>Política incerta, economia incerta, clima incerto

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A sucessão de catástrofes é casual ou causal?

Por Mario Soares*
IPS/Envolverde – 21/05/2010 – 10h05

Lisboa, maio/2010 – Até o próprio Pangloss, famoso personagem de Candide de Voltaire, apesar de seu imperturbável otimismo, se veria em dificuldades para enfrentar o mundo contemporâneo. A natureza e a humanidade deram rédeas aos seus respectivos demônios e ninguém pode detê-los. Em diferentes lugares, a Terra reage e nos assesta, sucessivamente: ciclones, maremotos, terremotos, inundações e, ultimamente, a erupção vulcânica na insular Islândia, que paralisou os aeroportos do norte e centro da Europa. Um espetáculo triste e jamais visto.

Trata-se de fenômenos naturais normais, dirão alguns, os menos avisados. Contudo, para aqueles que têm mais de oito décadas vividas, como é meu caso, e nunca viram nem tiveram conhecimento de nada semelhante a esta conjugação sucessiva de catástrofes, é prudente expor a dúvida: será que a mão inconsciente e imprevista do homem, que agride e maltrata o planeta e compromete seu equilíbrio natural, não tem uma boa dose de responsabilidade nestes fatos?

A recente Conferência de Cúpula sobre Mudança Climática em Copenhague, em dezembro passado, que deveria condenar e enfrentar o aquecimento global, resultou em fracasso devido ao suspeito acordo traçado na última hora por China e Estados Unidos. Por uma coincidência – ou talvez não –, estas duas grandes potências são os maiores contaminadores da Terra. A verdade é que conseguiram paralisar o grupo europeu – ao qual não deram a menor importância – e várias delegações procedentes de outros continentes, que esperavam resultados positivos da Conferência Mundial.

Talvez seja mais preocupante a aparição de alguns cientistas que adotam posturas abertamente contrárias ao pensamento e às advertências da esmagadora maioria dos ecologistas, já que afirmam que o aquecimento global não é causado pelas atividades humanas nem pelo abusivo emprego de combustíveis derivados dos hidrocarbonos. Afirmam e reiteram que se trata de um fato natural. Isto me faz pensar que há pessoas capazes de perseguir a todo custo a ganância e sobrepor a qualquer outra consideração a defesa de seus interesses imediatos sem que isso afete suas boas consciências… Se é que as têm.

Estou convencido de que na próxima Conferência Mundial sobre Mudança Climática a verdade científica prevalecerá e que as grandes potências serão obrigadas a respeitar as regras que objetivam conter radicalmente o aquecimento global.

Os riscos que pairam sobre o planeta não são apenas as catástrofes consideradas naturais que se sucedem com inquestionável e preocupante frequência. O terrorismo global continua causando estragos desde 2001, e atualmente são numerosas (excessivas, segundo meu ponto de vista) as nações que dispõem de armamento nuclear. É indispensável colocar um limite a isto. Neste sentido, o acordo que o presidente norte-americano, Barack Obama, conseguiu estabelecer com Rússia e China para reduzir os respectivos arsenais atômicos e obstruir a proliferação por parte de nações que ainda não os possuem – como é o caso do Irã – é um acontecimento notável e de projeções políticas e geoestratégicas extremamente positivas.

Em um mundo tão perigoso como o que nos cabe viver – basta pensar em todos os conflitos armados não resolvidos em todos os continentes –, é preciso reduzir drasticamente a venda livre de armas e propagar a Cultura de Paz, da qual é incansável promotor o ex-diretor-geral da Unesco, Federico Mayor Zaragoza. Ao mesmo tempo, deve-se evitar e controlar até onde for possível todas as formas de incitação à violência que os meios de comunicação, as televisões em particular, propagam constantemente (inconscientemente, ou não), no que não é exagerado qualificar como uma escalada inaceitável.

Todos os governos do mundo que se consideram Estados de Direito e que, portanto, devem respeitar e proteger os direitos humanos têm a consequente obrigação de adotar políticas e medidas para difundir a Cultura de Paz e repudiar, pedagógica e sistematicamente, todas as formas de violência que entram todos os dias em nossas casas para o bem de nossos descendentes e do futuro da humanidade.

Realmente, as ameaças que enfrentamos em nossa época provêm de diversas fontes: de uma política incerta e sem rumo claro, de uma economia sem regras e à espera de melhores dias – não sabemos quantos – para superar a crise, de uma sucessão de calamidades. Já é hora de a cidadania global abrir os olhos, reagir e exigir soluções. IPS/Envolverde

* Mário Soares é ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.

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