Exoesqueleto do projeto ‘Walk Again’ funciona em teste documentado no Facebook (O Globo)

JC e-mail 4924, de 01 de abril de 2014

Voluntários já estão treinando em um laboratório de São Paulo para usar a veste robótica

Um paraplégico se levanta da cadeira de rodas, anda e dá o primeiro chute da Copa do Mundo de 2014 vestindo um exoesqueleto robótico controlado pela mente. O traje robótico complexo, construído a partir de ligas leves e alimentado por sistema hidráulico, foi construído por Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique, e tem a função de trabalhar os músculos da perna paralisada.

O exoesqueleto é fruto de anos de trabalho de uma equipe internacional de cientistas e engenheiros do projeto “Walk Again”, liderado pelo brasileiro Miguel Nicolelis, que lança nesta terça-feira, em sua página no Facebook, a documentação do projeto até as vésperas da Copa do Mundo. Nicolelis já está treinando em um laboratório de São Paulo nove homens e mulheres paraplégicos, com idades de 20 a 40 anos, para usar o exoesqueleto. Três deles serão escolhidos para participar do jogo de abertura entre Brasil e Croácia.

No mês passado, a equipe de pesquisadores foi a jogos de futebol em São Paulo para verificar se a radiação do telefone móvel das multidões pode interferir com o processo. As ondas eletromagnéticas poderiam fazer o exoesqueleto se comportar mal, mas os testes foram animadores. As chances de mau funcionamento são poucas.

O voluntário que usar o exoesqueleto vestirá também um boné equipado com eletrodos para captar suas ondas cerebrais. Estes sinais serão transmitidos para um computador em uma mochila, onde serão descodificados e usados para mover condutores hidráulicos na roupa. O exoesqueleto é alimentado por uma bateria que permite a duas horas de uso contínuo.

Sob os pés do operador estarão placas com sensores para detectar quando o contato é feito com o solo. A cada pisada, um sinal dispara até um dispositivo vibratório costurado no antebraço da camisa do usuário. O dispositivo parece enganar o cérebro, que pensar que a sensação vem de seu pé. Em simulações de realidade virtual, os pacientes sentiram que suas pernas estavam se movendo e tocando alguma coisa. Em outros testes, os pacientes usaram o sistema para andar em uma esteira.

http://oglobo.globo.com/ciencia/exoesqueleto-do-projeto-walk-again-funciona-em-teste-documentado-no-facebook-12053200#ixzz2xe8W6LR5

Relatório do IPCC sugere adaptação baseada em ecossistemas (Estado de S.Paulo)

JC e-mail 4923, de 31 de março de 2014

Modelo adotado no Brasil e região foi indicado como alternativa a infraestutura cara

Além das recomendações usuais para que os países invistam mais em infraestrutura para aumentar sua resiliência às mudanças climáticas, no novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado neste domingo, 30, ganhou espaço uma alternativa mais barata que pode, em alguns locais, conseguir efeitos parecidos: a adaptação baseada em ecossistemas.

O tema aparece em maior ou menor profundidade em cerca de metade dos capítulos e teve destaque especial no capítulo regional de América Central e do Sul, onde técnicas como criação de áreas protegidas, acordos para conservação e manejos comunitários de áreas naturais estão sendo testadas.

Mas o que isso tem a ver com adaptação? De acordo com o ecólogo Fabio Scarano, da Conservação Internacional, e um dos autores do capítulo, a ideia é fortalecer serviços ecossistêmicos que são fundamentais. Um ambiente bem preservado tem a capacidade de prover um clima estável, o fornecimento de água, a presença de polinizadores. “Como se fosse uma infraestrutura da própria natureza”, diz.

Como premissa, está a conservação da natureza aliada ao incentivo do seu uso sustentável – a fim também de evitar a pobreza, que é um dos principais motores da vulnerabilidade de populações.

“Normalmente quando se fala em adaptação se pensa na construção de grandes estruturas, como um dique, por exemplo, para evitar uma inundação. O que em geral é muito caro, mas em uma adaptação baseada em ecossistemas, conservar a natureza e usá-la bem é uma forma de diminuir a vulnerabilidade das pessoas às mudanças climáticas”, afirma.

Ele cita como exemplo uma região costeira em que o mangue tenha sido degradado. “Esse ecossistema funciona como uma barreira. Em um cenário de ressacas mais fortes, elevação do nível do mar, a costa vai ficar mais vulnerável, será necessário construir diques. Mas se mantém o mangue em pé e se oferece um auxílio para que as pessoas possam ter uma economia básica desse mangue, com técnicas mais sustentáveis, e elas recebam para mantê-lo assim, vai ser mais barato do que depois ter de fazer um dique.”

Segundo o pesquisador, para ser mais resiliente é importante acabar com a pobreza e preservar a natureza. “Se for possível ter os dois, a gente consegue o tão falado desenvolvimento sustentável”, opina.

(Giovana Girardi / Estado de S.Paulo)

http://www.estadao.com.br/noticias/vida,relatorio-do-ipcc-sugere-adaptacao-baseada-em-ecossistemas,1147134,0.htm

Outras matérias sobre o assunto:

O Globo
Painel da ONU apresenta medidas contra aquecimento global
http://oglobo.globo.com/ciencia/painel-da-onu-apresenta-medidas-contra-aquecimento-global-12038245#ixzz2xXy60bbZ

Valor Econômico
Mudança do clima afeta a todos e está acontecendo agora, alerta IPCC
http://www.valor.com.br/internacional/3500174/mudanca-do-clima-afeta-todos-e-esta-acontecendo-agora-alerta-ipcc#ixzz2xYAtWVsg

Esqueleto-robô da Copa usará técnica já criticada por criador (Folha de S.Paulo)

JC e-mail 4923, de 31 de março de 2014

Cientista Miguel Nicolelis muda método para fazer criança paraplégica dar chute inicial na competição

Na abertura da Copa do Mundo do Brasil, uma criança com lesão medular usando um exoesqueleto dará o pontapé inicial da competição. A demonstração pública será o primeiro resultado do projeto “Andar de Novo”, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. Mas uma recente mudança na maneira como serão captados os sinais cerebrais que controlarão o exoesqueleto traz dúvidas sobre os avanços do projeto no campo da neurociência.

Em sua carreira, Nicolelis sempre fez uma defesa intransigente do implante de eletrodos dentro do cérebro para captar a atividade simultânea de neurônios individuais. Era crítico de métodos não invasivos, como a eletroencefalografia (EEG) –técnica desenvolvida no começo do século passado que usa eletrodos colocados no couro cabeludo para obter tais registros.

Até pelo menos maio do ano passado, Nicolelis ainda dava declarações públicas sobre o desenvolvimento de eletrodos para serem implantados. Mas a partir de outubro de 2013, passou a dizer que usaria sinais obtidos por EEG. Críticas a essa técnica estão em seu livro, em artigos e já rendeu até embates públicos.

Em artigo publicado em 2008 na revista “Scientific American Brasil” e assinado com John Chapin, Nicolelis diz: “Os sinais de EEG, no entanto, não podem ser usados diretamente em próteses de membros, pois mostram a atividade elétrica média de populações amplas de neurônios. É difícil extrair desses sinais as pequeníssimas variações necessárias para codificar movimentos precisos dos braços ou das mãos.”

Em um debate da Associação Americana para o Avanço da Ciência de 2013, o brasileiro dirigiu provocações a Todd Coleman, da Universidade da Califórnia em San Diego, que pesquisa a EEG para controlar próteses. Na ocasião, Nicolelis disse que “haverá aplicações de implantes invasivos porque eles são muito melhores do que dispositivos de superfície”.

Segundo Márcio Dutra Moraes, neurocientista da UFMG, a mudança de metodologia é uma modificação “conceitual em como abordar a questão”. Ele aponta que isso ocorreu não porque a EEG é melhor, mas porque a proposta original era “estupidamente mais complexa” e o uso da EEG simplifica muito as coisas, ainda que não traga nenhum avanço substancial. Segundo Moraes, a mudança “certamente se deu pela impossibilidade de resolver de forma satisfatória e ética o projeto inicial dentro do limite de tempo imposto pela Copa”.

Segundo um cientista com experiência internacional que não quis se identificar, o projeto atual, como será apresentado na Copa, não justificaria os R$ 33 milhões investidos pelo governo.

