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Chimpanzés são menos propensos a roubar comida de amigos (Folha de S.Paulo)

Artigo original

  • Pesquisadores usaram fatias de abacaxi para pôr a amizade dos animais à prova
  • Descoberta pode dar pistas sobre as origens das normas humanas de justiça e amizade

27.out.2026 às 6h00

Taylor Mitchell Brown

Pasa e Yoyo são melhores amigas. Elas passam as tardes descansando juntas na grama do Santuário de Chimpanzés da Ilha de Ngamba, em Uganda, cuidando uma da outra e compartilhando comida. Às vezes, até tentam fugir juntas do local.

Elas também são menos propensas a roubar comida uma da outra, segundo os resultados de um experimento que usou fatias de abacaxi para pôr a amizade delas à prova.

O estudo é o primeiro a constatar que primatas podem priorizar amizades em vez de alimentos, revelando uma capacidade de conter impulsos egoístas até então não documentada nesses animais.

Chimpanzé cuida da higiene de outro no Santuário de Chimpanzés da Ilha de Ngamba, em Uganda – Innocent Ampeire/NYT

A descoberta, que pode oferecer pistas sobre as origens das normas humanas em torno da amizade, foi publicada recentemente na revista Evolution and Human Behavior.

“Não era óbvio para nós que os chimpanzés roubariam menos de seus amigos”, disse o psicólogo social e autor do estudo Oded Ritov, da Universidade da Califórnia em Berkeley (Estados Unidos).

A pesquisa mostra que os chimpanzés, assim como os seres humanos, têm expectativas sociais uns em relação aos outros. “Acreditamos que essas expectativas possam ser um elemento fundamental que, mais tarde, evoluiu para o senso de justiça e outros tipos de moralidade que observamos nos seres humanos.”

As noções de “amizade” entre primatas não humanos têm um histórico controverso. Muitos pesquisadores afirmam que atribuir esse termo às relações entre primatas como chimpanzés e bonobos é uma forma de antropomorfismo, que projeta ideias familiares a nós sobre animais evolutivamente distantes, aos quais elas não se aplicam.

“Durante muito tempo, era como se essa fosse uma palavra proibida”, disse a antropóloga e coautora do estudo Laura Lewis, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (EUA). Nas últimas décadas, porém, os primatólogos vêm encontrando cada vez mais evidências de amizades entre primatas sociais, constatando que eles demonstram mais confiança e apoio em relação aos companheiros dos quais se sentem próximos.

Na natureza, as amizades entre chimpanzés se desenvolvem sobretudo entre os machos, que cultivam laços sobretudo para se defender de machos alfa tirânicos ou para contar com apoio em confrontos contra outros grupos. Entre os bonobos, as amizades são comuns entre as fêmeas, que precisam disputar poder na matriarquia predominante. Em cativeiro, em ambas as espécies, as amizades se desenvolvem de forma mais ampla dentro do grupo, com menos diferenças entre os sexos.

“Em cativeiro, de certa forma, eles são obrigados a conviver uns com os outros o tempo todo”, afirmou a ecóloga comportamental Zoë Goldsborough, especialista em primatas do Instituto Max Planck de Comportamento Animal (Alemanha), que não participou da pesquisa. Como o cativeiro elimina algumas das limitações normais da vida de um chimpanzé relacionadas à alimentação e aos conflitos, observa-se o florescimento de um número muito maior de relações, incluindo amizades.

Uma vez estabelecidas, as amizades proporcionam muitos privilégios. Amigos passam tempo juntos, dão as mãos, fazem ninhos juntos à noite, protegem-se em confrontos e consolam-se após brigas ou quando um filhote morre. Às vezes, um chimpanzé chega a sentir ciúme ao ver um amigo cuidando da pelagem de outro e interfere para impedir que eles criem laços, segundo Goldsborough.

No novo estudo, os pesquisadores queriam descobrir se as amizades entre chimpanzés estimulavam o autocontrole diante de certos comportamentos inadequados —neste caso, o roubo.

A equipe examinou minuciosamente 800 horas de gravações em vídeo do santuário em Uganda para identificar quais chimpanzés eram amigos. Em seguida, realizou testes nos quais os animais eram colocados em duplas. Um dos chimpanzés tinha a opção de agir como ladrão e roubar frutas de uma vítima, que podia ser um amigo ou um conhecido com quem não tinha laços especiais. Os chimpanzés ficavam em salas contíguas: em uma delas, havia bandejas de metal com fatias de abacaxi; na outra, cordas presas às bandejas, que o ladrão podia puxar para ficar com as guloseimas.

“Às vezes, os ladrões entravam e puxavam a bandeja com tudo”, afirmou Lewis. Em outras ocasiões, porém, eles entravam, examinavam a corda e depois a soltavam, em um gesto de protesto. Quando Yoyo teve a oportunidade de roubar de Pasa, rejeitou completamente o experimento: virou as costas para as cordas e se recusou até mesmo a entrar na sala.

De modo geral, os resultados revelaram que os amigos eram menos propensos a roubar uns dos outros e afastavam as bandejas com abacaxi em apenas 61% das vezes, em comparação com 70% quando se tratava de conhecidos.

