Arquivo mensal: setembro 2024

Alianças familiares, vingança de sangue e política eleitoral no sertão nordestino (Pesquisa Fapesp)

Alianças familiares, vingança de sangue e política eleitoral no sertão nordestino

24 de setembro de 2024

Antonio Silvino e seu bando. Ele é o segundo a esquerda, em pé. Silvino, cujo nome verdadeiro era Manoel Baptista de Moraes (1872-1944), foi, muito antes de Lampião, o mais famoso chefe do cangaço (foto: Wikimedia Commons)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – As ideias de “coronelismo”, de “mando exclusivista”, de “curral eleitoral”, de “voto de cabresto” tornaram-se quase um lugar-comum na literatura sociológica e moldaram a visão dominante sobre o sertão nordestino – da Primeira República aos tempos atuais. Essas ideias receberam uma refutação consistente por parte do antropólogo Jorge Mattar Villela, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fruto de duas décadas de pesquisa nas regiões do Pajeú e do Navio, no sertão de Pernambuco, o material acumulado por Villela resultou em três livros e vários artigos sobre política eleitoral, administração pública da violência e culto dos mortos, em um intervalo cronológico de 120 anos. Tudo isso foi, de certo modo, condensado no artigo A Antropologia do Sertão de Pernambuco. Pajeú e Navio, publicado recentemente na Revista de Antropologia da UFSCar.

Villela contesta a noção de “coronelismo”, que considera uma explicação simplista do poder local durante a Primeira República. E apresenta um panorama muito mais complexo, com um sistema de poder descentralizado e baseado em alianças familiares e vinganças de sangue. Essas vinganças teriam criado um ambiente em que os conflitos eram gestados e geridos de um modo capaz de formar e desfazer laços familiares em simultâneo à atualização de laços políticos. Em vez de um controle centralizado por coronéis, havia uma rede de alianças que moldavam o comportamento político e social.

Nessa região, onde nasceu Virgulino Ferreira, o Lampião, o pesquisador identificou um ambiente em que o porte e o uso das armas não eram inusitados, em que vivia um “povo em armas” (conceito criado para refutar o da figura do coronel), em que as vinganças de sangue abundavam. “Dispondo de altos níveis de autonomia nos conflitos, como se poderia viver sob esse regime de submissão sem que houvesse uma circunstância de revolta?”, questiona.

Com base na vasta documentação estudada, Villela informa que, nas grandes brigas de famílias, havia gente capaz de arregimentar, ou atrair, vários microgrupos de base familiar formando bandos instáveis de mais de cem homens armados, voltados para o ataque a um inimigo. “Homens de fama eram capazes de fazer aderir às questões de sua família outros microgrupos arregimentados por outros homens de fama”, escreve.

O pesquisador ressalva que o mando exclusivista já havia sido objeto de uma crítica feita por intelectuais importantes, como Maria Isaura Pereira de Queiroz e Moacir Palmeira, mas afirma que essa crítica não chegou ao fundo da questão, porque se manteve presa ao viés de pensar a política a partir do Estado. O Estado funcionaria como um farol ofuscante, que impediria o estudioso de perceber tramas mais sutis.

Outra ideia recorrente que sua pesquisa contesta é a do cangaço como reação da população mais pobre contra o mandonismo dos ricos ou do poder estatal. “Todos os grandes capitães de cangaço, salvo Virgulino Ferreira, o Lampião, eram de grandes e antigas famílias do sertão de Pernambuco, do Ceará e da Paraíba. Famílias prestigiadas, de poder, altas patentes na Guarda Nacional e honrarias desde o período monárquico”, diz Vilella.

Essa intrincada teia de relações familiares, que estruturou o cangaço, teria se perpetuado na vida social e na política eleitoral, sendo ela, e não o Estado, o elemento definidor. Mas Vilella ressalva que a política é tão constituída pelos laços de sangue quanto os laços de sangue são constituídos pela política. Ainda que não sejam parentes biológicos, os apoiadores políticos fiéis costumavam ser incorporados à família estendida. E a feitura do parentesco se dá em aliança com a política de um jeito tão segmentar quanto o das vinganças, porque há também nas eleições microgrupos de base familiar capazes de arregimentar votos, num crescente semelhante ao que redundava nos grandes bandos de cangaço.

A “casa” está no cerne da noção de microgrupos de base familiar. “As ‘casas’ no sertão se ligam entre elas e constituem formações mais amplas, atadas por um personagem ancestral chamado ‘tronco’ e cuja localização nas genealogias é determinável (mas não necessariamente determinada) por meio da sua biografia”, conta o pesquisador.

Nesse contexto, o culto aos mortos, com seus retratos pendurados nas paredes das casas, tornou-se um ingrediente fundamental da política partidária e eleitoral. A memória dos ancestrais foi mantida viva por meio de rituais e celebrações, que serviram para reforçar a coesão familiar e comunitária. A celebração de missas em sua homenagem e a publicação de genealogias ilustram como os mortos são mobilizados para legitimar as posições sociais e políticas das famílias. “Nos túmulos dos cemitérios, os mortos fazem política ao fazerem genealogia”, afirma Vilella.

