Negacionismo de sapatênis (Folha de S.Paulo)

Não é com desinformação que o jornalismo contribuirá ao tema do clima

Thiago Amparo – artigo original aqui.

11.ago.2021 às 22h05

A perversidade do negacionismo recai em jurar que se está dizendo o contrário do que de fato se diz. Nesta novilíngua, negacionismo veste o sapatênis do antialarmismo. Chega a ser tedioso, posto que mofado, o argumento de Leandro Narloch nesta Folha na terça (10). Mofado pois —como relata Michael Mann em “The New Climate War”— não passa da mesma retórica negacionista 2.0.

Em essência, Narloch defende que há atividades nocivas ao clima que devem ser “celebradas e difundidas” por nos tornar “menos vulneráveis à natureza”. Narloch está cientificamente errado. E o faz subscrevendo a uma das formas mais nefárias de negacionismo: mascara-o, vendendo soluções que não só não são capazes de mitigar e adaptar as sociedades à crise climática como possuem o efeito adverso. Implode-se a Amazônia para salvá-la, eis o argumento.

Esses e outros discursos negacionistas já tinham sido mapeados na revista Global Sustaintability, de Cambridge, em julho de 2020: não são novos. Em vez de mexer em tabus do século 21, vendem-se inverdades como se ciência fosse. Narloch erra no conceito de vulnerabilidade: dos incêndios florestais na Califórnia às inundações na Alemanha, não estamos protegidos contra a natureza porque nela estamos inseridos. Ignora, ademais, a vasta literatura do Painel do Clima sobre vulnerabilidade.

Narloch desconsidera o conceito da ciência climática de “feedback loops”: a crise climática aciona uma série de gatilhos de dimensão incalculável, uma reação de cadeia nunca vista. Destruir o clima não nos protegerá do clima, porque é a ausência de uma mudança drástica energética que tem aprofundado a crise climática. É ineficiente o investir no contrário.

Se o relatório do Painel do Clima acendeu o sinal vermelho, não é com desinformação que o jornalismo contribuirá ao tema. Pluralismo é um rio onde as ideias se movem dentro das margens da verdade e da ciência. Não reclamem quando o rio secar, implodindo as margens que o jornalismo deveria ter protegido.

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