Fundação diz ter sido procurada após crise hídrica; governo nega (G1)

29/10/2014 22h47 – Atualizado em 30/10/2014 10h15

Palácio dos Bandeirantes diz que fundação tentou conversar com Alckmin.
Porta-voz deixou sede do governo sem ser recebido.

Do G1 São Paulo

O porta-voz da fundação esotérica Cacique Cobra Coral (FCCC) disse que conversou nesta quarta-feira (29) com assessores do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sobre a crise hídrica que afeta o estado. O Palácio dos Bandeirantes nega o encontro com o representante do grupo, que foi até a sede do governo, no Morumbi. A fundação diz ser capaz de minimizar os impactos dos temporais e outros eventos naturais.

Segundo a assessoria de imprensa do governo do estado, Osmar Santos pediu para conversar com o governador. Como o assessor que cuida da agenda de Alckmin não estava no local, ele foi orientado a aguardar. Osmar Santos deixou um cartão com a secretária e partiu após cerca de 15 minutos. Ainda de acordo com o Palácio dos Bandeirantes, imagens mostram que ele não chegou a ser recebido.

Segundo Santos, já a partir desta sexta-feira (31), um  “jato de vento de baixos níveis e uma frente fria estarão presentes para se alinharem para formar um corredor de nuvens de chuva mais duradoura sobre o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil”. As mudanças climáticas já estariam ocorrendo depois que os executivos da Prefeitura e do Estado do Rio, junto de um grupo de empresários privados do setor energético, solicitaram a intervenção da fundação.

A única exigência feita pela FCCC é a de que os governos “não avancem nas águas do Rio Paraíba do Sul”, que abastecem o estado fluminense, mas a nascente é em São Paulo. “Evitando assim a guerra pela água iniciada meses atrás por São Paulo e barrado pela ANA (Agência Nacional de Águas)”, explicou Santos.

Santos disse ao G1 que desde 2012 vem alertando o governo do estado de São Paulo para a situação crítica dos reservatórios, devido à falta de chuvas. Além disso, na ocasião, a fundação teria, inclusive, solicitado a interligação dos reservatórios de São Paulo, para amenizar o impacto da prolongada estiagem no Sistema Cantareira.

A fundação é comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do cacique Cobra Coral, entidade que seria capaz de influenciar no clima.

Em 2013, a FCCC diz também ter alertado ao Ministério de Minas e Energia que as chuvas de verão daquele ano não tinham sido suficientes para encher os reservatórios das usinas hidroelétricas brasileiras. Segundo a entidade, março terminou com reservatórios na casa dos 52% no sistema Sudeste/Centro-Oeste e 42% no Nordeste. Em 2012, os níveis registrados no mesmo período foram de 78% no centro do país e 82% nas bacias nordestinas.

Segundo o porta-voz da fundação, houve erro de gestão, tanto por parte do governo estadual quanto do federal, que está sendo evidenciado pela crise hídrica. Como consequência, além da falta d’água, o problema afeta diretamente a geração e transmissão de energia elétrica em todo o país.

A solução para São Paulo, no entender da fundação, é estabelecer um cronograma de obras contra a seca, priorizando as de interligação dos reservatórios. Segundo o porta-voz, o objetivo principal é recuperar a bacia do Sul de Minas, principal responsável por fornecer a água para o Sistema Cantareira.

Nesse sentido, representantes da fundação se reuniram no último dia 13 com integrantes de um grupo econômico do setor de energia para encontrar soluções para o problema. A principal seria a criação de um “caminho de umidade”, interligando a Amazônia com o sul de Minas Gerais. Para a fundação, a estiagem “apenas mostrou o que não foi feito nos últimos 20 anos”.

Convênio
A Prefeitura de São Paulo, na gestão de José Serra, havia firmado um convênio em 2005 com a fundação para a antecipar intempéries climáticas que impactassem na rotina da capital. Como contrapartida, o Executivo municipal deveria realizar uma série de obras contra enchentes. Em setembro de 2009, já com Gilberto Kassab no cargo de prefeito, o convênio foi rompido pela Prefeitura.

O motivo: a fundação alegou ter alertado com antecedência sobre as chuvas que paralisaram a cidade no dia 8 de setembro daquele ano, mas considerou que a Prefeitura nada fez para tentar prevenir os problemas. “A gente não pode ajudar o homem naquilo que ele pode fazer por si. As verbas para obras contra enchentes estão congeladas”, disse Osmar Santos, na ocasião.

De acordo com Santos, houve um contato recente da fundação com o secretário das Subprefeituras, Ricardo Teixeira, na atual gestão, mas a reativação do convênio dependia de um aval do prefeito Fernando Haddad.

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[Atualização]

29/10/2014 22h47 – Atualizado em 30/10/2014 13h54

Fundação esotérica oferece ajuda em crise hídrica; governo nega encontro

Palácio diz que porta-voz de fundação tentou conversar com Alckmin.
Porta-voz deixou sede do governo sem ser recebido, diz assessoria.

Do G1 São Paulo

O porta-voz da fundação esotérica Cacique Cobra Coral (FCCC) disse que procurou nesta quarta-feira (29) o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para oferecer apoio na crise de abastecimento que afeta o estado. A fundação diz ser capaz de minimizar os impactos dos temporais e outros eventos naturais.

Apesar de a Fundação afirmar que foi recebida por assessores e que nova reunião chegou a ser marcada para acertar detalhes da colaboração, o Palácio dos Bandeirantes nega o encontro com o representante do grupo, que esteve na portaria da sede do governo, no Morumbi.

Segundo a assessoria de imprensa do governo do estado, Osmar Santos pediu para conversar com o governador. Como o assessor que cuida da agenda de Alckmin não estava no local, ele foi orientado a aguardar. Osmar Santos deixou um cartão com a secretária e partiu após cerca de 15 minutos, segundo a assessoria do governo. Ainda de acordo com o Palácio dos Bandeirantes, imagen do sistema de segurança mostram que ele não chegou a ser recebido.

O porta-voz da Fundação alega que já a partir desta sexta-feira (31), um  “jato de vento de baixos níveis e uma frente fria estarão presentes para se alinharem para formar um corredor de nuvens de chuva mais duradoura sobre o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil”. As mudanças climáticas já estariam ocorrendo depois que os executivos da Prefeitura e do Estado do Rio, junto de um grupo de empresários privados do setor energético, solicitaram a intervenção da fundação, segundo Santos.

A única exigência feita pela FCCC é a de que os governos “não avancem nas águas do Rio Paraíba do Sul”, que abastecem o estado fluminense, mas a nascente é em São Paulo. “Evitando assim a guerra pela água iniciada meses atrás por São Paulo e barrado pela ANA (Agência Nacional de Águas)”, explicou Santos.

Santos disse que desde 2012 vem alertando o governo do estado de São Paulo para a situação crítica dos reservatórios, devido à falta de chuvas. Além disso, na ocasião, a fundação teria, inclusive, solicitado a interligação dos reservatórios de São Paulo, para amenizar o impacto da prolongada estiagem no Sistema Cantareira.

A fundação é comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do cacique Cobra Coral, entidade que seria capaz de influenciar no clima.

Em 2013, a FCCC diz também ter alertado ao Ministério de Minas e Energia que as chuvas de verão daquele ano não tinham sido suficientes para encher os reservatórios das usinas hidroelétricas brasileiras. Segundo a entidade, março terminou com reservatórios na casa dos 52% no sistema Sudeste/Centro-Oeste e 42% no Nordeste. Em 2012, os níveis registrados no mesmo período foram de 78% no centro do país e 82% nas bacias nordestinas.

Segundo o porta-voz da fundação, houve erro de gestão, tanto por parte do governo estadual quanto do federal, que está sendo evidenciado pela crise hídrica. Como consequência, além da falta d’água, o problema afeta diretamente a geração e transmissão de energia elétrica em todo o país.

A solução para São Paulo, no entender da fundação, é estabelecer um cronograma de obras contra a seca, priorizando as de interligação dos reservatórios. Segundo o porta-voz, o objetivo principal é recuperar a bacia do Sul de Minas, principal responsável por fornecer a água para o Sistema Cantareira.

Nesse sentido, representantes da fundação se reuniram no último dia 13 com integrantes de um grupo econômico do setor de energia para encontrar soluções para o problema. A principal seria a criação de um “caminho de umidade”, interligando a Amazônia com o sul de Minas Gerais. Para a fundação, a estiagem “apenas mostrou o que não foi feito nos últimos 20 anos”.

Convênio
A Prefeitura de São Paulo, na gestão de José Serra, havia firmado um convênio em 2005 com a fundação para a antecipar intempéries climáticas que impactassem na rotina da capital. Como contrapartida, o Executivo municipal deveria realizar uma série de obras contra enchentes. Em setembro de 2009, já com Gilberto Kassab no cargo de prefeito, o convênio foi rompido pela Prefeitura.

O motivo: a fundação alegou ter alertado com antecedência sobre as chuvas que paralisaram a cidade no dia 8 de setembro daquele ano, mas considerou que a Prefeitura nada fez para tentar prevenir os problemas. “A gente não pode ajudar o homem naquilo que ele pode fazer por si. As verbas para obras contra enchentes estão congeladas”, disse Osmar Santos, na ocasião.

De acordo com Santos, houve um contato recente da fundação com o secretário das Subprefeituras, Ricardo Teixeira, na atual gestão, mas a reativação do convênio dependia de um aval do prefeito Fernando Haddad.

On Culture and Other Crimes: An Interview with Slavoj Zizek (Exchange)

Accessed October 28, 2014

By Kerry Chance
Anthropology
University of Chicago

Slavoj Zizek, psychoanalytic philosopher and cultural critic at the Institute of Sociology in Slovenia, has taught all over the world, most recently at the University of Chicago. His first public lecture at Chicago, entitled “The Ignorance of Chicken, or, Who Believes What Today”, looked every bit the rock show. Crowds stretched across the main campus quad, a ‘merch’ table featured his latest book The Parallax View, and as the lecture began with crowds still waiting outside, people climbed through the windows of the packed auditorium. While at Chicago, Zizek also taught a seminar as the Critical Inquiry Visiting Professor on topics ranging from Lacanian ethics, political correctness, habit in Hegel, the Big Other, Stalin, theology, politics and the role of the intellectual. Zizek has written innumerable articles and is the author of more than fifty books, including The Sublime Object of Ideology, The Ticklish Subject, Did Somebody Say Totalitarianism?, On Belief andWelcome to the Desert of the RealÑto name just a few that have contributed to his widespread popularity in and outside the academy. Here, Zizek speaks to Exchange about culture, Lacan, cognitive science, neoliberalism and projects for contemporary anthropology.

