Arquivo mensal: novembro 2023

Dodô Azevedo: Guimarães Rosa explica os horrores de 2023 (Folha de S.Paulo)


Folha de S.Paulo

12.11.2023

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais —a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!”

Reflete Riobaldo Tartarana, mistura de jagunço, miliciano, soldado e terrorista, protagonista de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Trata-se de um sujeito atormentado com a natureza horrível do ser humano. A obra-prima decolonial do escritor brasileiro é sobre o caráter indomável e não binário do bem e do mal e a surpresa de que a virtude e o indefensável não são atributos do divino. São constituintes e condições da mente humana.

Mais um trecho do livro: “O diabo vige dentro do homem, os crespos do homem —ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum”. Há um vício acadêmico em domesticar o próprio texto de Rosa, relacionando o que foi escrito à época ao país, à língua.

Não. Como “Ulysses”, do irlandês Joyce, ou “O Bebedor de Vinho de Palma”, do nigeriano Amos Tutuola, “Grande Sertão: Veredas” não pertence a um tempo ou espaço. Ou melhor, transforma, como os dois romances citados, tudo no tempo e espaço proposto na obra.

Em Guimarães Rosa, tudo é sertão. Principalmente dentro de nós —a grande contribuição ontológica e terapêutica do livro para quem, como tanta gente em 2023, anda abismado, chocado e confuso com os horrores que somos capazes de cometer. A recém-lançada adaptação de “Grande Sertão: Veredas” para o cinema, dirigida por Bia Lessa, chama-se “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”. É o que nós somos, é onde estamos. Procurando nos posicionar diante fatos e narrativas, como o miliciano diletante Riobaldo.

Segue outro trecho: “Eu, quem é que eu era? De que lado eu era? Zé Bebelo ou Joca Ramiro? Hermógenes ou Reinaldo… De ninguém eu era. Eu era de mim. Eu, Riobaldo. Medo. Medo que maneia”. Tentamos nos vitimizar, procurando convencer a nós mesmos que somos consumidos pelo medo. Mas o que acontece é o contrário. Nós consumimos o medo como dependentes químicos que todos somos dele.

O medo é uma commodity que a tudo impulsiona. A mídia, a indústria de remédios, a indústria de armamentos, religiões, ideologias. É com prazer escondido que procuramos “o meio do redemunho”. Entender isso é o que Guimarães Rosa quis dizer com “aumentar a cabeça para o total”. Nós destruímos, nós apavoramos, nós construímos, nós encantamos. Somos nós. Não há culpa ou responsabilidade externa a nós. Na beleza e na feiura (como se essa visão binária de mundo fosse possível). É a nossa jornada conjunta. Não binária. Decolonial.

Como Guimarães termina seu infinito romance: “Diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

Caça de subsistência tem baixo impacto sobre biodiversidade de Unidades de Conservação na Amazônia (Pesquisa Fapesp)

agencia.fapesp.br

FAPESP

04 de outubro de 2023


Pesquisa feita em UCs de uso sustentável aponta que redução do número de indivíduos é maior em até 5 km das populações humanas; porém, é possível minimizar os efeitos negativos com estratégias de manejo

Foram instaladas 720 armadilhas fotográficas em 100 comunidades locais, dentro e fora de nove áreas protegidas de uso sustentável (foto: Ricardo Sampaio)

Luciana Constantino | Agência FAPESP – A existência de comunidades ribeirinhas e tradicionais em reservas extrativistas da Amazônia Legal não configura um risco para espécies de aves e mamíferos consideradas alvos de caça para subsistência, como mostra pesquisa publicada na revista Biological Conservation.

Porém, o estudo sugere que, para diminuir os efeitos negativos da caça de subsistência, seria importante promover estratégias de manejo, entre elas reduzir o consumo local de espécies sensíveis – como anta, queixada e mutum – e coibir o comércio de carne de caça nas áreas urbanas, priorizando principalmente comunidades locais mais próximas das cidades e em regiões de florestas de terra firme, onde a pesca em água doce e outras fontes de proteína aquática são escassas ou inexistentes.

Fruto do doutorado do analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Ricardo Sampaio, o trabalho mostrou que a redução da chamada “abundância” (uma espécie de contagem do número de indivíduos das espécies) ocorre até 5 quilômetros (km) de distância a partir das comunidades humanas.

Para o trabalho, foram usadas 720 armadilhas fotográficas em 100 comunidades locais, dentro e fora de nove áreas protegidas de uso sustentável – sendo cinco reservas extrativistas (Resex), duas reservas de desenvolvimento sustentável (RDS) e duas florestas estaduais – na região centro-oeste da Amazônia brasileira.