Edward Tehovnik, pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN, chegou a trabalhar com Nicolelis, mas rompeu com o cientista, que o demitiu. Ele questiona quanto da demonstração de junho será controlada pelo exoesqueleto e quanto será controlada pelo cérebro da criança.

“Minha análise, baseada nos dados publicados, sugere que menos de 1% do sinal virá do cérebro da criança. Os outros 99% virão do robô”. E ele pergunta: “Será mesmo a criança paralisada que vai chutar a bola?”.

Sergio Neuenschwander, professor titular da UFRN, diz que a opção pelo EEG é uma mudança muito profunda no projeto original. Ele diz que é possível usar sinais de EEG para dar comandos ao robô, mas isso é diferente de obter o que seria o código neural de andar, sentar, chutar etc.

“O fato de ele ter optado por uma mudança de técnica mostra o tamanho do desafio pela frente.”

(Fernando Tadeu Moraes/Folha de S.Paulo)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/158644-esqueleto-robo-da-copa-usara-tecnica-ja-criticada-por-criador.shtml

Global warming dials up our risks, UN report says (AP)

By SETH BORENSTEIN, 30 March 2014

FILE – In this Aug. 20, 2013 file photo, Syrian refugees cross into Iraq at the Peshkhabour border point in Dahuk, 260 miles (430 kilometers) northwest of Baghdad, Iraq. In an authoritative report due out Monday, March 31, 2014, a United Nations climate panel for the first time is connecting hotter global temperatures to hotter global tempers. Top scientists are saying that climate change will complicate and worsen existing global security problems, such as civil wars, strife between nations and refugees. (AP Photo/Hadi Mizban, File)
FILE – In this Dec. 17, 2011 file photo, an Egyptian protester throws a stone toward soldiers, unseen, as a building burns during clashes near Tahrir Square, in Cairo, Egypt. In an authoritative report due out Monday, March 31, 2014, a United Nations climate panel for the first time is connecting hotter global temperatures to hotter global tempers. Top scientists are saying that climate change will complicate and worsen existing global security problems, such as civil wars, strife between nations and refugees. (AP Photo/Ahmad Hammad, File).
FILE – In this Nov. 10, 2013 file photo, a survivor walks by a large ship after it was washed ashore by strong waves caused by powerful Typhoon Haiyan in Tacloban city, Leyte province, central Philippines. Freaky storms like 2013’s Typhoon Haiyan, 2012’s Superstorm Sandy and 2008’s ultra-deadly Cyclone Nargis may not have been caused by warming, but their fatal storm surges were augmented by climate change’s ever rising seas, Maarten van Aalst, a top official at the International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies said. Global warming is driving humanity toward a whole new level of many risks, a United Nations scientific panel reports, warning that the wild climate ride has only just begun. (AP Photo/Aaron Favila, File).
FILE – This Nov. 9, 2013 file photo provided by NASA shows Typhoon Haiyan taken by astronaut Karen L. Nyberg aboard the International Space Station. Freaky storms like 2013’s Typhoon Haiyan, 2012’s Superstorm Sandy and 2008’s ultra-deadly Cyclone Nargis may not have been caused by warming, but their fatal storm surges were augmented by climate change’s ever rising seas, Maarten van Aalst, a top official at the International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies said. Global warming is driving humanity toward a whole new level of many risks, a United Nations scientific panel reports, warning that the wild climate ride has only just begun. (AP Photo/NASA, Karen L. Nyberg, File).
FILE – This May 6, 2008 file photo, shows an aerial view of devastation caused by Cyclone Nargis, seen at an unknown location in Myanmar. Freaky storms like 2013’s Typhoon Haiyan, 2012’s Superstorm Sandy and 2008’s ultra-deadly Cyclone Nargis may not have been caused by warming, but their fatal storm surges were augmented by climate change’s ever rising seas, Maarten van Aalst, a top official at the International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies said. Global warming is driving humanity toward a whole new level of many risks, a United Nations scientific panel reports, warning that the wild climate ride has only just begun. (AP Photo/File).
FILE – This Oct. 31, 2012 file photo, shows an aerial view of the damage to an amusement park left in the wake of Superstorm Sandy, in Seaside Heights, N.J. Freaky storms like 2013’s Typhoon Haiyan, 2012’s Superstorm Sandy and 2008’s ultra-deadly Cyclone Nargis may not have been caused by warming, but their fatal storm surges were augmented by climate change’s ever rising seas, Maarten van Aalst, a top official at the International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies said. Global warming is driving humanity toward a whole new level of many risks, a United Nations scientific panel reports, warning that the wild climate ride has only just begun. (AP Photo/Mike Groll, File)
FILE – In this Oct. 22, 2005 file photo, a motorcyclist rides past a mountain of trash, sheet rock and domestic furniture, removed from homes damaged by Hurricane Katrina, at one of three dump areas setup for that purpose, in New Orleans, LA. In the cases of the big storms like Haiyan, Sandy and Hurricane Katrina in 2005, the poor were the most vulnerable, a United Nations scientific panel reports said. The report talks about climate change helping create new pockets of poverty and “hotspots of hunger” even in richer countries, increasing inequality between rich and poor. (AP Photo/Nati Harnik, File)
FILE – In this Aug. 7, 2010 file photo, a firefighter tries to stop a forest fire near the village of Verkhnyaya Vereya in Nizhny Novgorod region, some 410 km (255 miles) east of Moscow. Twenty-first century disasters such as killer heat waves in Europe, wildfires in the United States, droughts in Australia and deadly flooding in Mozambique, Thailand and Pakistan highlight how vulnerable humanity is to extreme weather, says a massive new report from a Nobel Prize-winning group of scientists released early Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Alexander Zemlianichenko Jr., File)
FILE - This Nov. 13, 2013 file photo, shows typhoon damaged fuel tanks along the coast in Tanawan, central Philippines. A United Nations panel of scientists has drafted a list of eight ``key risks” about climate change that’s easy to understand and illustrates the issues that have the greatest potential to cause harm to the planet. The list is part of a massive report on how global warming is affecting humans and the planet and how the future will be worse unless something is done about it. The report is being finalized at a meeting on the weekend of March 29, 2014 by the Intergovernmental Panel on Climate Change. (AP Photo/Wally Santana, File)
FILE – This Nov. 13, 2013 file photo, shows typhoon damaged fuel tanks along the coast in Tanawan, central Philippines. A United Nations panel of scientists has drafted a list of eight “key risks” about climate change that’s easy to understand and illustrates the issues that have the greatest potential to cause harm to the planet. The list is part of a massive report on how global warming is affecting humans and the planet and how the future will be worse unless something is done about it. The report is being finalized at a meeting on the weekend of March 29, 2014 by the Intergovernmental Panel on Climate Change. (AP Photo/Wally Santana, File)
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Renate Christ, Secretary of the IPCC attends a press conference during the 10th Plenary of Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Renate Christ, Secretary of the IPCC attends a press conference during the 10th Plenary of Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Rajendra Pachauri (L) Chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) and Christopher Field (R), IPCC Working Group II Co-Chair attend a press conference during the tenth Plenary IPCC Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Rajendra Pachauri (L) Chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) and Christopher Field (R), IPCC Working Group II Co-Chair attend a press conference during the tenth Plenary IPCC Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Christopher Field, IPCC Working Group II Co-Chair, speaks at a press conference during the tenth Plenary of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
CJ. Yokohama (Japan), 31/03/2014.- Christopher Field, IPCC Working Group II Co-Chair, speaks at a press conference during the tenth Plenary of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Working Group II and 38th Session of the IPCC in Yokohama, south of Tokyo, Japan, 31 March 2014. The IPCC announced that the effects of climate change are already taking place globally on all continents and across ocean waters. Although the world today is not prepared for risks resulting from a climate change, there are opportunities to act on such risks. EFE/EPA/CHRISTOPHER JUE
Smoke is discharged from chimneys at a plant in Tokyo, Tuesday, March 25, 2014. Along with the enormous risks global warming poses for humanity are opportunities to improve public health and build a better world, scientists gathered in Yokohama for a climate change conference said Tuesday. (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Smoke is discharged from chimneys at a plant in Tokyo, Tuesday, March 25, 2014. Along with the enormous risks global warming poses for humanity are opportunities to improve public health and build a better world, scientists gathered in Yokohama for a climate change conference said Tuesday. (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Demonstrators participate in a silence protest in front of a conference hall where the Intergovernmental Panel on Climate Change is meeting in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
Demonstrators participate in a silence protest in front of a conference hall where the Intergovernmental Panel on Climate Change is meeting in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
Chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Rajendra K. Pachauri, center, speaks during a press conference in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
Chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) Rajendra K. Pachauri, center, speaks during a press conference in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
A guard speaks on a mobile phone in front of demonstrators participating in a silence protest in front of a conference hall where the Intergovernmental Panel on Climate Change is meeting in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
A guard speaks on a mobile phone in front of demonstrators participating in a silence protest in front of a conference hall where the Intergovernmental Panel on Climate Change is meeting in Yokohama, near Tokyo, Monday, March 31, 2014. (AP Photo/Shizuo Kambayashi)
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YOKOHAMA, Japan (AP) — If the world doesn’t cut pollution of heat-trapping gases, the already noticeable harms of global warming could spiral “out of control,” the head of a United Nations scientific panel warned Monday.

