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A arte do (des)encontro

Parceria entre cientistas e jornalistas em prol da cultura científica ainda está distante

Mariluce Moura, de Madri e Brasília
Pesquisa FAPESP, Edição Impressa 172 – Junho 2010

Ainda que jornalistas sejam na origem generalistas por definição, hoje estão se acumulando as evidências de que os profissionais do jornalismo científico em toda parte – e não apenas nos paí­ses de tradição anglo-saxônica – investem mais e mais na estratégia do aperfeiçoamento contínuo para exercer seu ofício com o necessário rigor, espírito crítico e, claro, um grau de conhecimento indispensável do campo que é objeto de suas narrativas. Nessa busca valem tanto os caminhos tradicionais da pós­-graduação que permitem refletir e investigar com apoio teórico e mais profundamente sua própria prática quanto as oficinas e workshops de caráter mais pragmático que se propõem, por exemplo, a ampliar em curto prazo a competência dos jornalistas no manejo das bases de dados de produção científica, na separação do joio e do trigo – diga-se, ciência e pseudociência – dentro da vastidão da web e nas vias de articulação possíveis e eficazes entre redes sociais e jornalismo, entre outros temas. E é possível que essa tendência se expanda, com novos apoios institucionais, a julgar por uma das principais recomendações do seminário “A cultura e a ciência narradas pelos jornalistas: desafios e oportunidades”, realizado de 20 a 22 de abril passado, em Madri: dar alta prioridade à formação e ao aperfeiçoamento contínuo dos jornalistas voltados para a ciência e a cultura, ampliando-se os mecanismos de bolsas e outras formas de financiamento para tanto nos países ibero-americanos.

Depois de dois dias e meio de debates intensos levados a cabo por quase meia centena de jornalistas, professores, pesquisadores e produtores culturais da Espanha e de vários países da América Latina – o Brasil entre eles –, essa recomendação, assim como a de procurar as conexões entre cultura, ciência e tecnologia no jornalismo, a de se adaptar o trabalho jornalístico aos novos formatos que a internet oferece e a de formar uma ampla rede de cooperação de jornalistas de ciência e de cultura na web, tinha o respaldo das instituições por trás do seminário. Eram elas a Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), por quem falou seu secretário-geral, Alvaro Marchesi, e a Fundação Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI), representada por seu diretor-geral, Jaime Abello, com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação para o Desenvolvimento (Aecid), da Agência Efe e Escola de Jornalismo UAM-El País.

Vale dizer que essas recomendações consensuais foram construídas a despeito de toda a diferença entre as experiências de jornalismo científico e cultural apresentadas e mesmo das divergências conceituais profundas que se explicitaram. Assim, se para alguns jornalistas a internet e a democratização da produção de conteúdos via web representam uma ameaça à própria existência de sua profissão, para outros, como o diretor adjunto do respeitado jornal espanhol El País, Gumersindo Lafuente, constituem um belo desafio à quase reinvenção do jornalista. “Nossa narrativa foi sempre conectada com a realidade e hoje a realidade está nas ruas e está na rede. Como jornalistas, temos que contar o que se passa também na rede”, disse ele. Observou que não estamos mais em tempo de esperar que as pessoas vão em busca dos meios de comunicação, e sim em tempo “de irmos com nossas histórias aos lugares em que se está falando dos temas que tratamos na internet”. Lafuente destacou que mais que nunca é fundamental o papel do jornalista independente, capaz de filtrar o que tem valor e de contrastar a informação no mar fervilhante da internet. E ainda apostou que, como num ambiente darwiniano, “as plataformas da internet que tenham qualidade, sejam blogs ou twitters, se converterão em marcas, enquanto os meios que já são marcas só vão sobreviver se conservarem sua qualidade”.

Divergências também se levantaram em torno da propriedade ou impropriedade de um caráter mais literário nas narrativas do jornalismo científico. Se para María Ángeles Erazo, diretora do Centro de Estudos sobre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Inovação de Otovalo, no Equador, e Liliana Chávez, jornalista da revista mexicana Día Siete, é necessário hoje experimentar novos gêneros para contar de forma atraente e mais literária fatos do campo da ciência, a jornalista Milagros Pérez Oliva, professora da Escola de Jornalismo UAM-El País e ombudsman de El País, vê nessas tentativas “um perigo para o jornalismo e seus profissionais, além de uma contaminação narrativa”, uma vez que “a linguagem jornalística é objetiva”.

A propósito, Milagros, ao participar no dia anterior da mesa-redonda sobre “divulgação do conhecimento científico e as indústrias da ciência” (que incluiu a apresentação sobre a experiência de Pesquisa FAPESP), observara que “a notícia científica tem um grande valor quando bem elaborada, porque gera opinião e conhecimento, mas é a mais arriscada quando malfeita e tendenciosa porque pode provocar danos sociais pelos quais vamos todos pagar”. Em sua visão as portas do jornalismo estão cada dia mais abertas para a pseudociência, o que exige, em especial na informação digital, contenção e comprovação.