Na análise da democracia atual, o pesquisador observa que a política eleitoral do sertão de Pernambuco, e de todo o sertão nordestino por extensão, se mantém no contexto contemporâneo. “O que eu quero dizer é que, de uma certa forma, essas coisas acontecem em qualquer lugar. Podem acontecer, por exemplo, na avenida Faria Lima, em São Paulo. Um escritório lobista da Faria Lima também é power-user da democracia e da economia. Não é uma coisa de gente pobre periférica, é de gente que está colada à obtenção de recursos gerados no Estado nacional. A segmentaridade do voto, as complexas negociações intergrupais, as alianças familiares e locais continuam presentes, e dão o tom ao processo”, enfatiza Vilella.

No sertão nordestino, as visitas eleitorais, nas quais os candidatos visitam pessoalmente os eleitores em suas residências, reforçam a importância das relações interpessoais na política. Como relata o pesquisador, essas visitas sempre se fazem em grupo, e o tamanho do grupo depende do prestígio do candidato ou candidata e do cargo que se pretende alcançar. As visitas não são realizadas da porta para fora. O grupo entra, senta-se, come, bebe, conversa, ouve e fala. As negociações propriamente políticas são feitas em particular, fora das casas quando elas não têm um cômodo apropriado. Todo mundo sabe do que se trata, mas a etiqueta impede que a “política” macule a recepção.

O estudo de Villela oferece uma visão rica e detalhada das dinâmicas sociais e políticas no sertão nordestino, desafiando interpretações simplistas e iluminando a complexidade das relações de poder e memória na região. Recebeu apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Artes e semânticas da criação e da memória”.

O artigo A Antropologia do Sertão de Pernambuco. Pajeú e Navio pode ser encontrado em: http://metis.fflch.usp.br/sites/metis.fflch.usp.br/files/anexos/2024-09/Jorge%20Luiz%20Mattar%20Villela-2024.pdf.
 

Superfreak pivot: When climate engineering came to South Africa (Daily Maverick)

Our Burning Planet

Superfreak pivot: When climate engineering came to South Africa

 Illustrative image. Photo by Andy Hutchinson on Unsplash

By Kevin Bloom

22 Jan 2019 

Cooling the earth by blocking out the sun, although potentially disastrous, is now a real answer to climate change. As a Harvard research paper published late last year proved, solar geo-engineering is both technically feasible and relatively cheap. With governments and international bodies considering the technology, a South African university has just announced a study. But how convenient is this answer for our politicians and heavy emitters?

I.Global Hollywood

In his book The Planet Remade: How Geo-engineering Could Change the World, Oliver Morton laid down a potential scenario from the not-too-distant future. As briefings editor at The Economist and former chief news and features editor at the scientific journal Nature, it was a given that this scenario—a thought experiment on the deployment into the stratosphere of “climate engineering” aerosols—would be based more in science fact than science fiction. Which is exactly what made it, like the best work of Robert Heinlein or Charlie Brooker, truly terrifying.

According to a Harvard study published in November 2018, three years after the release of Morton’s book, it would work in practice like this: a fleet of purpose-built aircraft, with disproportionately large wings relative to their fuselages, so as to allow “level flight at an altitude of 20 kilometres while carrying a 25-ton payload,” would inject 0.2 million tons of sulphur dioxide into the lower stratosphere per year—thereby reflecting enough solar radiation back out into space to cut the rate of global warming progressively in half. Pre-launch costs in 2018 values would come in at $3.5 billion, with yearly operating costs at $2.25 billion. Given that in 2017 around 50 nations had military budgets of $3 billion or more, noted the Harvard scientists, the barriers to entry would be remarkably low.

“It is not a large nation that does it—indeed, it is not a single nation’s action at all,” speculated Morton back in 2015. “Sometime in the 2020s, there is a small group of them, two of which are in a position to host the runways. They call themselves the Concert; once they go public, others call them the Affront. None of them is a rich nation, but nor are they among the least developed. All of them already have low carbon-dioxide emissions, and all of them are on pathways to no emissions at all. In climate terms, they look like the good guys. But their low emissions and the esteem of the environmentally conscious part of the international community are doing nothing to reduce the climate-related risks their citizens face.”

So why “truly terrifying”?

Because, as Morton went on to explain, solar geo-engineering—otherwise known as solar radiation management, or SRM—was not (or at least was no longer) a conceptual absurdity. When he wrote his book, its probability of deployment was already based on two of the most urgent existential questions in the history of humanity: 1) Are the risks of climate change great enough to warrant serious action aimed at mitigating them? 2) Will the world’s largest industrial economies be able to lower their carbon emissions to net zero by the middle of the century?

But terrifying more specifically because, by 2018, the answer to the first question was a scientifically unqualified “yes” and to the second a statistically implausible “no”—and yet the effect of SRM on the biosphere was still unknown. With the results from the Harvard study leading to the scheduling of tests as early as the first half of 2019, the Berlin-based climate science and policy institute Climate Analytics wasted no time in recommending a global ban on the technology.

“Solar radiation management aims at limiting temperature increase by deflecting sunlight, mostly through injection of particles into the atmosphere,” the institute noted. “At best, SRM would mask warming temporarily, but more fundamentally is itself a potentially dangerous interference with the climate system.”

SRM, argued the scientists at Climate Analytics, would “alter the global hydrological cycle as well as fundamentally affect global circulation patterns such as monsoons.” It would not “halt, reverse or address in any other way the profound and dangerous problem of ocean acidification which threatens coral reefs and marine life as it does not reduce CO2 emissions and hence influence atmospheric C02 concentration.” Also, the scientists pointed out, the approach was “unlikely to attenuate the effects of global warming on global agricultural production” as its “potentially positive effect due to cooling” was projected to be counterbalanced by “negative effects on crop production of reducing solar radiation at the earth’s surface.”