Geraram registros de 29 espécies de mamíferos e aves, pesando mais de cinco quilos, entre elas pacas, antas, mutuns e jacus. Em áreas onde a população desenvolve ou tem acesso a manejo sustentável de pescados, como é o caso do pirarucu na região do Médio Purus e do rio Juruá, no Estado do Amazonas, a tendência é de redução da pressão de caça sobre as espécies terrestres.

“O principal resultado do trabalho é que o fator mais relevante para alterar a diversidade, a abundância e a biomassa das espécies é a distância em relação à comunidade. Mesmo assim, detectamos que as comunidades humanas têm um impacto reduzido na biodiversidade, desmistificando algumas discussões que questionam o papel de unidades de conservação de uso sustentável para a proteção da biodiversidade. O manejo de base comunitária da fauna pode ser um caminho para garantir a segurança alimentar dessas pessoas, além de proteger a biodiversidade”, diz Sampaio à Agência FAPESP.

Os resultados foram publicados em meio à retomada do protagonismo da Amazônia nas questões ambientais e do lançamento da Declaração de Belém, que estabelece entre seus pontos o “aumento das reservas de vegetação nativa mediante incentivos financeiros e não financeiros e outros instrumentos para a conservação”. O documento foi assinado em agosto pelos líderes dos países integrantes da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) durante a Cúpula da Amazônia, realizada no Pará.

“Resultados práticos, como os que obtivemos na pesquisa, ajudam a criar ambientes de discussão e processos institucionais para lidar com um tema que é tabu no Brasil – a caça de subsistência. Agora o desafio é sensibilizar os gestores sobre esses resultados e trazê-los para a prática”, avalia Sampaio.

O trabalho recebeu apoio da FAPESP por meio de projeto coordenado pelo pesquisador Ronaldo Gonçalves Morato, ex-coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do ICMBio. Morato e seu grupo já haviam publicado outro artigo mostrando que a distância de centros urbanos e a disponibilidade de proteína de origem aquática são os fatores que mais influenciam na avaliação de como moradores de Unidades de Conservação (UCs) percebem a sustentabilidade da caça nesses locais (leia mais em: agencia.fapesp.br/38547).

Também assinam o artigo publicado na Biological Conservation o professor Adriano Garcia Chiarello, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), e Carlos Augusto Peres, da University of East Anglia (Reino Unido). Peres recebeu o prêmio Frontiers Planet, que elegeu os três melhores artigos científicos do mundo na área ambiental nos últimos três anos. O trabalho premiado foi divulgado na revista PNAS.

Pressões

Os pesquisadores destacam que o trabalho representa um dos esforços de maior escala usando armadilhas fotográficas para examinar as respostas da população de vertebrados à caça em regiões da floresta tropical com maior biodiversidade do mundo, a Amazônia.

O grupo aponta que a redução de animais é fruto da maior pressão de caça próximo às comunidades. Contudo os impactos negativos nas florestas ao redor, tais como maior incidência de fogo, extração de madeira e presença de cachorros domésticos utilizados para a caça também podem repelir os animais próximo às comunidades, conforme registrado para 13 espécies avaliadas.

Nesse sentido, o pesquisador conta que o estudo já rendeu resultado prático. Quando o grupo estava fazendo o trabalho de campo em uma comunidade da região do Rio Liberdade (Resex Riozinho da Liberdade), no Acre, os moradores locais discutiam a efetividade de um acordo local para a caça de subsistência, mas divergiam sobre o uso ou não de cachorros para a atividade.

Os cientistas instalaram então as armadilhas em ambas as margens do rio, onde o uso de cães era permitido (margem direita) e a outra (margem esquerda) sem essa técnica. Ao recolher as imagens e apresentar à comunidade, viram que havia mais animais selvagens, chamados pelos próprios moradores locais de “bichos de carne de caça” ou simplesmente “caça”, onde o cachorro não era empregado. “Na reunião havia mulheres, crianças, lideranças locais. Mesmo morando em áreas de floresta, muitos viram pela primeira vez algumas espécies animais por meio das imagens das armadilhas”, lembra Sampaio.

Ele conta que depois de alguns meses recebeu uma minuta de reunião em que as imagens subsidiaram a decisão coletiva de não usar mais os cachorros de caça na comunidade. “Posteriormente essa decisão foi adotada no plano de manejo da unidade de conservação, que tem as regras definidas pela própria comunidade. Esse foi um resultado positivo na tomada de decisão local e na conservação da biodiversidade”, comemora o pesquisador, que defende aliar o conhecimento científico ao tradicional das populações locais, especialmente ribeirinhos e indígenas.

De acordo com a legislação, as reservas extrativistas são espaços territoriais que visam assegurar a proteção dos meios de vida e a cultura de populações tradicionais, como ribeirinhos, indígenas e quilombolas, bem como assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da área.

