Setor privado é essencial para adaptação às mudanças climáticas (Fapesp)

Para Laura Canevari, da Acclimatise, engajar empresas em discussões sobre o tema significa criar uma economia resiliente, assegurar empregos e desenvolvimento. Para isso, no entanto, cientistas devem traduzir conceitos em experiências reais (foto:Rogério Lima)

28/05/2014

Por Karina Toledo, de Fortaleza

Agência FAPESP – As mudanças climáticas são uma realidade cada vez mais difícil de ser ignorada e à humanidade resta adaptar-se para reduzir seu grau de vulnerabilidade. Diante dessa necessidade premente, cientistas têm se esforçado para engajar os formuladores de políticas públicas nas discussões sobre o tema. No entanto, pouca atenção é dada a um importante ator da sociedade: o setor privado.

A análise foi feita pela colombiana Laura Canevari, consultora em adaptação às mudanças climáticas, durante a conferência internacional Adaptation Futures 2014, ocorrida entre 12 e 16 de maio em Fortaleza. Formada em Ciências Marinhas, com mestrado em Manejo de Mudanças Climáticas pela University of Oxford, no Reino Unido, Canevari já atuou como militante, defendendo a necessidade de adaptação das zonas costeiras contra a elevação do nível do mar.

Atualmente, trabalha para a Acclimatise, empresa britânica que presta assistência técnica a instituições governamentais e empresas privadas no entendimento de riscos relacionados às mudanças climáticas e ajuda a identificar soluções de adaptação viáveis.

Na avaliação de Canevari, o setor público tem o importante papel de regulamentar e criar um ambiente adequado para que ações de adaptação aconteçam, mas é o setor privado que vai colocá-las em prática. A fim de engajar as empresas na empreitada, porém, os cientistas terão de adaptar sua linguagem e traduzir os conceitos científicos em experiências reais do cotidiano.

Leia abaixo trechos da entrevista concedida por ela à Agência FAPESP.

Agência FAPESP – Qual é a sua formação e área de atuação na Acclimatise? 
Laura Canevari – Sou formada em Ciências Marinhas e fiz mestrado em Manejo de Mudanças Climáticas na University of Oxford, no Reino Unido. Antes de começar a trabalhar na Acclimatise eu era uma grande defensora da necessidade de adaptação da zona costeira contra a elevação do nível do mar.

Agência FAPESP – Vocês trabalham mais com o setor público ou o privado?
Canevari – Inicialmente nosso foco era o setor privado, mas temos nos voltado mais ao setor público, pois as negociações internacionais estão mais focadas em adaptação e os governos estão mais preocupados com as mudanças climáticas. Recentemente, ajudamos a elaborar o Plano Nacional de Adaptação do Quênia, por exemplo. Ajudamos a desenvolver a estratégia de adaptação das cidades de Londres e Leeds [ambas no Reino Unido], Moscou e outras cinco na Rússia. Muitas vezes, o que fazemos para os governos é fomentar a capacidade institucional, ajudar a identificar lacunas e necessidades em nível institucional. Se um país quer começar a pensar em mudanças climáticas, quais são as coisas que as instituições têm de ser capazes de lidar, como coordenar informação entre diferentes ministérios, como coletar e armazenar informações, como usar serviços meteorológicos para obter dados precisos sobre mudanças climáticas. Atuamos em diferentes setores, como energia, transporte, varejo e cadeias de abastecimento.

Agência FAPESP – Em sua palestra você afirmou que a academia, no que se refere às discussões sobre adaptação às mudanças climáticas, está muito focada no setor público e deveria prestar mais atenção ao setor privado. Por que pensa assim? 
Canevari – Não penso que devemos parar de investir tempo e energia no setor público. Ele é importante, pois permite regular as ações de adaptação às mudanças climáticas necessárias e criar o suporte e o ambiente favorável para que elas aconteçam. Mas não deveríamos olhar para o setor público como o implementador dessas medidas. Quem realmente vai colocar em prática as soluções de adaptação é o setor privado. O setor público deve permitir às empresas investir mais seguramente nesse tipo de tópico. Não é a primeira vez que falo da necessidade de os acadêmicos mudarem sua mentalidade sobre quais são os mais importantes setores da sociedade com quem temos de dialogar. Mas nós, cientistas, tendemos a ficar em nossas zonas de conforto, onde falamos todos a mesma linguagem e lidamos com os problemas da mesma forma. E dialogar com o setor privado requer uma mudança no discurso sobre as questões climáticas. Falamos do ponto de vista de políticas públicas e com uma mentalidade acadêmica e isso não vai funcionar. Precisamos mudar a forma como concebemos os problemas e as soluções.