In other words, according to Climate Analytics, while cooler temperatures would be helpful to the world’s farmers, the crops would still need sunlight to grow. And none of the above even counted as the number one reason that the institute was raising the alarm—SRM’s gravest danger, these scientists and policy experts insisted, was that it would divert attention from the core problem, which remained the unprecedented amount of carbon being spewed daily into the atmosphere by the extraction of coal, crude oil and natural gas.

For Morton, this was the predicament known as the “superfreak pivot”—the turning of large masses of humanity from the position that “global warming requires no emissions reduction because it isn’t a real problem” to the position that “the Concert has it all covered”. It was a predicament highlighted too by Harvard scientist David Keith, who told the Guardian in 2017:

“One of the main concerns I and everyone involved in this have is that Trump might tweet ‘geoengineering solves everything—we don’t have to bother about emissions.’ That would break the slow-moving agreement among many environmental groups that sound research in this field makes sense.”

As for South Africa, less than two months after publication of the seminal Harvard paper of late 2018, a press release was issued by the African Climate and Development Initiative of the University of Cape Town.

“UCT researchers to embark on pioneering study on potential impacts of solar geoengineering in southern Africa,” it stated.

II. Local Hollywood

As the recipient of a grant from the international DECIMALS Fund (Developing Country Impacts Modelling Analysis for SRM), the UCT team cited two reasons for going ahead with the study—and both of them had to do with the social and economic havoc that anthropogenic climate change had so far wrought in our corner of the world. First, the 2015/16 summer rainfall failure over southern Africa, which led to 30 million people becoming food insecure in South Africa, Mozambique, Botswana and Zimbabwe. Second, Cape Town almost running out of water in 2018. If SRM could be done in a safe and reliable manner, so the rationale went, it was “the only known way” to quickly offset the temperature increases that were behind the droughts.

“We want to understand the impact of solar radiation management on drought conditions,” Dr Romaric Odoulami, the project’s leader, told Daily Maverick, “that’s our motivation. What will the implications be for regional agriculture? But I want to make one thing clear: SRM has never been implemented in the real world… and we are not going to do it either.”

What the African Climate and Development Initiative was going to do, said Odoulami, was climate modelling. The project, he added, would run for the next “one or two years”—as soon as he got “something interesting,” he promised, he would let Daily Maverick know. For the moment, he wanted to leave us with this:

“Solar radiation management doesn’t stop climate change. It doesn’t stop global emissions of greenhouse gases. The only thing it does is help to reduce the global temperature by reducing the amount of solar radiation reaching the earth’s surface.”

This caution in the face of the sheer unprecedented scale of the thing was also detectable in the words of Andy Parker, project director of the Solar Radiation Management Governance Initiative, the UK-based organisation—founded in 2010 by, among others, The World Academy of Sciences and the Royal Society—that set up the DECIMALS Fund in 2018. Speaking to Daily Maverick from a conference in Bangladesh, Parker was vague yet morbidly fascinating on the legislative context that could eventually give the green light to SRM.

“That’s really tricky to predict,” he said. “We can imagine various different deployment scenarios. There’s the desperation scenario, where a country or perhaps a coalition of countries that are really suffering from climate change decide that they are going to use solar geo-engineering to stop the temperature from rising. That could be seen as unilateral and illegitimate deployment. At the other end of things, it’s possible that through the United Nations—the UN General Assembly or one of the UN conventions—there’s a much broader coalition that comes together with much more legitimacy to develop a decision-making infrastructure for if we were to ever use this, or indeed, for how we would reject it.

“Really, at this stage, we don’t know what’s going to happen. We don’t know what’s going to happen with the research, we don’t know how governments are going to deal with this, and we don’t know how quickly and how deeply the impacts of climate change are going to bite.”

In South Africa, unfortunately, all indications are that the bite is going to be serious. As Daily Maverick learned from the country’s leading land-based climate scientist in October last year, we are warming at twice the global average. At 3°C of global warming, which is 6°C regionally—and which at current emission rates we are steaming towards, as per the most conservative estimates, before the end of the century—there will be a total collapse of the maize crop and livestock industry. This is something that the Department of Environmental Affairs seems to understand well, as evidenced by their “Third National Communication” under the United Nations Framework Convention on Climate Change, submitted in March 2018.

But the other unknown factor in this general SRM universe of “unknown unknowns” is the person that currently sits atop the DEA. Has Nomvula Mokonyane, who was named at the State Capture inquiry on Monday for allegedly accepting bribes in the form of monthly cash payments, even read the Third National Communication? Does President Cyril Ramaphosa plan on replacing her with someone who will? Aside from Tito Mboweni at treasury, does anyone in the upper echelons of the ANC get the urgency of the situation?

These are the questions that highlight the possibility of South Africa one day performing the superfreak pivot. Because it might not only suit the government to defer to technology when the food and water shortages get real, it might also suit Sasol, the coal mining companies and the country’s heavy emitters at large. DM

Spray and Pray – The risky business of geoengineering Africa’s climate (Daily Maverick)

CLIMATE GEOENGINEERING

Spray and Pray – The risky business of geoengineering Africa’s climate

 Solar Radiation Modification refers to deliberate, large-scale interventions in the global climate system to increase the amount of sunlight reflected away from the planet to reduce global temperatures. Illustrative image: (Generated with Flux AI)

By Ethan van Diemen

07 Aug 2024 

In a webinar on Tuesday, scientists and other experts agreed on the need for solar geoengineering research to enhance the portfolio of climate change responses.