And he’s not alone. The Obama White House says it is taking this new report as a call for action, with Secretary of State John Kerry saying “the costs of inaction are catastrophic.”

Rajendra Pachauri, chairman of the Intergovernmental Panel on Climate Change that issued the 32-volume, 2,610-page report here early Monday, told The Associated Press: “it is a call for action.” Without reductions in emissions, he said, impacts from warming “could get out of control.”

One of the study’s authors, Maarten van Aalst, a top official at the International Federation of the Red Cross and Red Crescent Societies, said, “If we don’t reduce greenhouse gases soon, risks will get out of hand. And the risks have already risen.”

Twenty-first century disasters such as killer heat waves in Europe, wildfires in the United States, droughts in Australia and deadly flooding in Mozambique, Thailand and Pakistan highlight how vulnerable humanity is to extreme weather, according to the report from the Nobel Prize-winning group of scientists. The dangers are going to worsen as the climate changes even more, the report’s authors said.

“We’re now in an era where climate change isn’t some kind of future hypothetical,” said the overall lead author of the report, Chris Field of the Carnegie Institution for Science in California. “We live in an area where impacts from climate change are already widespread and consequential.”

Nobody is immune, Pachauri and other scientists said.

“We’re all sitting ducks,” Princeton University professor Michael Oppenheimer, one of the main authors of the report, said in an interview.

After several days of late-night wrangling, more than 100 governments unanimously approved the scientist-written 49-page summary — which is aimed at world political leaders. The summary mentions the word “risk” an average of about 5 1/2 times per page.

“Changes are occurring rapidly and they are sort of building up that risk,” Field said.

These risks are both big and small, according to the report. They are now and in the future. They hit farmers and big cities. Some places will have too much water, some not enough, including drinking water. Other risks mentioned in the report involve the price and availability of food, and to a lesser and more qualified extent some diseases, financial costs and even world peace.

“Things are worse than we had predicted” in 2007, when the group of scientists last issued this type of report, said report co-author Saleemul Huq, director of the International Centre for Climate Change and Development at the Independent University in Bangladesh. “We are going to see more and more impacts, faster and sooner than we had anticipated.”

The problems have gotten so bad that the panel had to add a new and dangerous level of risks. In 2007, the biggest risk level in one key summary graphic was “high” and colored blazing red. The latest report adds a new level, “very high,” and colors it deep purple.

You might as well call it a “horrible” risk level, said van Aalst: “The horrible is something quite likely, and we won’t be able to do anything about it.”

The report predicts that the highest level of risk would first hit plants and animals, both on land and the acidifying oceans.

Climate change will worsen problems that society already has, such as poverty, sickness, violence and refugees, according to the report. And on the other end, it will act as a brake slowing down the benefits of a modernizing society, such as regular economic growth and more efficient crop production, it says.

“In recent decades, changes in climate have caused impacts on natural and human systems on all continents and across the oceans,” the report says.

And if society doesn’t change, the future looks even worse, it says: “Increasing magnitudes of warming increase the likelihood of severe, pervasive, and irreversible impacts.”

While the problems from global warming will hit everyone in some way, the magnitude of the harm won’t be equal, coming down harder on people who can least afford it, the report says. It will increase the gaps between the rich and poor, healthy and sick, young and old, and men and women, van Aalst said.

But the report’s authors say this is not a modern day version of the Four Horsemen of the Apocalypse. Much of what they warn of are more nuanced troubles that grow by degrees and worsen other societal ills. The report also concedes that there are uncertainties in understanding and predicting future climate risks.

The report, the fifth on warming’s impacts, includes risks to the ecosystems of the Earth, including a thawing Arctic, but it is far more oriented to what it means to people than past versions.

The report also notes that one major area of risk is that with increased warming, incredibly dramatic but ultra-rare single major climate events, sometimes called tipping points, become more possible with huge consequences for the globe. These are events like the melting of the Greenland ice sheet, which would take more than 1,000 years.

“I can’t think of a better word for what it means to society than the word ‘risk,'” said Virginia Burkett of the U.S. Geological Survey, one of the study’s main authors. She calls global warming “maybe one of the greatest known risks we face.”

Global warming is triggered by heat-trapping gases, such as carbon dioxide, that stay in the atmosphere for a century. Much of the gases still in the air and trapping heat came from the United States and other industrial nations. China is now by far the No. 1 carbon dioxide polluter, followed by the United States and India.

Unlike in past reports, where the scientists tried to limit examples of extremes to disasters that computer simulations can attribute partly to man-made warming, this version broadens what it looks at because it includes the larger issues of risk and vulnerability, van Aalst said.

Freaky storms like 2013’s Typhoon Haiyan, 2012’s Superstorm Sandy and 2008’s ultra-deadly Cyclone Nargis may not have been caused by warming, but their fatal storm surges were augmented by climate change’s ever rising seas, he said.

And in the cases of the big storms like Haiyan, Sandy and Hurricane Katrina in 2005, the poor were the most vulnerable, Oppenheimer and van Aalst said. The report talks about climate change helping create new pockets of poverty and “hotspots of hunger” even in richer countries, increasing inequality between rich and poor.

Report co-author Maggie Opondo of the University of Nairobi said that especially in places like Africa, climate change and extreme events mean “people are going to become more vulnerable to sinking deeper into poverty.” And other study authors talked about the fairness issue with climate change.

“Rich people benefit from using all these fossil fuels,” University of Sussex economist Richard Tol said. “Poorer people lose out.”

Huq said he had hope because richer nations and people are being hit more, and “when it hits the rich, then it’s a problem” and people start acting on it.

Part of the report talks about what can be done: reducing carbon pollution and adapting to and preparing for changing climates with smarter development.

The report echoes an earlier U.N. climate science panel that said if greenhouse gases continue to rise, the world is looking at another about 6 or 7 degrees Fahrenheit (3.5 or 4 degrees Celsius) of warming by 2100 instead of the international goal of not allowing temperatures to rise more than 2 degrees Fahrenheit (1.2 degrees Celsius). The difference between those two outcomes, Princeton’s Oppenheimer said, “is the difference between driving on an icy road at 30 mph versus 90 mph. It’s risky at 30, but deadly at 90.”

Tol, who is in the minority of experts here, had his name removed from the summary because he found it “too alarmist,” harping too much on risk.

But the panel vice chairman, Jean-Pascal van Ypersele, said that’s not quite right: “We are pointing for reasons for alarm … It’s because the facts and the science and the data show that there are reasons to be alarmed. It’s not because we’re alarmist.”

The report is based on more than 12,000 peer reviewed scientific studies. Michel Jarraud, secretary general of the World Meteorological Organization, a co-sponsor of the climate panel, said this report was “the most solid evidence you can get in any scientific discipline.”

Michael Mann, a climate scientist at Pennsylvania State University who wasn’t part of this report, said he found the report “very conservative” because it is based on only peer reviewed studies and has to be approved unanimously.

There is still time to adapt to some of the coming changes and reduce heat-trapping emissions, so it’s not all bad, said study co-author Patricia Romero-Lankao of the National Center for Atmospheric Research in Colorado.