Quando um chimpanzé de fato roubava de um amigo, o resultado era o caos. A traição levava o chimpanzé lesado a fazer coisas como esmurrar o chão, soltar guinchos altos ou se coçar em um ataque de ansiedade, mostrando que esperava mais do companheiro.

Mas, após essas traições, os pesquisadores constataram que os mesmos chimpanzés perdoavam os amigos mais rapidamente e, em testes posteriores, acabavam aceitando esse tipo de trapaça. Os que não eram amigos não recebiam a mesma clemência e eram tratados com o mesmo grau de raiva durante todo o experimento.

“O fato de eles conseguirem moderar esse comportamento de acordo com suas relações sociais é extremamente importante e acreditamos que isso seja fundamental para manter essas relações sociais ao longo do tempo”, afirmou Lewis.

Como seres humanos, “damos muita importância não apenas às coisas boas que as pessoas fazem por nós, mas também ao fato de não fazerem coisas ruins conosco”, disse Goldsborough. “Esse estudo mostra muito bem que os chimpanzés também agem assim”.

Chimps Catch Insects to Put on Wounds. Is It Folk Medicine? (New York Times)

nytimes.com

Nicholas Bakalar


Trilobites

They don’t eat the bugs, and they’re definitely applying them to wounds, so some scientists think the primates may be treating one another’s injuries.
Cinemagraph
A chimp, Suzee, catches an insect and puts it on a wound on the foot of her son, Sia. Video by Alessandra Mascaro. Credit: Tobias Deschner

Feb. 7, 2022

A chimp, Suzee, catches an insect and puts it on a wound on the foot of her son, Sia. Video by Alessandra Mascaro. Credit: Tobias Deschner

Chimpanzees design and use tools. That is well known. But is it possible that they also use medicines to treat their own and others’ injuries? A new report suggests they do.

Since 2005, researchers have been studying a community of 45 chimpanzees in the Loango National Park in Gabon, on the west coast of Africa. Over a period of 15 months, from November 2019 to February 2021, the researchers saw 76 open wounds on 22 different chimpanzees. In 19 instances they watched a chimp performing what looked like self-treatment of the wound using an insect as a salve. In a few instances, one chimp appeared to treat another. The scientists published their observations in the journal Current Biology on Monday.

The procedure was similar each time. First, the chimps caught a flying insect; then they immobilized it by squeezing it between their lips. They placed the insect on the wound, moving it around with their fingertips. Finally, they took the insect out, using either their mouths or their fingers. Often, they put the insect in the wound and took it out several times.

The researchers do not know what insect the chimps were using, or precisely how it may help heal a wound. They do know that the bugs are small flying insects, dark in color. There’s no evidence that the chimps are eating the insects — they are definitely squeezing them with their lips and then applying them to the wounds.

There have been other reports of self-medication in animals, including dogs and cats that eat grass or plants, probably to help them vomit, and bears and deer that consume medicinal plants, apparently to self-medicate. Orangutans have been seen applying plant material to soothe muscle injuries. But the researchers know of no previous report of nonhuman mammals using insects for a medicinal purpose.

In three instances, the researchers saw chimps using the technique on another chimp. In one case, they saw an adult female named Carol grooming around a flesh wound on the leg of an adult male, Littlegrey. She grabbed an insect, and gave it to Littlegrey, who put it between his lips, and transferred it to his wound. Later, Carol and another adult male were seen moving the insect around on Littlegrey’s wound. Another adult male approached, took the insect out of the wound, put it between his own lips, then reapplied it to Littlegrey’s leg.

One chimp, an adult male named Freddy, was a particularly enthusiastic user of insect medicine, treating himself numerous times for injuries of his head, both arms, his lower back, his left wrist and his penis. One day, the researchers watched him treat himself twice for the same arm wound. The researchers don’t know how Freddy got these injuries, but some of them probably involved fighting with other males.

There are some animals that cooperate with others in similar ways, said Simone Pika, who leads an animal cognition lab at the University of Osnabrück in Germany and is an author of the study. “But we don’t know of any other instances in mammals,” she said. “This may be a learned behavior that exists only in this group. We don’t know if our chimps are special in this regard.”

Aaron Sandel, an anthropologist at the University of Texas, Austin, found the work valuable, but at the same time expressed some doubts. “They don’t offer an alternative explanation for the behavior, and they make no connection to what insect it might be,” he said. “The jump to a potential medical function? That’s a stretch at this point.”

Still, he said, “attending to their own wounds or the wounds of others using a tool, another object — that’s very rare.” Their documentation of chimps paying such attention to other chimps is, he added, “an important contribution to the study of social behavior in apes. And it’s still interesting to ask whether there is empathy involved in this, as it is in humans.”

In some forms of ape social behavior, it is clear that there is an exchange of value. For example, grooming another chimp provides relief from parasites for the groomed animal, but also an insect snack for the groomer. But in the instances she observed, Dr. Pika said, the chimp gets nothing tangible in return. To her, this shows the apes are engaging in an act that increases “the welfare of another being,” and teaches us more about the primates’ social relationships.

“With every field site we learn more about chimps,” she said. “They really surprise us.”