Carnivorismo (Portal do Meio Ambiente)

PUBLICADO  08 DEZEMBRO 2014

MAURÍCIO ANDRÉS RIBEIRO

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Por Maurício Andrés Ribeiro

Cadeias alimentares são as transferências de energia alimentar desde os produtores básicos – as plantas –, para os animais herbívoros – consumidores primários –, até os animais carnívoros que se alimentam dos herbívoros ou de outros carnívoros. A cada degrau que se sobe na cadeia trófica, há perdas de energia. As plantas absorvem e metabolizam cerca de 1% da energia solar que sobre elas incidem. Os animais herbívoros aproveitam cerca de 10% da energia contida nos vegetais. Os animais carnívoros ou os seres humanos que se alimentam de carne de animais aproveitam apenas 10% da energia que eles absorveram dos vegetais.

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O homem está entre as espécies que absorvem energia de vários elos da cadeia alimentar e tem uma diversidade de dietas alimentares, em função do ambiente em que vivem de seus hábitos culturais, de seus valores espirituais ou religiosos. Há seres humanos onívoros, carnívoros, frutívoros, vegetarianos, veganos etc e uma combinação deles. O carnivorismo é o habito sistemático de comer carne e a defesa de tal hábito.O carnivorismo se espalha pelo mundo de modo diferenciado conforme mostra o mapa anexo. Nos países em vermelho se come mais de 30 kg per capita de carne bovina por ano. À medida que aumenta a renda média, tende a aumentar o consumo per capita de carne, o que é ainda estimulado por campanhas de propaganda do carnivorismo nas TVs, nos jornais, em revistas e na internet.

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A dieta alimentar baseada em proteínas animais, quando comparada a dietas baseadas em grãos, hortaliças e proteína vegetal, tem elevado custo energético e sua produtividade energética é baixa. A demanda por alimentos que se encontram no alto da cadeia alimentar – constituídos pelos produtos de origem animal – consome grande quantidade de terra, água, recursos naturais e defensivos agrícolas; motiva os fazendeiros a expandir as áreas destinadas a pastagens, provoca a destruição de florestas e perdas de solo fértil. Os impactos ambientais de uma dieta carnívora são maiores do que os de uma dieta baseada em produtos vegetais.

No Brasil, pressão sobre as florestas e desmatamento decorrem do plantio de soja para alimentar animais na China ou da pecuária para exportar carne ou abastecer o mercado interno.

04Várias sociedades regularam suas dietas como estratégia para não romper a capacidade de suporte do seu território e reduzir os riscos de colapso. A Índia é uma das mais conhecidas, com o vegetarianismo e a sacralização dos animais. Diamond (2005, p. 356) relata o caso da ilha de Tikopia, no Pacífico Sul, com 4,7km2 e densidade de 309 pessoas por quilômetro quadrado, continuamente habitada há quase três mil anos. Uma das estratégias para garantir a capacidade de sustentação do ambiente foi a mudança de hábitos alimentares, eliminando aqueles que implicam competição pelo uso da terra:

Uma decisão significativa tomada conscientemente por volta de 1.600 d.C, e registrada pela tradição oral, mas também atestada arqueologicamente, foi a matança de todos os porcos da ilha, substituídos como fonte de proteína pelo aumento do consumo de peixe, moluscos e tartarugas.

Tikopia e a India são exemplos de sociedades que superaram o carnivorismo ao constatarem os benefícios sociais que essas mudanças de hábitos alimentares trariam. Aquilo que a Índia estruturou há milênios e o que os ilhéus de Tikopia decidiram há algumas centenas de anos, pode ser uma decisão sábia de ser adotada globalmente no contexto das mudanças climáticas e da atual crise da evolução. Uma das vozes que defende esse caminho é Lovelock (Gaia-Alerta final, pg. 80) que observa

“Nossos líderes, se fossem todos excelentes e poderosos poderiam proibir a manutenção de animais de estimação e gado, tornar compulsória a dieta vegetariana e incentivar um grande programa de síntese de alimentos por indústrias químicas e bioquímicas; fazer isso apenas restringirá a perda de vida a animais de estimação e gado. É alentador que o presidente do IPCC, Dr. Pachauri, tenha recomendado uma dieta vegetariana como um caminho a seguir.”

Atualmente cresce a consciência e os alertas sobre esse tema. O biólogo Erlich (1999, p. 10) afirma que “a capacidade de suporte do planeta seria aumentada se todos se tornassem predominantemente vegetarianos”. O professor E. O. Wilson, de Harvard, em seu livro “O Futuro da vida” expressa as vantagens de renunciar ao consumo de carne: “Se todos aceitassem uma dieta vegetariana, o atual 1,4 bilhão de hectares de terras aráveis seria suficiente para produzir alimentos para 10 bilhões de pessoas.” O vegetarianismo poupa espaço, recursos naturais e o meio ambiente, conseguindo, com baixo uso de recursos naturais, um alto rendimento energético alimentar.

A mudança de dieta alimentar é um processo cultural e encontra resistências em hábitos arraigados. O prazer da mesa é um aspecto sensorial que produz apego e constitui um obstáculo à aceitação de argumentos racionais, como os baseados na ecologia energética, nas perdas de energia que ocorrem nas cadeias alimentares, nos impactos ambientais devastadores associados ao consumo de carnes.

No contexto da crise alimentar, climática, ecológica e hídrica, hábitos alimentares de baixo consumo de proteína animal podem facilitar o acesso da população humana a alimentos e ao mesmo tempo não pressionarem excessivamente a capacidade de suporte do planeta. Superar o carnivorismo é um passo em direção à sustentabilidade no planeta. A mega crise da evolução atual, da qual as mudanças climáticas são um dos aspectos, clama por evolução da consciência humana que induza a mudanças de hábitos tão básicos e elementares como o de se alimentar.

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