Solar geoengineering, whether through space mirrors or stratospheric particles, is a complex, controversial and contentious field. In a webinar on Tuesday, atmospheric scientists and other experts from across Africa agreed that it is completely rational to explore its role in a portfolio of climate change responses. 

Geoengineering refers to deliberate, large-scale interventions in the Earth’s natural systems with the aim of counteracting climate change. The primary goal of geoengineering is to mitigate the adverse effects of global warming and manage the Earth’s climate system. There are two main categories of geoengineering: Solar Radiation Management (SRM) and Carbon Dioxide Removal (CDR).

The webinar focused on the former, which The Alliance for Just Deliberation on Solar Geoengineering says refers to “deliberate, large-scale interventions in the global climate system to increase the amount of sunlight reflected away from the planet to reduce global temperatures”.

Read more: Superfreak pivot: When climate engineering came to South Africa

The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) in its Sixth Assessment Report defines SRM as “a range of radiation modification measures not related to greenhouse gas mitigation that seek to limit global warming. Most methods involve reducing the amount of incoming solar radiation reaching the surface, but others also act on the longwave radiation budget by reducing optical thickness and cloud lifetime.”

geoengineering africa climate

(Source: The Alliance for Just Deliberation on Solar Geoengineering)

Hassaan Sipra, director of global engagement at The Alliance and a climate researcher, explained that SRM – in line with conclusions by the IPCC – is not meant to stop climate change but only to buy time for the deep reductions in greenhouse gas emissions needed to limit global warming. He also set out the context wherein SRM was an increasingly attractive area of research. 

During the UN climate conference in Paris, the world agreed to accelerate efforts to limit the global average temperature increase over pre-industrial levels to below 1.5°C. At present, we are on a trajectory to exceed even 2°C. This is important because every fraction of a degree drastically increases the risks associated with anthropogenic climate change. 

“And typically, now, within this context,” said Sipra, “what is being talked about is the use of carbon dioxide removal technologies. So we know that we’re not going to get to net zero emissions until about 2100 if we’re looking for 1.5°C. If it’s 2°C, we’re not going to get there until after 2100. So in the meantime, we also need to start scaling up our carbon dioxide removal technologies so that whatever carbon is in the atmosphere, we are immediately able to capture it and bring that back.”

Put differently, carbon removal will still be necessary in the future because even with significant reductions in greenhouse gas emissions, existing atmospheric carbon levels must be reduced to meet net zero targets and stabilise global temperatures, as outlined in the Paris Agreement. This ensures long-term climate goals are achievable by offsetting any remaining emissions.

Sipra explained that the problem with carbon dioxide removal was the interrelated problems of cost and scale. 

It’s “an expensive technology or a set of technologies that would take a long time to scale up and would require a tremendous amount of resources, and at present, those resources are not yet scalable… they’re not yet available, the technologies are not yet fully tested, and so we need a lot of time before we’re going to get to carbon dioxide removal technologies.

“We need time to cut emissions and we need time to get to carbon dioxide removal technologies. Yet climate impacts are continuing to rise in the meantime. And this is the point where for scientists, policymakers, civil society, the deliberation has begun as to what might be the possibility of buying some additional time; putting in a potential stopgap measure.”

geoengineering africa climate

Napkin diagram roughly showing SRM’s role in managing climate risks.(This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.)

SRM is a “stopgap measure”, Sipra explained, in contrast to emissions reductions or carbon dioxide removal because “it does not actually offer a solution to our climate problems, it merely masks it. And so, without addressing the root cause of climate change, you are kind of just giving yourself this, in essence, a drug which may delay – potentially – some of the impacts of climate change”.

But just how is SRM meant to achieve this? 

Prof Babatunde Abiodun, an expert in climate model developments and applications, shared some details on the state of SRM research and the various approaches being explored and experiments undertaken. Three of the projects he noted are highlighted here:

  • Stratospheric Aerosol Processes, Budget and Radiative Effects (SABRE): SABRE investigates how tiny particles in the stratosphere may reflect sunlight to cool the Earth. The project is “an extended airborne science measurement programme” and aims to understand the effectiveness and potential impacts of these aerosols so as to strengthen the “scientific foundation to inform policy decisions related to regulating global emissions that impact the stratosphere (eg ozone depleting substances, rocket exhaust) and the potential injection of material into the stratosphere to combat global warming (climate intervention)”.
  • Stratospheric Controlled Perturbation Experiment (SCoPex): SCoPex, a Harvard University-led project, explores the feasibility of dispersing reflective particles in the stratosphere to mimic volcanic cooling effects using a high-altitude balloon to release small amounts of aerosols over a small area. However, the project has recently moved away from its focus on science related to solar geoengineering.
  • Geoengineering Assessment Across Uncertainties, Scenarios and Strategies (GAUSS): GAUSS evaluates the potential risks and benefits of various geoengineering methods by using complex computer simulations. Early findings suggest that while geoengineering can reduce global temperatures, it may also lead to regional climate changes, emphasising the need for careful, scenario-based planning. They explain that “one challenge today is a degree of arbitrariness in the scenarios used in current SRM simulations”.

SRM and other geoengineering approaches, however, are not without controversy. The main concerns are the potential for unintended environmental side effects, ethical issues regarding the manipulation of natural systems and the risk of unequal impacts on different regions potentially exacerbating global inequalities.

