Répteis têm atividade cerebral típica de sonhos humanos, revela estudo (Folha de S.Paulo)

Dr. Stephan Junek, Max Planck Institute for Brain Research
Sleeping dragon (Pogona vitticeps). [Credit: Dr. Stephan Junek, Max Planck Institute for Brain Research]
Estudo mostra que lagartos atingem padrão de sono que, em humanos, permite o surgimento de sonhos

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

28/04/2016 14h56

Será que os lagartos sonham com ovelhas escamosas? Ninguém ainda foi capaz de enxergar detalhadamente o que acontece no cérebro de tais bichos para que seja possível responder a essa pergunta, mas um novo estudo revela que o padrão de atividade cerebral típico dos sonhos humanos também surge nesses répteis quando dormem.

Trata-se do chamado sono REM (sigla inglesa da expressão “movimento rápido dos olhos”), que antes parecia ser exclusividade de mamíferos como nós e das aves. No entanto, a análise da atividade cerebral de um lagarto australiano, o dragão-barbudo (Pogona vitticeps), indica que, ao longo da noite, o cérebro do animal fica se revezando entre o sono REM e o sono de ondas lentas (grosso modo, o sono profundo, sem sonhos), num padrão parecido, ainda que não idêntico, ao observado em seres humanos.

Liderado por Gilles Laurent, do Instituto Max Planck de Pesquisa sobre o Cérebro, na Alemanha, o estudo está saindo na revista especializada “Science”. “Laurent não brinca em serviço”, diz Sidarta Ribeiro, pesquisador da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e um dos principais especialistas do mundo em neurobiologia do sono e dos sonhos. “Foi feita uma demonstração bem clara do fenômeno.”

A metodologia usada para verificar o que acontecia no cérebro reptiliano não era exatamente um dragão de sete cabeças. Cinco exemplares da espécie receberam implantes de eletrodos no cérebro e, na hora de dormir, seu comportamento foi monitorado com câmeras infravermelhas, ideais para “enxergar no escuro”. Os animais costumavam dormir entre seis e dez horas por noite, num ciclo que podia ser mais ou menos controlado pelos cientistas do Max Planck, já que eles é que apagavam e acendiam as luzes e regulavam a temperatura do recinto.

O que os pesquisadores estavam medindo era a variação de atividade elétrica no cérebro dos dragões-barbudos durante a noite. São essas oscilações que produzem o padrão de ondas já conhecido a partir do sono de humanos e demais mamíferos, por exemplo.

Só foi possível chegar aos achados relatados no novo estudo por causa de seu nível de detalhamento, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e colunista da Folha. “Estudos anteriores menos minuciosos não tinham como detectar sono REM porque, nesses animais, a alternância entre os dois tipos de sono é extremamente rápida, a cada 80 segundos”, explica ela, que já tinha visto Laurent apresentar os dados num congresso científico. Em humanos, os ciclos são bem mais lentos, com duração média de 90 minutos.

Além da semelhança no padrão de atividade cerebral, o sono REM dos répteis também tem correlação clara com os movimentos oculares que lhe dão o nome (os quais lembram vagamente a maneira como uma pessoa desperta mexe os olhos), conforme mostraram as imagens em infravermelho.

DORMIR, TALVEZ SONHAR

A primeira implicação das descobertas é evolutiva. Embora dormir seja um comportamento aparentemente universal no reino animal, o sono REM (e talvez os sonhos) pareciam exclusividade de espécies com cérebro supostamente mais complexo. “Para quem estuda os mecanismos do sono, é um estudo fundamental”, afirma Suzana.

Acontece que tanto mamíferos quanto aves descendem de grupos primitivos associados aos répteis, só que em momentos bem diferentes da história do planeta – mamíferos já caminhavam pela Terra havia dezenas de milhões de anos quando um grupo de pequenos dinossauros carnívoros deu origem às aves. Ou seja, em tese, mamíferos e aves precisariam ter “aprendido a sonhar” de forma totalmente independente. O achado “resolve esse paradoxo”, diz Ribeiro: o sono REM já estaria presente no ancestral comum de todos esses vertebrados.

O trabalho do pesquisador brasileiro e o de outros especialistas mundo afora tem mostrado que ambos os tipos de sono são fundamentais para “esculpir” memórias no cérebro, ao mesmo tempo fortalecendo o que é relevante e jogando fora o que não é importante. Sem os ciclos alternados de atividade cerebral, a capacidade de aprendizado de animais e humanos ficaria seriamente prejudicada.

Tanto Ribeiro quanto Suzana, porém, dizem que ainda não dá para cravar que lagartos ou outros animais sonham como nós. “Talvez um dia alguém faça ressonância magnética em lagartos adormecidos e veja se eles mostram a mesma reativação de áreas sensoriais que se vê em humanos em sono REM”, diz ela. “Claro que os donos de cachorro têm certeza que suas mascotes sonham, mas o ideal seria fazer a decodificação do sinal neural”, uma técnica que permite saber o que uma pessoa imagina estar vendo quando sonha e já foi aplicada com sucesso por cientistas japoneses.

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