I.

Chance: In class and in your public lectures here at Chicago, you’ve frequently talked about culture and have done so in two ways: first, in terms of belief as you have theorized it in your earlier work, and secondly in terms of Hegel’s notion of habit. How are you thinking culture in Lacanian terms?

Zizek: Traditionally, Lacanians like to identify culture simply as the symbolic system, within which there is a linguistically limited horizon of meaning, but I think two things should be added.

First, what is for me the zero-sum of culture, if I improvise, is what to do about embarrassing excesses. When somebody does something embarrassing, burps after eating for example, culture is how you react to it in a polite way. To be very vulgar, all seduction rituals are the cultured way of dealing with the fact that people would like to copulate with each other. Now, someone will say, “wait a minute, to feel something as embarrassment, culture must already be there.” No, I don’t think so. Somehow, embarrassment is first. In other words, we have to presuppose an excess, again, embarrassment apropos of something disgusting, non-social, or an excess of obscenity or enjoyment.

So again, this would be the first specification: to put it in bombastic Lacanian terms, first the excess of the real, embarrassment, shock – and culture is how you deal with it. This is why Lacan in a nice, tasteless way put it that one measure of the passage from the animal to the human kingdom is what to do with shit. He always liked this example, that an animal by definition just shits wherever, for humans shit is always an embarrassment. It always amused me when I was a boy that, at circuses, you have animals, horses and especially elephants that take a big shit and usually you see people hidden behind them ready to make the shit quickly disappear. Animals don’t care. The problem with humans is what to do with this embarrassment.

The second thing that interests me, which is a much more concrete historical analysis, is why there is such an obsession with culture today. Why is it that today not only do we have culture studies but everything – and by everything I mean at least the humanities and for some people even the hard sciences – has become a subspecies of cultural studies? In the hard sciences, people will say following Thomas Kuhn’s The Structure of Scientific Revolutions, their history is the history of culture, of paradigm shifts and so on. Everything becomes culture.

Chance: How is this linked to your notion of belief?

Zizek: Again, this is linked to my notion of belief, to the idea that something is changing in the status of belief. Today, the predominant form is a belief that culture is the name of a belief, which is no longer taken seriously. Culture means, for example, I am a Jew, and although I don’t think there was a stupid god coming down and shouting some stupid things to people on Mount Sinai, I nonetheless say out of respect for my lifestyle or whatever, I don’t eat pork. This is culture.

To complicate things even further, I think two traps should be avoided here. Among other things, I have tried to focus my work on one of these traps in the last few years. First, it is too simple to say, “does this mean once before people were taking culture seriously.” No. Not only conservatives, but even progressives like to criticize the present, evoking, “oh, but once it was different, things were more authentic.” No, it wasn’t. It is not that before people did believe. If anything, they believe more today. It’s just that the modality of distance was different. Before, it wasn’t a matter of belief. Rather, it was a feeling of being more attached to, and having more respect for, the power of appearance of ritual as such. Something changed today at that level, I think. So paradoxically these external signs of belief – “nobody takes anything seriously” – if anything, points to how it’s more difficult today for us to trust the symbolic ritual, the symbolic institution. But again, there is no time when people ‘really meant it.’

What I know from anthropology, I may be wrong, is that all the great errors started with a phenomenological evolutionary illusion. I think when researchers found a certain gap between reality and beliefs or between form and content, they always thought, “ah, we have a later descendent state of evolution, there must have been some point earlier when people meant it.” The dream is that there was an original moment when people really ‘meant it.’ An example I know from my Marxist past, in anthropology you must know him from the 19th century, Lewis Henry Morgan. I remember from my youth that Engels among other classical Marxists relied on him. Morgan found that in some tribes all the men in one tribe referred to the women of the other tribe as their ‘sister wives.’ From this he deduced, that this is the linguistic remainder of some primordial form of marriage. The incest prohibition already in place, you were not allowed to have sex with women in your tribe, but only with the women in another tribe. The women were exchanged in a block, collectively. It was basic incest, but regulated. The way I heard it, anthropologists later proved that there never was this nice regulated collective orgy. That is to say, the wrong conclusion was that from this name ‘sister wives’ you conclude that there was a point when it was really meant. No, the gap is here from the very beginning.

What fascinates me in this example also is the logic of institution. By institution, I mean how, in order for something to function as a belief, you cannot simply say, “okay, let’s pretend.” In my book, I think the Ticklish Subject (Verso, 1999), I have a wonderful anecdote, which for me again tells about what culture is as an institution. It is a crazy story about elections some fifteen years ago in my country, Slovenia. An ex-friend of mine, who was a candidate told me – okay, he had to do these democratic games like kissing the asses of local constituents – an old lady came to him and said if he wanted her vote he would have to do her a favor. She was obsessed with the idea that something was wrong with her house number (number 24, not even 13), that this number brings misfortune. There was a burglary twice, lightning struck the house, and she’s convinced that it’s because of the number. She said, can she arrange with the city authorities to change the number, to 23a or something, just not 24. He said to her, “But lady, why even go through all this mess? Why don’t you simply paint a new number and change it yourself?” She said, “No, it must be done properly.” Though it was only superstition, to be effective it must be done properly through the institution. The must be a minimum reification to take the game seriously.

Chance: Is this a project for anthropology?

Zizek: This returns to another aspect of your question. That is, another lesson of all these notions of culture is the irreducibility of alienation. We should abandon this old phenomenological – and for some people, Marxist motive – that every institutionalization means reification in two directions, the past and the future. For the past, it is the idea that we should try to reconstitute a moment when it was not alienated, when it was ‘meant seriously.’ For the future, it is to isolate the moment, to dream or to work toward the moment when this transparency and authenticity of meaning will be reinstalled. No, we should also see the liberating aspect of it.

To return here to what I know of anthropology, when anthropology about half a century ago shifted from “let’s observe the mating rituals in Southern Samoa or South Pacific” or whatever, to focusing on our daily life rituals. You remember Florida, the scandal elections and the first Bush victory. A guy somewhere from Africa wrote an article imitating that sort of journalistic report, you know, an enlightened Western journalist goes to Africa, where they allegedly have some election and he mocks the election, “ha, ha, what corruption.” Well, this guy wrote about Florida in the same way, saying there are votes disappearing, the brother of the candidate is the local government, you know, describing Florida as a provincial Banana Republic case of cheating. It was a wonderful result. It was anthropology at its best.

I think this is what interests me, the anthropology of our lives. Not only is this a politically correct procedure – in this exceptional case, I use the term ‘politically correct’ in a positive way – but also I find it always a subversive procedure. The starting point is always the implicit racism of the anthropologist: you look at a foreign culture, you study them with this detachment, “oh what strange rituals” and so on. The phenomenological humanist temptation would be to say, “No, in this engaged participating fieldwork, we should immerse ourselves, become one of them to really understand them.” This series of presuppositions we should reject. What does it mean that we should be one of them to understand them? They usually don’t understand themselves – isn’t it the basic experience that people as a rule follow rituals that are just a part of tradition, which they themselves don’t get? I think the anthropology of our lives is the true breakthrough from this implicitly racist attitude of studying the eccentricity of others, to adopt the same view of ourselves. It is much better as a double alienation.

This is connected to another central motive of my work, this obsession with not only rules but also habits, which tell you how to obey or disobey rules. Especially social prohibitions never mean what they appear to mean. This is an incredibly wealthy topic of ideology for contemporary anthropology. Why is it so important? Precisely because we live in an era of so-called post-ideology. I claim that at precisely this level, ideology has survived.

My interest in anthropology, what always fascinated me was people never mean what they say and in order to be a part of a culture you have to get this gap. There is an important role of obscenities here. Let me tell you a comic adventure. This weekend, I was with Fred Jameson at Duke and there Fred invited an old, very distinguished Argentine gentleman – I will not tell you the name it’s too embarrassing – because of my wife, who is also Argentinean. This gentleman, you would be afraid of using the f-word in front of him, so I said to myself, okay, can I make him say something dirty? And I did seduce him, you know how? The specificities of Argentine Spanish are very different from say Venezuelan Spanish or Mexican Spanish. So, I told him how I tried to learn Spanish, and then I made my first step into obscenity. I told him I knew the word ‘cojo,’ which in Spanish simply means ‘to catch’ something, like “how do I catch a taxi?” Now, this word will be important because I told him I heard somewhere in Argentina there is a series of jokes, where a stupid Spaniard comes to Argentina and asks, “Where do I catch a taxi?” In Argentinean Spanish, ‘catch’ here means the f-word. Then, the distinguished gentleman smiled briefly and I saw that he knew a really dirty example. And I like it how he broke down. After two or three minutes, he broke down and said, “It’s against my nature but I must tell you Argentines have an even more dirty joke…” which is that a Spanish guy says, “How do you catch a cab?,” which means to fuck a taxi, and the Argentine says, “Well, the only practical way I can imagine is the exhaust pipe.” I was so glad that this distinguished gentleman, that I made him say this joke. For me, this is culture. For me, it is not a violation, but the closest you can get to authentic communication.

II.

Chance: I wanted to talk about Lacanian ethics and about Lacan’s injunction to be consistent with your desire -

Zizek: The thing about Lacan’s injunction is what if your desire is not consistent? In other words, the way I read Lacan is that more and more in his late work he devalues desire, desire itself as not an ethical category. The Lacan of the fifties and sixties, it is the ethics of desire to not compromise your desire. But later, more and more he emphasizes that desire is a priori something hypocritical, inconsistent. In this sense, desire mostly thinks with a secret code that you will not get, the whole economy is to avoid the realization of desire, which is why Lacan understood that fantasy is a realization of desire. He doesn’t mean realization of desire in the sense of getting what you desire, like I want to eat strawberry cakes and I in the fantasy imagine myself realizing it. For Lacan, it is to stage a scene where that desire as such emerges. What would be a nicer example, let’s say I have a desire to eat strawberries but as always with desires, you have this suspicion, what if I will be disappointed. A fantasy would be, for example, I am there sleeping and somebody brings me strawberries, then I taste one, then I stop and it goes on. This ‘going on’ – I never fully have the strawberries – is fantasy. You don’t realize desire – getting your dirty mouth full of strawberries – you just stage this scene on a pleasant, hopeful state of desire, on the verge of satisfaction but not yet there. There is a pleasant obstacle preventing it all the time. This is fantasy.

