Mais Espaço para Ciências Sociais e Humanas (Jornal da Ciência)

Artigo de José Monserrat Filho* comenta editorial publicado na revista Nature

“Olhem para as estrelas e aprendam com elas.”

Albert Einstein

Se os governos desejam que as ciências exatas e naturais levem mais benefícios à sociedade, eles precisam se comprometer mais com as ciências sociais e humanas. Há que integrar todas essas áreas para que as ciências exatas e naturais ofereçam soluções ainda mais abrangentes e completas. Essa, em suma, é a visão defendida pela Nature, renomada revista científica inglesa, em seu editorial Tempo para as Ciências Sociais, de 30 de dezembro de 2014.

Para a Naturea física, a química, a biologia e as ciências ambientais podem oferecer soluções maravilhosas a alguns dos desafios que as pessoas e as sociedades enfrentam, mas para que ganhem força, tais soluções dependem de fatores que vão além do conhecimento de seus descobridores. A publicação argumenta que “se fatores sociais, econômicos e culturais não são incluídos na formulação das questões, grande dose de criatividade pode ser desperdiçada.

Quer dizer, quando não se presta a devida atenção às ciências sociais, corre-se o risco de perder em criatividade (campos e elementos que alimentam a imaginação, a busca de melhores e mais amplas soluções), o que nas atividades cientificas é grave insuficiência.

Nature pede total apoio “a quem cria projetos multidisciplinares – por exemplo, para aumentar o acesso aos alimentos e à água, fazer adaptações às mudanças climáticas, ou tratar de doenças –  integrando, desde o início, as ciências naturais e as ciências sociais e humanas”.

Total apoio também é solicitado “às figuras de proa na política que demonstram seu compromisso com esta agenda multidimensional” e expressam “toda uma série de preocupações quando os governos não manifestam a mesma compreensão”.

A revista elogia Mark Walport, o principal assessor científico do governo inglês, e seu antecessor, John Beddington, por estarem comprometidos com relação as ciências sociais. O relatório do Reino Unido de 2014, sob o título de “Inovação: gestão de risco sem evitá-lo”, reúne opiniões e reflexões de especialistas em psicologia, ciência do comportamento, estatística, estudos de risco, sociologia, direito, comunicação e política pública, bem como em ciências naturais.
O documento inclui temas como incerteza, comunicação, conversações e linguagem, com cientistas reconhecidos tecendo considerações cruciais sobre inovação em áreas controversas e cheias de dúvidas. Cientistas e juristas trabalham juntos, por exemplo, nos estudos de caso sobre submarinos nucleares e sobre previsões de inundação e infiltrações.

O principal recado do relatório vale para os responsáveis pela formulação de políticas de C&T em qualquer país: Se você deseja que a ciência leve benefícios à sociedade, por meio do comércio, do governo ou da filantropia, você precisa apoiar os meios de capacitação para se entender a sociedade, o que é tão profundo quanto a capacidade de entender a ciência. E quando fizer declarações políticas precisa deixar claro que você acredita nessa necessidade.

Será que tudo isso é válido também para a ciência e a tecnologia espaciais?

As atividades espaciais, embora efetuadas com base em conhecimentos científicos e tecnológicos, envolvem interesses sociais, econômicos, políticos, jurídicos e culturais de enorme relevância. O mundo inteiro depende hoje do espaço em sua vida cotidiana. Isso gera um caudal de problemas em todas as áreas. Política e Direito Espaciais são campos estratégicos da política internacional. As ações militares no solo, nos mares e no espaço aéreo são todas comandadas através do espaço, e já se planeja até instalar armas em órbitas da Terra, o que poderá convertê-las em teatro de guerra. Enquanto isso, as Nações Unidas avançam na elaboração das diretrizes para  garantir a “Sustentabilidade a Longo Prazo das Atividades Espaciais”, que também enfrentam o perigo crescente do lixo espacial. Em debate, igualmente, está o desafio de criar um sistema global de gestão do tráfico espacial para garantir maior segurança e proteção de todos os voos e objetos espaciais. Mais que nunca é essencial o maior conhecimento possível de tudo o que se passa e se faz no espaço, perto e longe da Terra. Medidas de transparência e fomento à confiança no espaço são propostas pela Assembleia Geral das Nações Unidas. E quem senão as ciências sociais para refletir sobre o futuro da civilização humana no espaço?

* Vice-Presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), Diretor Honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, Membro Pleno da Academia Internacional de Astronáutica e Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB).

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