As populações desses locais podem ter sua fonte de renda baseada no extrativismo e, de modo complementar, na agricultura de subsistência e criação de animais de pequeno porte. As áreas das Resex são do poder público e é proibida a prática da caça amadora ou profissional.

O artigo Vertebrate population changes induced by hunting in Amazonian sustainable-use protected areas pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0006320723003075.

‘Accelerator’ Artissima marks its 30th anniversary (The Arts Newspaper)

Italy’s leading contemporary art fair embraces its ‘start-up’ ethos

Franco Fanelli

1 November 2023

Original article

The Artissima fair, at the Oval Lingotto in Turin, features 181 galleries from 33 countries this year, including 39 newcomers mostly from outside Italy
Edoardo Piva
The Artissima fair, at the Oval Lingotto in Turin, features 181 galleries from 33 countries this year, including 39 newcomers mostly from outside Italy
Edoardo Piva

Artissima, Italy’s leading contemporary art fair, has often looked to the future and sometimes even anticipated it, both by identifying emerging trends, artists and galleries, and by foreshadowing developments of the art fair model. In 2007, when Andrea Bellini succeeded the fair’s founder, Roberto Casiraghi, Artissima became the first contemporary art fair to employ a director from the curatorial world—a now increasingly common practice. The fair’s current director, Luigi Fassi, who was appointed in 2022, heads up Artissima’s landmark 30th edition this month, which will see 181 galleries (58% foreign) from 33 countries exhibit at the Oval Lingotto arena on the outskirts of Turin. Longstanding participants include Jocelyn Wolff, from Paris, and Lia Rumma, from Milan. They will join 39 newcomers, including Good Weather (Little Rock, Chicago), Cristina Guerra (Lisbon), Meyer*Kainer (Vienna), Raster (Warsaw), The Sunday Painter (London) and Unit 17 (Vancouver).

The Art Newspaper: Each edition of Artissima typically has a theme. But why give a theme to an event whose primary objective is commercial?

Luigi Fassi:This year’s theme is “Relations of Care” and comes from a 2022 text by Renzo Taddei—one of the most authoritative contemporary anthropologists in Latin America and beyond. Establishing “relations of care” is what Artissima has done for almost 30 years, within several art professional communities in Turin: the gallery owners, artists of course, curators, journalists, museum directors and also the collectors and aficionados who have now, through several generations from 1994 to 2023, developed their passions into vocations. All of them have made the city’s interest in art evolve in an increasingly sophisticated way.

The theme of this year’s Artissima, which is directed by Luigi Fassi, is “Relations of Care”
Alessandro Peirone

This year, the historic section, Back to the Future, looks to the 1950s but focuses only on female artists.

Back to the Future is jointly curated by Francesco Manacorda (the newly appointed director of the Castello di Rivoli contemporary art museum in Turin)—who was the director of Artissima in2010 and 2011, and who founded the this section—and Defne Ayas, a curator of Turkish origin, based in Berlin. They are focusing their attention on geographical areas that are, above all, far removed from traditional Modernism or Western Modernisms, such as the Middle East and North Africa. Manacorda and Ayas are identifying female artists who developed extremely innovative work, which has directly influenced future generations of artists in those countries. It is a section that this year, as it has been in the past, strongly demonstrates the ability of the fair to engage institutions and exhibition curators—it is a section that we could imagine being able to catapult straight into a museum.

Why do you often call Artissima an “accelerator”?

Artissima is first and foremost a market fair that has nevertheless become an institution due to its ability to create content, i.e. ideas and projectsbuilt directly with the artists. This term “accelerator” comes from the fair’s ability to respond to many needs, those of the collector who wishes to discover unknown galleries and artists, the curators and museum directors who need stimuli to compose the exhibition calendar of their institution. For this reason we have 39 galleries taking part in Artissima for the first time, most of them non-Italian. Last year there were 40. This produces novelty and continued attraction. I like to think of Artissima as an art world start-up for these types of galleries.

Artissima’s satellite shows outside the Oval Lingotto often cause concern among gallerists, who fear their customers will be distracted by the amount of things to see away from their stands.

It is essential for the fair to expand itself inside the Oval as well as outside the Oval, through thinking with the artists and the galleries. The exhibition The Human Condition by the Italo-Brazilian curator Jacopo Crivelli Visconti, at the Gallerie d’Italia, is dedicated to works by artists represented by the Artissima galleries, providing an extra opportunity for the artists and the dealers themselves.

We could give other examples in this sense. But everything is designed not to create distraction, but rather to deepen what is seen at the Oval.

Artissima, Oval Lingotto, Turin, 3-5 November