Chance: How does this ethical injunction, both in the early and late Lacan, play out in the political realm, specifically thinking about it in relation to the cartoon depictions of Mohammad, a debate that opposed unlimited freedom of the press to respect for the other?

Zizek: Do you see the piece I wrote – not in The New York Times, which was censored – but “Antinomies of Tolerant Reason”? (See HYPERLINK “http://www.lacan.com” http://www.lacan.com)

You know, many leftists were mad at me there. They thought I made too many compromises with Western liberals, too much anti-Muslim compromise. But the reason I did it was that I got a little bit sick and tired with these politically correct Western liberals – didn’t you notice this hypocrisy? I noticed it was the same people, who in the West are so sensitive – like I look at you and it already can be harassment – and all of sudden, they say it is a different culture, blah, blah, blah. I hate that even some feminists now are turning to culture as one of the standard defenses of Islam. In the West, we at least have formal equality of women. I am very sorry but there, you have a culture, at least in the predominant mode that is so openly anti-feminine. My god, but they are openly doing what we here are trying to unearth as the anti-feminism beneath the emancipated feminine. My god, are we now even prohibited from stating the obvious?

Do you know this famous, eternal politically correct example of clitoridechtomy? This example is not Islam – it is a ritual independent of Islam. But I remember some Muslim women claiming: isn’t it that in the West in order to be attractive to men, women have to remain slim, seductive; isn’t this a global clitoridechtomy; isn’t it much worse? There, it’s only the clitoris, here, it’s as if your entire body is clitoridechtomized. I hate this – I remember when I was a youth what the facts were about the Gulag. People would say: but at least here, you are in or out of the Gulag; isn’t it that the whole United States is one ideological Gulag? You know, this cheap counter universalization. I don’t buy it – this is what I try to say in that text. The first thing is to admit a genuine deadlock and to stop this hypocrisy.

In that text, I hope it is obvious this fury I have at this logic of respect. Sometimes, respect is the most disrespectful category. Respect here is like telling a child false things so not to hurt him. Here, respect means not taking him seriously. I think a lot of the people who preach, “you should show restraint, show respect to Islam,” are enacting the worst sort of patronization. Paradoxically, violent critics of Islam, on the most elementary level, show more respect for Islam than those who, out of respect, do not attack it. I am not saying we should turn to this, but at least those critics take people seriously as believers.

III.

Chance: What does it mean to return to big theory?

Zizek: You remember, years ago it was fashionable to say big theory overlooks its own historical, concrete, anthropological conditions and presuppositions. That it is na•ve. Foucault has this attitude in its utmost when he says, before asking what’s the meaning of the universe, you should ask in what historical context is it even possible to ask this question. So direct truth questions become questions about the concrete historical conditions in which one can raise such a question. I think this was a deadlock.

Today’s big theory is no longer a na•ve big theory. It’s not saying “let’s forget about historical context and again ask, does god exist, or are we free.” No, the point is that concrete theory – the idea that we cannot ask metaphysical questions, only historical questions – had a skeleton in the closet: it has its own big theory presuppositions. Usually, even some rather primitive historicist, relativist ideas, for example, everything depends on historical circumstances or interactions, there are no universalities, and so on. So for me, it’s about not forgetting from where one speaks. It’s about including into reflection, into historical reflection, the very historicism, which was unquestioned in this eternal, Foucauldian model. I find it so boring. It’s so boring to say, “no, you shouldn’t ask are we free, the only question is what does it mean in our society to ask the question are we free.”

Chance: The presence of cognitive science is increasingly felt in anthropology. What particular problems does cognitive science pose for social sciences?

Zizek: Big theory brings us nicely to cognitive science because what it so tickling about them is precisely this question of freedom – does it mean we are not free? It’s interesting that all the debates about cognitive sciences – the image of the human being emerging from all these interactions, from the brain sciences or more abstract mind sciences – is about are we free.

I don’t know about social sciences, but I know about my field, psychoanalysis. I dealt with cognitive sciences extensively in my last book (SeeThe Parallax View, MIT Press 2006). I think firstly, they should be taken seriously. They should not be dismissed as just another na•ve, naturalizing, positivist approach. The question should be seriously asked, how do they compel us to redefine the most basic notions of human dignity, freedom? That is to say, what we experience as dignity and freedom is it all just an illusion, as they put it in computer user terms, a user’s illusion. Meaning, for example, when you write a text on a computer, you have this user’s illusion scrolling up or down that there is text above or below. There is no text there. Is our freedom the same as a user’s illusion or is there a freedom?

The thing to do – and I’m not saying I did it, I’m saying I am trying to do it – is to take these sciences very seriously, and find a point in them where there is a need for an intervention of concepts developed by psychoanalysis. I think – I hope – that I isolated one such point. I noticed how, when they tried to account for consciousness, they all have to resort to almost always the same metaphor of this autopoesis, self-reflexive move, some kind of self-relating, self-referring closed circuit. They are only able to describe it metaphorically. What I claim is that this is what Freud meant by death drive and so on.

But it’s not that we psychoanalysts know it and can teach the idiots. I think this is also good for us – and by us I mean, my gang of psychoanalytically oriented people. It compels us also to formulate our terminology, to purify our technology as it were.

IV.

Chance: What, if anything, is neoliberalism?

Zizek: You must know, and it has often been noted, that the big shift in the study of the human mind from traditional approaches to modern cognitivism mirrors perfectly the shift from bureaucratic capitalism to neoliberal capitalism with its flexibility and plasticity. It’s so interesting to notice how many cognitivists that I’ve read even say this openly. They say that traditional science of mind was production oriented, organizing up and down, like traditional bureaucratic capitalism. Today, it’s like this digital, flexible capitalism – you don’t have one central deciding point, you have free interaction, nomadic plasticity and so on. I found this very interesting.

Catherine Malabou wrote a wonderful book called What to Do With the Human Brain. She develops, in a very nice way, that plasticity can have two meanings. One meaning is this neoliberal plasticity. Basically, it’s an accommodating plasticity: how to succeed on the market, how to adopt new identity. But there is a more radical plasticity, where the point is not just an adaptive plasticity. It’s a plasticity that not only adapts itself to existing circumstances but also tries to form a margin of freedom to intervene, to change the circumstances.

The same would go for me for neoliberalism. My point would be first, there obviously exists something like neoliberalism. That is to say, it is a fact that at the level of relations between the states, within singular economies new rules of capitalism are emerging today.

But my first doubt would be about the process of describing the fact that something new is emerging. I don’t think it is adequately described by the way neoliberalism describes itself. For example, saying “the rule is no longer state intervention, but free interaction, flexibility, the diminishing role of the state.” But wait a minute, is this really going on? I mean, take Reagan’s presidency and Bush’s presidency today. While bombasting against big spending Democrats – that is to say, big state – the state has never been as strong as it is today and there is an incredible explosion of state apparatuses. State control today is stronger than ever. That would be my automatic reaction: yes, there is something new but, when covered by the label neoliberalism, it is not adequately described. The self-perception of today’s era as neoliberal is a wrong self-perception.

Even leftist critics all too often accept this self-description on its own terms and then proceed to criticize it, saying, “no, we can’t leave everything to the market.” Wait a minute, who is leaving everything to the market? If we look at today’s American economy, how much support there is for American farmers, how much intervention, military contracts, where is there any free market? I mean, sorry, but I don’t see much free market here.

Just look at this paradox, which I think is the nicest icon of what goes on today. You know the problem of cotton in the state of Mali I think, which is the producer of cheap cotton far better than the United States’ cotton. The country is going to ruin because, as you know, the American cotton producers get more state support than the entire Gross Domestic Product of the state of Mali. And they say there, we don’t want American help, what we want is just when you preach about corrupt state intervention and the free market, you play by your own rules. You know, there’s so much cheating going on here.

So that would be the kind of anthropological study that’s needed: what neoliberalism really means. That’s what we have to do.

Zizek PicksMost important book published in the last six months: On Creaturely Life by Eric Santner

It will sound hypocritical but really, I would say On Creaturely Life. If you go further back to 2005, it would be The Persistence of Subjectivity by Robert Pippin.

Most important film released in the last six months: Manderlay directed by Lars Von Trier

My god, this is a tough question. My problem is, as much as I love even commercial Hollywood, I really don’t remember one in particular. It’s a weird film but I like it, the last Lars Von Trier, Manderlay. Need I add that I haven’t seen it, but a priori I don’t deal with empirical things.

Favorite obscure text: Sex and Character by Otto Weininger

Sex and Character. It’s obscure today but remember that this book was published in 1903 and was reprinted like fifty times. Then, it was a megabook. It’s vicious – radically anti-feminist, anti-Semitic, anti-whatever-you-want but I think it’s shattering.

Most underrated philosopher: Hegel

It will sound crazy because he is one of the most overrated philosophers, but I think, Hegel. Because for the last two hundred years, every philosopher defines himself as somehow wanting to go over Hegel. He’s this universal punching bag. Known as he is, he is still the most underrated.

Favorite politician of all time? Lenin and Cromwell

My answer is so boring. It’s boring, it’s stupid, it’s provocative, I’m ashamed to pronounce it: Lenin. You know, many na•ve leftists, who want to maintain their democratic credentials, would say some tragic victim like Allende. I think there is no perspective there. I have a cynical idea that Pinochet’s coup d’etat came at the right point. Imagine what would have happened if someone like Clinton and not that stupid Nixon-Kissinger gang were in power. Someone like Clinton would have gotten the formula: annoy him economically, wait for the true economic crisis to explode and then Allende would either have to opt for a three-way neoliberalism and play all those emancipatory welfare games. Or, he would have to turn Castro, get really tough and lose. Don’t you think they struck at the right point to redeem him? So I don’t respect this kind of person.

I would love to have somebody else – I have such traditional tastes. Okay, again, it’s traditional but if you go back further, Freud loved him: Oliver Cromwell. I like it the way he ruthlessly went from first using the Parliament to cut off the head of the king, to then disbanding Parliament.

What surprises me is this myth that Cromwell was this cruel Puritan. Not only did he have personal integrity, but contrary to royalist myth, he was not revengeful. To put it naively, he was even personally kind. It may also come as a surprise how religiously tolerant he was. This is a myth, you know, this pale-lips Puritan just killing all the Catholics and everybody else. No, he was striving very much, for his vision was a kind of secular plurality of religions. He was a genuine tragic, tragic figure, I think.