The IPCC says in the Summary for Policymakers of its Sixth Assessment Report that, with high confidence, “solar radiation modification approaches, if they were to be implemented, introduce a widespread range of new risks to people and ecosystems, which are not well understood. Solar radiation modification approaches have the potential to offset warming and ameliorate some climate hazards, but substantial residual climate change or overcompensating change would occur at regional scales and seasonal timescales.

“Large uncertainties and knowledge gaps are associated with the potential of solar radiation modification approaches to reduce climate change risks. Solar radiation modification would not stop atmospheric CO₂ concentrations from increasing or reducing resulting ocean acidification under continued anthropogenic emissions.”

To this, the gathered scientists and experts said that while they recognised the potential risks, these should be weighed against the risk of the status quo or inaction.

“It makes sense to think about SRM as a very risky proposition, but it’s a risky proposition that has to be compared to an alternative risky proposition, which is worsening climate change. So, climate change increases risks to peoples and ecosystems. With each ton of carbon dioxide we’re adding into the atmosphere, with each incremental bit of warming, those risks rise exponentially.

“So, just like climate change has its risks, SRM has risks. It also has potential benefits, and it has a large amount of uncertainties, and none of them are well understood. So, in order to make a comparison against climate change with SRM, we need to really have an informed decision-making process around SRM so that we can have a better sense of its benefits and its drawbacks,” said Sipra.

“We need to explore SRM in the context of worsening climate change,” he said, adding that geoengineering would “not be a discussion if the climate situation had been resolved after the Rio summit when they formulated the UN Framework Convention on Climate Change.

The fact that the climate is getting worse; the fact that we are not mitigating, is the reason people are beginning to have a conversation about SRM. So, it can only ever be contextualised in comparison to climate change.” DM

Injetar partículas na atmosfera poderia reduzir temporariamente o aquecimento global (Pesquisa Fapesp)

Polêmica, a liberação de aerossóis diminuiria a quantidade de luz solar que chega à Terra, mas seus efeitos colaterais negativos poderiam ser maiores que os positivos

Aumentar a quantidade de aerossóis na atmosfera poderia barrar a chegada à Terra de uma pequena fração da luz solar e resfriar provisoriamente o planeta. Cadan Cummings / Jacobs / JETS / NASA-JSC

Marcos Pivetta

Atualizado em 6 set 2024

Edição 343, set 2024

Depois de ter permanecido em silêncio por 600 anos, o monte Pinatubo, nas Filipinas, acordou em 1991. Uma série de pequenas explosões ao longo de dois meses culminou em uma grande erupção em meados de junho daquele ano, considerada a segunda maior do século passado. Cerca de 200 mil pessoas tiveram de deixar suas casas e mais de 700 morreram no arquipélago filipino como consequência da eclosão. A explosão produziu uma coluna de fumaça e cinzas vulcânicas que se elevou até 40 quilômetros (km) acima da superfície e invadiu a estratosfera, a segunda das cinco camadas da atmosfera que envolve a Terra. Esse manto de partículas em suspensão, geralmente com tamanhos micrométricos, atrapalhou o tráfego aéreo, queimou plantas e cultivos e produziu outros danos locais.

Apesar de ter causado grandes prejuízos materiais e a perda de vidas humanas nas Filipinas, a erupção do Pinatubo é lembrada hoje no meio científico por ter tido uma consequência surpreendente no clima global: a temperatura média da Terra reduziu-se cerca de 0,5 grau Celsius (°C) nos dois anos seguintes à sua atividade vulcânica. A enorme quantidade de partículas em suspensão, os chamados aerossóis, lançada pelo vulcão entrou no sistema de circulação de ar da estratosfera, espalhou-se pelo planeta e atuou por meses como uma espécie de filtro solar: parte dos raios do Sol que chegariam normalmente à superfície terrestre foi refletida ao incidir sobre essa quantidade extra de partículas de aerossóis injetados no sistema. Essa ação produziu um resfriamento temporário do planeta.

Os aerossóis também resfriam a Terra quando estão na troposfera, a camada mais baixa da atmosfera, mas sua ação é mais intensa na estratosfera. O efeito Pinatubo serve de inspiração para uma linha de pesquisa polêmica, cercada de incertezas científicas e riscos ambientais e geopolíticos: a geoengenharia solar ou modificação da radiação solar (SRM, na sigla derivada do inglês). Ela começou a tomar corpo lentamente nos últimos 20 anos em algumas universidades dos Estados Unidos e da Europa à medida que o aquecimento global se tornou mais pronunciado. A ideia central dessa abordagem é aumentar deliberadamente o albedo da Terra, sobretudo na estratosfera, para que ela passe a refletir mais radiação de volta ao espaço e, assim, torne-se um pouco menos quente.

Glauco Lara

O albedo é a fração da luz refletida em relação à absorvida por um corpo ou superfície. Quanto maior o albedo, como em superfícies claras ou brancas, menor a quantidade de calor absorvida. Injetar aerossóis na atmosfera é uma das formas de tentar aumentar o albedo terrestre. Alguns cálculos indicam que uma redução de 1% a 2% da quantidade de radiação solar que normalmente chega à Terra seria suficiente para diminuir sua temperatura média em um 1 °C.