“We have a closing window of opportunity,” she said. “We do have choices. We need to act now.”

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Online:

The Intergovernmental Panel on Climate Change: http://www.ipcc.ch

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Seth Borenstein can be followed at http://twitter.com/borenbears

Um oceano nos ares (Fapesp)

Radares e sobrevoos detalham os mecanismos de formação de chuva e o efeito da poluição urbana sobre o clima da Amazônia

CARLOS FIORAVANTI | Edição 217 – Março de 2014

O mundo das águas: nuvens escuras cobrem o rio Negro e Manaus no dia 18 de fevereiro de 2014, antecipando mais uma chuva amazônica

De Manaus

Aqui em Manaus e por esta vasta região Norte chove muito o ano todo, mas as chuvas são diferentes. No início do ano – fevereiro e março – chove quase todo dia, com poucos relâmpagos, e o aguaceiro lava a floresta e as cidades durante horas seguidas. Já no final do ano – de setembro a novembro – as tempestades são mais intensas, com muitos relâmpagos, acordando medos atávicos, e as chuvas são localizadas e mais breves. Para confirmar e detalhar os mecanismos de formação da chuva – diferente em cada região do país e mesmo dentro de uma mesma região – e o efeito da poluição de Manaus sobre o clima da Amazônia, um grupo de 100 pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha começou a escrutinar o céu da região de Manaus com radares e aviões, por meio do programa Green OceanAmazon (GOAmazon). Lançado oficialmente no dia 18 de fevereiro em Manaus, o GOAmazon conta com orçamento de R$ 24 milhões e apoio financeiro da FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e Departamento de Energia e Fundação Nacional de Ciência (NSF) dos Estados Unidos.

A expressão green ocean nasceu em 1999, na primeira grande campanha do programa Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). Sobrevoando a floresta de Ji-Paraná, em Rondônia, os pesquisadores – muitos deles integrantes deste novo programa – notaram que as nuvens não se comportavam como o esperado. Nessa região da Amazônia já próxima à Bolívia, imaginava-se que as nuvens tivessem até 20 quilômetros (km) de altura e apresentassem alta concentração de material particulado e de gotas pequenas de chuva, características das chamadas nuvens continentais. Em vez disso, elas tinham características das nuvens oceânicas, com pouco material particulado, de formação mais rápida e topos relativamente baixos, como em áreas oceânicas – era um oceano, não azul, mas verde, por estar sobre a floresta. Antonio Manzi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que participou daquela e de outras expedições do LBA e agora integra o GOAmazon, lembra-se de que foi também em 1999 que verificaram que as chamadas nuvens quentes, que não formam cristais de gelo, eram as predominantes na região – um fato inesperado em áreas continentais.

 

016-021_CAPA_Chuva_217-extraO volume de chuva que cai sobre a bacia amazônica equivale a um oceano. Segundo Manzi, são em média 27 trilhões de toneladas de água por ano. Em termos mais concretos, a chuva, se se acumulasse em vez de escoar no solo, formaria uma lâmina d’água com uma espessura de 2,3 metros ao longo dos 6,1 milhões de quilômetros quadrados da bacia amazônica, que se espalha pelo Brasil e por vários países vizinhos. Luiz Augusto Machado, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), calculou o volume médio da água de chuva em todo o país: são 14 trilhões de toneladas por ano. Caso se acumulasse, essa água da chuva formaria uma camada de 1,7 metro de altura cobrindo todo o país. Machado é também o coordenador do Projeto Chuva, que integra o GOAmazon e fará agora em Manaus a última etapa de um levantamento sobre os tipos e distribuição de nuvens de chuva no Brasil. 

Ainda não está claro como esse oceano aéreo se forma. “As nuvens podem ou não gerar chuva”, diz Gilberto Fisch, do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), de São José dos Campos, e pesquisador do Projeto Chuva. “Costuma-se dizer que, quando há vapor-d’água, a chuva se forma e cai, mas não é bem assim.” A maioria das gotículas que formam as nuvens, com dezenas de micrômetros de diâmetro, se dispersa na forma de vapor. Só uma minoria consegue ganhar volume e se transformar em gotas com diâmetro de 1 a 5 milímetros e cair, por ação da gravidade. Entender como as nuvens se formam e crescem e em quais a chuva efetivamente se forma é uma das metas da equipe do GOAmazon.

Em um dos locais de coleta de informações, no município de Manacapuru, 80 km a oeste de Manaus, 120 equipamentos estão funcionando dia e noite – alguns expostos, outros no interior de 15 contêineres – para levantar informações sobre o clima na região, com o reforço dos balões meteorológicos, soltados a cada seis horas. Sobre um dos contêineres está um radar com alcance de 100 km que examina o formato e a constituição de nuvens formadoras de chuva e, desde 2010, fez o mesmo serviço em outras cidades brasileiras. As informações apuradas sobre as nuvens serão confrontadas com as do satélite GPM, que deve ser lançado em 27 de fevereiro do Japão e permanecer em uma órbita de 400 km de altura, enviando informações sobre as nuvens de chuva em quase todo o planeta. “O GPM vai passar duas vezes por dia sobre Manaus, complementando nossas informações”, diz Machado.

Um avião de pesquisa vindo dos Estados Unidos chegou a Manaus no dia 16 de fevereiro com a previsão de começar a voar nos dias seguintes para examinar diretamente os tipos de cristais de gelo do interior das nuvens e os teores de gás carbônico (CO2) e material particulado. O avião norte-americano e outro da Alemanha devem sobrevoar a cidade e a floresta em setembro para medir as eventuais alterações do clima na estação seca.

Os experimentos, previstos para terminarem em dezembro de 2015, devem resultar em previsões meteorológicas de curto prazo (duas horas) e modelos computacionais de circulação atmosférica mais apurados. Em algumas regiões do país o monitoramento do volume de chuvas, dependente de satélites meteorológicos, ainda é muito impreciso, adiando as medidas de alerta que poderiam salvar vidas antes de as chuvas fortes chegarem.

Varrendo o céu: o radar de nuvem (esquerda) e o de chuva, instalados em Manacapuru, a 80 km de Manaus

Uma metrópole na floresta
Com forte base industrial,  uma frota de 700 mil veículos e quase 2 milhões de habitantes, Manaus, capital do estado do Amazonas, é a maior metrópole tropical do mundo cercada por centenas de quilômetros de floresta. Como a pluma de poluentes produzida por essa megacidade no centro da Amazônia altera o ciclo de vida dos aerossóis e das nuvens em áreas de mata preservada e como esses elementos interagem na atmosfera e provocam mais ou menos chuvas na região?

Essas são as questões centrais que o experimento internacional GOAmazon tentará responder nos próximos anos. Um conjunto detalhado de medidas sobre aerossóis, gases traço (gás carbônico, metano e outros) e nuvens será realizado em seis diferentes sítios. Três se encontram a leste, antes de o vento passar por Manaus, e, portanto, sua atmosfera ainda não foi contaminada pela pluma de poluição da capital. Um quarto posto de medição será na própria metrópole e os dois últimos se situam em Iranduba e Manacapuru, a oeste, onde a atmosfera já carrega a influência dos poluentes emitidos em Manaus.

“Não há outra cidade com uma situação similar à da capital do Amazonas”, afirma Paulo Artaxo, coordenador de projeto temático ligado ao GOAmazon. “Sabemos que a poluição altera a precipitação, mas em que tipo de nuvem e em que circunstância?” Os estudos de Scott Martin, pesquisador da Universidade Harvard e integrante do GOAmazon, indicaram que o efeito dos aerossóis sobre o clima da Amazônia varia de acordo com a época do ano. Já se viu também que as nuvens que passam sobre a cidade recebem poluição e apresentam uma refletividade maior que as sem poluição. As nuvens da floresta têm uma carga de material particulado equivalente à da era pré-industrial.

Maria Assunção da Silva Dias, pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) que coordenou a campanha do LBA em 1999, vai modelar a influência da brisa fluvial originada pelos rios Negro, Solimões e Amazonas sobre o vento que carrega a pluma de poluentes da capital amazonense. A brisa sopra do rio para a terra durante o dia. À noite, ela inverte o sentido.  “Em rios com margens largas, como o Negro, a brisa pode ser um fator capaz de alterar a direção e a intensidade dos ventos, modificando o regime de chuvas em áreas próximas”, diz Maria Assunção, que em 2004 realizou um estudo semelhante sobre a brisa do rio Tapajós, em Santarém, no Pará.