O longo dia seguinte (El País)

A escassez de água em São Paulo é o rei nu das eleições de 2014. No momento em que a maior cidade do país se transforma num cenário de distopia, o processo eleitoral chegou ao fim sem nenhum debate sério sobre o meio ambiente e o modelo de desenvolvimento para o Brasil

 - 27 OCT 2014 – 12:05 BRST

Chegamos ao dia seguinte sem que o futuro tenha sido de fato disputado. Se a eleição de 2014 foi a mais acirrada das últimas décadas, não só pelos candidatos, mas pelos eleitores, terminou sem debate. Não havia adversários nem nos estúdios de TV, onde os candidatos rolavam ora na lama, ora na retórica mais medíocre, nem nas redes sociais, elas que se tornaram as ruas realmente tomadas pela militância. Havia apenas inimigos a serem destruídos. As fraturas do país dizem respeito bem menos à pequena diferença entre a vencedora e o derrotado – e bem mais a uma fissura entre o país que vivemos e o país inventado. Não como uma fabulação, que é a matéria de qualquer vida. Não como uma utopia, que é onde se sonha chegar. Mas como um deslocamento perverso da realidade, uma cisão. Só essa desconexão pode explicar como a maior cidade do país transformava-se num cenário de distopia durante o primeiro e o segundo turnos eleitorais sem que em nenhum momento o meio ambiente e o modelo de desenvolvimento tenham entrado na pauta com a seriedade necessária. Chegamos ao dia seguinte como parte dos moradores de São Paulo: olhando para o céu à espera de que uma chuva venha nos salvar. E é com essa verdade profunda que temos de lidar.

Se a eleição pareceu interminável, o dia seguinte poderá ser muito mais longo. E seria, qualquer que fosse o vencedor. Com qualquer um deles, o que se disputou foi o poder, não um projeto de país. São Paulo talvez seja a expressão hiper-real desse momento, seja nossa escultura de Ron Mueck, o artista australiano que cria figuras humanas em dimensões superlativas. É como se o futuro tivesse chegado antes na cidade expandida, mais próximo da sombria ficção científica de Philip K. Dick do que da megalópole de comercial de TV onde os novos modelos de carros deslizam céleres por ruas sem trânsito.

Nesse cenário, Geraldo Alckmin, o governador do partido que há 20 anos está no poder foi reeleito no primeiro turno. Confrontados com a crise da água, Aécio Neves (PSDB) disse: “Vivemos a maior estiagem dos últimos 80 anos, e a meu ver o Estado fez algo absolutamente adequado, que foi propor bônus para aqueles que economizassem. Talvez o que tenha faltado foi uma parceria maior do governo federal”. E Dilma Rousseff (PT) rebateu: “Eu disse a ele (Alckmin): governador, pela minha experiência, acho que o senhor deveria fazer obras emergenciais. Porque tudo indica que essa seca se prolongará, e vocês não têm capacidade de abastecimento suficiente”.

Pode existir exibição maior de mediocridade do que essas respostas dadas por aquela que queria continuar presidente e por aquele que desejava se tornar presidente? É de chorar sentado em um dos reservatórios do sistema Cantareira, mas a maioria dos eleitores não pareceu se importar. Um sugere que basta chover ou dar bônus aos consumidores, a outra que obras emergenciais teriam solucionado todo o problema. Nenhum demonstrou nem capacidade nem vontade de fazer relações com o modelo de desenvolvimento, o esgotamento dos recursos, o desmatamento e o modo de vida.

O monstro bafejava na sala, mas os presidenciáveis disputavam quem tinha dado o nó no rabo do gato

Assim, enquanto São Paulo se transformava numa vitrine do cotidiano corroído pela degradação ambiental, o máximo de discussão que se conseguiu foi sobre de quem é a culpa. Isso num momento global em que as mudanças climáticas e suas consequências são consideradas por alguns dos pensadores mais relevantes do planeta, em todas as áreas, o tema de maior importância desse período, talvez de toda história humana. A cisão com a realidade é total. O monstro bafejava na sala, mas os presidenciáveis disputavam quem tinha dado o nó no rabo do gato.

Mesmo Marina Silva muito pouco tocou nesses temas ao disputar o primeiro turno, desassemelhando-se a si mesma. Ela, de quem se esperava que fizesse a diferença fazendo diferente, preferiu falar sobre a autonomia do Banco Central. No máximo escaparam, ela e todos, pela bandeira fácil do “desenvolvimento sustentável”, como se algum candidato fosse dizer que não quer desenvolvimento sustentável e como se este fosse um conceito já dado. Mas tocar nos temas cruciais do presente e do futuro, disputar a escolha do modelo de desenvolvimento em pontos concretos, com a seriedade que o momento histórico exige, não. O meio ambiente ficou fora da pauta dos presidenciáveis por escolha de conveniência, já que esse é o debate difícil, ao implicar mudanças no modo de vida dos eleitores, mas também porque a população têm escasso ou nenhum interesse no tema, apesar de a degradação ambiental roer o cotidiano. Essa é a fratura da negação.

A escassez de água na maior cidade brasileira é o rei nu destas eleições de 2014. E é por isso que vale a pena revisitar a reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB). A seca acentua a nuvem de poluição que envolve a capital, o nariz sangra, a tosse se instala, o recorde de calor fora de época esgarça os nervos dentro de carros e ônibus que se movem lentamente num gigantesco labirinto de concreto. A crise tem produzido cenas como a de caminhões-pipa com escolta policial, prontos para dominar a população desesperada de um interior pintado como bucólico. A polícia que massacrou os manifestantes, agora se prepara para reprimir os sem-água. A imagem dos reservatórios remete ao repertório de geografias historicamente calcinadas. A vida torna-se pior, bem pior. E torna-se bem pior em ritmo acelerado.

Era de se esperar que a experiência cotidiana concreta tivesse um impacto nas urnas. Mas, neste cenário, o governador reelegeu-se ainda no primeiro turno, repetindo: “Não vai faltar água”. E a água já faltava. Se as pessoas votam de forma pragmática, votam pelo retorno imediato, votam naquele que acreditam que vai melhorar a vida delas, por que a crise da água teve pouco ou nenhum impacto na eleição? Seria porque a educação, a saúde, a segurança estiveram excelentes nesses 20 anos de governo do PSDB em São Paulo, o que compensaria a escassez de água? Não é o que a realidade mostra. A crise da água tampouco atingiu o desempenho de Aécio Neves, que no segundo turno conquistou 64% dos votos válidos no estado de São Paulo. Que cisão, então, ocorreu nesse momento? E o que ela diz? Ou como a escassez de água não colou na eleição, ou de que forma se colou?

A polícia que massacrou os manifestantes de junho de 2013 agora se prepara para reprimir os sem-água de 2014

Não tenho respostas, só hipóteses. Uma hipótese possível seria a mesma pela qual a candidatura de Marina Silva erodiu. Marina cometeu vários erros nessa campanha, alguns deles primários. Mas há um deles, que para muitos soa como erro, mas que não me parece que seja. Seu discurso era menos afirmativo do que os eleitores estão acostumados. Ela propunha a construção de soluções, mais do que propostas acabadas (ainda que tenha sido a única entre os três candidatos com chances no primeiro turno a apresentar um programa de governo). Propunha escuta.

Seu discurso foi classificado como “difuso” e “vago”. Às vezes, ser difuso e ser vago são as únicas verdades possíveis em determinado momento histórico, como mostraram as manifestações de junho de 2013. Mas logo essas características, também nela decodificadas como defeitos, foram transformadas em “fraqueza”. E, na sequência, em identidade. Assim, a mulher que nasceu num seringal do Acre, trabalhou desde criança em condições brutais, passou fome, alfabetizou-se aos 16 anos, foi empregada doméstica, sobreviveu a três hepatites, cinco malárias e uma leishmaniose, além de sofrer contaminação por mercúrio, e ainda assim tornou-se professora com pós-graduação, senadora, ministra, uma das maiores lideranças ambientais do planeta e por fim uma candidata à presidência com chances de vencer, foi considerada “fraca”. Mais uma fratura entre imagem e realidade.

As afirmações peremptórias, com pontos de exclamação, assim como as certezas, são mercadorias valorizadas. Em geral ordinárias, mas valorizadas mesmo assim. Num momento em que a falta de controle parece se expressar em toda a sua assustadora grandiosidade, como na escassez de água em São Paulo, assim como na corrosão das condições de vida pela degradação ambiental, talvez as certezas, mesmo que falsas e irresponsáveis, tornem-se ainda mais valorizadas. Talvez a virtude encontrada em Alckmin por parte dos eleitores seja a da negação da realidade: “Tudo sob controle. Não vai faltar água”.

Uma garantia expressada sem hesitação ou titubeio, em voz firme, quando a água se esvai das torneiras e a vida converte-se literalmente em cinza, uma garantia falsa, parece ainda soar como uma garantia. E logo é decodificada como força, como a expressão de alguém que sabe liderar e sabe o que fazer e, principalmente, nos libera de ter de fazer algo. Sua vantagem é manter viva a ilusão mais cara, a ilusão do controle. Esta seria uma cisão para encobrir a fratura maior, a de que os responsáveis não têm responsabilidade. E a de que cada um, que também é responsável pela destruição ambiental, tampouco quer ser responsável, porque isso implicaria mudar de posição e alterar radicalmente seu modo de vida.

Talvez a virtude encontrada em Geraldo Alckmin pelos eleitores seja a da negação da realidade

Ao esforço de mudar o modo de vida poucos aderem, porque dá trabalho e provoca perdas, exige mediação e concessão. Para muitos, já parece um sacrifício excessivo diminuir o tempo do banho, imagina alterar radicalmente o cotidiano. Assim, vale mais a pena escolher não a ficção, mas a mentira – e ficção e mentira jamais podem ser confundidas –, porque dessa maneira se torna possível manter o máximo de tempo possível uma rotina que não apenas é insustentável a longo prazo, como já não se sustenta agora. E também a fantasia sobre si mesmo como um bom cidadão.

Soa mais conveniente, portanto, acreditar nessa versão mágica, a de que não vai faltar água, quando já está faltando água, promovendo uma cisão com a realidade. De novo, portanto, é um voto pragmático, voltado ao bem-estar imediato de não ter de se mover. De não precisar fazer nada ou muito pouco a respeito. Voltado a algo talvez mais caro do que água, a certeza de que há sempre uma saída que não exija comprometimento e mudança real. Uma saída em que apenas os outros façam o sacrifício, como sempre foi no caso do racionamento muito mais antigo e persistente na casa dos pobres.

