Arquivo da tag: Fenômenos inexplicados cientificamente

O que diz o maior arquivo de casos atribuídos à reencarnação (Folha de S.Paulo)

Artigo original

  • Pesquisadores de universidade nos EUA identificaram padrão em relatos de crianças em meio a 1.678 casos analisados
  • Resultados não comprovam a reencarnação, mas consideram que o fenômeno merece investigação, dizem os autores

26.out.2026 às 23h00

Felipe Espinosa Wang

Um novo estudo baseado no maior acervo do mundo de supostas memórias de vidas passadas identificou um padrão em relatos de crianças em meio a 1.678 casos analisados. Os pesquisadores afirmam que os resultados não comprovam a reencarnação, mas consideram que o fenômeno merece investigação, já que não pôde ser totalmente explicado por fatores culturais ou psicológicos.

É possível que a reencarnação tenha pouco espaço na ciência atual, já que ainda não se encontrou evidências de que ela realmente exista. Mesmo assim, a ideia de nascer de novo está longe de ser estranha para muitas formas de tentar compreender o mundo.

Para certas tradições do hinduísmo e do budismo —ainda que encarem esse processo de maneiras diferentes—, o ciclo de mortes e renascimentos não é uma mera curiosidade sobre o que acontece após a morte, mas sim um elemento central na concepção da existência.

Mulher deitada de lado em cama branca, coberta por edredom branco, com cabeça apoiada em travesseiro. Efeito visual mostra múltiplas imagens dela sentando-se lentamente, indicando movimento ou transição do sono para a vigília. Ambiente escuro com iluminação azulada suave.
Pesquisadores sobre reencarnação investigam as causas da mortes e o ‘tempo de intervalo’ entre uma vida e outra – Andrey Popov/Adobe Stock

Arquivo sobre reencarnação

A falta de evidências não impediu que alguns pesquisadores se aventurassem em um terreno pouco comum para a ciência. Entre eles estava o psiquiatra Ian Stevenson (1918-2007), que já na década de 1960 viajava por diversos países para investigar testemunhos de supostas vidas passadas.

Seu trabalho está ligado à Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, onde há mais de seis décadas são compilados relatos tão inusitados quanto controversos: crianças que, segundo os depoimentos, contam espontaneamente detalhes que parecem corresponder à vida de pessoas já falecidas.

A Divisão de Estudos Perceptivos, que vem compilando esses relatos desde a década de 1960, formou assim o maior acervo do mundo dos chamados “casos do tipo reencarnação”. E uma recente análise, publicada na revista Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice, identificou nesse acervo um padrão que fatores culturais e psicológicos não conseguiram explicar completamente.

Para se ter uma ideia do tipo de depoimentos que esse arquivo reúne, é preciso conhecer dois casos descritos pela revista Popular Mechanics.

James, um menino do estado da Louisiana, tinha pesadelos com um avião em chamas. Aos três anos, ele afirmou ter sido piloto durante a Segunda Guerra Mundial e mencionou um porta-aviões chamado Natoma Bay, além de um colega chamado Jack Larsen. Os pesquisadores relacionaram suas declarações com a biografia de James Huston Jr., um piloto cujo avião foi derrubado no Oceano Pacífico em 1945.

Outro caso é o de Ryan, um menino de quatro anos do estado de Oklahoma. Ao ver uma fotografia de Hollywood dos anos 1930, ele afirmou se reconhecer em uma das pessoas, que nem sequer aparecia nos créditos. O relato acabou sendo associado a Marty Martyn, um agente de Hollywood já falecido. Dos detalhes que o menino forneceu sobre sua suposta vida anterior, os pesquisadores conseguiram confirmar 55 com a biografia de Martyn.

O que busca o novo estudo

O mais recente levantamento não se concentrou em determinar se esses relatos são memórias autênticas de outras vidas, mas sim investigar padrões entre os depoimentos. Para isso, uma equipe da Universidade da Virgínia, liderada pela pesquisadora em neurociência cognitiva Saeedeh Sadeghi, examinou 1.678 casos que tinham algo em comum: em todos eles, os pesquisadores haviam identificado possíveis correspondências entre o que uma criança contava e a biografia de uma pessoa já falecida.