Agência FAPESP – Como os cientistas conseguirão o engajamento do setor privado? 
Canevari – Primeiro, precisamos reconhecer que esse é um importante ator, pois isso nos fará ter curiosidade sobre como ele pensa. Os acadêmicos costumam ficar muito fechados na academia, mas viram rapidamente a necessidade de disseminar a informação para os governos. Fizeram, então, o esforço de compreender o que ressoa com a governança para discutir questões que vêm da ciência e transformá-las em políticas públicas. Mas os acadêmicos precisam entender que o setor privado tem diferentes formas de conceber riscos e lidar com eles. Para um homem de negócios, lidar com riscos significa a continuidade de sua produção. Então falar sobre a continuidade do negócio é uma forma de abordar questões de adaptação sem usar esse termo. É preciso traduzir a linguagem. Falamos muito aqui sobre o cenário de “4 graus Celsius” [de elevação da temperatura terrestre até 2100] e parece que todos entendemos o que isso significa sob um ponto de vista ambiental. Mas o que os 4 graus Celsius significam para uma empresa? Nós fizemos uma análise de risco para um porto na Colômbia na qual olhamos o impacto do aumento das temperaturas na performance do maquinário que retira a carga dos barcos e leva para o estoque. Essas máquinas são sensíveis ao estresse térmico e não trabalham tão bem com muito calor. Em vez de ir para o setor privado e dizer: “Há uma ameaça de subir 4 graus Celsius”, devemos dizer que os maquinários vão começar a trabalhar de forma mais lenta e não serão tão eficientes em realizar o trabalho e isso vai afetar os lucros. No fim das contas, é preciso abordar a questão do lucro e de como a mudança climática vai afetar a performance empresarial. Outro ponto de muito apelo para as empresas é: como conseguirão manter sua licença social e ambiental para operar. Se a força de trabalho atua ao ar livre e há uma alta incidência de estresse térmico, há um risco de segurança ocupacional. A empresa pode perder a habilidade de operar em uma determinada área se não se preocupar em avaliar como o estresse térmico provocado pela elevação de temperatura afetará seus empregados. É um trabalho de transformar conceitos em experiências reais do cotidiano.

Agência FAPESP – Se é tudo uma questão de lucros, por que é importante estimular o setor privado a se adaptar? 
Canevari – Porque se trata de construir uma economia resiliente. Precisamos parar de ignorar o setor privado, pois ele é parte importante das comunidades e oferece empregos, bens e serviços. Quando pensamos nos fatores que determinam o bem-estar das sociedades, temos as políticas públicas que criam regulamentações, códigos de conduta para as pessoas interagirem umas com as outras de formas não agressivas, garantem liberdade de expressão, democracia, etc. Esses são componentes importantes, mas os produtos e serviços que as pessoas desejam adquirir também são. As pessoas também desejam estar empregadas, pois é uma forma de conseguir reconhecimento na sociedade. Não é apenas pelo dinheiro em si, mas porque você assume um papel social quando tem um emprego. Por outro lado, o setor privado tem o dinheiro e o potencial de investir em atividades que podem ter implicações que vão além da própria organização.

Agência FAPESP – Já é possível perceber ações de adaptação no setor privado?
Canevari – Há dois tipos de empresas que estão liderando ações de adaptação. No primeiro, estão as empresas que fizeram grandes investimentos em estruturas de longa duração, como petrolíferas, empresas de energia e portos. São companhias que esperam que aquelas instalações durem 30 ou 40 anos. Nesse tipo de empresa também costuma haver muita pressão dos stakeholders e da sociedade, que espera padrões elevados em termos ambientais e sociais. Do segundo tipo fazem parte as empresas que estão se adaptando e que são as sensíveis a fatores climáticos, como as que produzem ou comercializam bens agrícolas e empresas que dependem fortemente de água. São empresas que já sentem fortemente os impactos das mudanças no clima e respondem a eles como forma de sobreviver, pois, se não melhorarem seus padrões de eficiência no uso de energia e água, poderão ter conflitos com a comunidade em que estão inseridas e com a mídia. Mas não há muita coisa sendo feita na América Latina, o que é uma pena, pois há grandes oportunidades em países como o Brasil, onde é possível começar da maneira correta. Muitos novos investimentos em infraestrutura podem ser feitos à prova do clima. É muito mais barato do que fazer a adaptação depois que já estiver pronto. Temos uma oportunidade que os países desenvolvidos já perderam, que é começar na direção certa. Temos experiências e aprendizados de outros países, sabemos o que vale a pena fazer, então é só colocar em prática.

Agência FAPESP – Há quem diga que foi o próprio setor privado o responsável pelas mudanças climáticas.
Canevari – Podemos dizer que o setor privado é responsável pela maior parte das emissões de gases-estufa e a mudança climática é basicamente causada por eles. Mas estamos falando de apenas cerca de 20 grandes empresas, responsáveis por mais de 80% das emissões. A maioria é da área de óleo e gás, mineração e agricultura. Então, estamos falamos de um pequeno número de empresas em oposição a uma enorme gama de outras companhias que compõem o setor privado. Há uma enorme diversidade. Por que também não estamos culpando os governos por não criarem as regulamentações apropriadas para essas empresas? Muitos governos reduzem a rigidez de sua regulamentação para atrair essas empresas poluidoras. Penso que os governos também são responsáveis por permitir que essas empresas atuem como bem entendem. A empresa age de acordo com os seus interesses. Cabe ao governo regular essas atividades e garantir que estejam dentro de limites aceitáveis.

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