No fim da semana passada, foi divulgada uma gravação em que Dilma Pena, a presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), dizia numa reunião interna: “A Sabesp tem estado muito pouco na mídia, acho que é um erro. Nós tínhamos que estar mais na mídia, sabe, (…) nas rádios comunitárias, (…) todos falando, com um tema repetido, um monopólio: economia de água. ‘Cidadão, economize água’. Isso que tinha que estar reiteradamente na mídia, mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa. Mas é um erro”. O diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, fez o seguinte comentário na mesma reunião: “Se repetir o que aconteceu esse ano, do final de 2013, de outubro pra cá, se voltar a repetir em 2014, confesso que eu não sei o que fazer. Essa é uma agonia, uma preocupação. Alguém brincou aqui, mas é uma brincadeira séria. Vamos dar férias para oito milhões e oitocentos mil habitantes e falar: ‘saiam de São Paulo’. Porque aqui não tem água, não vai ter água pra banho, pra limpeza da casa, quem puder compra garrafa, água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, lá em Ubatuba, Águas de São Pedro, sei lá, aqui não vai ter”.

É gravíssimo que a presidente da Sabesp tenha sido impedida, por qualquer motivo e mais ainda por motivos eleitoreiros, de alertar a população sobre a enormidade do problema. É criminoso e deve haver apuração e responsabilização de todos os envolvidos. Mas precisamos ter a honestidade de assumir que dificilmente, em 5 de outubro, data da votação do primeiro turno, algum cidadão pudesse alegar desconhecer a situação e a necessidade de economizar água durante a prolongada seca que enfrenta São Paulo.

É bastante sedutor o dogma de que o homem pode controlar a catástrofe ambiental que provocou

Geraldo Alckmin deu a mentira que a população queria ouvir porque conhece bem seus eleitores. Parodiando o título do livro do escritor Ferrez, não há inocentes em São Paulo. A reeleição de Alckmin talvez seja um daqueles fenômenos sustentados pela expectativa de que, se mentirmos todos, talvez vire verdade. Em parte, o governador pode não ter vencido apesar da crise da água, mas também por causa dela.

A crise da água na maior cidade brasileira, em plena eleição, é fascinante pelo que diz daquilo que não é dito. Se é um fato que faltou planejamento ao governo estadual tucano, que aí está há 20 anos e agora por mais quatro, esta é só a ponta explícita, a mais fácil de enxergar (ainda que deliberadamente a maioria dos eleitores a tenha ignorado nas urnas). Mas, ao colocar a parte no lugar do todo, revela-se essa crença arraigada, e por estes dias também desesperada, de acreditar que teria bastado algumas obras para escapar do que se tornou a vida cotidiana em São Paulo, na qual a água é apenas a ausência mais gritante. É o dogma, quase religioso, de que o homem pode controlar a catástrofe ambiental que provocou.

De novo, a ilusão do controle, mesmo quando a realidade aniquila os dias, mesmo quando no fundo cada um sabe que, fora e dentro, algo de fundamental da vida de cada um se esvai. Quanto mais se sente que o controle escapa, no miúdo e no macro do cotidiano, maior é a recusa em enxergar. O desastre já passou da porta de casa, mas ainda se crê que basta chover para tudo voltar a ser como antes, que já era ruim, mas menos. Ou que se o não planejado for feito, ainda que tarde, o problema de São Paulo está resolvido. Cinde-se de novo – e talvez uma parte significativa da população sequer perceba que a escassez de água tem causas ambientais profundas. Como se as questões do meio ambiente, que aqui estão, estivessem lá, no mundo abstrato dos outros.

A política ambiental de Dilma Rousseff, agora reeleita, foi um retrocesso para o Brasil

Dilma Rousseff foi reeleita. Sua política ambiental, se é que pode se chamar assim, foi um retrocesso. A visão sobre a Amazônia do governo se notabilizou pela semelhança com o projeto da ditadura militar para a região. Em sua gestão, obras como a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, foram impostas aos povos da floresta sem consulta prévia, autoritarismo que levou o Brasil à Comissão Interamericana de Diretos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Seu próximo alvo é barrar o belo rio Tapajós, onde encontra a resistência dos Munduruku e de comunidades agroextrativistas,como a de Montanha e Mangabal. Pressionado pelo processo eleitoral, o governo disse que, desta vez, cumprirá a lei e ouvirá os índios, mas não escutará os ribeirinhos.

A presidente também arrancou um naco do Parque Nacional da Amazônia para facilitar o caminho das hidrelétricas planejadas para o Tapajós. Mas só criou unidades de conservação na Amazônia a 12 dias do segundo turno, na tentativa de minimizar a repercussão de seu péssimo desempenho no setor. O desmatamento na Amazônia voltou a crescer: 191% no bimestre de agosto e setembro deste ano, comparado à 2013. Segundo o Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), porque o governo adiou a divulgação dos dados oficiais para depois das eleições. Dilma foi também a presidente que menos demarcou terras indígenas desde a redemocratização do país.

Pessoas respeitáveis defenderam nestas eleições que o susto de quase perder o poder fará Dilma Rousseff e o PT retomarem algumas lutas históricas, também no horizonte socioambiental. Veremos. Em seu discurso da vitória, neste domingo (26/10), Dilma falou em “diálogo”. E em “pontes”. Num pronunciamento bem pensado, em que a presidente reeleita podia colar tudo, já que o cargo estava garantido por mais quatro anos, vale a pena prestar atenção nas ausências. Dilma Rousseff não mencionou nem “índios” – e nem “meio ambiente”.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

O meio ambiente e os presidenciáveis (Mundo Sustentável)

24/10/2014 – 12h18

por André Trigueiro*

AecioDilma O meio ambiente e os presidenciáveis

Há pouco mais de uma semana, antes do reinício da campanha eleitoral visando o 2º turno da disputa presidencial, foi publicado no site Mundo Sustentável uma crítica aos candidatos pela falta de clareza das propostas ambientais. Água, lixo, florestas, clima, energia e transportes foram alguns dos temas ausentes no 1º turno e que justificaram o texto publicado. Pedimos então às campanhas de Dilma e Aécio que respondessem livremente às críticas e nos enviassem suas propostas em relação aos temas levantados pela coluna.

A coluna fez contatos com a campanha de Dilma por e-mail e telefone sobre esses questionamentos desde o último dia 10 de outubro, mas não recebeu resposta. Dessa forma, colocaremos o pronunciamento feito pela presidente Dilma em Nova York, por ocasião da Cúpula do Clima, em 24 de setembro (leia também aqui matéria do G1 sobre o discurso).Veja mais abaixo.

Que as posições assumidas pelos candidatos possam ser de alguma forma úteis aos nossos leitores nessa reta final de campanha.

Veja abaixo a resposta enviada pela campanha de Aécio e assinada por Fabio Feldmann e José Carlos Carvalho ao último post da coluna.

“Água:

Em relação ao tema, o Plano o tratou com o título “A urgente agenda das águas”. E como você pode verificar neste link, sintetizamos as nossas propostas:

• Fortalecimento do Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos. Atenção especial deve ser dada ao impacto do aquecimento global no ciclo hidrológico, com o objetivo de estabelecer políticas de adaptação e mitigação em relação ao risco de desastres naturais, tais como enchentes, inundações e grandes deslizamentos;
• Estabelecer metas de redução de desperdício nas redes públicas com calendário determinado, com disponibilização de linhas de crédito específicas para estimular novas tecnologias de gestão de redes;
• Estimular, em conjunto com estados e municípios, a implantação de medidores individuais;
• Editar normas para reuso de água;
• Dar atenção especial à Política de Pagamento por Serviços Ambientais para os produtores rurais que conservam a vegetação protetora dos recursos hídricos.

De se assinalar que alguns dos seus comentários, ao fazer a pergunta, apresentam uma enorme identidade com o que escrevemos, conforme segue:

Compromissos:

• O Brasil está vivendo, pela primeira vez na sua história, o advento de graves crises de água, de modo que é necessário que esse tema seja reforçado na agenda política brasileira. Isso significa, claramente, o enfrentamento do problema de uma perspectiva holística, que permita mudar a gestão dos nossos recursos hídricos. Temos já no Brasil uma legislação que permite um avanço significativo por meio dos comitês de bacia, enquadramento dos corpos d’água e uma série de outros instrumentos. A existência da Agência Nacional de Águas (ANA) foi um passo importante, e temos que aproveitar o capital intelectual que ela possui para avançar na implementação das políticas públicas. Atenção especial deve ser dada à gestão de águas subterrâneas em conjunto com os estados a quem cabe, em última instância, a sua responsabilidade.

• Estudos importantes mostram que muitas cidades do mundo têm o abastecimento de água vinculado à existência de áreas florestadas. Por essa razão, entendemos que é necessário garantir a proteção dessas áreas por meio da manutenção ou ampliação de unidades de conservação, de modo que devemos estimular a sinergia entre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) e a Política Nacional de Recursos Hídricos, garantindo, assim, a qualidade e a vazão necessária ao abastecimento de água das cidades brasileiras.

• Hoje, a questão da água está definitivamente presente na agenda da sociedade e no meio empresarial, cabendo ao Governo Federal estabelecer políticas públicas voltadas à gestão eficiente desses recursos. O consumidor tem ciência da escassez existente em relação à água e, uma vez portador das informações, tende a privilegiar bens e serviços oferecidos com os devidos cuidados. Por sua vez, na esfera internacional, o tema adquiriu um peso estratégico, de modo que o Brasil deverá exercer liderança para que a comunidade internacional avance no tratamento em termos dos cuidados específicos que devem ser conferidos ao assunto. É bom lembrar que a água-doce é considerada, por importantes entidades acadêmicas, como um dos grandes limites do planeta. Destaca-se ainda a importância da cooperação com os países vizinhos, com os quais compartilhamos as grandes bacias hidrográficas dos Rios Amazonas e Prata.

Também vale a pena assinalar que no item “Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente”, existe uma proposta de inclusão de critérios de sustentabilidade nos projetos habitacionais, com o objetivo de estimular habitações sustentáveis em termos de conforto térmico, saúde e segurança dos materiais, eficiência energética, uso eficiente e reuso de água, coleta seletiva e utilização de água de chuva.

Lixo:

Em relação ao tema, assumimos alguns compromissos e propostas no item “Cidades Sustentáveis e Mobilidade Urbana”.