Uma das questões levantadas foi quanto tempo separava os dois eventos: o falecimento da pessoa identificada e o nascimento da criança —o que, nessa área, é conhecido como “tempo de intervalo”. Segundo a Popular Mechanics, havia informações suficientes para calculá-lo em 1.319 casos: a média foi de 16 meses, embora o intervalo mais longo registrado tenha chegado a 150 anos.

Mortes inesperadas e intervalos mais curtos

O que realmente chamou a atenção foi a comparação das circunstâncias das mortes. Quanto mais inesperado fosse o falecimento, menor tenderia a ser esse intervalo. Nos casos de mortes completamente imprevistas, a média era de 12 meses. Por outro lado, quando as mortes eram mais previsíveis, esse intervalo chegava a 21 meses.

Ou seja, o intervalo entre a morte e o suposto renascimento era aproximadamente 43% mais curto quando o falecimento havia sido inesperado, de acordo com os dados coletados pela publicação Science Alert.

O arquivo também apresenta outra particularidade: entre os casos analisados, 57% das mortes foram classificadas como não naturais e 68% como completamente inesperadas. A idade média das pessoas falecidas era de apenas 30 anos, números que traçam um perfil pouco comum. Segundo a Popular Mechanics, a proporção de mortes não naturais e inesperadas supera amplamente a registrada nas estatísticas gerais de mortalidade.

Precedente de quase quatro décadas

A possível relação entre uma morte violenta e um suposto renascimento mais rápido já havia sido levantada décadas atrás. Em 1988, o psicólogo N. K. Chadha e o psiquiatra Ian Stevenson analisaram 326 casos e observaram uma tendência semelhante. No entanto, como lembra a publicação IFL Science, a associação só atingiu significância estatística na Índia e no conjunto dos casos estudados.

Justamente por causa dessas limitações, a nova equipe quis verificar se o padrão persistia em uma amostra muito maior e, sobretudo, se poderia ser explicado por fatores culturais ou psicológicos.

Uma das objeções mais evidentes é que as famílias que acreditam na reencarnação poderiam favorecer esse tipo de relato. Para verificar se esse poderia ser o caso, os pesquisadores examinaram possíveis fontes de viés, como o contato entre as famílias, a confiabilidade dos dados, as crenças religiosas e se as crianças poderiam ter tomado conhecimento prévio das informações que relatavam.

Mesmo após considerar esses fatores, a associação permaneceu: “Para nossa surpresa, a relação continuava existindo quando a analisamos em um número muito maior de casos, e os fatores sociais e psicológicos que examinamos não conseguiam explicá-la”, observou Sadeghi, de acordo com um comunicado da Universidade da Virgínia (UVA Health).

Na verdade, o efeito era mais acentuado entre famílias cujas religiões não aceitavam a reencarnação: “Esses resultados não corroboram a ideia de que as crenças sociais estejam determinando esse padrão”, afirmou o psicólogo social da UVA, Philip Cozzolino.

As limitações da descoberta

Apesar do que foi observado no estudo, esses resultados estão longe de comprovar a reencarnação. A relação identificada é fraca: saber se uma morte foi inesperada permite explicar estatisticamente apenas entre 2% e 3% das diferenças na duração dos intervalos entre uns casos e outros. Além disso, por se basear em dados observacionais, o estudo não permite estabelecer uma relação de causa e efeito nem concluir que a consciência sobreviva à morte.

Outras explicações também não podem ser totalmente descartadas. Como aponta a IFL Science, as informações podem circular entre famílias e comunidades sem que os pesquisadores consigam reconstruir como elas chegaram até a criança. Soma-se a isso a possibilidade de identificar retrospectivamente uma pessoa falecida cujos dados se encaixem em parte do relato. Até mesmo o maior impacto das mortes violentas poderia influenciar os depoimentos coletados.

A capacidade de prever os intervalos é limitada. Mesmo assim, chama a atenção dos pesquisadores o fato de existir uma associação estatística entre as circunstâncias de uma morte e o nascimento de uma criança que supostamente se lembra dessa vida. Segundo os pesquisadores, ainda não foi estabelecido nenhum mecanismo convencional que vincule diretamente esses dois eventos.

