Jovens ‘biohackers’ instalam chips na mão para abrir a porta de casa (Folha de S.Paulo)

LETÍCIA MORI

DE SÃO PAULO

07/12/2014 02h00

Paulo Cesar Saito, 27, não usa mais chave para entrar em seu apartamento, em Pinheiros. Desde o mês passado, a porta “reconhece” quando ele chega. Basta espalmar a mão na frente da fechadura e ela se abre.

A mágica está no chip que ele próprio (com a ajuda de uma amiga que estuda medicina) implantou na mão. Pouco maior que um grão de arroz, o chip tem tecnologia de reconhecimento por radiofrequência. Quando está próximo, uma base na porta desencadeia uma ação pré-programada. No caso, abrir a fechadura.

Instalar modificações tecnológicas no próprio corpo é uma das atividades de um movimento que surgiu em 2008 nos EUA e é chamado mundo afora de biohacking: se envolver com experimentos em biologia fora de grandes laboratórios.

São basicamente os mesmos nerds que desenvolvem geringonças eletrônicas na garagem e se aprofundam no conhecimento de sistemas de informática. Só que agora eles se aventuram no campo da biotecnologia.

Os grupos de DIYBio (do-it-yourself biology, ou “biologia faça-você-mesmo”) importam conceitos do movimento hacker: acesso à informação, divulgação do conhecimento e soluções simples e baratas para melhorar a vida. E são abertos para cientistas amadores —jovens na graduação ou pessoas não necessariamente formadas em biologia.

Saito, por exemplo, começou a cursar física e meteorologia na USP, mas agora se dedica somente à sua start-up na área de tecnologia. O seu envolvimento com o biohacking se resume a modificações corporais –ele também vai instalar um pequeno ímã no dedo. “Como trabalho com equipamentos eletrônicos, tomo muitos choques. O ímã faz você sentir campos magnéticos, evitando o choque”, diz.

Já seu sócio, Erico Perrella, 23, graduando em química ambiental na USP, é um dos principais entusiastas da DIYBio em São Paulo. Ele também tem uma microcicatriz do chip que instalou junto com o amigo. O aparelhinho tem 12 mm de comprimento e uma cobertura biocompatível para que não seja rejeitado pelo corpo. A proteção impede que o chip se mova de lugar e, por não grudar no tecido interno, é de fácil remoção. Perrella também é um dos organizadores de um grupo de DIYBio que se encontra toda segunda-feira.

O movimento está começando na capital paulista, mas mundialmente já chama a atenção —há laboratórios em cerca de 50 cidades, a maioria nos EUA e na Europa. O grupo de Perrella trabalha para montar em São Paulo o primeiro “wetlab” de DIYBio: um espaço estéril, com equipamentos específicos para materiais biológicos.

Eles se reúnem no Garoa Hacker Clube, espaço para entusiastas em tecnologia. O local, no entanto, tem infraestrutura voltada para projetos com hardware, eletrônica etc. “Para um wetlab’ é preciso uma área limpa, que parece mais uma cozinha do que uma oficina”, diz o estudante de química Otto Werner Heringer, 24, integrante do grupo. “O Garoa já tem uma área assim, nossa ideia é levar e deixar mais equipamentos [no local]”

Aproveitar espaços “geeks” é comum no movimento. O Open Wetlab de Amsterdam, por exemplo, começou como parte da Waag Society, um instituto sem fins lucrativos que promove arte, ciência e tecnologia.

Certos experimentos exigem equipamentos complexos, que podem custar milhares de dólares. “A solução é montar algumas coisas e consertar equipamentos velhos que a universidade iria jogar fora”, explica Heringer.

Grande parte dos biohackers se dedica mais à montagem dos equipamentos do que a experimentos. Heringer já fez uma centrífuga usando uma peça impressa em 3D encaixada em uma furadeira. Agora está montando um contador de células. Ajudado por amigos, Perrella criou biorreatores com material reciclado de uma mineradora.

Para esses jovens entusiasmados, são grandes as vantagens de fazer ciência fora da academia ou da indústria.

Longe do controle minucioso da universidade, é possível desenvolver projetos sem a aprovação de diversos comitês e conselhos. “O ambiente [acadêmico] é muito engessado. Você fica desestimulado”, diz Heringer.

O trabalho dos amadores acaba até contribuindo para a ciência “formal”. Heringer está criando com amigos uma pipetadora automática no InovaLab da Escola Politécnica da USP baseada em um projeto de DIYBio e financiada por um fundo de ex-alunos. “A gente nunca conseguiria financiamento pelos meios normais da USP. E, se conseguisse, ia demorar!”, diz ele.

SEGURANÇA

O amplo acesso gera preocupações: laboratórios amadores não poderiam criar organismos nocivos? Defensores dizem que, para quem pratica DIYBio, interessa manter tudo dentro dos padrões de segurança –se algo der errado, o controle vai aumentar e tornar a vida mais difícil.

Não existe no Brasil uma regulação para laboratórios amadores. Nos EUA, o FBI monitora o movimento e há restrições ao uso de alguns materiais, porém não há regulação específica.

O cientista francês Thomas Landrain, que estuda o movimento, argumenta em sua pesquisa que os espaços ainda não têm sofisticação suficiente para gerar problemas.

Mas, apesar da limitação técnica, os laboratórios permitem inúmeras possibilidades. “Quem se dedica tem uma crença profunda no potencial transformador dessas novas tecnologias”, explica Perrella, que tem um projeto de mineração com uso de bactérias. Há grupos que focam a saúde, criando sensores de contaminação em alimentos ou “mapas biológicos” que podem monitorar a evolução de doenças.

É possível trabalhar com DNA Barcode, método que identifica a qual espécie pertence um tecido. “Daria para checar qual é a carne da esfirra do Habib’s”, diz Perrella, citando um experimentocom análise de carne que já está sendo feito no OpenWetlab, em Amsterdam. Dá até para descobrir qual é o vizinho que não recolhe o cocô do cachorro. Foi o que fez o alemão Sascha Karberg, comparando pelo de cães da vizinhança com o “presente” à sua porta. O método usado em projetos como esse pode ser encontrado por outros “biohackers”. O risco é aumentar as brigas entre vizinhos.

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