Um estádio sem cantos (Globo Esporte)

Quarta-feira, 18/06/2014 às 11:57 por David Butter

Quem diria: o pior da Copa é a torcida da seleção brasileira. Não falo da torcida dos bares, das casas e das ruas, de fora dos estádios por falta de condição, gosto ou oportunidade, mas da torcida das arquibancadas. – digo “torcida” por falta de outro termo.

Não, não andamos vendo a vergonha e o banzo circulando de cabeça baixa por aeroportos ou estradas, como imaginavam antes da competição os profetas da catástrofe, e sim pelas cadeiras das arenas “padrão Fifa”. Há algo de triste em quem passa por essas cadeiras: uma modorra atravessada de impaciência e melancolia.

Pois a torcida brasileira desta Copa é, até agora, uma torcida reativa. Até no seu canto mais efusivo (“Sou brasileiro/Com muito orgulho/Com muito amor”), a torcida de estádio parece estar respondendo a alguma ofensa não-enunciada.  É como se o brasileiro entrasse xingado e cuspido nas arenas, e não extraísse disso mais do que a força para dizer: “Eu gosto do que eu sou”.

A torcida brasileira desta Copa não tem canções: tem musiquinhas que caberiam melhor numa festa de firma: expressões vagas de solidariedade e espírito coletivo – praticamente um convite às vaias e aos muxoxos. “Está ruim o salgado”, “que banda horrível é esta”, “aqueles pães-duros economizaram no uísque”: enxergo no torcedor desta Copa o “Mauro da Contabilidade”, um Jekyll chatíssimo que, nas confraternizações de fim de ano, converte-se num Hyde mais chato ainda.

E os Mauros todos converteram nisto a atual “experiência”  de ser ver um jogo da seleção: um investimento individual de tempo (e dinheiro) em troca de algum retorno. A seleção “presta serviços” aos torcedores-consumidores; é uma seleção-bufê, um atração para eventeiros. Cantar qualquer coisa além do cânone santificado pela imprensa e pela publicidade não está no “briefing”.

(Ao fato: a torcida do México berrou por cima da torcida brasileira em Fortaleza. A ponto de me parecer que, para um jogo em Guadalajara, a seleção mexicana deveria encarar o empate como um tropeço.)

O hino se esgota antes da bola rolar. Não há tempo para concursos, nem festivais. Não existe, tampouco, era de ouro de cantoria para se espelhar. O que pode entoar de novo e de firme a torcida brasileira? Funk, sertanejo, paródia obscena, qualquer coisa mais viva, e menos encaixável num anúncio de banco ou sobe-som de telejornal – jogo as opções ao alto, por desespero de causa.

Surpreenda o Brasil, Mauro. Rasgue o abadá. Seja menos convencional uma vez na vida. Tenha algo a contar para seus filhos, algo diferente de “Os mexicanos/chilenos/argentinos me calaram”.

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