• As exigências contidas nas legislações devem se tornar instrumentos eficazes para garantir melhor qualidade de vida aos cidadãos. Assim, o Governo Federal articulará, na sua esfera, ações que assegurem a efetividade dos planos municipais de mobilidade urbana, de gestão de resíduos sólidos, entre outros. Em relação aos estados, promover planos metropolitanos, levando em conta que cabe a eles legislar sobre essa matéria.

• As políticas econômicas vão viabilizar e estimular claramente políticas urbanas inovadoras, estimulando o transporte público sustentável, o que inclui, entre outras iniciativas, a adoção de combustíveis renováveis. E na gestão de resíduos, adotaremos estímulos tributários para viabilizar a logística reversa.

• Apoiar os municípios na implantação de projetos de gestão de resíduos, incluindo a coleta seletiva, a reciclagem e a destinação final ambientalmente adequada.

Também vale a pena assinalar que no item “Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente”, existem as seguintes propostas:

• Implementar Política Nacional de Resíduos Sólidos na perspectiva de estimular a economia circular no Brasil (reciclar, reutilizar e remanufaturar sempre que possível).

• Implantar Política Nacional de Educação Ambiental em conjunto com o Ministério da Educação, bem como com os estados e municípios. Atenção especial deve ser dada ao consumo consciente.

Em relação ao consumo consciente, vale ressaltar que o Plano de Governo também faz menção a ele na área de “Direitos do Consumidor e Defesa da Concorrência”.

Florestas:

A questão das florestas está inclusa principalmente em “Política Florestal”, no item “Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente”:

• Implantar uma Política Nacional de Florestas, com ênfase no estímulo à recuperação das áreas previstas no Código Florestal, inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e constantes do Programa de Regularização Ambiental (PRA). Promoção do manejo florestal sustentável das florestas tropicais e implantação de um programa de florestas plantadas, que deve contemplar a expansão da indústria de base florestal e o cultivo de espécies de madeiras nobres de ciclo longo. Fazer investimentos em pesquisa de silvicultura de árvores nativas.

• Dar atenção especial às iniciativas de concessão florestal, utilizando as florestas públicas e as unidades de conservação de uso sustentável, visando valorar economicamente a floresta em pé e sedentarizar a atividade econômica madeireira, reduzindo a oferta de madeira ilegal, “legal” fraudada e legal não sustentável.

• Desenvolver um programa de formação de corredores ecológicos com a utilização do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Programa de Regularização Ambiental (PRA), de forma a garantir a conectividade das UCs e áreas com fragmentos florestais significativos.

• Estabelecer parcerias com os Órgãos Estaduais de Meio Ambiente (Oemas) e a sociedade civil para monitoramento dos biomas brasileiros, a exemplo do que é realizado na Mata Atlântica e no bioma amazônico.

Além disso, na introdução do Plano, reconhecemos que parte significativa da biodiversidade brasileira está associada aos ecossistemas florestais, na medida em que temos em nosso território a maior porção de floresta tropical do mundo e grande extensão de terras com vocação para a silvicultura. Essa realidade impõe a necessidade de uma robusta política florestal, que exige do Governo Federal, tendo em vista a nova Lei Florestal brasileira, apoiar estados, municípios e produtores rurais para o cumprimento à obrigatoriedade de implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Programa de Regularização Ambiental (PRA) nas propriedades rurais. Isso deve ser feito de forma que a recuperação da reserva legal, das áreas de preservação permanente e de uso restrito e o reflorestamento com finalidade múltipla (ecológica e econômica) ocorram no contexto mais amplo da restauração dos ecossistemas afetados pela ação antrópica.

Clima:

Em relação ao tema, reconhecemos, logo na introdução do Plano, que:

Um dos maiores desafios deste início de século é o enfrentamento do aquecimento global. As consequências do aumento da temperatura média do planeta são dramáticas na vida das pessoas em todo o mundo, bem como na economia dos países, que devem assumir sua responsabilidade em duas direções complementares.

A primeira, no campo da mitigação, diminuindo as emissões de gases efeito estufa (GEE). No Brasil, vamos manter a redução do desmatamento da Amazônia, do Cerrado e dos demais biomas, bem como assegurar uma matriz energética limpa, uma agricultura de baixo carbono e uma boa gestão de resíduos.

A segunda, no campo da adaptação, vamos preparar o país para os impactos da mudança do clima com estratégias que aumentem a capacidade de enfrentar os incidentes climáticos graves como enchentes, inundações, ondas de calor e secas prolongadas.

Vamos priorizar a transição para uma economia de baixo carbono. Isto significa um papel protagonista para o poder público em termos de adoção de novas políticas que complementem as estratégias de comando e controle.

Em termos práticos, adotaremos instrumentos econômicos que estimulem, efetivamente, uma agricultura de baixo carbono, padrões rigorosos de eficiência energética, conservação da biodiversidade e conservação do solo e água. Utilizaremos o poder de compras governamentais mediante ampliação das práticas de licitação sustentável no país, uma vez que representam uma parte expressiva do PIB nacional. Com isso, estaremos viabilizando, a médio prazo, a economia brasileira a produzir bens e serviços sustentáveis, garantindo-lhes acesso a mercados internacionais.

Compartilhamos do entendimento, hoje em debate, de que é fundamental a precificação do carbono, caso se queira assegurar o compromisso internacional de admitir um aumento da matriz energética menos dependente das fontes fósseis e garantir a redução do desmatamento dos biomas brasileiros. Não se pode esquecer que os próximos quinze anos são absolutamente essenciais para que se possa reduzir drasticamente as emissões de GEE no planeta.

A comunidade internacional assumiu o compromisso de oferecer um novo tratado em 2015, em Paris, que assegure a estabilidade climática do planeta, com o objetivo de fixar limites globais para a emissão de GEE. Além disso, nesse mesmo ano, haverá a pactuação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em substituição aos Objetivos do Milênio.

Vamos desempenhar um papel de vanguarda nos encaminhamentos dessas questões na agenda internacional.

À frente do governo brasileiro, o presidente da República vai assumir pessoalmente essa agenda, procurando resgatar a liderança brasileira junto a outros chefes de Estado, a exemplo do que Fernando Henrique Cardoso fez quando da criação do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima. Assim, o Brasil estará atuando com firmeza nos desafios globais planetários, tais como a mudança do clima, os oceanos, a conservação da biodiversidade, a proteção da camada de ozônio, enfim, todos aqueles dos quais dependem as futuras gerações.

Reside aí o grande diferencial do desenvolvimento sustentável que adotaremos: pensar sempre no horizonte de tempo das futuras gerações.

Além disso, vale a pena assinalar que no item “Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente”, afirmamos as seguintes propostas:

• Posição de liderança da Presidência da República nas questões de sustentabilidade, visando garantir um efetivo diálogo horizontal na esfera federal, com o engajamento dos estados, municípios, setor empresarial e a sociedade civil.

• Protagonismo na coordenação e articulação dos atores sociais e agentes econômicos envolvidos no desenvolvimento sustentável, em articulação com estados e municípios, e papel de vanguarda nos encaminhamentos dessas questões na agenda internacional. Especial atenção à 21ª Conferência das Partes da Convenção de Mudança do Clima, a ser realizada em 2015, e aos desdobramentos daí decorrentes, bem como ao estabelecimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em substituição aos Objetivos do Milênio. Nessa agenda internacional, o Brasil deve liderar iniciativas que protejam os oceanos e manter o seu papel de conservação do ambiente antártico, além de apoiar ostensivamente mudanças necessárias no Protocolo de Montreal, que trata da proteção da camada de ozônio.

• Valorização do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas como lócus de discussão da mudança do clima no âmbito das negociações internacionais e no plano doméstico. A Presidência da República deverá retomar uma participação ativa no Fórum, de modo que o presidente possa estabelecer um diálogo pessoal com outros chefes de Estado, com o objetivo de alcançar um acordo global que permita que o aumento médio da temperatura, até o fim do século, se mantenha em no máximo 2oC.

Energia:

A questão está contemplada no item “Energia”.

Destacamos os seguintes compromissos:

• Definição de uma matriz energética que contemple as várias fontes de energia, possibilitando com isso segurança no fornecimento de energia, com baixo impacto ambiental.

• Ampliação da participação de fontes renováveis de energia na matriz energética brasileira, incluindo-se aí uma maior penetração da energia eólica, solar e biomassa, além de hidrelétricas reversíveis, adaptando-se algumas usinas hidrelétricas existentes para esse fim.

• Implementação de programas de eficiência energética, redução de perda e conservação de energia em todos os setores. Ênfase no gerenciamento pelo lado da demanda.

• Recuperação da importância e do pioneirismo do Brasil na produção de energia limpa e renovável, com crescimento da produção e da produtividade, especialmente em terras degradadas.

• Valorização da diversidade de fontes e das características regionais na redefinição da matriz energética brasileira, procurando equilibrar a busca de autossuficiência com sustentabilidade.

• Resgate do papel da Petrobras e sua valorização como instrumento vital da política energética brasileira.

Em relação às propostas, destacamos as seguintes:

• Definir de forma clara o papel do etanol anidro e hidratado na matriz de combustíveis brasileira e estabelecimento de metas.

• Adotar política tributária que considere as vantagens ambientais dos biocombustíveis.

• Realizar investimentos em tecnologias de baixo carbono, com atenção especial para capacitar o país a instalar uma indústria fotovoltaica competitiva.

• Incentivar a microgeração distribuída, de forma a permitir que o cidadão possa gerar parte de seu consumo próprio através do uso da energia solar e eólica.

• Equalizar as regras de incentivos, subsídios e financiamentos públicos para as diversas fontes de energia. Estimular a troca da iluminação pública por lâmpadas de baixo consumo energético e menor impacto na biodiversidade.

• Estimular redes inteligentes de energia.

• Fortalecer o Procel e o Conpet, visando dinamizar os programas de eficiência energética.

Cabe destacar que no item “Cidades Sustentáveis e Mobilidade Urbana”, temos o seguinte compromisso e proposta, respectivamente:

• O papel do Governo Federal é crucial. Será protagonista na implantação de políticas públicas de uso de energias alternativas nas cidades, possibilitando a venda de excedentes, além de fixação de padrões rigorosos de eficiência energética.

• Utilizar instrumentos econômicos para estimular o consumo de combustíveis mais limpos, com eliminação acelerada daqueles com maior teor de enxofre em todo o território nacional. Ênfase na implantação dos programas de inspeção e manutenção veicular em articulação com estados e municípios.

