Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil
Atualizado em 2 de dezembro, 2011 – 09:46 (Brasília) 11:46 GMT

Uma exposição em Paris mostra como seres humanos considerados “exóticos, selvagens ou monstros” foram exibidos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente. Na foto, cartão postal com “um pequeno grupo de peles vermelhas”, exibidos em 1911. Foto: Grupo de Pesquisas Achac, Coleção Particular
Uma exposição no museu do Quai Branly, em Paris, mostra como seres humanos considerados “exóticos, selvagens ou monstros” foram exibidos durante séculos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente.A exposição Exibições – A Invenção do Selvagem indica, segundo os organizadores, que esses “espetáculos” com índios, africanos e asiáticos, além de pessoas portadoras de deficiência, que tinham o objetivo de entreter os espectadores, influenciaram o desenvolvimento de ideias racistas que perduram até hoje.”A descoberta dos zoológicos humanos me permitiu entender melhor por que certos pensamentos racistas ainda existem na nossa sociedade”, diz o ex-jogador da seleção francesa de futebol Lilian Thuram, um dos curadores da mostra.Thuram, campeão da Copa do Mundo de 1998 pela França, criou uma fundação que luta contra o racismo. Ele narra os textos ouvidos no guia de áudio da exposição.”É difícil acreditar, mas o bisavô de Christian Karembeu (também ex-jogador da seleção francesa) foi exibido em uma jaula como canibal em 1931, em Paris”, diz Thuram.A exposição é fruto das pesquisas realizadas para o livro Zoológicos Humanos, do historiador francês Pascal Blanchard e também curador da mostra.
Medição de crânios
A exposição reúne cerca de 600 obras, entre fotos e filmes de arquivo, além de pôsteres de “espetáculos” e objetos usados por cientistas no século 19, como instrumentos para medir os crânios.Nesse período, se desenvolveram noções sobre a raça e o conceito de hierarquia racial, com teses de que os africanos seriam o elo que faltava entre o macaco e os homens brancos ocidentais, ou o “homem normal”, como consideravam os cientistas.A exposição começa com as primeiras chegadas de povos “exóticos” à Europa, trazidos pelos exploradores, como os índios tupinambá, do Brasil, que desfilaram, em 1550, para o rei Henrique 2º em Rouen, na França.Pessoas com deformações físicas e mentais também serviam de atração para as cortes europeias na época.No início do século 19, a exibição de “selvagens” deixou de ser reservada às elites, com o surgimento de “shows étnicos”, que ganharam força com o desenvolvimento da antropologia e a conquista colonial.Londres, que apresentou uma exposição de índios brasileiros Botocudos em 1817, tornou-se a “capital dos espetáculos étnicos”, seguida pela França, Alemanha e Estados Unidos.A exibição em Londres, em 1810, e em Paris, em 1815, da sul-africana Saartje Baartman, conhecida como “Vênus Hotentote” (nome pelo qual sua tribo era conhecida à época), que tinha nádegas proeminentes, marcou uma reviravolta nesse tipo de apresentação.
Indústria de espetáculos
Esses “shows” se profissionalizaram com interesse cada vez maior do público, tornando-se uma indústria de espetáculos de massa, com turnês internacionais.Em Paris, um “vilarejo” africano foi montado próximo à Torre Eiffel em 1895, com apresentações sensacionalistas de mulheres quase nuas e homens tidos como canibais.”É em um contexto expansionista das grandes potências ocidentais e de pesquisa desenfreada dos cientistas que essas exibições vão ganhar legitimidade necessária para existir”, afirmam os organizadores da mostra.Eles dizem que os espetáculos de “diversão” serviam também como instrumento de propaganda para legitimar a colonização.O apogeu dessas exibições ocorreu entre 1890 e os anos 1930.Depois disso, os “shows étnicos” deixaram de existir por razões diversas: falta de interesse do público, surgimento do cinema e desejo das potências de excluir o “selvagem” da propaganda de colonização.A última apresentação desse tipo foi realizada em Bruxelas, em 1958. O “vilarejo congolês” teve de ser fechado devido às críticas na época.Segundo os organizadores da mostra, mais de 1 bilhão de pessoas assistiram aos espetáculos exóticos realizados entre 1800 e 1958.A exposição fica em cartaz no museu do Quai Branly até 3 de junho de 2012.

Índios Galibi, que vivem no Oiapoque (entre o Brasil e a Guiana Francesa), são exibidos em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Sul-africanas da tribo khoisa (ou hotentote, como era conhecida) como Strinée (foto), com nádegas extremamente proeminentes, eram exibidas como atrações na Europa no fim do século 19. A mais famosa foi Saartje Baartman, a “Vênus Hotentote”, exibida em Londres em 1810 e em Paris em 1815. Foto: Louis Rousseau / Museu do Quai Branly

Os organizadores da mostra afirmam que os espetáculos também serviam como propaganda para legitimar a colonização. Na imagem, tribo Boschiman (de Botswana, Namíbia e África do Sul) é exibida na França. Foto: coleção de antropologia do príncipe Roland Bonaparte/Museu do Quai Branly.

A exposição reúne cerca de 600 obras, entre fotos, filmes de arquivo, pôsteres de “espetáculos” e demais objetos. Na imagem, o apresentador de shows “excêntricos” Guillermo Antonio Farini posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres. Foto: Pitt Rivers Museum, Universidade de Oxford.

Pessoas com deformações mentais e físicas também serviam de atração para o público europeu, como o ‘homem-cachorro’, que sofria de hiperpilosidade. Foto: Museu do Quai Branly

Tribo Nyambi é exibida no jardim zoológio da Acclimation de Paris, em 1937. Foto: grupo de Pesquisas Achac, coleção particular

Cartão postal apresenta javanesas Kapong na Exposição Universal de Paris de 1889, que marcou a inauguração da Torre Eiffel. Foto: grupo de Pesquisas Achac, coleção particular

Mulher da etnia Achanti, de Gana, é exibida no jardim zoológico da Acclimation de Paris, em 1903. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular.

Em 1895, o fotógrafo Joannès Barbier organizou uma exibição no Champs de Mars, em Paris, de 350 pessoas senegalesas e sudanesas. Barbier realizou três exposições “reconstituindo” vilarejos africanos. Foto: Joannès Barbier, Museu do Quai Branly

Pôster do Circo Robinson anuncia um espetáculo com ‘povos selvagens’, afirmando ser a maior exibição do século. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular

Livro intitulado ‘As Raças Humanas’, de 1921. Foto: grupo de pesquisas Achac, coleção particular