A ideia também apresenta um curioso paralelo com algumas crenças religiosas. Os pesquisadores apontam que, em certas tradições hindus, budistas e indígenas da América do Norte, uma morte repentina pode estar associada a desejos, laços ou obrigações que ficaram para ser resolvidos. Segundo sua interpretação, essas questões pendentes poderiam favorecer um renascimento mais rápido. No entanto, não se trata de uma crença compartilhada por todas essas tradições nem de uma explicação científica para o fenômeno.

Questão que continua em aberto

Por enquanto, o mistério permanece. Os resultados não comprovam a existência da reencarnação, algo que a própria Sadeghi faz questão de ressaltar: “Isso é uma prova de algo metafísico? Os dados são observacionais, e tomamos muito cuidado para manter uma postura agnóstica em relação ao mecanismo”, afirma a pesquisadora.

No entanto, ela considera que a descoberta merece atenção: “O que posso dizer é que o padrão é real nos dados”, ressalta, e isso constitui um motivo “para continuar pesquisando, não para ignorar o assunto”.

Uma postura que é compartilhada pela pesquisadora Marieta Pehlivanova, que, segundo a UVA Health, considera que a falta de uma explicação clara oferece novos motivos para continuar estudando esses padrões.

No fim das contas, o trabalho levanta mais perguntas do que respostas. A correlação aparece nos dados analisados, mas ainda não está claro quais fatores a explicam. E enquanto não for encontrada uma explicação convincente, a reencarnação continuará despertando fascínio e curiosidade, mesmo que sua existência continue sem contar com provas científicas sólidas. Ao menos até agora.

Leia mais

Earth Pulsates Every 26 Seconds. No One Knows Why. (Popular Mechanics)

Original article

By Caroline Delbert

Published: Feb 05, 2026 2:03 PM EST

Video poster
  • Earth makes a tiny seismic rumble every 26 seconds.
  • Is the pulsating caused by ocean waves, volcanoes, or something else completely? Theories abound.
  • The “microseism” doesn’t seem to be hurting anything and has not been a high priority for seismologists.

Why is Earth pulsating every 26 seconds, and why can’t scientists explain it after 60 years?

This is an enigma wrapped in a periodically predictable mystery motion. It could be a harmonic phenomenon, a regular seismic chirp caused by the sun’s energy, or a beacon drawing scientists to its source to begin a treasure hunt.

In the early 1960s, a geologist named Jack Oliver first documented the pulse, also known as a “microseism,” according to Discover. Oliver, who worked at Columbia University’s Lamont-Doherty Geological Observatory at the time, heard the noise, but didn’t have the advanced instruments seismologists have now at his disposal.

Since then, scientists have spent a lot of time listening to the pulse and even finding out where it comes from: “a part of the Gulf of Guinea called the Bight of Bonny,” Discover says.

Some researchers think the pulse has a kind of prosaic cause. Under the world’s oceans, the continental shelf acts as a gigantic wave break—it’s the boundary off the very far edge of, for example, the North American continental mass where the highest part of the plate finally falls off into the deep abyssal plain. Scientists have theorized that as waves hit this specific place on the continental shelf in the Gulf of Guinea, this regular pulse is produced.

If that sounds improbable, consider all the different shapes of drums, from timpani to bass drums to bongos that you hit with your hands. It’s not impossible that just one shape of continental shelf “drum” would create the right harmonic bang to rattle the Earth. If that’s true, we’re probably lucky it’s just one.

But other researchers think the cause is a volcano that’s also very near the critical spot: “That’s because the pulse’s origin point is suspiciously close to a volcano on the island of São Tomé in the Bight of Bonny,” Discover explains. And there’s a similar volcanic microseism that’s already well documented in Japan.

It seems like reams of new scientific research emerge every day, but the mystery pulse is a good reminder that so much remains to be discovered. Scientists have studied the pulse and debate its origin, but it just hasn’t reached a tipping point of interest to be solved. Discover explains that researchers have likely been studying higher-priority seismic events instead, which makes sense.

In 2020, for example, seismologists took the opportunity to study a seismically quieter Earth, shut down by a global quarantine. And curiously, seismic shhh-ing happens each year in the days leading up to Christmas.