Transportes:

Em relação ao tema, no item “Cidades Sustentáveis e Mobilidade Urbana”, afirmamos os seguintes compromissos e propostas:

Compromissos:
• Não são mais admissíveis políticas de estímulo ao transporte individual para se combater a crise, quando as mesmas provocam os enormes congestionamentos nas cidades brasileiras médias e grandes. Há necessidade de se resgatar a perspectiva de longo prazo, cabendo ao Governo Federal, em articulação com os estados e municípios, repensar novas estratégias de financiamento, com a finalidade de garantir mecanismos de implementação das várias legislações que pesam sobre as cidades.
• As políticas econômicas vão viabilizar e estimular claramente políticas urbanas inovadoras, estimulando o transporte público sustentável, o que inclui, entre outras iniciativas, a adoção de combustíveis renováveis. E na gestão de resíduos, adotaremos estímulos tributários para viabilizar a logística reversa.

Propostas:

• Implementar a Política Nacional de Mobilidade Urbana, priorizando o transporte público, bem como o transporte não motorizado nas cidades brasileiras, tornando-os alternativas viáveis, seguras e concretas em relação ao transporte individual.
• Buscar uma mobilidade sustentável para as cidades brasileiras, por meio da integração dos diversos modais de transporte público em operação, pela continuidade e aceleração das obras em curso, pela expansão dos atendimentos às regiões metropolitanas e pelo incentivo à incorporação de inovações nas soluções já existentes e a serem implementadas.

• Articular os diversos agentes envolvidos, no âmbito estadual e municipal, para aumentar a integração do transporte urbano com outras políticas públicas, como o uso do solo, habitação e meio ambiente, buscando atender, inclusive, aos novos conglomerados urbanos.

• Apoiar a inovação e a criação de soluções tecnológicas originais e a busca de recursos para investimentos como parcerias público-privadas (PPPs) e concessões de operações urbanas.

• Apoiar os estados e municípios na implantação de centros integrados de logística, na busca de soluções para a redução de trânsito de veículos pesados nos grandes centros e na implantação de sistemas cicloviários nas cidades.

• Incentivar os transportes públicos, principalmente os sobre trilhos, destinando recursos – inclusive subsidiados – para obras estruturantes nos principais centros urbanos

• Incentivar a renovação e a modernização da frota de trens, metrôs e ônibus, impondo novos parâmetros de qualidade. Incentivar a utilização de veículos com motores híbridos, movidos a hidrogênio e elétricos, entre outros.

• Incentivar a adoção de horários variados para jornadas de trabalho, evitando-se os períodos de rush, e incentivar a adoção de modalidades de teletrabalho nas atividades e/ou setores onde isso for possível, como forma de reduzir deslocamentos desnecessários e pressões adicionais de demanda sobre o setor de transportes.

• Apoiar novos modais alternativos de transporte, como os sistemas cicloviários.

• Transferir a malha ferroviária metropolitana de cargas para os estados – quando as linhas não estiverem sendo usadas – para a implantação de projetos de trens metropolitanos.

• Garantir padrões rigorosos de qualidade do ar dos centros urbanos brasileiros por meio do fortalecimento dos programas Proconve e Promotos, com as atualizações necessárias de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

• Utilizar instrumentos econômicos para estimular o consumo de combustíveis mais limpos, com eliminação acelerada daqueles com maior teor de enxofre em todo o território nacional. Ênfase na implantação dos programas de inspeção e manutenção veicular em articulação com estados e municípios.

• Adotar ferramentas macroeconômicas – em coordenação com estados e municípios – que viabilizem claramente as políticas urbanas sustentáveis, como o transporte público, o transporte individual não motorizado, a construção de edifícios sustentáveis, a implantação de áreas verdes para evitar as ilhas de calor, e o uso de energia solar e de microturbinas eólicas nas cidades, possibilitando a venda de excedentes.”

Pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na Cúpula do Clima da ONU:

Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2014

Excelentíssimo senhor Sam Kutesa, presidente da 69ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Excelentíssimas senhoras e senhores chefes de estado e de governo participantes da Cúpula do Clima 2014. Senhoras e senhores representantes da sociedade civil.

Congratulo-me com o Secretário Geral das Nações Unidas pela convocação da Cúpula do Clima.

No último domingo, centenas de milhares de pessoas pediram nas ruas avanços concretos nas negociações em curso no âmbito da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima.

O Brasil está sintonizado com este anseio. Temos participado ativamente destas negociações. Defendemos a adoção coletiva de medidas justas, ambiciosas, equilibradas e eficazes para enfrentar este desafio.

Reafirmo que o novo acordo climático precisa ser universal, ambicioso e legalmente vinculante, respeitando os princípios e os dispositivos da Convenção-Quadro, em particular os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

Este acordo deverá ser robusto em termos de mitigação, adaptação e meios de implementação. O Brasil almeja um acordo climático global, que promova o desenvolvimento sustentável. O crescimento das nossas economias é compatível com a redução de emissões.

No Brasil, estamos fazendo isso. Ao mesmo tempo em que diminuímos a pobreza e a desigualdade social, protegemos o meio ambiente. Nos últimos 12 anos, temos tido resultados extraordinários.

Em 2009, na Conferência de Copenhagen, anunciamos o compromisso voluntário de reduzir entre 36 e 39%, as nossas emissões projetadas até 2020.

Desde então, pusemos em marcha ações decisivas. Nosso esforço tem dado grandes resultados.

Ao longo dos últimos 10 anos, o desmatamento no Brasil foi reduzido em 79%.

Entre 2010 e 2013, deixamos de lançar na atmosfera a cada ano, em média, 650 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Alcançamos em todos esses anos as quatro menores taxas de desmatamento de nossa história.

As reduções voluntárias do Brasil contribuem de maneira significativa para a diminuição das emissões globais no horizonte de 2020.

Senhor Presidente, prezados colegas Chefes de Estado e de Governo.

O Brasil, portanto, não anuncia promessas. Mostra resultados.

Nossa determinação em enfrentar a mudança do clima não se limita à Amazônia brasileira.

Estamos cooperando com os países da Bacia Amazônica em ações de monitoramento e de combate ao desmatamento. Devemos também contribuir para a redução do desmatamento com os países da Bacia do Congo.

Internamente, adotamos planos setoriais para a redução do desmatamento no chamado Cerrado brasileiro; para o aumento das energias renováveis e a promoção da Agricultura de Baixo Carbono.

O Brasil é um grande produtor de alimentos. Temos consciência que as técnicas agrícolas de baixo carbono, ao mesmo tempo em que reduzem emissões, elevam a produtividade do setor agrícola.

Por sua vez, na pequena agricultura familiar, nela as práticas agroecológicas, ajudam a reduzir a pobreza no campo. Ambos programas são decisivos para a segurança alimentar e nutricional de milhões de brasileiros.

A produção agrícola de grãos se dá sobretudo pelo aumento da produtividade com uma expansão menor da área agrícola plantada. Tamanho crescimento da produtividade só é possível com muita pesquisa e inovação, muito investimento e intenso apoio do governo federal.

Tudo isso desfaz a pretensa contradição entre produção agrícola e proteção ao meio ambiente. Prova que é possível crescer, incluir, conservar e proteger o meio ambiente, que é o lema da reunião do clima Rio+20.

Senhor Presidente,

Desastres naturais relacionados à mudança do clima têm ceifado vidas e afetado as atividades econômicas em todo o mundo. Num quadro de injustiça ambiental, as populações pobres são as mais vulneráveis, principalmente nos grande centros urbanos.

No Brasil, implementamos a Política Nacional de Prevenção e Monitoramento de Desastres Naturais, com o objetivo de impedir que esses desastres causem danos às pessoas, com perdas de vidas, ao patrimônio e ao meio ambiente.

Até o final deste ano, no marco desta política nacional de prevenção e monitoramento de desastres naturais, submeteremos à sociedade brasileira o plano nacional de adaptação.

Os custos para enfrentar a mudança do clima são elevados, mas os benefícios compensam.

Precisamos reverter a lógica de que o combate à mudança do clima é danoso à economia. A redução das emissões e ações de adaptação devem ser reconhecidas como fonte de riqueza, de modo a atrair investimentos e lastrear novas ações de desenvolvimento sustentável.

Historicamente, os países desenvolvidos alcançaram o nível de bem estar de suas sociedades graças a um modelo de desenvolvimento, baseado em altas taxas de emissões de gases danosos ao clima, ceifando florestas e utilizando práticas nocivas ao meio ambiente.

Nós não queremos repetir esse modelo.

Mas não renunciaremos ao imperativo de reduzir as desigualdades e elevar o padrão de vida da nossa gente.

Nós, países em desenvolvimento, temos igual direito ao bem-estar. E estamos provando que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível. O Brasil é um exemplo disso

Muito obrigada.

* André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Coppe-UFRJ onde hoje leciona a disciplina geopolítica ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, autor do livro Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação, coordenador editorial e um dos autores dos livros Meio Ambiente no Século XXI, e Espiritismo e Ecologia, lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, pela Editora FEB, em 2009. É apresentador do Jornal das Dez e editor chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro.

** Publicado originalmente no site Mundo Sustentável.

(Mundo Sustentável)

“Sonâmbulos” decidem a sorte de conferência climática em Bonn (IPS)

24/10/2014 – 10h52

por Stephen Leahy, da IPS

huracan “Sonâmbulos” decidem a sorte de conferência climática em Bonn

Bonn, Alemanha, 24/10/2014 – As 410 mil pessoas que saíram às ruas para reclamar medidas durante a Cúpula do Clima da ONU se indignariam diante dos atrasos e das posturas políticas de sempre que se observa em uma rodada fundamental das negociações para acordar um tratado climático mundial, em curso nesta cidade alemã.

As declarações dos países presentes na conferência, que começou no dia 20 e terminará no dia 25, no Centro Mundial de Congressos de Bonn, ignoraram os pedidos dos organizadores para serem breves em suas declarações de abertura para ser possível trabalhar na última semana de conversações antes da vigésima Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática que acontecerá em Lima, no Peru, entre 1º e 12 de dezembro.

A COP 20 acordará um projeto de tratado climático destinado a evitar o catastrófico superaquecimento do planeta. Um ano mais tarde, os governantes de quase 200 Estados deverão assinar em Paris um novo convênio sobre o clima. Se o resultado das negociações não for contundente e não se conseguir garantir o rápido abandono do uso de combustíveis fósseis, centenas de milhões de pessoas sofrerão e países inteiros entrarão em colapso.

