>"O humor é uma conquista" (Diário do Nordeste)

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ENTREVISTA – MARCIO ACSERALD (1/8/2010)
Coordenador do Laboratório de Estudos do Humor e do Riso (Labgraça) e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Marcio Acselrad: “Tem muita gente que não tem o que comer e nem por isso vai ser mais infeliz, considero perigoso associar bem-estar a bens de consumo.” FOTO: KELLY FREITAS

Com um pé atrás. É dessa forma que o pesquisador Marcio Acselrad recebe a pesquisa que coloca o Brasil como o 12º mais feliz do mundo. Uma das críticas é quanto à associação entre felicidade e consumo. Ainda considera compatível rir e pensar

Podemos começar conversando sobre o resultado da pesquisa divulgada pela revista Forbes na qual o Brasil é considerado o 12º país mais feliz do mundo numa lista de 155 países. A que podemos atribuir esse grau razoável de felicidade ?

É muito comum, praticamente imediato na sociedade na qual se vive, associar felicidade a bem-estar material, conquistas de bens de consumo e serviços. O primeiro passo é quebrar essa linha de continuidade sobretudo entre consumo e felicidade. Acho que é uma característica típica do nosso tempo. Se voltarmos um pouco atrás, podemos perceber que, no passado, felicidade já esteve associada a inúmeras outras conquistas que não fossem bens materiais ou de consumo e produtos com tecnologia, cada vez mais, elaborada.

E como seria?

Houve filósofos na Antiguidade, inclusive, que faziam associação justamente ao contrário, à frugalidade e não necessidade de bens materiais. A pessoa seria mais feliz quanto mais soubesse viver com aquilo que se tem e não com o que não se tem. Nesse sentido, a sociedade de consumo faz exatamente o contrário. Não é uma máquina de produção de felicidade, mas uma máquina de produção de insatisfação, ela precisa muito mais da infelicidade constante para poder se alimentar. Levando tudo isso em consideração, não acho tão contraditório assim um país como o Brasil, apesar de todas as mazelas e de todas as dificuldades no campo material, consiga produzir seres muito felizes, isso é louvável.

Como o Brasil poderia tirar proveito dessa sua característica bastante particular, o otimismo, de acreditar sempre?

Por mais interessante que seja esse tipo de pesquisa, é preciso tomar muito cuidado. Da mesma forma que é muito difícil definir o que é felicidade. Tenho muita dificuldade com esses estereótipos. Quem é o brasileiro? São milhões de pessoas com características muito diferentes entre si. Ou mesmo o cearense que tem a fama de ser um humorista nato, é preciso levar em consideração outros fatores. Nem todo cearense é humorista e nem todo brasileiro é engraçado. Tem muito brasileiro melancólico, deprimido como existe em outras partes do mundo, mas acho que essa ideia de alegria, felicidade é algo a ser sempre conquistado e trabalhado individualmente. Outro perigo bastante ligado à sociedade de consumo, é que a alegria ou a felicidade no nosso mundo contemporâneo, meio enlouquecido, deixa de ser uma espécie de conquista e passa a ser uma espécie de obrigação. A pessoa tem que ser feliz, tem que estar alegre, disposto, e a vida não é assim, na realidade.

Felicidade e humor estão relacionados?

O humor é uma conquista. Tentar estar bem com o mundo, com você, com o trabalho e a função que exerce, sabendo que não adianta se esforçar a ser feliz porque todo mundo é. Na verdade, no fundo, no fundo, essa obrigação de felicidade tem a ver com produtividade e isso não é saudável. Porque a pessoa ser feliz é diferente de estar feliz porque assim produz mais, consome mais e alimenta a máquina, o que é contraditório. Isso não é felicidade propriamente dita. É uma felicidade imposta pelo sistema que, literalmente, não está preocupado com a felicidade das pessoas.

O que torna um povo feliz e como pode ser medido esse índice de felicidade? Ele varia de acordo com o nível sociocultural?

De forma nenhuma. Tem muito rico deprimido e muito pobre rindo à toa. Tem muita gente que não tem o que comer e nem por isso vai ser mais infeliz. Acho essa relação extremamente perigosa, associar bem-estar a bens de consumo, na realidade, é produção de falsa necessidade. Você não precisa exercer a sua felicidade através do cartão de crédito num shopping, a pessoa pode olhar para os produtos e perceber que não precisa de nada disso para ser feliz.

Como o povo brasileiro trabalha essa questão da razão e paixão? Seria essa a diferença ?

O humor tem uma relação, de uma certa maneira, com a racionalidade. No caso de uma piada, se você não entende não consegue achar graça dela. No geral, a maior parte do campo do humor está muito mais ligado a sentimentos, sensações. Costumo colocar o humor dentro de uma categoria estética junto com a arte. Ou seja, está mais ligado à sensibilidade do que à racionalidade. Nesse sentido, o que o meu laboratório propõe fazer é uma espécie de paradoxo, de contradição, que significa, estudar, tentar dar uma racionalidade no sentido de compreender os princípios que regem o humor, o riso, a comédia. Não é algo impossível de fazer, é até meio engraçado, tentar dar racionalidade para algo que é da ordem do emocional. Em princípio, uma racionalidade exagerada seria incompatível com o humor.

Para que serve o humor?

Serve para derrubar as pessoas e as instituições dos seus pedestais e mostrar que, no fundo, é todo mundo humano, mortal e que vai acabar na sepultura.

A partir desse contexto, o Brasil poderia produzir um pensamento e parar de apenas reproduzir e adaptar conceitos?