A possibilidade de reduzir a quantidade de radiação solar sobre a Terra começou a ser aventada ainda na década de 1960. Mas sempre foi vista como uma excentricidade perigosa, quase um devaneio. A ideia só ganhou alguma relevância científica depois da erupção do Pinatubo e, mais recentemente, com a emergência da crise climática, causada pelo aumento significativo da temperatua global decorrente da emissão de gases de efeito estufa. Ainda assim, a pesquisa experimental – que envolveria a soltura de alguns quilos de aerossóis na estratosfera para observar seus eventuais efeitos em âmbito local (não global, como ocorreu na gigantesca erupção do vulcão nas Filipinas) – pouco progrediu até hoje em razão da oposição de parte da comunidade científica e de grupos ambientalistas.

“Até agora, existem poucos trabalhos de modelagem climática envolvendo as técnicas de geoengenharia solar”, comenta o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), especialista no estudo de aerossóis atmosféricos. “Nenhum experimento mais significativo foi feito em campo.” Duas abordagens que visam à modificação da radiação solar dominam as discussões. A principal delas é a injeção de aerossóis na estratosfera, a 15 ou 20 km de altitude, conhecida pela sigla SAI, que tenta reproduzir de forma artificial o que as grandes erupções fazem de maneira natural.

Glauco Lara

A outra, vista como de impacto mais localizado, é o clareamento de nuvens marítimas (marine cloud brightening ou MCB). Ela também envolve a liberação de aerossóis (nesse caso, partículas de sal marinho), que funcionam como núcleos de condensação das nuvens. Mas a soltura dessas partículas ocorre em altitudes bem mais baixas, de no máximo 2 km, ainda na troposfera. Com mais aerossóis, as gotas de nuvens ficam menores, refletem mais radiação solar de volta ao espaço e resfriam a superfície. Há outras técnicas cogitadas, como aumentar o albedo em grandes superfícies brancas do planeta, como o Ártico, mas as duas primeiras propostas dominam o debate.

Artaxo colabora com um grupo da Universidade Harvard, dos Estados Unidos, em estudos de modelagem computacional para tentar entender se o comportamento dos aerossóis na estratosfera é realmente similar à sua ação na troposfera. “Precisamos de mais pesquisas sobre esse tema antes de sequer pensarmos em implementar alguma intervenção desse tipo”, comenta o físico da USP, um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais. “Não temos condições de garantir que a injeção de mais aerossóis não vá, por exemplo, diminuir as chuvas de monções no Sudeste Asiático e colocar em risco uma população de bilhões de pessoas. Se isso ocorrer, quem decide se essa injeção de aerossóis para ou continua? Esse tipo de decisão não pode ficar na mão de um pequeno grupo de países ou de um bilionário que financie um experimento desse tipo.”

Também há indícios de que uma dose extra de aerossóis na estratosfera poderia afetar a camada de ozônio, que protege a vida terrestre da ação nociva da radiação ultravioleta vinda do Sol. Isso sem falar que essas partículas em suspensão são uma forma de poluição do ar. Elas naturalmente se depositam, descem da estratosfera para a troposfera, onde podem causar ou agravar problemas de saúde, sobretudo os respiratórios. Por ora, essas e outras questões não têm respostas satisfatórias.

A posição do físico da USP é partilhada por muitos colegas. “A modificação da radiação solar é um tema sensível e o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU]reconhece que ainda há muitas incertezas sobre seus potenciais efeitos”, comenta a matemática Thelma Krug, que foi vice-presidente do painel entre 2015 e 2023 e representou o Brasil em negociações internacionais sobre o clima por uma década. “Pessoalmente, sou a favor da pesquisa na área. Mas é preciso ir passo a passo com os experimentos, ter transparência e estabelecer uma governança para esse processo.”

Erupção do vulcão Pinatubo, em 1991, é considerada a segunda maior do século passadoArlan Naeg / AFP via Getty Images

O tema é tão controverso que alguns pesquisadores são contra até que se faça pesquisa sobre as técnicas de geoengenharia solar. Isso porque elas não têm impacto na redução das emissões de gases de efeito estufa, que causam o aumento da temperatura da Terra. Ainda que se mostrem relativamente seguras e eficientes em esfriar temporariamente a Terra, objetivo que hoje é apenas uma hipótese, técnicas como a SAI seriam, no máximo, paliativas. No fundo, dizem os críticos dessa abordagem, os trabalhos nessa área desviariam recursos e tomariam um tempo que poderia ser mais bem empregado na busca por ações que reduzissem a emissão de gases como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4). “Os estudos sobre geoengenharia solar também poderiam ser usados como a desculpa perfeita para que os grandes produtores de gases de efeito estufa não reduzissem suas emissões”, pondera o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

Além de ser encarada como um diversionismo em relação à meta central de zerar as emissões de gases de efeito estufa nas próximas décadas, a adoção das técnicas de SRM poderia tornar o planeta refém desse tipo de intervenção climática por um prazo muito longo e indefinido, de décadas ou séculos. Isso criaria um problema extra: o risco de promover o chamado termination shock. Quando o planeta abandonasse o emprego das técnicas de SRM, a temperatura subiria novamente – só que dessa vez de forma muito mais rápida do que no cenário atual de aquecimento global. Isso tornaria quase impossível a adaptação a essa brusca elevação de temperatura. Qualquer oscilação significativa da temperatura, para cima ou para baixo, em um curto período, representa um desafio adaptativo.

Alguns estudos de modelagem climática têm sugerido cenários preocupantes em simulações de possíveis impactos do emprego de técnicas de geoengenharia solar. Esses trabalhos costumam averiguar que outros efeitos (colaterais) essas técnicas de intervenção no clima poderiam induzir, além da redução temporária da temperatura terrestre. Um dos problemas é que a maioria desses estudos se concentra em possíveis consequências no hemisfério Norte, onde ficam os países mais ricos e vive e trabalha a maior parte dos pesquisadores do clima.

