamado a despejar bilhões e bilhões na economia, para meramente repor o sistema da acumulação privada de dinheiro e poder.

Não há dúvidas de que algo não está podendo ser pensado nessa verdadeira compulsão à repetição, como dizia o velho Freud, das coisas capitalistas.

O capitalismo vai se tornando, bem diante de nossos olhos, o nosso inconsciente social e economicamente constituído.

Afinal, e o terremoto histórico deixa isso bem claro, “eles não sabem o que fazem, mas o fazem assim mesmo”.


TALES A.M. AB’SÁBER é psicanalista e autor de “O Sonhar Restaurado – Formas do Sonhar em Bion, Winnicott e Freud” (Ed. 34), entre outros livros.