Membros do Painel Climático da ONU não chegam a consenso sobre próximos relatórios (Reuters/Folha de S. Paulo)

Artigo original

  • Países que defendem mais ações climáticas pedem nova revisão a tempo das negociações da ONU em 2028
  • Opositores citam preocupações com a inclusão e dizem que países mais pobres não têm capacidade para realizar revisões rápidas

10.out.2026 às 5h00

Kate Abnett e Sudarshan Varadhan

Bruxelas e Singapura | Reuters

A decisão deveria levar alguns minutos. Mas, após quase três anos de debate, os membros da principal autoridade mundial sobre mudanças climáticas ainda não elaboraram um cronograma para publicar sua próxima revisão das pesquisas científicas mais recentes sobre o aquecimento do planeta.

Essas avaliações do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) serviram de base para todos os grandes acordos climáticos das Nações Unidas nas últimas três décadas. Porém, o impasse sobre as datas de publicação pode levar os países a decidir a próxima fase de ação sem um consenso sobre questões cruciais —incluindo até que ponto parte do aquecimento global poderia ser revertida—, segundo entrevistas com mais de uma dezena de cientistas atuais e antigos do IPCC, negociadores governamentais e observadores das reuniões.

Vista aérea mostra lama cinza cobrindo estruturas e terreno irregular após desastre ambiental. Edificações parcialmente soterradas e solo marcado por fluxos de lama.
Prédios cobertos com lama após as inundações que causaram centenas de mortes no Nepal, em agosto deste ano – Athit Perawongmetha/Reuters

A disputa reflete profundas divergências entre nações industrializadas ricas, grandes economias emergentes e países mais pobres sobre como responder à rápida elevação das temperaturas e quanto desse ônus deve ser assumido por cada país.

Na próxima segunda-feira (12), representantes dos 195 Estados-membros do IPCC devem se reunir em Adis Abeba, capital da Etiópia, para uma reunião plenária que muitos consideram a última oportunidade de definir datas de publicação anteriores às negociações climáticas da ONU de novembro de 2028. É nessa ocasião que os governos deverão avaliar o progresso em direção às metas estabelecidas no histórico Acordo de Paris, de 2015.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente diz que os esforços globais para limitar o aquecimento estão aquém do necessário e que reduções mais rápidas das emissões são necessárias para evitar fenômenos meteorológicos extremos e desastres relacionados ao clima ainda mais graves. Cientistas disseram que as mudanças climáticas alimentaram os incêndios florestais na Europa e contribuíram para deslizamentos de terra e inundações repentinas que mataram centenas de pessoas no Nepal e no Tibete chinês.

A possibilidade de relatórios do IPCC não ficarem prontos para as negociações de 2028 preocupa países que defendem ações mais contundentes, pois as discussões orientarão financiamento climático e metas de redução de emissões.

“Os dados científicos recentes […] permitem uma abordagem justa, equitativa e baseada em evidências para enfrentar o maior desafio de nosso tempo, em vez de uma abordagem conduzida por aqueles cujos interesses arraigados são incompatíveis com a redução dos gases de efeito estufa”, afirmou a Coalizão de Alta Ambição em um comunicado, ao qual a Reuters teve acesso, divulgado nesta sexta-feira (8).

O comunicado é assinado por mais de 30 países, entre os quais da Europa, América Latina e pequenos países insulares.

As revisões do IPCC, publicadas a cada 5 a 7 anos, são redigidas por especialistas e aprovadas pelos Estados-membros. Índia, Quênia, Arábia Saudita, Rússia e China pedem mais tempo para garantir a participação de cientistas com menos recursos, que enfrentam dificuldades para publicar estudos ou deixar seus empregos.

“Se o processo avançar muito rapidamente […], ele não será inclusivo”, disse Joyce Kimutai, cientista climática que representa o Quênia no IPCC.

O impasse inédito ocorre sob pressão de governos críticos a políticas climáticas que, segundo eles, prejudicam a competitividade e restringem o uso de combustíveis baratos por economias emergentes. Os Estados Unidos, maior financiador do IPCC, deixaram a organização em janeiro.

O IPCC publicará três relatórios fundamentais: um sobre a dimensão e as causas das mudanças climáticas, outro sobre vulnerabilidades e como os países podem se adaptar, e um terceiro sobre as opções para impedir o agravamento do aquecimento. Os cientistas que presidem os grupos responsáveis pela elaboração dos relatórios propuseram um plano de trabalho segundo o qual os três seriam aprovados até setembro de 2028.

Robert Vautard, copresidente francês, disse que a proposta se baseou na carga de trabalho prevista, e não na data da cúpula da ONU de 2028. Os cronogramas dos relatórios costumam ser aprovados em “questão de minutos”, acrescentou.

Os opositores da proposta dos presidentes querem adiar o segundo e o terceiro relatórios para 2029, argumentando que o cronograma é curto demais para analisar milhares de estudos, chegar a um acordo sobre a redação e concluir as revisões por especialistas e governos.

A disputa semeia discórdia e desconfiança em uma organização concebida para ajudar os países a superar divergências.

Os participantes trocaram acusações de politização do trabalho do IPCC. Alguns dos que defendem a publicação antes da cúpula de 2028 observam que grandes nações produtoras de petróleo estão entre as defensoras mais enfáticas de um prazo maior e as acusam de tentar evitar pressões para reduzir mais rapidamente as emissões de CO2.

O Ministério da Economia da Rússia diz que apresentar o debate como um confronto com produtores de petróleo era uma “deturpação deliberada” e que sincronizar o ciclo de avaliação com as negociações da ONU “levanta sérias dúvidas sobre a preservação da natureza independente do IPCC”.

Thiagarajan Jayaraman, cientista que representa a Índia no IPCC, afirmou ser “míope” sugerir que o valor do trabalho do órgão depende exclusivamente de sua contribuição para as negociações da ONU em 2028. Representantes da Arábia Saudita e da China apresentaram argumentos semelhantes em reuniões anteriores. Seus governos não responderam às perguntas para esta reportagem.

Equidade e inclusão

Países em desenvolvimento argumentam que suas perspectivas não são refletidas de forma suficiente nos relatórios do IPCC porque não há especialistas desses países em número suficiente e porque seus pesquisadores dispõem de menos recursos para publicar estudos revisados por pares.

Thiagarajan questiona, por exemplo, o que considera uma falta de consideração pelas contribuições históricas dos países ricos para o aquecimento global e pelas necessidades de desenvolvimento das nações mais pobres nos modelos usados pelo IPCC para avaliar quanto as temperaturas podem subir sob diferentes cenários de emissões.

O IPCC afirma estar tomando medidas para tornar as avaliações mais inclusivas.

Os próximos relatórios incluirão, pela primeira vez, capítulos sobre financiamento climático e formas de lidar com danos irreversíveis infligidos a alguns países, disse em junho o presidente do IPCC, Jim Skea.

Os países que defendem esse cronograma no IPCC afirmam que, de outra forma, os negociadores teriam de se basear em relatórios publicados em 2021 e 2022. Muita coisa mudou desde então.

Em 2024, pela primeira vez, as temperaturas globais ficaram, em média, mais de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Os próximos relatórios tentarão preencher lacunas de conhecimento sobre essa ultrapassagem, incluindo as possíveis consequências de intervenções destinadas a remover dióxido de carbono da atmosfera.

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