Começam, no entanto, a surgir pesquisas com foco em outras partes do planeta. Trabalho publicado em junho deste ano na revista Environmental Research Climate sugere que a adoção da SAI ao longo deste século alteraria os prováveis impactos do aquecimento global sobre a formação de ciclones extratropicais no hemisfério Sul, como aqueles que se formam com certa regularidade na região Sul do Brasil. A previsão é de que, até o fim deste século, o aumento da temperatura global reduza o número de ciclones gerados nessa parte do globo terrestre, mas aumente a intensidade dos fenômenos produzidos. Ou seja, menos ciclones, mas mais fortes.

Glauco Lara

Quando diferentes regimes de injeção de aerossóis na estratosfera são simulados em três modelos climáticos internacionais até 2100, os resultados sinalizam um aumento na frequência de ciclones, mas uma redução em sua força em relação aos prognósticos obtidos em cenários de aquecimento global sem a adoção de qualquer protocolo da SAI. “Não somos contra nem a favor da geoengenharia solar”, diz a pesquisadora Michelle Reboita, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), de Minas Gerais, coordenadora do estudo. “Precisamos é estudá-la. Ela pode produzir resultados positivos em uma parte do mundo e negativos em outra.”

Há também estudos de simulação que tentam prever os possíveis impactos da SAI sobre a biodiversidade. “Nosso objetivo é entender como a SAI pode afetar as espécies de vertebrados terrestres no cenário das mudanças climáticas”, conta o biólogo brasileiro Andreas Schwarz Meyer, que faz estágio de pós-doutorado na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e coordena um projeto de pesquisa sobre o tema. “Em outras palavras, queremos saber quais seriam as espécies ‘vencedoras’ e ‘perdedoras’ no globo caso o emprego dessas técnicas para diminuir a temperatura do planeta venha a se tornar uma realidade.”

No projeto, que ainda está em andamento, Meyer adota uma abordagem chamada perfis horizontais de biodiversidade, que usa dados climáticos históricos para estimar o intervalo térmico (a temperatura máxima e a mínima) e o grau de umidade em que as espécies ocorrem. A técnica é normalmente usada para estimar o impacto sobre as espécies de diferentes cenários de aquecimento global previstos pelo IPCC ao longo deste século.

“Assim, temos uma ideia de quantas espécies serão expostas a essas mudanças, quando e o quão rapidamente isso poderá ocorrer”, comenta o biólogo. Em 2022, o brasileiro publicou um artigo no periódico científico Philosophical Transactions of the Royal Society B em que simulou os efeitos sobre mais de 30 mil espécies de vertebrados marinhos e terrestres de um cenário particular ao longo deste século: primeiro haveria um aquecimento global superior a 2 °C e, em seguida, ocorreria uma redução de temperatura da Terra de forma artificial, por meio da remoção direta de dióxido de carbono da atmosfera. A retirada do principal gás de efeito estufa é hoje ensaiada por um conjunto de técnicas que, por ora, são muito caras e ineficientes em perseguir esse objetivo.

Trilhas de nuvens criadas no mar pela emissão de partículas de poeira por navios

A conclusão geral do estudo é que a subida e a posterior queda artificial da temperatura terrestre poderiam inviabilizar a sobrevivência de muitas espécies e produziriam danos a essas comunidades décadas após se ter atingido uma hipotética estabilização da temperatura do planeta. Meyer está fazendo um estudo semelhante agora, mas com o emprego da SAI no lugar da remoção direta de carbono.

Os trabalhos de Reboita e Meyer se dão no âmbito de uma iniciativa internacional, a Developing country governance research and evaluation for SRM, ou simplesmente Degrees. Seu objetivo é estimular estudos e formar recursos humanos especializados nas técnicas de modificação da radiação solar em países da África, América Latina e sul da Ásia. A Degrees nasceu na década passada dentro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e posteriormente foi assumida por uma organização não governamental britânica, a homônima Degrees. Ela financia quase 40 projetos. No Brasil, além das pesquisas da meteorologista da Unifei, duas linhas de estudo de professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passaram a ser apoiadas em julho passado.

Com parceiros no exterior, a equipe do engenheiro Mauricio Uriona, do Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da UFSC, pretende estudar como é a percepção do setor produtivo, do governo e da comunidade científica de três países (Brasil, Índia e África do Sul) sobre os potenciais riscos das técnicas de SRM. “Trabalhamos no passado com o tema da transição energética com uma abordagem de cunho socioeconômico e vimos agora uma boa oportunidade de fazer um estudo semelhante sobre geoengenharia solar”, afirma Uriona.

A socióloga ambiental Julia S. Guivant, do Instituto de Pesquisa em Riscos e Sustentabilidade (Iris), da UFSC, vai estudar como diversos atores-chave do país, como a comunidade científica, reguladores políticos, agricultores e representantes de organizações não governamentais, posicionam-se diante dos desafios de governança da geoengenharia solar. “Não temos uma posição sobre se a SRM deve ser usada ou como seu eventual emprego deve ser governado. Somos a favor das pesquisas e do debate democrático sobre o tema, diante dos problemas para atingir as metas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, diz a socióloga. Colegas da USP e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) vão colaborar na pesquisa coordenada por Guivant.

