Pesquisadores temem ações de Trump relacionadas à ciência e ao clima (Folha de S.Paulo)

Damon Winter/The New York Times
Com menos dinheiro no orçamento, ciência pode ser uma das áreas mais afetadas
Com menos dinheiro no orçamento, ciência pode ser uma das áreas mais afetadas

SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

23/12/2016  02h00

A eleição de Donald Trump pode pressagiar um período de declínio para a ciência nos Estados Unidos.

Noves fora a retórica que lhe ganhou a Casa Branca, os planos que ele apresenta para a próxima gestão podem significar cortes orçamentários significativos em pesquisas.

A campanha do republicano à Presidência bateu fortemente em duas teclas: um plano vigoroso de corte de impostos, que reduziria a arrecadação em pelo menos US$ 4,4 trilhões nos próximos dez anos, e um plano de investimento em infraestrutura que consumiria US$ 1 trilhão no mesmo período.

Na prática, isso significa que haverá menos dinheiro no Orçamento americano que poderá ser direcionado para os gastos “discricionários” -aqueles que já não caem automaticamente na conta do governo por força de lei. É de onde vem o financiamento da ciência americana.

“Se o montante de gastos discricionários cai, o subcomitê de Comércio, Justiça e Ciência no Congresso receberá uma alocação menor, e eles terão menos dinheiro disponível para financiar suas agências”, diz Casey Dreier, especialista em política espacial da ONG Planetary Society.

Entre os órgãos financiados diretamente por esse subcomitê estão a Fundação Nacional de Ciência (NSF), a Administração Nacional de Atmosfera e Oceano (Noaa) e a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa).

Existe a possibilidade de o financiamento sair intacto desse processo? Sim, mas não é provável. Algum outro setor precisaria pagar a conta.

SEM CLIMA

Ao menos no discurso, e fortemente apoiado por nomeações recentes, Trump já decidiu onde devem ocorrer os cortes mais profundos: ciência climática.

Que Trump se apresenta desde a campanha eleitoral como um negacionista da mudança do clima, não é segredo. No passado, ele chegou a afirmar que o aquecimento global é um embuste criado pelos chineses para tirar a competitividade da indústria americana.

(Para comprar essa versão, claro, teríamos de fingir que não foi a Nasa, agência americana, a maior e mais contundente coletora de evidências da mudança climática.)

Até aí, é o discurso antiglobalização para ganhar a eleição. Mas vai se concretizar no mandato?

Os sinais são os piores possíveis. O advogado Scott Pruitt, indicado para a EPA (Agência de Proteção do Ambiente), vê com ceticismo as políticas contra as mudanças climáticas. E o chefe da equipe de transição escolhido por Trump para a EPA é Myron Ebell, um notório negacionista da mudança climática.

O Centro para Energia e Ambiente do Instituto para Empreendimentos Competitivos, que Ebell dirige, recebe financiamento das indústrias do carvão e do petróleo. Colocá-lo para fazer a transição entre governos da EPA pode ser o clássico “deixar a raposa tomando conta do galinheiro”.

Como se isso não bastasse, durante a campanha os principais consultores de Trump na área de pesquisa espacial, Robert Walker e Peter Navarro, escreveram editoriais sugerindo que a agência espacial devia parar de estudar a própria Terra.

“A Nasa deveria estar concentrada primariamente em atividades no espaço profundo em vez de trabalho Terra-cêntrico que seria melhor conduzido por outras agências”, escreveram.

Há consenso entre os cientistas de que não há outro órgão com competência para tocar esses estudos e assumir a frota de satélites de monitoramento terrestre gerida pela agência espacial.

Além disso, passar as responsabilidades a outra instituição sem atribuir o orçamento correspondente é um jeito sutil de encerrar o programa de monitoramento do clima.

BACKUP

Se isso faz você ficar preocupado com o futuro das pesquisas, imagine os climatologistas nos EUA.

De acordo com o jornal “Washington Post”, eles estão se organizando para criar repositórios independentes dos dados colhidos, com medo que eles sumam das bases de dados governamentais durante o governo Trump.

Ainda que a grita possa evitar esse descaramento, a interrupção das pesquisas pode ter o mesmo efeito.

“Acho que é bem mais provável que eles tentem cortar a coleção de dados, o que minimizaria seu valor”, diz Andrew Dessler, professor de ciências atmosféricas da Universidade Texas A&M. “Ter dados contínuos é crucial para entender as tendências de longo prazo.”

E O QUE SOBRA?

Tirando a mudança climática, a Nasa deve ter algum suporte para dar continuidade a seus planos de longo prazo durante o governo Trump -talvez com alguma mudança.

De certo, há apenas a restituição do Conselho Espacial Nacional, criado durante o governo George Bush (o pai) e desativado desde 1993.

Reunindo as principais autoridades pertinentes, ele tem por objetivo coordenar as ações entre diferentes braços do governo e, com isso, dar uma direção estratégica mais clara e eficiente aos executores das atividades espaciais.

Isso poderia significar uma ameaça ao SLS (novo foguete de alta capacidade da Nasa) e à Orion (cápsula para viagem a espaço profundo), que devem fazer seu primeiro voo teste, não tripulado, em 2018.

Contudo, o apoio a esses programas no Congresso é amplo e bipartidário, de forma que dificilmente Trump conseguirá cancelá-los.

O que ele pode é redirecionar sua função. Em vez de se tornarem as primeiras peças para a “jornada a Marte”, que Barack Obama defendia para a década de 2030, eles seriam integrados num programa de exploração da Lua.

(Tradicionalmente, no Congresso americano, a Lua é um objetivo republicano, e Marte, um objetivo democrata. Não pergunte por quê.)

Trump deve ainda dar maior ênfase às iniciativas de parcerias comerciais para a exploração espacial. Em dezembro, Elon Musk, diretor da empresa SpaceX e franco apoiador da campanha de Hillary Clinton, passou a fazer parte de um grupo de consultores de Trump para a indústria de alta tecnologia.

Áreas afetadas

NASA

Assessores de Trump querem tirar da agência a função de estudar a Terra em favor da exploração espacial

Nasa Goddard Space Flight Center/Flickr
Imagem feita pela Nasa
Imagem feita pela Nasa

PROTEÇÃO?

Scott Pruitt, indicado para Agência de Proteção do Ambiente, já processou o órgão por limitações impostas à indústria petrolífera. A agência pode perder força e deixar certas regulações a cargo dos Estados

Spencer Platt-7.dez.2016/Getty Images/AFP
Scott Pruitt chega a Trump Tower, em 7 de dezembro, para encontro com Donald Trump
Scott Pruitt chega a Trump Tower, em 7 de dezembro, para encontro com Donald Trump

PETRÓLEO

Rex Tillerson, executivo da petroleira ExxonMobil, foi indicado para o posto de secretário de Estado, o que dá mais sinais de que o governo Trump não deve se esforçar para promover fontes de energia limpa

Daniel Kramer – 21.abr.2015/Reuters
Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil
Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil
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