Pobre previsão do tempo (Folha de S.Paulo)

15/03/2013 – 03h01

Michel Laub

Num artigo publicado na Folha em 2010 (http://goo.gl/fLVDJ), João Moreira Salles discutiu a hipervalorização das humanidades no Brasil, em detrimento de disciplinas como matemática, física e engenharia. Um dos efeitos da distorção, acrescento, é a pouca familiaridade –do público, dos intelectuais, da imprensa– com o discurso técnico e científico. E, por consequência, a docilidade com que são aceitas falácias nessas áreas.

Exemplos: propaganda de governo (números para todos os gostos), dietas da moda (pesquisas com todo tipo de metodologia e patrocínio), tratamentos de saúde (custo-benefício muitas vezes discutível) e até planilhas de futebol (nas quais um volante que só dá passes curtos terá índice de acerto maior que um lançador vertical).

De minha parte, resolvi testar um discurso científico bastante presente no cotidiano: o da meteorologia. Durante 28 dias de janeiro último, anotei erros e acertos do “Jornal do Tempo” (http://jornaldotempo.uol.com.br).

Um trabalho leigo, por certo, e consciente de que o serviço em questão não é representativo do setor no país ou no mundo. A home page do “Jornal do Tempo” apresenta dados que são uma média, um resumo –como na previsão da TV– de registros mais detalhados, inclusive em algumas de suas páginas internas.

Ocorre que médias são a face pública da meteorologia, o tal discurso –em tom seguro e cordial– que nos orienta a escolher a roupa de manhã, a levar ou não o guarda-chuva. E aí, assim como alguma lógica basta para perceber furos em trabalhos estatísticos, não é preciso ser expert para afirmar que há muita imprecisão no ramo.

As temperaturas do meu caderninho quase sempre estiveram dentro dos intervalos previstos na véspera (23 em 28 ocorrências). Comparadas à previsão da semana anterior, o índice cai para 17 em 28. Se botarmos lado a lado o intervalo previsto sete dias antes e o previsto no próprio dia, há diferença em 28 de 28.

Já nas condições atmosféricas, cuja conferência é mais difícil –da minha casa em Pinheiros, não tenho como saber se fui traído por uma garoa enquanto dormia ou algo assim–, houve 15 erros em 28.

São coisas aparentemente sem importância: um ou dois graus a mais, sol durante algumas horas num dia “fechado e chuvoso, com poucas trovoadas”. Mas há reparos objetivos senão aos métodos de medição, ao menos à forma como o resultado é exposto.

Assim, cravar uma temperatura única numa cidade como São Paulo, com seus morros e depressões, paraísos verdes e infernos de concreto em 1,5 milhão de quilômetros quadrados, é inexato por princípio. Igualmente a previsão do tempo numa só frase, que contempla tanto o pé d’água rápido e inofensivo quanto o dilúvio e o caos, dependendo da estrutura do bairro onde se está (“sol, alternando com chuva em forma de pancadas isoladas”).

A questão fica mais complexa quando transcende o território do erro, que é humano e aceitável. E da própria meteorologia, aqui citada apenas como sintoma. A autoridade que emana do discurso científico não se limita a influenciar debates acadêmicos sobre química ou astronomia.

Trata-se, também, de um fenômeno das ciências humanas. Seus desdobramentos políticos, econômicos e morais na sociedade como um todo não são desprezíveis. Foram teorias racialistas que justificaram a escravidão. Foi uma doutrina de incentivo à competição tecnológica que criou as armas nucleares.

No caso do aquecimento global, a grande bandeira científica de hoje, antes de tudo há um imperativo de bom senso: é mais inteligente viver de forma harmônica com a natureza, com menos emissão de carbono, desmatamento e desperdício consumista. Também imagino que previsões de climatologia sejam mais precisas do que, digamos, as da moça que descreve as condições do Sudeste inteiro em dez segundos no “Jornal Nacional”. Mas é fato que a revista “Time” alertou sobre a “nova era glacial” em 1974. E deu uma capa célebre, dez anos depois, sobre a hoje contestada ligação entre infarto e gema de ovo.

Os dois textos reproduziam uma conjectura científica influente à época. É recomendável seguir as que o são hoje –afinal, é o que mais próximo temos de certezas fora do fanatismo religioso ou ideológico. Apenas é bom, como dúvida saudável, em qualquer área de conhecimento vendido como infalível, lembrar da pobre previsão do tempo.

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