Há preocupação de que a geoengenharia solar possa afetar o regime das chuvas de monções na ÍndiaAmarjeet Kumar Singh / Anadolu Agency via Getty Images

As técnicas de SRM são tão polêmicas e sem qualquer tipo de regulação em acordos internacionais que mesmo grupos de pesquisas de instituições renomadas enfrentam dificuldades extremas de realizar pequenos experimentos de campo. Esses trabalhos não têm o potencial de influenciar o clima global, no máximo produzir ciência para se entender os processos envolvidos, com alguma alteração localmente. Ainda assim, os obstáculos práticos à sua realização são quase intransponíveis.

Em março deste ano, foi abandonado o Stratospheric Controlled Perturbation Experiment (SCoPEx), experimento concebido na década passada pelo grupo do físico-químico Frank Keutsch, da Universidade Harvard. A ideia da iniciativa era usar um balão de alta altitude para injetar 2 quilos de aerossóis (no caso, carbonato de cálcio) cerca de 20 km acima da superfície. “Essa quantidade de partículas é ínfima. Equivale à poluição expelida por um jato comercial durante apenas 1 minuto de voo”, disse Keutsch em entrevista dada em 2021 (ver Pesquisa FAPESP nº 303). O balão do SCoPEx era para ter ganho inicialmente os ares dos Estados Unidos em 2018. Mas isso não ocorreu. Em seguida, sua soltura foi prevista para a Suécia, também sem sucesso. Devido a protestos de ambientalistas e de grupos indígenas, o projeto nunca decolou de fato.

Alguns testes de campo com a técnica de clareamento de nuvens marinhas, uma abordagem menos ambiciosa do que a SAI, têm sido feitos, quase sempre a duras penas e diante de críticas de vários setores da sociedade. Em abril deste ano, um grupo da Universidade de Washington, dos Estados Unidos, usou um tipo de ventilador para espalhar partículas de sal marinho na pista de um navio porta-aviões aposentado que estava estacionado no litoral da cidade de Alameda, na Califórnia. A ideia da iniciativa era apenas ver se as partículas poderiam causar algum mal à saúde. Dois meses mais tarde, o município californiano proibiu esse tipo de experimento em seu território.

Na Austrália, pesquisadores da Southern Cross University e organizações locais tocam desde 2020 um projeto-piloto em que tentam aferir se a técnica de MCB pode ser útil para diminuir o branqueamento de corais na região de Townsville. O objetivo do experimento é averiguar se o método diminuiria localmente a temperatura do oceano no centro da Grande Barreira de Corais. O aquecimento das águas marinhas é a principal causa do branqueamento.

Alterar a capacidade de o Ártico refletir a luz do Sol poderia, em tese, minorar o aquecimento globalsodar99 via Getty Images

A desconfiança dos experimentos de campo deriva, em parte, do surgimento periódico de iniciativas pouco transparentes, geridas às vezes por empresas privadas obscuras. Em 2022, a Make Sunsets, uma startup norte-americana, soltou sem autorização no norte do México dois balões com aerossóis destinados à estratosfera. Pouco depois, o governo mexicano proibiu esse tipo de iniciativa em seu território. Agora, a empresa anunciou que está fazendo esse tipo de experimento nos Estados Unidos, mas os resultados dessas iniciativas são desconhecidos.

Para o físico norte-americano David Keith, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o interesse em estimular as pesquisas sobre geoengenharia solar tem aumentado, a despeito das incertezas científicas que cercam o emprego dessas técnicas. “Isso é visível nos principais relatórios internacionais, como os do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, do Programa Mundial de Pesquisa do Clima, também da ONU, e de grandes grupos ambientalistas, como Environmental Defense”, comenta Keith, em entrevista por e-mail a Pesquisa FAPESP. “Não há dúvida de que a oposição à investigação enfraqueceu, mas é difícil dizer por quê. Talvez seja por causa do aumento das temperaturas ou porque [acredito que] o mundo esteja fazendo agora esforços substanciais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.”

Keith foi membro do programa de geoengenharia solar de Harvard por 12 anos. Hoje ele é a favor da adoção de uma moratória internacional em experimentos de campo até que a ciência sobre o tema esteja mais bem estabelecida e haja alguma forma de governança internacional. Se esse cenário se materializar algum dia, ele diz que a humanidade deveria considerar a realização de um teste no qual se injetaria por uma década na estratosfera cerca de 10% da quantidade necessária de aerossóis para baixar em 1 °C a temperatura global. Dessa forma, seria possível conferir claramente os efeitos dessa abordagem sem correr muitos riscos.

A operação envolveria transportar cerca de 100 mil toneladas de enxofre por ano para a estratosfera – equivalente a 0,3% da quantidade de poluição por enxofre que chega anualmente à atmosfera – por uma frota de 15 jatinhos capazes de voar em altas altitudes. A operação custaria aproximadamente US$ 500 milhões ao ano. É mais uma ideia polêmica. Para alguns, é possível que a única parte boa da sugestão seja a adoção de uma moratória para esse tipo de experimento.

A reportagem acima foi publicada com o título “Controlando o sol” na edição impressa nº 343, de setembro de 2024.

Artigos científicos
REBOITA, M. S. et alResponse of the Southern Hemisphere extratropical cyclone climatology to climate intervention with stratospheric aerosol injectionEnvironmental Research: Climate. 20 jun. 2024.
MEYER. A.  L. S. et alRisks to biodiversity from temperature overshoot pathways. Philosophical Transactions of the Royal Society B. 27 jun. 2022.