>A tragédia no Rio e o jornalismo participativo

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Leitores dão show de jornalismo

Por Larissa Morais, do Observatório da Imprensa
Envolverde/Observatório da Imprensa – 08/04/2010 – 11h04

O dia em que o Rio de Janeiro parou, submerso por chuvas de abril, entra para a história do jornalismo brasileiro como marco da participação dos leitores no noticiário. No fim da manhã, enquanto muitos jornalistas ainda tentavam chegar às redações, ilhados como tantos cariocas, sites de notícias já veiculavam fotos, vídeos amadores e depoimentos de cidadãos registrando o caos instalado em toda a cidade.

A força desse conteúdo levou ao noticiário áreas da cidade normalmente esquecidas pela grande imprensa: Pavuna, Olaria, Rocha Miranda, Niterói e São Gonçalo, entre outras. Sim, no dia em que a Lagoa Rodrigo de Freitas transbordou, Rocha Miranda teve um lugar na cobertura.

O site do Globo, que desde 2006 vem apostando no jornalismo participativo, inovou ao produzir, com a ajuda dos leitores, um mapa da devastação na cidade. A equipe de arte apontou no Google Maps pontos de alagamento, locais de acúmulo de lixo e lama, pontos de deslizamento e postos de doação. Navegando pelo mapa, era possível ter acesso a fotos e indicações de leitores e/ou jornalistas “da casa”. Dicas como “nessa rua a queda de uma árvore bloqueia a passagem de automóveis”, com a indicação do horário de envio ou atualização da informação.

Outro padrão

O Twitter do blog de Ricardo Noblat ganhou na terça-feira (7/4) 390 novos seguidores graças à rede informativa que criou para a troca de informações sobre as conseqüências das chuvas. Das centenas informações que chegaram, nenhuma estava errada – o que, nas palavras de Noblat, “derruba a idéia cultivada por muitos jornalistas de que leitores não jornalistas carecem de compromisso com a veracidade do que relatam”.

O G1 se destacou em relação ao outros sites pelo excelente aproveitamento dos vídeos produzidos pelos leitores (esclareço que nesse termo incluo também internautas, espectadores, ouvintes e quem mais vier). Ao fim do dia, o portal da TV Globo havia colocado no ar mais de 70 vídeos e 60 fotos de leitores – material claramente selecionado mais por seu valor informativo do que por sua qualidade técnica.

Foi curioso ver tantos vídeos tremidos, escuros e com som ruim no site da emissora conhecida internacionalmente pela alta qualidade técnica de seus produtos jornalísticos e de entretenimento. A produção dos leitores ficou ali, lado a lado com as imagens produzidas pela equipe da Globo. O “ibope” dos leitores foi tamanho que parte do material foi aproveitada em uma longa matéria levada ao ar no mais tradicional dos telejornais brasileiros, o Jornal Nacional.

O JN aproveitou flagrantes como o do motociclista que perdeu a moto em uma cratera sob a águas. De seus celulares e câmeras amadoras, os leitores deram conta de mostrar o que não era possível para uma única emissora ou site, simplesmente porque não havia como distribuir equipe em tantos lugares num espaço tão curto de tempo. A capilaridade que os cidadãos deram ao noticiário pesou mais do que o fato de seus registros fugirem a um padrão estético vigente.

Quem arrisca?

Acredito que a maior participação do público no noticiário já está alterando, e vai alterar ainda mais, a estética e as práticas produtivas do jornalismo mainstream, e o episódio de terça-feira reforça essa impressão. Vejo, por exemplo, a tendência a uma maior valorização do flagrante em relação ao pautado, e das narrações espontâneas – nas quais caibam as tensões do momento – em relação às roteirizadas. Ganham força ainda os relatos participativos dos leitores que fazem registros jornalísticos e dos jornalistas que se colocam como testemunhas dos acontecimentos, como os leitores.

Como fez na terça-feira o jornalista e apresentador Márcio Gomes, que deixou sua casa, na Fonte da Saudade, rumo à TV Globo, no bairro vizinho do Jardim Botânico, com uma câmera amadora na mão e uma pauta na cabeça. No trajeto foi gravando imagens, colhendo depoimentos e narrando impressões do alagamento da cidade, num registro que misturou o estilo que vem ganhando força com os leitores com o modelo jornalístico da emissora na qual fez carreira. A matéria foi ao ar no RJ TV, telejornal que ancora, e, mais tarde, veiculada em rede no Jornal Nacional.

Quem ainda se arrisca a estabelecer fronteiras rígidas para o jornalismo de hoje?

© Copyleft – É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

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