Neve no nordeste
Dispostos a entender melhor a formação de chuva pelo país e a evitar tragédias climáticas, a equipe do Inpe coletou nos últimos quatro anos dados em cinco pontos de amostragem: Alcântara, no Maranhão; Fortaleza, no Ceará; Belém, no Pará; São José dos Campos, em São Paulo; e Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Um radar e outros equipamentos agora instalados em Manaus medem o tamanho das gotas nas nuvens e os tipos de cristais que as formam. As formas das gotas, a propósito, são bem diferentes: podem ser horizontais, elípticas ou oblongas, mas todas longe do formato abaulado com que normalmente se representam as gotas de chuva.

Preparando balão meteorológico para soltura

“Esse é o primeiro recenseamento da distribuição de gotas de chuvas e cristais de gelo no território nacional”, diz Machado. O que se notou, em linhas gerais, é que diferentes tipos de nuvens (mais altas ou mais baixas), com diferentes tipos de cristais de gelo (em forma de estrela, coluna ou cone), se formam e se desfazem continuamente em todas as regiões do país. Também se viu que há particularidades regionais, que indicam processos distintos de formação de chuvas e fenômenos surpreendentes. As formas e os humores da chuva pelo país ao longo do ano são diversificados a ponto de lembrarem o poema Caso pluvioso, no qual o poeta Carlos Drummond de Andrade descobre que Maria é que chovia (ele não conta quem era Maria) e a chama de chuvadeira, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil e pluvimedonha. E em seguida: “Choveu tanto Maria em minha casa / que a correnteza forte criou asa / e um rio se formou, ou mar, não sei, / sei apenas que nele me afundei”.

A realidade também exibiu um pouco de poesia. “Detectamos neve nas nuvens mais altas sobre a cidade de Fortaleza”, diz Machado. Para decepção dos moradores locais, porém, a neve derrete e cai como chuva comum. No Nordeste predominam as nuvens quentes, assim chamadas porque o topo está abaixo do limite de temperatura de 0oCelsius (ºC) e, por essa razão, nelas não se formam cristais de gelo, como nas regiões mais altas dos outros tipos de nuvens. Por não abrigarem gelo, essas nuvens passam despercebidas pelos satélites meteorológicos e pelos equipamentos de micro-ondas usados para prever a formação de chuvas, resultando em medições imprecisas. As medições de nuvens quentes feitas por radar em Alcântara indicaram que os valores de volume de água, comparados com as medições feitas por satélite, estavam subestimados em mais de 50%, como descrito por Carlos Morales, pesquisador da USP que integra o Projeto Chuva.

O limite – ou isoterma – de 0ºC separa cristais de gelo (acima) e água líquida (abaixo): é uma espécie de porta invisível da chuva, onde o gelo derrete e forma água. Não é lá muito rigorosa, porque no Sudeste, por causa das fortes correntes ascendentes, a água permanece líquida a temperaturas de até 20 graus negativos, acima da camada de derretimento do gelo. “A combinação entre água e gelo em altitudes mais elevadas é a principal razão da maior incidência das descargas elétricas na região Sudeste”, diz Machado.

Manaus sob chuva

Por meio do radar, pode-se examinar a proporção de água e de gelo no interior das nuvens, desse modo obtendo informações que escapam dos satélites usados na previsão do tempo. “Os satélites não detectam as gotas grandes de água e de baixa concentração que vêm do Atlântico e formam as nuvens das regiões Nordeste e Sudeste”, Machado exemplifica. No Nordeste as nuvens, que se concentram na zona costeira, são alimentadas pelas massas de ar vindas de regiões próximas ao equador, que se movem do oceano para o continente. Já no Sul e no Sudeste as chuvas se devem principalmente às massas de ar frio (frentes frias) que vêm da Argentina. Os especialistas dizem que os satélites também não detectam fenômenos que não escapariam ao radar, como a transformação de um vento quente que veio do oceano, esfriou rapidamente ao encontrar as regiões mais frias do alto das serras no Sul do Brasil e desabou como uma chuva impiedosa sobre Blumenau e toda a região leste de Santa Catarina em 2008.

O radar de dupla polarização, em conjunto com outros instrumentos, envia ondas horizontais e verticais que, por reflexão, indicam o formato dos cristais de gelo e das gotas de chuva, desse modo elucidando a composição das nuvens e os mecanismos de formação e intensificação das descargas elétricas (raios) durante as tempestades. Os pesquisadores verificaram que as nuvens com muitos raios são mais altas e abrigam uma diversidade maior de cristais de gelo e mais granizo (pedras de gelo) do que aquelas que produzem menos raios. Além disso, de acordo com esse levantamento, as cargas elétricas negativas permanecem na mesma altura, logo acima do limite de 0oC, e as positivas podem ficar mais altas, acompanhando o topo das nuvens e o aumento da intensidade da descarga elétrica (ver detalhes no infográfico).

“Quem não quer saber onde vai chover antes de sair de casa?”, indaga Machado. Os especialistas acreditam que os dados coletados, combinados com a modelagem computacional já utilizada para a previsão do clima, podem criar uma base sólida de conhecimento teórico e aplicado sobre a chuva continental. Em uma das ramificações do Projeto Chuva – o SOS, Sistema de Observação de Tempo Severo –, o grupo do Inpe trabalhou com equipes da Defesa Civil e de universidades em cada uma das cidades em que se instalaram com os equipamentos para prever a chegada de chuvas com duas horas de antecedência e uma resolução espacial que define possíveis pontos de alagamentos nos bairros, complementando as previsões fornecidas por supercomputadores como o Tupã, instalado no Inpe. Com base nessas experiências, Machado acredita que o radar, acoplado a um sistema de informação geográfica (SIG) e às tecnologias já em uso de previsão de chuva em alta resolução, da ordem de centenas de metros, viabiliza a previsão imediata de tempestades e desastres climáticos, para que o morador de um bairro possa saber, antes de sair de casa, se está chovendo no bairro vizinho, para onde está indo. “Para isso”, ele diz, “precisamos conhecer o tamanho das gotas de chuva e dos fenômenos que se passam no interior das nuvens, como já estamos fazendo”. Eles continuam trabalhando, enquanto agora, como na canção de Tom Jobim, chegam as águas de março, fechando o verão.

Com colaboração de Marcos Pivetta

Projetos
1. Processos de nuvens associados aos principais sistemas precipitantes no Brasil: uma contribuição a modelagem da escala de nuvens e ao GPM (medida global de precipitação) (nº 2009/15235-8); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Luiz Augusto Toledo Machado – Inpe; Investimento R$ 2.188.914,06 (FAPESP).
2. GoAmazon: interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da floresta amazônica (nº 2013/05014-0); Modalidade Projeto temático; Pesquisador responsável Paulo Eduardo Artaxo Netto – IF-USP; Investimento R$ 3.236.501,79 (FAPESP).

Northern and southern hemisphere climates follow the beat of different drummers (Science Daily)

Date: March 30, 2014

Source: University of Bern

Summary: Over the last 1000 years, temperature differences between the Northern and Southern Hemispheres were larger than previously thought. Using new data from the Southern Hemisphere, researchers have shown that climate model simulations overestimate the links between the climate variations across the Earth with implications for regional predictions.

Field work in the Indian Ocean. The corals off the Broome coast, Western Australia, store information about past climate. Credit: Copyright Eric Matson, Australian Institute of Marine Science

Over the last 1000 years, temperature differences between the Northern and Southern Hemispheres were larger than previously thought. Using new data from the Southern Hemisphere, researchers have shown that climate model simulations overestimate the links between the climate variations across Earth with implications for regional predictions.

These findings are demonstrated in a new international study coordinated by Raphael Neukom from the Oeschger Centre of the University of Bern and the Swiss Federal Research Institute WSL and are published today in the journal Nature Climate Change.

