No campo acadêmico, o futebol é titular (Faperj)

Elena Mandarim

Livro mostra as mudanças por que vêm passando as paixões dos torcedores brasileirosDivulgação / ufv.br

Desde que chegou ao país, o futebol passou por um processo de incorporação cultural até se constituir na chamada “paixão nacional”. Durante o Campeonato Brasileiro de Futebol, que é o principal torneio nacional entre clubes, organizado oficialmente desde 1971 pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), milhares de torcedores espalhados comemoram as vitórias e choram as derrotas de seus times. Basta observar a popularidade do Brasileirão, como é conhecido e que este ano começou no dia 19 de maio, para perceber que, atualmente, torcer pelos times locais se tornou mais importante do que torcer pela própria seleção. Esta é uma das reflexões trazidas no livro Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: interações, organizado por Ronaldo Helal, Hugo Lovisolo e Antonio Jorge Golçalves Soares, todos professores da Faculdade de Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e publicado com recursos do programa de Apoio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ. Para aqueles que quiserem entender melhor como essa “paixão nacional” interage com questões significativas para a sociedade, o livro conta ainda como se deu o processo de construção da narrativa do “futebol arte”, o estilo único do brasileiro jogar. Outras análises também são abordadas, como a mudança do olhar da imprensa esportiva da Argentina em relação ao Brasil e a maneira de se criar alguns simbolismos e heróis do futebol brasileiro.

O termo “País do futebol” foi uma construção social realizada, a partir dos anos 1930, dentro do projeto nacionalista do Estado Novo – época em que o Brasil buscava consolidar sua identidade nacional. Contudo, Helal explica que, com o processo de globalização e comercialização do futebol, o jogador se internacionaliza e não só veste a camisa de seu país como também pode representar outras nações. “O Kaká, por exemplo, é ídolo não apenas dos brasileiros, mas também de italianos e espanhóis. Por isso, observamos que, atualmente, os torcedores brasileiros se envolvem mais com seus times locais, nos quais encontram seus heróis nacionais, aqueles que vestem a camisa do clube”, acredita o sociólogo.

É evidente que a Copa do Mundo ainda tem uma estrutura que estimula os nacionalismos. Não é por acaso que, de quatro em quatro anos, o significado “Brasil: País do futebol” ganha uma dimensão mais intensa. Mas uma análise jornalística, mostrada no livro, evidencia que o próprio noticiário já não trata o futebol como sinônimo de nação. “Observa-se, por exemplo, que, a derrota na final para o Uruguai, em 1950, e a conquista do tricampeonato, em 1970, foram sentidas como derrota e vitória, respectivamente, de projetos da nação brasileira. Já as vitórias em 1994 e 2002 e a derrota na final para a França, em 1998, foram comemoradas e sofridas como vitórias e derrotas da seleção, não transcenderam o terreno esportivo”, exemplifica Helal.

Do atraso para a peculiaridade

Outro artigo do livro explica como a miscigenação do brasileiro, antes considerada como motivo do atraso do país, passou a ser o ingrediente básico para formação de grandes jogadores de futebol. “Tudo começou com a obra clássica do sociólogo Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, que pela primeira vez mostra o valor positivo da mistura de raças, que traz peculiaridades e força à população brasileira”, conta Helal.

Logo depois de Freyre, Mario Filho, um dos fundadores do jornalismo esportivo no Brasil, lançou O Negro no Futebol Brasileiro, em que a junção do futebol com a nação miscigenada se torna mais evidente, ajudando a consolidar uma identidade nacional. Gilberto Freyre, por sua vez, escreveu em sua coluna no Diário de Pernambuco, do dia 18 de junho de 1938, o artigo “Foot-ball Mulato, que se tornou fundamental para a simbologia do futebol. “Ali, ele louva a miscigenação racial e afirma que ela funda certo estilo de jogo que seria típico do Brasil – uma ‘dança vibrante e gingada’, o que tempos depois se convencionou chamar de ‘futebol arte’”, exemplifica Helal.

Outro aspecto interessante levantado pelo livro é a mudança de postura da imprensa argentina em relação ao futebol brasileiro. Helal explica que, no início do século XIX, o grande adversário do Brasil era o Uruguai, grande potência futebolística na época. “Nessa ocasião, os hermanos argentinos torciam para o Brasil. Quando a Argentina começou a despontar como nossa grande adversária, a imprensa e a publicidade brasileiras começaram a provocar os argentinos. Só recentemente eles passaram a revidar nossas provocações”, relata Helal, que analisou este ponto em seu pós-doutorado, realizado em Buenos Aires.

Os estudos acadêmicos sobre o futebol vêm crescendo e se consolidando nas últimas duas décadas. Na Faculdade de Comunicação Social da Uerj, Ronaldo Helal e Hugo Lovisolo organizaram o grupo de pesquisa “Esporte e Cultura”, cadastrado no CNPq desde 1998. Nas cerca de 200 páginas de Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: interações”, os leitores ainda encontrarão, entre outros assuntos, uma revisão geral da literatura sobre o tema; um estudo sobre a construção de alguns simbolismos e heróis do futebol brasileiro; uma análise jornalística sobre a reconstrução da memória da partida entre Brasil e Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950; uma comparação sobre as figuras públicas de Pelé e Maradona; e uma investigação etnográfica em bares onde são transmitidas partidas de futebol. Por tudo isso, o livro é uma obra interessante tanto para estudiosos do assunto como para amantes do futebol.

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