Cientistas tentam responder: cadê as chuvas do Cantareira? (Folha de S.Paulo)

RAFAEL GARCIA

DE SÃO PAULO

18/01/2015 01h45

As tempestades que têm desabado sobre a cidade de São Paulo desde o fim de dezembro derrubaram árvores e postes, mas não serviram para abastecer as represas do Cantareira, prolongando a crise da água. Cientistas, porém, afirmam que isso é compreensível e era até esperado.

O problema que leva à essa situação paradoxal passa por uma espécie de pane que acontece pelo segundo verão consecutivo no sistema que os meteorologistas chamam de ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). Trata-se de uma banda de nuvens que se estende desde o oeste da Amazônia até Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e segue até alto mar.

“O sistema, que favoreceria as chuvas na região central do Brasil como um todo, não está atuando como deveria”, diz Anna Bárbara de Melo, do CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Em dezembro, a ZCAS entrou em ação, mas no lugar “errado”. “O sistema ocorreu, só que favorecendo a região sul da Bahia e o Tocantins”, diz a pesquisadora. “Todo o estado de Minas, em dezembro, teve menos precipitação que o normal, com exceção de algumas áreas no norte.”
Segundo o climatologista Tércio Ambrizzi, da USP, o fenômeno pode estar relacionado à mudança climática.

“O fato de a atmosfera estar mais aquecida tem gerado uma variabilidade climática maior, enfatizando os eventos extremos”, diz o climatologista. “Em 2010 e 2011, nós estávamos enfrentando as inundações e mortes ocorridas nos deslizamentos do Rio de Janeiro”, conta Ambrizzi.
“Naquele ano o Cantareira estava com mais de 100% da capacidade, vertendo água e prejudicando algumas cidades. Três anos depois, passamos para um extremo seco com chuvas abaixo da média.”

CAPITAL

Mas, se falta chuva na Cantareira, por que tanta água na capital?

Isso se explica por um outro fenômeno, tipicamente relacionado às chuvas de verão: as ilhas de calor.

Em grandes concentrações urbanas, sem vegetação, o pouco de umidade que existe sobre essas áreas tende a subir em função do calor, até atingir temperaturas mais baixas e se condensar. Isso cria nuvens com uma extensão horizontal relativamente pequena, mas uma extensão vertical grande, com bastante água. A chuva então cai numa região específica, com muita violência, explica Ambrizzi. Em geral, tais tempestades ocorrem no início da noite.

Essas fortes descargas, concentradas em horários limitados, não chegaram nem a trazer um volume médio histórico de água nem mesmo para a capital.

Na primeira metade de janeiro, a estação meteorológica do Mirante de Santana, na zona norte de São Paulo, registrou 71 mm de chuva acumulada, quando a média histórica era de 130 mm. No Cantareira, mais ao norte, a situação é pior, com apenas 60 mm de chuva tendo ocorrido até agora, menos da metade do que se esperava. O nível do reservatório caiu de 7,2% para 6,2%, numa época do ano em que costuma subir.

Algumas das chuvas de verão estimuladas pela mancha urbana de São Paulo poderiam até ter contribuído para elevar o nível de algumas represas do sistema Cantareira, mas aí surge o terceiro problema. Segundo hidrólogos, o solo da maior parte das represas já estava tão seco, castigado pelo sol, que boa parte da água foi simplesmente absorvida pela terra, sem causar nenhuma elevação no nível dos reservatórios.

Esse “efeito esponja”, diz Ambrizzi, pode ter anulado qualquer benefício que chuvas de verão tenham trazido para as represas do Cantareira mais próximas da capital.

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