The Southern Hemisphere is a challenging place for climate scientists. Its vast oceans, Antarctic ice, and deserts make it particularly difficult to collect information about present climate and, even more so, about past climate. However, multi-centennial reconstructions of past climate from so-called proxy archives such as tree-rings, lake sediments, corals, and ice-cores are required to understand the mechanisms of the climate system. Until now, these long-term estimates were almost entirely based on data from the Northern Hemisphere.

Over the past few years, an international research team has made a coordinated effort to develop and analyse new records that provide clues about climate variation across the Southern Hemisphere. Climate scientists from Australia, Antarctic-experts, as well as data specialists and climate modellers from South and North America and Europe participated in the project. They compiled climate data from over 300 different locations and applied a range of methods to estimate Southern Hemisphere temperatures over the past 1000 years. In 99.7 percent of the results, the warmest decade of the millennium occurs after 1970.

Surprisingly, only twice over the entire last millennium have both hemispheres simultaneously shown extreme temperatures. One of these occasions was a global cold period in the 17th century; the other one was the current warming phase, with uninterrupted global warm extremes since the 1970s. “The ‘Medieval Warm Period’, as identified in some European chronicles, was a regional phenomenon,” says Raphael Neukom. “At the same time, temperatures in the Southern Hemisphere were only average.” The researchers ascribe these large differences to so-called “internal variability.” This term describes the chaotic interplay of the ocean and atmosphere within the climate system that leads to temperatures changing in one or the other direction. Regional differences in these fluctuations appear to be larger than previously thought.

The scientists discovered that most climate models are unable to satisfactorily simulate the considerable differences between the hemispheres. The models appear to underestimate the influence of internal variability, in comparison with external forcings like solar irradiation, volcanic eruptions or human greenhouse gas emissions. “Regional differences in the climatic evolution of the next decades could therefore be larger than the current models predict,” says Neukom.

Journal Reference:

  1. Raphael Neukom, Joëlle Gergis, David J. Karoly, Heinz Wanner, Mark Curran, Julie Elbert, Fidel González-Rouco, Braddock K. Linsley, Andrew D. Moy, Ignacio Mundo, Christoph C. Raible, Eric J. Steig, Tas van Ommen, Tessa Vance, Ricardo Villalba, Jens Zinke, David Frank. Inter-hemispheric temperature variability over the past millenniumNature Climate Change, 2014; DOI:10.1038/NCLIMATE2174

Luciana Vanni Gatti: Na trilha do carbono (Fapesp)

MARCOS PIVETTA e RICARDO ZORZETTO | Edição 217 – Março de 2014

© LÉO RAMOS

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Emoldurado por um nascer do sol no município acreano de Senador Guiomard, um castanheiro-do-pará ocupou o primeiro plano da capa de 6 de fevereiro da revista científica inglesa Nature, uma das mais prestigiadas do mundo. A árvore tropical simbolizava a Amazônia, tema central de um artigo que teve como autor principal Luciana Vanni Gatti, 53 anos, coordenadora do Laboratório de Química Atmosférica do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Luciana e os coautores do trabalho calcularam o chamado balanço de carbono da floresta amazônica  que é uma comparação entre a quantidade de carbono na forma de dióxido de carbono (CO2) emitida e a absorvida pela bacia Amazônica – em dois anos consecutivos que apresentaram temperaturas acima da média dos últimos 30 anos, mas uma variação significativa no regime de chuvas.

O ano de 2010 foi marcado por uma estiagem extrema e o de 2011 por chuvas acima da média. “Vimos que a Amazônia se comportou como uma fonte de carbono no ano seco quando também levamos em conta as queimadas”, diz Luciana, que dividiu a coautoria do artigo com Emanuel Gloor, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e John Miller, da Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos. “Mas, no ano úmido, seu balanço de carbono foi próximo a neutro, a quantidade emitida e a absorvida foram mais ou menos equivalentes.” Os dados do estudo sobre gases atmosféricos foram obtidos por uma iniciativa comandada desde 2010 pela brasileira, cujos esforços de pesquisa fazem parte do Amazonica (Amazon Integrated Carbon Analysis), um grande projeto internacional coordenado por Gloor. A cada duas semanas, pequenos aviões alçam voo de quatro localidades amazônicas (Santarém, Alta Floresta, Rio Branco e Tabatinga) e coletam amostras de ar ao longo de um perfil vertical descendente, entre 4,4 quilômetros de altitude e 200 ou 300 metros do solo. As amostras são enviadas para o laboratório de Luciana no Ipen onde são quantificados gases de efeito estufa, entre outros. No trabalho foram estudados o CO2, o monóxido de carbono (CO) e o hexafluoreto de enxofre (SF6).

Os resultados foram interpretados como preocupantes, pois sugerem que a capacidade de a Amazônia absorver da atmosfera o CO2, principal gás de efeito estufa, parece estar associada à quantidade de chuvas. Em anos secos, como 2010, ocorrem mais incêndios em áreas com floresta e também nas já desmatadas, que liberam grandes quantidades de CO, e o estresse hídrico aparentemente reduz os níveis de fotossíntese das plantas e as fazem retirar menos CO2 da atmosfera. Nesta entrevista, Luciana fala dos resultados e das implicações de seu estudo e conta um pouco de sua carreira.

Você esperava que o trabalho parasse na capa daNature?
Mais pela importância do tema do que pela qualidade do trabalho, esperava que saísse sim, mas não imaginava que fosse capa. Vou a muitos congressos e encontro gente do mundo inteiro falando da Amazônia. Essas pessoas não têm ideia do que é a região. Nunca vieram aqui e ficam fazendo modelagem, extrapolando dado local como se fosse representativo de toda a região. Vejo resultados muito variados de modelagem, mostrando a Amazônia como sendo desde grande absorvedora até grande emissora de CO2. A Amazônia faz diferença no balanço global de carbono. Por isso, descobrir qual é o seu peso nesse balanço é tremendamente importante. Hoje do que mais se fala? De mudança climática. O planeta está ficando hostil ao ser humano. Mas inicialmente pretendíamos publicar na Science.

Por quê?
Era meu objetivo porque o [Simon] Lewis [pesquisador da Universidade de Leeds] publicou na Science em 2010 um paper com conclusões que queríamos contestar. Ele disse que a Amazônia tinha emitido naquele ano o equivalente à queima de combustíveis fósseis de todo os Estados Unidos. Era um trabalho feito com modelagem e tinha chegado a um resultado muito exagerado. Queria publicar na Science para responder ao Lewis. Chegamos a submeter para a revista uma versão de nosso artigo, na época apenas com os dados de 2010, um ano muito seco. Era um trabalho que determinava o balanço de carbono naquele ano. A Science disse que era um estudo relevante, mas que tinha um escopo técnico demais, fora de sua linha editorial. Nem mandaram o artigo para ser analisado por referees e sugeriram que o enviássemos para uma revista mais especializada. Mas, quando analisamos os dados de 2011, encontramos uma situação completamente diferente daquela de 2010. O entendimento de por que os efeitos sobre o balanço de carbono foram tão diferentes em 2010 e 2011 foi o que fez a Nature gostar do paper. Por esse motivo, sou a favor de estudos de longa duração. Se tivesse feito uma campanha em 2010, ia achar que a Amazônia se comporta daquele jeito todos os anos.

Em editorial, a Nature disse que os resultados do artigo são uma notícia ruim. Concorda com essa avaliação?
Concordo. É uma notícia bem triste. Não esperávamos que a Amazônia pudesse apresentar um resultado tão baixo de absorção de carbono. Nunca ninguém mediu isso da forma como fizemos agora. Existem vários trabalhos que, a partir de um dado local, extrapolam uma média para a região. Mas tirar uma média é válido? Já sabemos que existe muita variação dentro da Amazônia.

Qual era o senso comum sobre o balanço de carbono na região?
Que a Amazônia absorvia em torno de meio petagrama de carbono por ano, era o que se estimava. Todo mundo acha que a Amazônia é um grande sink [sumidouro] de carbono. Mas em 2010, por causa do estresse hídrico, as plantas fizeram menos fotossíntese e aumentou sua mortalidade. Então a floresta na média absorveu apenas 0,03 petagrama de carbono. Muito pouco. Isso equivale a 30 milhões de toneladas de carbono. O valor é igual à margem de erro do estudo. Devido a queimadas propositais e a incêndios florestais, a Amazônia emitiu 0,51 petagrama de carbono (510 milhões de toneladas de carbono). Portanto, no balanço de carbono a emissão foi muito maior do que a absorção. É uma notícia horrível. Em 2011, que foi mais úmido, o balanço foi praticamente neutro [a floresta emitiu 0,30 petagrama de carbono, mas abosorveu 0,25 petagrama, oito vezes mais que no ano anterior].