Acho que sim. Inaugurar, não, ele já existe, um pensamento mais leve, bem humorado. Uma boa referência sobre isso, não vem do Brasil, mas de um alemão: Nietzsche, o princípio máximo da racionalidade ocidental. Foi ele quem, no século XIX, disse que o mundo precisava de um pensamento leve, de uma ciência leve, de uma ciência que saiba rir e dançar. A influência ao longo dos séculos XX e XXI é inequívoca. Muita gente percebe a importância desse riso crítico, dessa associação entre o criticismo e o riso.

O senhor acha que a política faz bom uso deste traço ou tira proveito dessa situação?

Acho que são dois pontos diferentes. Um é a apropriação que os políticos ou a política fazem do humor que, no geral, tomando cuidado com generalizações, é inegável que é um uso forçado. O político usa do humor para ganhar votos e angariar popularidade. O outro sentido, este me interessa mais, é o uso do humor como crítica da estrutura política. O papel do humor é tirar os políticos do seu pedestal e mostrar que são humanos, erram e falam besteira como qualquer outra pessoa, trazendo um pouco de humanidade para a política, mas nem sempre isso é bem visto. Alguns políticos, ou devido ao próprio bom humor ou esperteza e prática política, conseguem fazer aliança com esse tipo de humor. É isso o que a gente ver o Lula fazendo a toda hora. E, quando acontece, a piada perde a graça quando há a conivência com o objeto do escárnio.

O fato de ser de terceiro mundo, colonizado, faz com que esse traço alegre ou otimista do brasileiro não seja bem aproveitado, podendo ser visto como algo menor, pejorativo, típico de um povo que não pensa?

Também acho muito difícil fazer essa relação porque existem muitos países que são colonizados e que não têm esse bom humor em relação ao fato de ser colonizado que lutam pela sua independência. O Brasil tem uma história muito particular, nunca precisou lutar pela sua independência que veio de cima para baixo. Mas acho muito curioso, no caso do Brasil, e que é muito propício ao exercício do humor, o fato da miscigenação, fazendo com que não tenha s muito identidade ou uma cara. Então ele é português, índio; mas é também japonês, árabe. Essa mistura é muito propícia porque coloca o Brasil na condição de não-lugar, que é muito bom como terreno para o surgimento do humor, um certo bom humor, mas isso não é garantia, mas costuma funcionar. Já que você não tem identidade, não tem uma cara muito própria e, além disso, é colonizado, pobre, o que a gente faz? Vamos fazer graça disso.

Mas não se corre o risco de rir da própria cara?

Esse é um risco muito salutar o rir de si. É um momento raro que considero como de esclarecimento. Rir de si mesmo já é começar a perceber que as coisas não são tão definitivas assim, tão sérias e que podem mudar. Quando se consegue rir, principalmente, da própria desgraça já começa a relativizar um pouco essa desgraça. Tanto que se diz, um dia a gente ainda vai rir de tudo isso no futuro. Isso significa que, quando a gente tomar distância do que está acontecendo no momento e refletir sobre a realidade, vai poder perceber que tudo não era tão ruim assim e fazer humor, rir. Pego o que é ruim e pelo riso consegue ver que não era tão ruim assim. É um jogo de criança.

Neste sentido, o riso não aliena as pessoas?

O riso serve para pensar. Não se trata de se alienar do mundo, muito pelo contrário, penso o humor como ferramenta de conhecimento do mundo e de autoconhecimento.

Então, humor e pensar são compatíveis?

São totalmente compatíveis, sendo necessária essa articulação. Rir é tão bom e pensar é também algo muito bom. Pensar é também uma coisa boa, não precisa ser chato, impenetrável. Pode ser alegre.

A felicidade é uma utopia ou é compatível com a sociedade contemporânea?

Utopia é sempre algo que não está aqui, mas em outro lugar. A ideia da utopia é de que não tenho agora, mas posso vir a ter no futuro, como por exemplo, a sociedade ideal, pode vir a ser alcançada. Aqui, temos um exemplo oposto, o humor não tem nada a ver com a utopia, pode ser atingido em qualquer momento, se estiver disponível a graça para a graça. É igual à beleza, ninguém sabe onde ela está, pode olhar para uma obra de arte num momento e achar feia, e, noutra, achar bela, por causa da abertura para aquela situação.

Essa “felicidade” do povo brasileiro pode estar associada às melhores condições de vida e políticas públicas?

Acho essas conquistas fundamentais e importantes, como se ter maior poder aquisitivo. Afinal, vivemos numa sociedade de consumo, é isso o que se tem para ser oferecido. Acho perigoso é fazer essa associação direta entre felicidade e consumir. Essa ideia de que a pessoa só é feliz se consumir. É uma associação fascista, não é uma permissão, é como se fosse uma obrigação. Você pode consumir porque tem melhor poder aquisitivo, para mim, isso não é felicidade.

Quem é Márcio Acselrad

Márcio Acselrad é graduado em Psicologia, mestre em Comunicação e doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor titular da Universidade de Fortaleza (Unifor) e professor horista da Faculdade 7 de Setembro. Suas pesquisas são desenvolvidas na área de Comunicação, com ênfase em Teoria da Comunicação e em Estética. Atua como pesquisador, sendo Coordenador do Labgraça e como curador e mediador do Cineclube Unifor. Márcio também é apresentador e mediador do programa de televisão Cineclube Unifor, exibido pela TV Unifor e pela TV Cultura do Ceará.

IRACEMA SALES
Repórter

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