No meio das discussões pairava alguma coisa da fala do professor José Manuel Sánchez Ron, catedrático de história da ciência na Universidade Autônoma de Madri, na conferência inaugural do encontro. “Cultura e ciência são parte da vida intelectual, mas entre elas existe uma mútua incompreensão, hostilidade e antipatia.” Os meios de comunicação, além de informar, em sua visão, devem educar ao tratar da ciência – com o que dificilmente algum jornalista concordará em termos estritos. “O jornalista, além de crítico e rigoroso no desempenho de sua função, não deve renunciar à imaginação e à boa escrita, para fazer da ciência precisamente algo interessante e oportuno”, disse ele. E ainda: “É importante escrever bem, com graça e originalidade quando se fala de ciência”.

Silêncio e ruídos – Se no front dos jornalistas e dos cursos de comunicação há visível preocupação com a qualidade do jornalismo científico, há indícios de que dentro do sistema nacional de ciência e tecnologia a ideia de parceria com os meios de comunicação para difundir a cultura científica na sociedade, que parecia vicejar no começo da década, experimenta hoje retrocesso. Assim, na IV Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada de 26 a 28 de maio em Brasília (ver reportagem na página 26), evento em que se procurou ressaltar ao máximo as parcerias entre a comunidade científica, o Estado, os empresários e os chamados setores sociais, para o desenvolvimento de uma verdadeira sociedade do conhecimento no país, o papel da mídia foi ignorado, mesmo quando se falava em popularização da ciência. Entre todos os debates, reservaram-se apenas 15 minutos à fala de um jornalista, aliás, uma jornalista, a presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), Cilene Victor, dentro da sessão “Construção da cultura científica”. Vale lembrar que na II Conferência Nacional, em 2001, sob o comando do ministro Ronaldo Sardenberg e organização do professor Cylon Gonçalves, foram várias as mesas que debateram a questão da comunicação pública da ciência com mediação do jornalismo.

Dessa forma, parece voltar à cena, de certa maneira, uma velha visão meramente instrumental do jornalismo ante a ciência, o primeiro submetido à segunda, em vez de uma visão mais contemporânea de parceria para a difusão social do conhecimento.

* A jornalista viajou a convite da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI).

Anthropology and Climate Science Controversies

Brad Walters (Mount Allison U.)
Anthropology News (American Association of Anthropology), vol. 51(5):36-37 (May 2010)

Enormous research effort has been invested in the study of climate change. Many scientists reveled in the acclaim that followed last-year’s awarding of the Nobel Peace Prize to the Inter-governmental Panel on Climate Change (IPCC). This year, some of these same scientists have faced an onslaught of criticism as a result of a few mistakes found in published reports of the IPCC and leaked emails from an eminent, UK-based science group that revealed an all-too-human side of the scientific endeavor (so-called “climate-gate”).

The editors of the pre-eminent science journal Nature commented that these supposedly explosive revelations would be laughable were it not for their policy consequences. Like many, they recognize that the real scandal has little to do with climate change science, but everything to do with its political ramifications.

The scientific consensus on climate change is rock solid on the most critical issues: greenhouse gas emissions from human activity are now warming the earth’s climate at a rate that is extremely rapid by historical and recent geological standards and this poses increasingly serious risks our well being (Union of Concerned Scientists, March 2010, “U.S. scientists and economists’ call for swift and deep cuts in greenhouse gas emissions,” http://www.ucsusa.org). The evidence for this general conclusion is so broad, diverse and compelling that virtually no reputable scientist doubts it.

Yet, large swaths of the American public and many opinion leaders continue to doubt the reality of climate change. A major reason for this is that the controversies over the credibility of climate science are to a large degree intentionally contrived by people and organizations with vested interests in the economic status-quo and fear of government regulation, particularly members of the oil, gas and coal industries. What we are witnessing today, according to authors James Hoggan and Richard Littlemore (Climate Cover-Up: The Crusade to Deny Global Warming) and George Monbiot (Heat), is a similar but much more ambitious replay of the tobacco industries’ campaign in the 1980s and 1990s to sew doubt about the scientific consensus on the health risks of smoking. These climate deniers understand what many social scientists do: where there is uncertainty in the minds of the electorate, the political cost of inaction falls while the cost of decisive action rises.

These climate controversies raise intriguing questions for anthropologists who may have interests in issues of public knowledge formation, risk perception, and the application of expert and non-expert knowledge in policy making. But, what motivated me to write this column is a different question: do many anthropologists also not trust the credibility of the scientific “experts” on the matter of climate change?

I came to this question as a result of recent exchanges on the Environmental Anthropology (E-Anth) List-serve that revealed a far less solid consensus on the matter than is found within the mainstream climate science community, which is dominated by natural scientists. Specifically, postings by some list members revealed a surprising lack of trust in the credibility of scientific bodies like the IPCC and the National Academy of Sciences. Even more troubling was their referencing of scientifically un-credible sources—climate skeptics’ blogs, for example—as the basis for their opinions on the status of climate science.

Anthropologists are not alone in having within their ranks credentialed scientists who espouse views on climate change that are totally unsupportable in any reasonable scientific sense. But is it possible that anthropologists are particularly vulnerable to this kind of anti-scientific way of thinking about the issue? Has the disciplines’ deep emersion in subjects like the social construction of knowledge produced social scientists with so little trust and respect for the work of natural scientists that they won’t (or can’t!) distinguish between peer-reviewed research and politically-motivated blog postings?

There is a point reached—and we are now well passed it in climate science—where theoretical arguments and empirical evidence are so overwhelmingly compelling that positions contrary to the scientific consensus are simply untenable. Perhaps it is time for the AAA to step-up as a body and officially state their position on this most critical of issues.