A quantidade de chuvas é o fator principal para entender o balanço de carbono na Amazônia?
Não é bem isso. Nosso estudo mostra que a disponibilidade de água é um fator mais importante do que a temperatura. É questão de peso. Mas isso não quer dizer que a temperatura não seja importante. A grande diferença entre 2010 e 2011 foi a questão hídrica, só que ela também está ligada à variação de temperatura. É difícil dar uma resposta definitiva. Esse dado indica que não dá para fazer modelo de previsão climática levando em conta apenas o aumento de temperatura. É preciso colocar todas as consequências desse aumento de temperatura. Um modelo muito simplista vai ficar longe do que vai acontecer no futuro.

A seca de 2010 e as chuvas de 2011 foram anormais para a Amazônia?
Não podemos dizer que a chuva de 2011 foi extrema, porque ela não foi acima da máxima histórica. Foi um ano chuvoso, acima da média, mas não incomum. É uma questão de definição. Houve outros anos com níveis semelhantes de precipitação. A seca de 2010 foi extrema, incomum, abaixo da mínima histórica. No entanto, não posso dizer que a capacidade de absorção em 2011 equivale à média de um ano chuvoso. Em 2010, a floresta tinha sofrido muito com a seca e, no ano seguinte, a vegetação ainda poderia estar sob efeito do impacto desse estresse absurdo. A história de um ano pode estar influenciando o ano seguinte. Pode ser que, depois de um ano chuvoso, o sequestro de carbono seja maior se houver em seguida um segundo ano também chuvoso.

Os dados de um ano não devem ser analisados de forma isolada.
Exatamente! Por isso, temos que realizar estudos de longo prazo. Quando participei de campanhas e vi que havia essa variabilidade de ano para ano, desisti desse tipo de estudo. Acho vantajoso o fato de se reunir [em campanhas] muitos pesquisadores de varias áreas e os estudos de uns complementarem o de outros. Os avanços em alguns aspectos do conhecimento são muitos nesse tipo de situação, mas não no sentido de se conhecer um valor significativo que represente toda a Amazônia. Nesse aspecto existe muita variabilidade. Não dá pra estudar um mês na estação seca e outro na chuvosa e achar que esses períodos representam tudo o que ocorre no período de estiagem e no úmido e se estender o resultado para todo o ano. Esse número pode ser o dobro ou a metade do real, por exemplo. Durante nosso estudo de 10 anos em Santarém, vi essa grande variabilidade. Sou muito perfeccionista. Se sei que meu número pode estar muito errado, isso não me satisfaz.

Com dados de apenas dois anos, é seguro chegar a alguma conclusão sobre o balanço de carbono na Amazônia?
Como 2010 foi tão diferente de 2011, concluímos que nem com quatro ou cinco anos, que era nosso plano original, chegaremos a uma média conclusiva. Agora estamos à procura de recursos para financiar a continuidade desse projeto por uma década. A média de 10 anos é suficiente? Sim, estudos sobre o ciclo de carbono são mais conclusivos se forem decadais. Mas é importante entender que a Amazônia está sendo alterada, tanto pelo homem como pelo clima, que o homem também está alterando. Então o que acharmos de resultado mediano pode ser diferente do que ocorreu na década passada e na retrasada. Vamos submeter um projeto para continuar esse estudo. Mas, além de recursos para as medidas, precisamos de recursos para ter uma equipe para conduzir o projeto também. Sou a única funcionária do Ipen atuando no projeto, todos os demais são pagos pelos projetos envolvidos nesse estudo. E, sem essa equipe tão afinada, não existiria esse projeto incrível. É um esforço muito grande de muitas pessoas.

Alguns estudos sugerem que o aumento dos gases de efeito estufa pode levar algumas plantas a fazer mais fotossíntese. Isso não poderá alterar o balanço de carbono na Amazônia no longo prazo?
Não é só isso. É verdade que mais COna atmosfera estimula a planta a fazer mais fotossíntese. Mas há outros mecanismos. Em uma situação de estresse hídrico, a raiz absorve menos água. A planta diminui seu metabolismo e assim absorve menos carbono. O que sabemos ao certo é que a floresta reduz sua capacidade de absorver carbono com a diminuição da disponibilidade de água.

Como o ar coletado em quatro pontos da Amazônia pode representar a atmosfera de toda essa enorme região?
Em qualquer um dos pontos, as amostras coletadas nos voos representam uma massa de ar que passou por várias partes da Amazônia, desde a costa brasileira até o ponto de coleta e, no caso de Santarém, até de trechos do Nordeste. Se ela levou sete dias para chegar até o ponto de coleta, representa uma semana e não apenas o momento em que foi obtida. Ela guarda toda a história do caminho que percorreu dentro da Amazônia nesses sete dias, de todas as emissões e absorções que ocorreram nesse percurso. Não estamos, portanto, coletando uma amostra de ar referente a uma hora. Estamos coletando a história de uma coluna de ar que viajou todo esse caminho desde a costa brasileira. Calculamos o caminho que cada massa de ar fez até ser coletada em cada altitude amostrada.

Esse método não tem alguma limitação?
A grande limitação é só termos feito coletas até 4,4 quilômetros de altura. O que ocorre acima disso está fora da nossa área de medição. Uma nuvem convectiva pode levar o ar que estava embaixo para cima e vice-versa. Isso pode fazer com que nossa coluna de ar seja parcialmente levada para uma altitude acima do nosso limite de voo. Nesse caso, perdemos informação. Essa é a maior fonte de erro do nosso método. O ideal seria voarmos a até 8 ou 12 quilômetros de altura. Já começamos a fazer isso no inicio de 2013 no ponto de estudo próximo a Rio Branco e os resultados são muito animadores. Nessa faixa de altitude, em um ano, não observamos uma variação muito significativa que indique um erro grande. Isso é muito animador.

Os quatro pontos de coleta de amostras de ar se comportam iguais?
O ponto próximo a Santarém é diferente de tudo em termos de resultado. Vamos pensar em sua área de influência. Todo litoral tem uma densidade populacional grande. Nesse ponto da região amazônica temos a maior relação área/população. Nossos dados coletados ali sofrem influência urbana, antropogênica e de combustíveis fósseis que não aparecem tanto em outros pontos da Amazônia. Haveria influência inclusive da poluição vinda das cidades do Nordeste. Às vezes, na estação chuvosa, observamos nesse ponto emissão de carbono, enquanto nos outros três pontos que monitoramos há absorção.

O que explica essa diferença?
Podem ser as atividades antropogênicas em áreas próximas a Santarém. As Guianas estão acima do equador. Quando é a estação chuvosa no Brasil, lá é a seca. Tem também as queimadas e as atividades antrópicas nas cidades próximas de nosso litoral. Dizem para eu parar as medidas em Santarém, que não representa a Amazônia. Mas tenho uma série histórica de 14 anos. O Brasil não tem série histórica de medidas desse tipo. Se pararmos de medir em Santarém… Fico em um dilema.

Mas Santarém não representa uma parte importante da Amazônia oriental?
Na área de influência de Santarém, 40% é floresta. Se considerar a área de toda a floresta amazônica, Santarém pega uma “fatiazinha”, entre aspas porque é gigante, de 20%. Só descobrimos isso quando passamos a estudar o outro lado da Amazônia. As amostras obtidas no avião são resultantes de uma história de tudo o que aconteceu antes de o ar chegar lá. Com exceção do monóxido de carbono, que vem das queimadas de floresta, não há como saber a contribuição de cada fonte de carbono. No caso de Santarém, essa abordagem não funciona muito bem. Acreditamos que uma parte do monóxido de carbono venha de outras queimas de biomassa, talvez de combustíveis fósseis e não basicamente da queima de vegetação florestal.

