>Testes genéticos e a compreensão popular dos fenômenos probabilísticos

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Teste genético chega à farmácia

Fernando Eichenberg
O Globo, 13/5/2010 – reproduzido no Jornal da Ciência (JC e-mail 4009)

EUA começam a vender polêmicos exames para detectar risco de doenças

A partir de na sexta-feira (14/5), além de aspirina, vitamina C ou pasta de dente, os americanos poderão comprar na farmácia da esquina testes genéticos personalizados, que prometem indicar o risco de contrair 23 doenças, como os males de Alzheimer e Parkinson, câncer de mama, leucemia ou diabetes.

Isso será possível em cerca de 6 mil das 7,5 mil lojas da rede Walgreens, uma das duas maiores dos EUA. É a primeira vez que testes de análise de DNA estarão disponíveis para consumo de massa.

A iniciativa é da Pathway Genomics, uma empresa de San Diego. Os kits, chamados de Insight Saliva Collection, ao preço unitário entre US$ 20 e US$ 30, têm um recipiente de plástico e um envelope padrão, pelo qual a saliva coletada é enviada a um dos laboratórios para análise. Após a remessa, é necessário pagar um valor adicional, no site da empresa, pelos tipos de testes de DNA desejados.

Por US$ 79, são avaliadas as reações do organismo a substâncias como cafeína, drogas de redução do colesterol ou tamoxifeno, usado no tratamento do câncer de mama. Por US$ 179, futuros pais poderão conhecer a probabilidade de serem portadores de 23 problemas genéticos, como diabetes ou talassemia beta (um tipo de anemia), passíveis de transmissão aos seus filhos. Pelo mesmo preço, são testados riscos pessoais referentes a ataques cardíacos, câncer do pulmão, leucemia ou esclerose múltipla. Para aqueles dispostos a desembolsar ainda mais, por US$ 249 é possível fazer todos os testes disponíveis.

Especialista diz que testes são nocivos

A chegada dos testes genéticos às farmácias causou polêmica. A Pathway Genomics alega que, embora não sejam definitivos, os resultados fornecidos pelas análises poderão estimular as pessoas a mudar de hábitos e a adotar atitudes mais saudáveis em suas vidas. Nem todos concordam. Para Hank Greely, diretor do Centro de Direito e de Biociências da Universidade de Stanford, trata-se de uma péssima ideia. Segundo ele, para a grande maioria das pessoas, as informações genéticas não serão de grande valia e poderão, inclusive, ser mal interpretadas, provocando sérios riscos. Ele dá o exemplo de uma mulher que descobre, pelos testes, não ter a mutação nos genes relacionada ao câncer de mama.

– Ela pode concluir que está salva. Mas o que isso significa? Que você não tem 70% de chances de ter câncer de mama, mas ainda está acima da média de risco de 12%. Ela poderá decidir parar de fazer exames, o que será um enorme erro – explica.

Greely cita também o caso de alguém que é informado possuir o dobro de propensão para sofrer da doença de Alzheimer.

– Talvez essa pessoa não vá cometer suicídio, mas poderá ter sua vida alterada com esse dado. Ela não irá perceber o fato de que ter 20% em vez de 10% de possibilidade de sofrer de Alzheimer significa que em 80% do tempo ela viverá como alguém que não terá a doença – pondera.

Para o especialista, um dos maiores perigos dessa nova iniciativa é a falta de aconselhamento médico na hora de fornecer os resultados.

– Por US$ 99 a hora, você pode telefonar para um número que está no site da empresa para fazer consultas sobre o seu teste, mas é claro que a maioria das pessoas não vai pagar por isso – ressalta.

Por essa razão, embutida em sua legislação, o Estado de Nova York não permitirá que os kits sejam vendidos nas farmácias locais. O FDA, órgão do governo americano que regulamenta o mercado de remédios e alimentos, anunciou que está avaliando o caso e dará um parecer em breve. Mas a ideia já inspirou a CVS, cadeia de farmácias concorrente da Walgreens, que promete também vender seus kits genéticos a partir de agosto.

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