O projeto atual do tratado é muito fraco e os delegados pecam pelo “sonambulismo” em Bonn, enquanto “os dados científicos sobre o clima se agravam”, afirmou aos negociadores presentes, Hilary Chiew, da Rede do Terceiro Mundo.

Os delegados estão habituados a ouvir uma ou duas “intervenções” oficiais por parte da audiência, que tem um limite de tempo restrito e frequentemente não superam os 90 segundos. Esses discursos, apesar da paixão e eloquência de muitos, raramente comovem os delegados que, em sua maioria, se limita a seguir as instruções dadas por seus governos. “Apegar-se às posturas não é negociar”, recordou o copresidente da conferência, Kishan Kumarsingh, de Trinidad e Tobago.

Em Bonn há poucos membros da sociedade civil que podem presenciar quantos países se apegaram às suas posições de curto prazo e defensoras de seus próprios interesses, em lugar de enfrentar o maior desafio que sofre a humanidade. Depois de 20 anos, essas negociações se transformaram “no mesmo de sempre” e parece que continuarão assim por mais 20 anos, segundo os ativistas. “Só um movimento social mundial obrigará as nações a agirem”, afirmou Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto de Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático, da Alemanha.

Schellnhuber, reconhecido especialista e ex-assessor científico do governo alemão, não se encontra em Bonn, mas participou da Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro, em Nova York, Estados Unidos, junto com os governantes de 120 países. Novamente, o resultado desse encontro ficou em puros discursos sem compromissos de ação, afirmou à IPS.

Para Schellnhuber, a Cúpula da ONU foi um fracasso, ao contrário da “impressionante” e “inspiradora” Marcha do Povo pelo Clima que a acompanhou e da qual participaram cerca de 410 mil pessoas nas ruas de Manhattan. A única coisa que os países acordaram até agora é a meta de elevação máxima de dois graus na temperatura média mundial e, embora esse aumento “não tenha antecedentes na história humana”, é muito melhor do que três ou mais graus, acrescentou.

Alcançar essa meta ainda é possível, segundo o informe Enfrentar o Desafio da Mudança Climática, redigido pelos principais especialistas em clima e energia e que descreve várias medidas, entre elas o aumento da eficiência energética em todos os setores. A refração dos prédios, por exemplo, pode reduzir o consumo de energia entre 70% e 90%. Também é necessário um preço do carbono que reflita o enorme custo sanitário e ambiental que implica a queima dos combustíveis fósseis, bem como a expansão da energia solar e eólica e o fechamento de todas as centrais movidas a carvão, diz o estudo.

O mais importante é que os governos devem assumir o clima como uma prioridade. Alemanha e Dinamarca estão bem encaminhadas para uma economia baixa em carbono e se beneficiam de menor contaminação e da criação de um novo setor econômico, segundo os especialistas.

Para que todos os governos incorporem o clima como sua prioridade será preciso um movimento social mundial com dezenas de milhões de pessoas. Uma vez que o setor empresarial se dê conta de que a transição para um mundo baixo em carbono está em marcha, pressionará os governos para que apliquem as políticas necessárias. “As soluções para a mudança climática são a maior oportunidade de negócios na história”, enfatizou Schellnhuber. Envolverde/IPS

(IPS)

Fundação que afirma prever o tempo diz que fez alertas sobre crise hídrica (G1)

17/10/2014 06h50 – Atualizado em 17/10/2014 06h50

Fundação Cacique Cobra Coral diz que houve um erro de gestão em SP.
Órgão teria pedido interligação dos reservatórios para minimizar o problema.

Do G1 São Paulo

A fundação esotérica Cacique Cobra Coral (FCCC), que diz ser capaz de minimizar os impactos dos temporais e outros eventos naturais, informou, por meio de seu porta-voz, Osmar Santos, que desde 2012 vem alertando o governo do estado de São Paulo para a situação crítica dos reservatórios, devido à falta de chuvas. Além disso, na ocasião, a fundação teria, inclusive, solicitado a interligação dos reservatórios de São Paulo, para amenizar o impacto da prolongada estiagem no Sistema Cantareira.

A fundação é comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do cacique Cobra Coral, entidade que seria capaz de influenciar no clima.

Em 2013, a FCCC diz também ter alertado ao Ministério de Minas e Energia que as chuvas de verão daquele ano não tinham sido suficientes para encher os reservatórios das usinas hidroelétricas brasileiras. Segundo a entidade, março terminou com reservatórios na casa dos 52% no sistema Sudeste/Centro-Oeste e 42% no Nordeste. Em 2012, os níveis registrados no mesmo período foram de 78% no centro do país e 82% nas bacias nordestinas.

 

FALTA D’ÁGUA EM SP

Segundo o porta-voz da fundação, houve erro de gestão, tanto por parte do governo estadual quanto do federal, que está sendo evidenciado pela crise hídrica. Como consequência, além da falta d’água, o problema afeta diretamente a geração e transmissão de energia elétrica em todo o país.

A solução para São Paulo, no entender da fundação, é estabelecer um cronograma de obras contra a seca, priorizando as de interligação dos reservatórios. Segundo o porta-voz, o objetivo principal é recuperar a bacia do Sul de Minas, principal responsável por fornecer a água para o Sistema Cantareira.

Nesse sentido, representantes da fundação se reuniram na segunda-feira (13) com integrantes de um grupo econômico do setor de energia para encontrar soluções para o problema. A principal seria a criação de um “caminho de umidade”, interligando a Amazônia com o sul de Minas Gerais. Para a fundação, a estiagem “apenas mostrou o que não foi feito nos últimos 20 anos”. Em relação à previsão do clima, a expectativa de chuva seria para depois das eleições, no próximo dia 26.

Convênio
A Prefeitura de São Paulo, na gestão de José Serra, havia firmado um convênio em 2005 com a fundação para a antecipar intempéries climáticas que impactassem na rotina da capital. Como contrapartida, o Executivo municipal deveria realizar uma série de obras contra enchentes. Em setembro de 2009, já com Gilberto Kassab no cargo de prefeito, o convênio foi rompido pela Prefeitura.

O motivo: a fundação alegou ter alertado com antecedência sobre as chuvas que paralisaram a cidade no dia 8 de setembro daquele ano, mas considerou que a Prefeitura nada fez para tentar prevenir os problemas. “A gente não pode ajudar o homem naquilo que ele pode fazer por si. As verbas para obras contra enchentes estão congeladas”, disse Osmar Santos, na ocasião.

De acordo com Santos, houve um contato recente da fundação com o secretário das Subprefeituras, Ricardo Teixeira, na atual gestão, mas a reativação do convênio dependia de um aval do prefeito Fernando Haddad.

Climate change in the news (DISCCRS)

DISCCRSnews Digest, Vol 83, Issue 1 – October 7, 2014

The world is warming faster than we thought – New Scientist – October 5, 2014 – http://www.newscientist.com/article/dn26317-the-world-is-warming-faster-than-we-thought.html#.VDMHfCiv1sQ

Past measurements may have missed massive ocean warming – Science – October 5, 2014 – http://news.sciencemag.org/climate/2014/10/past-measurements-may-have-missed-massive-ocean-warming

Scientists speed up analysis of human link to wild weather – Thomson Reuters Foundation – October 2, 2014 – http://www.trust.org/item/20141002110649-q0sm3/?source=fiOtherNews3

World falling behind 2020 plan for nature protection: UN – Reuters – October 6, 2014 – http://www.reuters.com/article/2014/10/06/us-environment-biodiversity-idUSKCN0HV08Q20141006

Ditch U.N. temperature target for global warming, study says – Reuters – October 1, 2014 – http://www.reuters.com/article/2014/10/01/us-climatechange-target-idUSKCN0HQ4N620141001

Global officials to issue communique warning of economic risk – Reuters – October 4, 2014 – http://www.reuters.com/article/2014/10/04/imf-development-idUSL2N0RZ0IV20141004

‘Large firms may be overstating value of earnings by failing to prepare for impact of global warming’ – Business World – October 6, 2014 – http://www.independent.ie/business/world/large-firms-may-be-overstating-value-of-earnings-by-failing-to-prepare-for-impact-of-global-warming-30641946.html

Argonne researchers create more accurate model for greenhouse gases from peatlands – U.S. Department of Energy?s Argonne National Laboratory Press Release (via AAAS EurekAlert) – October 2, 2014 – http://www.anl.gov/articles/argonne-researchers-create-more-accurate-model-greenhouse-gases-peatlands

Canada launches world’s largest commercial carbon-capture project – Reuters – October 1, 2014 – http://www.reuters.com/article/2014/10/01/canada-carboncapture-idUSL2N0RW1D620141001

Lack of ice forces some 35,000 walruses to chill on Alaska shore – Reuters – October 1, 2014 – http://www.reuters.com/article/2014/10/02/us-usa-climatechange-walruses-idUSKCN0HR05520141002

    Related: Walrus mass on Alaska beach – in pictures – Guardian – October 1, 2014 – http://www.theguardian.com/environment/gallery/2014/oct/01/walrus-mass-on-alaska-beach-in-pictures

    Related: US reroutes flights around Alaska beach in attempt to avoid walrus stampede – Guardian – October 2, 2014 – http://www.theguardian.com/environment/2014/oct/01/walrus-alaska-beach-trampled-death

Team advances understanding of the Greenland Ice Sheet?s meltwater channels – U.S. Department of Energy?s Los Alamos National Laboratory Press Release (via AAAS EurekAlert) – October 1, 2014 – http://www.lanl.gov/discover/news-release-archive/2014/October/10.01-greenlands-ice-sheets.php

Changing Antarctic waters could trigger steep rise in sea levels – Australian Research Council Press Release (via AAAS EurekAlert) – October 1, 2014 – https://www.climatescience.org.au/content/785-changing-antarctic-waters-could-trigger-steep-rise-sea-levels

Oceans Getting Hotter Than Anybody Realized – Climate Central – October 5, 2014 – http://www.climatecentral.org/oceans

Fish failing to adapt to rising carbon dioxide levels in ocean – Guardian – October 6, 2014 – http://www.theguardian.com/environment/2014/oct/06/fish-failing-to-adapt-to-rising-carbon-dioxide-levels-in-ocean

London’s famous red phone box goes green and solar-powered – Thomson Reuters Foundation – October 1, 2014 – http://www.trust.org/item/20141001171721-aapou/?source=fiOtherNews3