Suando no apocalipse (Folha de S.Paulo)

24/10/2014 02h00

Michel Laub

Num ensaio sobre “Júlio César”, filme de Joseph Mankiewicz baseado em Shakespeare, Roland Barthes vê na transpiração dos personagens um sinal de moralidade. “Todos suam porque debatem algo consigo mesmos”, escreve o pensador francês. Homens até então virtuosos, como Brutus, demonstram o “enorme trabalho fisiológico” que dá abandonar princípios para cometer um crime.

Se há uma moral no suor derramado em São Paulo, que teve dias de 37 graus em meio a uma crise hídrica sem precedentes, ela também deveria vir de uma espécie de culpa: a lembrança de que o clima excêntrico dos últimos anos nasce de uma responsabilidade coletiva, dos danos que nosso estilo de vida causa à natureza segundo a quase unanimidade dos cientistas.

É sobre a dificuldade de reconhecermos isso, entre outros temas, que trata uma entrevista recente do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e da filósofa Déborah Danowski à jornalista e escritora Eliane Brum. Se um utopista consegue imaginar coisas grandes e abstratas, como o tal do mundo melhor, mas não implementá-las na prática, hoje seríamos o contrário: tecnicamente capazes de fazer drones e bombas, mas não de conceber –ao menos em empatia– a hipótese concreta de seus efeitos.

Daí nasce a leviandade com que seguimos tratando florestas, rios e cidades, apesar dos múltiplos alertas. Na entrevista, publicada no site do “El País”, o cenário em que estamos prestes a entrar –uma megalópole sem água– é descrito como uma versão real da ficção maia do fim do mundo, uma narrativa sem redenção em que “nosso primeiro pé já encontrou o nada”.

A saída para amenizar o estrago seria a superação de um modelo baseado na “acumulação de lixo como principal produto”. Aqui entra o lado político de Viveiros de Castro, que desagrada petistas, tucanos e qualquer um que celebre a entrada de milhões de brasileiros no mercado consumidor. Na campanha que se encerra domingo, os argumentos do antropólogo foram compreensivelmente ignorados.

Segundo ele, a visão do pobre como um “nós de segunda classe”, alguém que deve ser melhorado para se tornar no futuro o que somos hoje –com nossas geladeiras, carros, comida transgênica barata e farta, Netflix sob o ar-condicionado silencioso–, é parte do problema. Não há recursos que deem conta de tanta demanda sem causar desmatamento, poluição, fluxos migratórios forçados e trágicos.

Um otimista à esquerda dirá que o caminho não é o crescimento sem limites, e sim uma distribuição radical da riqueza. Viveiros de Castro usa a expressão “superdesenvolvido” para nações como os Estados Unidos, onde o gasto individual é o equivalente ao de 32 pessoas do Quênia. Já um otimista à direita dirá que o capitalismo sempre criou tecnologias que o salvaram de impasses como o atual.

Tendo como parâmetro a história, na qual também há tragédias suficientes geradas pelo igualitarismo puro e duro (e que não é igualitarismo, vide a ex-URSS), o segundo cenário é mais possível. Difícil imaginar o Primeiro Mundo abrindo mão de sua riqueza voluntariamente e no prazo necessário. Ou países com imensas dívidas sociais –Brasil, Índia, China– desistindo de sua chance de desenvolvimento tardio.

O problema é que “possível” é diferente de “provável”. O otimismo gosta de se alimentar da falta de informação. Ou de uma ingenuidade teimosa em relação à boa fé e visão de longo prazo de quem nos dirige. A usina nuclear de Fukushima foi construída numa área sujeita a tsunamis. No circo negacionista da Sabesp, somos palhaços por motivos eleitorais.

Num outro ensaio de Barthes, igualmente sobre um tema a calhar aqui –o plástico–, o milagre é definido como uma “conversão brusca da natureza”. O mesmo daria para dizer de seu avesso, a catástrofe. Déborah Danowski acredita que a dúvida não é mais sobre se ela vai acontecer, e sim sobre sua dimensão –a diferença entre um aquecimento de dois, quatro ou seis graus na Terra, entre uma vida “difícil” e uma “hostil à espécie humana”.

Diante disso, acrescenta Viveiros de Castro, nos restará pouco além de aprender com aqueles que, sem sonhos produtivos e consumistas, são o oposto dos pobres: os índios. No Brasil, eles experimentam o apocalipse desde 1500. Se há algo que conhecem bem, é como tentar “viver melhor num mundo pior”, num presente/futuro que foi “roubado por nós mesmos de nós”

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