Como começou seu trabalho na Amazônia?
Participei do LBA [Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia] desde o início, em 1998. Fiz campanhas de campo. Há 10 anos, comecei as medidas sistemáticas em Santarém. Até então, as amostras dos perfis de ar iam para os Estados Unidos para serem analisadas em um laboratório da Noaa [National Oceanic and Atmospheric Administration]. Em 2004 montei meu laboratório no Ipen e as amostras pararam de ir para os Estados Unidos. Meu laboratório é uma réplica do laboratório da Noaa, o melhor laboratório do planeta de gás de efeito estufa. Fiz tudo igualzinho e importamos uma réplica do laboratório deles. Botamos tudo dentro de caixas e trouxemos para cá. Tudo, tudo. Do mouse à estante. O sistema todinho encaixotado. Podemos medir CO2, CH4, N2O, CO, SF6 e H2. O laboratório foi pago pela Nasa e o usamos no LBA. Tudo o que aprendi nessa área foi com a equipe da Global Monitoring Division da Noaa. Passei três temporadas lá. Estamos juntos sempre, eles têm acesso ao Magic, que é esse nosso sistema de análise. Tudo é feito em parceria com eles. São 10 anos trabalhando com esses caras. Sou filha deles. Depois de 2004 conseguimos uma frequência maior de medidas em Santarém. Naquele ano, voamos na estação seca e na estação chuvosa pela primeira vez. Tentamos também realizar medições em Manaus, mas dos três anos de coletas tivemos problemas de autorização de voo em um ano e no ano seguinte com as análises de CO2. Então o dinheiro acabou. Como só tinha dados de um ano inteiro, acabei nunca publicando essas informações. Mas isso é uma falha que tenho de corrigir. Ficamos só em Santarém até 2009, quando ganhamos verba da FAPESP e da Nerc [agência do Reino Unido de financiamento de pesquisas] e passamos a fazer medições em mais três pontos.

Quando os estudos se restringiam a Santarém foi possível chegar a alguma conclusão?
Observamos que existe uma variabilidade muito grande no balanço de carbono durante a estação chuvosa na Amazônia. Publicamos esses dados num paper em 2010. Vimos que não adianta fazer um estudo de um ou dois anos. Tem de ser de muitos anos. Essa foi a primeira lição importante que aprendi com esse estudo.

Qual é o passo seguinte do trabalho na Amazônia?
Calcular o balanço de carbono em 2012 e 2013. Já temos os dados. O ano de 2012, por exemplo, está no meio do caminho entre 2010 e 2011. Choveu absurdamente na parte noroeste e no resto foi mais seco do que em 2010. Por isso gosto do dado coletado em avião, que nos possibilita calcular a resultante [das emissões e absorções de carbono]. Se eu trabalhasse apenas com uma torre de emissão e ela estivesse no lado seco, concluiria uma coisa. Se estivesse do lado chuvoso, concluiria outra. Com o tipo de dado que usamos, podemos levar tudo em consideração e ver o que predominou. Calcular tudo e tirar a média. E, na média, 2012 foi seco na bacia toda. Em número de focos de queimada, deu bem entre 2010 e 2011.

Você começou sua carreira fora da química atmosférica. Como foi o início?
Fiz iniciação científica e mestrado em eletroquímica. Mas tinha uma frustração enorme e me perguntava para que isso serviria. Houve então a primeira reunião de química ambiental no Brasil, que o Wilson Jardim [professor da Unicamp], organizou lá em Campinas em 1989. Fui lá e me apaixonei. Era aquilo que eu queria fazer da minha vida.

Você é de onde?
Sou de Birigui, mas saí da cidade com 3 anos. Morei boa parte do tempo em Cafelândia, que tinha então 11 mil habitantes. Lá todo mundo se conhece. Por isso sou assim. Falo com todo mundo. Também falo muito com as mãos. Meus alunos dizem que, se amarrarem minhas mãos, não dou aula. O pessoal da portaria no Ipen nem pede meu crachá. É coisa de interiorano. O paulistano é capaz de estar sozinho no meio de uma multidão. De Cafelândia, minha família mudou-se para Ribeirão Preto, porque meu pai não queria que os filhos saíssem de casa para estudar. Ele escolheu uma cidade com muitas faculdades e mudou a família toda para lá. Ele era representante da Mobil Oil do Brasil. Para ele, tanto fazia estar em Cafelândia ou em Ribeirão. O engraçado é que minha irmã foi para Campinas, eu fui para a Federal de São Carlos, meu irmão foi para a FEI de São Bernardo e a única que ficou em casa foi a terceira irmã. Tive problema de saúde e precisei voltar para a casa dos meus pais antes de me formar. Me transferi para a USP de Ribeirão, mas ali o curso de química tinha quase o dobro de créditos do da federal de São Carlos. Levei mais três anos e meio para fazer o que faltava, que consumiria apenas um e meio na federal. Tudo tinha pré-requisito. Mas foi muito legal porque em São Carlos estudei bem apenas durante o primeiro ano. Depois virei militante de partido semiclandestino, dirigente estudantil. Fazia mais política que estudava. Éramos proibidos de assistir às aulas. Quando chegava a época de prova, xerocava o caderno dos amigos, varava a noite estudando e de manhã, sem ter dormido, ia lá, fazia prova e passava. Mas imagine o que ficava na cabeça. Ainda bem que praticamente tive de refazer a graduação. Que profissional seria eu se não tivesse tido que fazer a graduação de novo e aprendido a estudar muito?

Como eram as aulas na USP?
Larguei o movimento estudantil, que tinha me decepcionado muito. Queria um mundo mais justo. Mas tive um namorado que era da direção nacional do partido revolucionário. Terminei com ele, que se vingou de mim usando o poder dele. Compreendi que o problema não estava no modo de produção, comunista ou socialista, mas no nível evolutivo do ser humano. Então resolvi que a única pessoa que eu podia mudar era eu mesma. Virei zen e espiritualizada e comecei a minha revolução interna. Compreendi que não podia mudar o mundo, mas podia me tornar uma pessoa melhor. Aí comecei minha carreira, praticamente do zero, porque na USP de Ribeirão Preto é muito puxado. Se não estuda, não passa. Fiz iniciação científica, ganhei bolsa da FAPESP, fui me embrenhando e me apaixonando pela química ambiental.

Como foi seu doutorado?
Foi o que deu para fazer. Quando eu comecei o doutorado com o [Antonio Aparecido] Mozeto, era para ser sobre compostos reduzidos de enxofre, já na área de gases. Naquela época, ninguém trabalhava com gás. Só tinha um no Brasil, Antonio Horácio Miguel, que trabalhava na área, mas ele tinha ido para o exterior. Eu tinha que fazer tudo. Tinha, por exemplo, que desenvolver um padrão com tubo de permeação. Tive de desenvolver o tubo, comprar o líquido para permear e tudo mais. Quando fiz tudo funcionar e coloquei o tubo dentro do cromatógrafo, o aparelho pifou. O professor tinha comprado um cromatógrafo para medir compostos de enxofre que um professor da Universidade do Colorado tinha decidido fabricar. O projeto veio todo errado. Tinha uma cruzeta de aço inoxidável, com uma chama que, quando queima, produz hidrogênio e água. A chama esquentou a cruzeta e vazou água na fotomultiplicadora e queimou o aparelho. Durou um dia. O problema é que eu estava já havia dois anos fazendo isso e precisava de um novo aparelho para desenvolver o doutorado. O Wilson Jardim então me perguntou por que eu achava que ninguém trabalhava com gás no país. “Esse negócio é difícil! O único que trabalhava foi para fora do Brasil. Larga desse tema e vai para outra coisa”, ele me disse. Mas, a essa altura, eu já tinha perdido dois anos e era a única docente da Federal de São Carlos sem doutorado. Um professor então me disse que eu ainda estava em estágio probatório e que, se eu não fizesse um doutoradozinho de um ano para comprovar o título, não iam aprovar o estágio probatório. Saí correndo atrás de um tema que dava para fazer e que eu não me envergonhasse de ter feito. Fiz análise de sedimento de fundo de lagoas próximas ao rio Mogi-Guaçu. Apliquei análises que são usadas em trabalhos com aerossóis para descobrir a origem dos sedimentos e também datá-los. Dessa forma, dá para saber a história da ocupação da bacia dos rios. Acabei o doutorado na Federal de São Carlos e entrei para a química atmosférica, que era o que eu queria, área carente entre os pesquisadores brasileiros.